Capítulo 9: Os Juros do Tempo Emprestado
As paredes cristalinas gritavam com mil anos de vozes roubadas. Elara avançou pela Abóbada de Momentos Ecoados, e cada passo enviava novas ondulações através do âmbar temporal que preservava todo som que algum dia ressoara naquelas câmaras. A súplica desesperada de um mercador de três séculos atrás. A gargalhada de um deus-pretendente consumido pela própria ambição. Em algum ponto, mais ao fundo, o som húmido de uma lâmina encontrando carne, repetidas vezes, uma violência preservada como uma mosca no mel.
— À esquerda. — O hálito de Cassian estava quente junto ao ouvido dela. — A ressonância fortalece à esquerda.
Ela não perguntou como ele sabia. The Claimant tinha as suas próprias maneiras de ler as correntes de poder que atravessavam lugares assim. A percepção dele não era temporal — não como a dela —, mas bastava. Bastava para que os dois morressem se ela cometesse um erro.
As defesas da abóbada tinham sido concebidas pelo antigo panteão para proteger os artefactos mais perigosos das mãos mortais. Laços temporais capazes de aprisionar um intruso num único instante para sempre. Ecos capazes de enlouquecer uma mente, forçando-a a viver mil linhas do tempo sobrepostas em simultâneo. Campos de estase que congelariam carne e osso numa preservação eterna se fossem tocados sem a chave apropriada. Cassian trouxera-a como a chave.
— As salvaguardas exteriores não vão aguentar muito mais. — A voz dele manteve-se firme, controlada, mas a tensão enroscava-se por baixo das palavras como uma mola prestes a soltar-se. Os predadores que os caçavam tinham seguido o rasto deles até ao perímetro da abóbada. — Minutos, talvez. Se a sorte nos favorecer.
Elara não abrandou.
À frente, passagens cristalinas torciam-se, refratando luz de fontes que ela não conseguia identificar. As próprias paredes pareciam respirar tempo armazenado, cada faceta guardando um momento congelado da existência de algum visitante do passado. Uma mulher a chorar com o rosto enterrado nas mãos. Uma criança a estender a mão para algo mesmo além do seu alcance. Duas figuras presas num abraço que terminara séculos antes, a alegria delas imortalizada de formas que nunca poderiam ter pretendido.
Os ecos pressionavam a consciência dela como um peso físico. Elara concentrou-se no pulso ténue que a puxava para a frente. A Coroa das Horas. A presença dela ardia fria contra o sentido temporal de Elara, tornando-se mais forte a cada passo. O artefacto chamava por algo dentro dela, algo que reconhecia a sua natureza, embora ela nunca o tivesse tocado antes.
A passagem abriu-se para uma câmara central.
Elara parou. O fôlego prendeu-se-lhe.
A Coroa das Horas pairava suspensa numa esfera de relâmpago congelado, fios de energia temporal estalando à sua volta como as barras de uma jaula. O próprio artefacto era mais pequeno do que ela esperara — um diadema de metal escuro coberto de símbolos que pareciam mudar e reformar-se mesmo enquanto ela observava. Cada símbolo era um momento. Cada momento estava trancado atrás de uma barreira de tempo puro, cristalizado.
— Ali. — A voz de Cassian era desnecessária. Ela conseguia ver.
Ele se moveu para ficar ao lado dela, o olhar fixo na Coroa suspensa. Na luz fraturada, a expressão dele era impossível de decifrar. — Você consegue alcançá-la?
Elara estudou o campo de estase. A energia temporal que formava suas barras não era uniforme. Ela via as lacunas, os pontos em que um momento sangrava para dentro do outro, criando fraturas capilares na prisão. Um ladrão comum jamais as perceberia.
Mas ela não era uma ladra comum.
— Eu consigo alcançá-la. — Estendeu a mão na direção da esfera. O frio mordeu sua pele antes mesmo de ela tocá-la. Seus dedos encontraram a primeira lacuna e deslizaram por ela, depois a segunda. Um relâmpago congelado crepitou contra seus nós dos dedos, faminto por contato. Ela avançou mais fundo.
A Coroa ardeu contra a palma da mão como um carvão tirado de um fogo morto. Ela sentiu o peso de séculos naquele metal gelado, o poder acumulado de cada momento que ele já tocara. Seus dedos se fecharam em torno dela e puxaram.
O campo de estase se despedaçou.
A energia temporal explodiu para fora numa concussão silenciosa que arremessou Elara para trás. Ela se chocou contra a parede cristalina com força suficiente para ver estrelas. A Coroa permaneceu apertada contra o seu peito, ainda ardendo com aquele frio terrível.
— Elara! — Cassian estava ao lado dela num instante, as mãos encontrando seus ombros, firmando-a. — Você está ferida?
Ela balançou a cabeça. O movimento fez ondas novas de desorientação atravessarem seu crânio. — Eu peguei.
— Então precisamos nos mover. A brecha terá sido detectada.
Ela baixou os olhos para a Coroa em suas mãos. De perto, conseguia ver os símbolos com mais clareza. Não eram meramente decorativos — eram uma linguagem, escrita em momentos congelados, cada caractere contendo um fragmento de tempo que só podia ser lido por alguém capaz de perceber os fluxos temporais. Uma criptografia. Escrita no próprio tempo.
— Cassian. — Sua voz saiu mais áspera do que pretendia. — A Coroa está trancada. Há uma criptografia temporal selando o conteúdo.
Ele se agachou ao lado dela, o olhar indo do rosto dela ao artefato e voltando. — Você consegue quebrar?
Ela estudou os símbolos que se deslocavam. Eram belos em sua complexidade, cada um uma cristalização perfeita de um instante roubado da história e reaproveitado como chave. Para lê-los, ela teria de perceber os momentos que continham. Todos. Ao mesmo tempo.
— Isso exigiria um empréstimo significativo. — Ela traçou um símbolo com o polegar. — Cinco minutos. Talvez mais.
A expressão dele não mudou. — O que isso vai lhe custar?
A pergunta ficou suspensa no ar entre os dois. Elara conseguia ouvir o cálculo por baixo das palavras. Ele já sabia a resposta. Pesquisara as habilidades dela tão a fundo quanto ela pesquisara o cofre. Entendia o que cinco minutos de tempo emprestado arrancariam do futuro dela. Mas perguntava mesmo assim. Dando-lhe a ilusão de escolha.
—Meses. —Ela sustentou o olhar dele. —Talvez anos, dependendo de como a dívida se acumule. Os ecos serão visíveis para quem estiver a observar. Estaremos a anunciar a nossa posição a todas as fações reclamantes na cidade.
Cassian ficou em silêncio por um longo momento. O maxilar dele retesou-se, os músculos a trabalhar sob a pele que, de repente, parecia mais cansada do que ela alguma vez o vira.
—A informação contida nessa Coroa pode ser essencial para pôr fim a esta guerra de sucessão. —A voz dele era baixa. —Sem ela, estamos cegos quanto à verdadeira natureza do trono. Não podemos tomar decisões informadas. Não podemos proteger ninguém. —Fez uma pausa. —Mas a escolha tem de ser tua. Não te vou obrigar.
Elara quis acreditar nele. Quis acreditar que a preocupação dele era genuína, que a suavidade na sua voz refletia algo para além de uma manipulação calculada. Mas ela tinha visto como ele operava. Tinha-o visto sacrificar peões para proteger a própria posição.
Ela era um peão. Sempre o soubera. Mas também era a única que conseguia ler o que a Coroa continha.
—Ajuda-me a levantar.
Ele não hesitou. A mão dele fechou-se em torno da dela, quente e firme, e puxou-a até ficar de pé. Ela vacilou por um momento, a recuperar o equilíbrio. A Coroa era mais pesada do que parecia, ou talvez ela estivesse simplesmente mais exausta do que tinha percebido.
—Mantém-te atento. —Ela firmou-se contra ele. —Se os ecos se manifestarem como eu espero, vamos ter companhia muito depressa.
—Não vou deixar que nada te alcance enquanto trabalhas.
Ela não respondeu. Não valia a pena discutir sobre o que ele podia ou não podia prometer.
Elara fechou os olhos.
A escuridão por trás das pálpebras não estava vazia. Ela conseguia sentir a presença da Coroa a pressionar contra a sua consciência, os momentos congelados lá dentro a chamarem por algo no seu sangue. Estendeu a mão para o lugar dentro de si onde o seu poder vivia —essa estranha capacidade de arrancar tempo do próprio futuro e gastá-lo no presente.
Cinco minutos. Precisava de cinco minutos de tempo emprestado.
Começou a puxar.
O primeiro segundo veio com facilidade. Vinha sempre. Uma extração suave, como tirar um livro de uma prateleira. Ela direcionou o tempo emprestado para a Coroa, deixando-o correr sobre os símbolos encriptados. O primeiro carácter apurou-se em nitidez.
O segundo segundo foi mais difícil. A dívida começou a acumular-se nas margens da sua perceção, uma pressão atrás dos olhos que prometia que o pagamento seria cobrado. Ela continuou a puxar.
O terceiro segundo. O quarto. O quinto.
A pressão tornou-se dor. A respiração de Elara acelerou. Ela conseguia sentir o coração a ganhar velocidade, cada pulsação a empurrar o tempo emprestado pelas veias. Os símbolos na Coroa iam-se resolvendo um a um, os seus significados a tornarem-se claros à medida que ela os iluminava com momentos roubados.
Seis segundos. Sete. Oito.
Alguma coisa se deslocou dentro do corpo dela. Uma dor profunda que começava nos ossos e irradiava para fora. Ela cerrou os dentes e continuou a puxar.
Nove. Dez. Onze.
O ar ao redor dela adensou-se. Cada respiração era agora um esforço, como tentar inspirar através de um tecido encharcado. A distorção temporal estava a aumentar; o tempo emprestado criava remoinhos no tecido da realidade que qualquer pessoa sensível poderia detetar.
Doze. Treze.
Ouviu a inspiração brusca de Cassian. Não conseguia ver o que ele via, mas podia imaginá-lo. A estas alturas, os ecos já estariam a sangrar para fora — imagens fantasmáticas de momentos que ainda não tinham acontecido, tremeluzindo e aparecendo e desaparecendo à volta dela.
Catorze. Quinze.
A pele começou a repuxar. A sensação foi subtil ao início, um leve estiramento no rosto e nas mãos. Depois intensificou-se, transformando-se numa ardência que parecia nascer de algum lugar por baixo da carne.
Ela continuou a puxar.
Vinte segundos. Trinta. Um minuto.
Os símbolos da Coroa definiam-se mais depressa agora; cada instante iluminado revelava mais segredos do artefacto. Ela conseguia ver a estrutura da encriptação, a forma como os momentos congelados se encaixavam para criar uma barreira que só o próprio tempo poderia romper.
Dois minutos.
A dor era agora uma companheira constante. Irradiava por todo o corpo, uma dor funda e terrível, como se lhe estivessem a comprimir os ossos. A pele continuava a repuxar, esticando-se sobre contornos em mudança.
Três minutos.
Ela ouvia vozes. Não os ecos de visitantes anteriores — outra coisa. Sussurros do futuro que ela estava a roubar. Fragmentos de conversas que nunca teria, avisos que nunca receberia, ternuras que nunca ouviria.
Quatro minutos.
A Coroa estava quase nítida agora. Ela conseguia ler frases inteiras nos símbolos resolvidos, fragmentos de conhecimento que lhe faziam o estômago contrair-se com as implicações. O trono não era o que tinham acreditado. O panteão não abandonara as suas posições.
Tinha sido consumido.
Quatro minutos e meio.
As pernas de Elara cederam. Teria caído se não estivesse sentada, mas, mesmo sentada, vacilou perigosamente. A dívida agravava-se a cada segundo, cada instante emprestado custando mais do que o anterior.
"Elara." A voz de Cassian, tensa com algo que podia ser medo. "O teu rosto."
Ela não podia parar. Estava demasiado perto.
Cinco minutos.
O último símbolo definiu-se.
Os segredos da Coroa inundaram-lhe a mente, uma torrente de informação que ela mal conseguia processar. Viu a verdadeira natureza do trono, a forma como se alimentava da consciência de quem se sentava nele. Viu a tentativa desesperada do panteão original de criar um limitador — a própria Coroa das Horas, concebida para regular a fome interminável do trono.
Viu que tinha falhado.
Elara abriu os olhos.
A primeira coisa que viu foram as próprias mãos. Estavam agora gastas, a pele mais fina e mais translúcida do que antes. Tinham-lhe surgido manchas de idade no dorso dos nós dos dedos. A fina rede de veias sob a superfície estava mais visível.
Ela ergueu os olhos para as paredes cristalinas. O seu reflexo encarava-a de volta a partir de uma dúzia de ângulos diferentes. O rosto que a fitava era mais velho. Não antigo, não enrugado, mas visivelmente envelhecido. Novas linhas gravavam-se em torno da sua boca e dos seus olhos. O cabelo, que tinha sido castanho-escuro quando ela entrara no cofre, exibia agora estrias de prata nas têmporas.
— Que os deuses nos protejam. — A voz de Cassian mal passava de um sussurro.
Ela virou-se para o olhar. A expressão dele era algo que ela nunca tinha visto antes. A máscara escorregara-lhe. Por baixo do cálculo e do autocontrolo cuidadoso, havia algo em carne viva. Dor. Horror. E mais alguma coisa, algo que podia ter sido ternura.
— Tu sabias que teria um custo. — A voz dela saiu mais áspera do que antes. — Calculaste o preço antes de entrarmos.
— Eu sabia que custaria alguma coisa. — Ele avançou na direção dela, agachando-se de novo ao seu lado. Desta vez, quando a mão dele encontrou a dela, o aperto foi suave. Quase reverente. — Não sabia que custaria tanto.
Ela quis afastar-se. Quis exigir-lhe se aquela preocupação era genuína ou apenas o luto de um jogador que danificara uma peça valiosa. Mas a palma dele estava quente contra os seus dedos frios. E os olhos dele, quando encontraram os dela, guardavam algo que ela não conseguia descartar.
— Consegues ficar de pé?
Ela não tinha a certeza. O corpo dela sentia-se estranho, mais pesado e mais frágil ao mesmo tempo. Os ossos doíam com uma pulsação funda e persistente. As articulações protestaram quando ela mudou de posição.
Mesmo assim, tentou.
Cassian amparou-a quando as pernas lhe cederam. O braço dele rodeou-lhe a cintura, sustentando o peso dela contra o seu flanco. Ela conseguia sentir a força nele, o poder contido que ele geralmente mantinha oculto sob camadas de graça cortesã.
— Apoia-te em mim. — A voz dele foi firme. — Os ecos temporais terão sido visíveis a quilómetros. Temos de sair daqui antes que os nossos caçadores cheguem.
Elara deixou que ele a guiasse em direção à passagem. Os seus pés encontraram o ritmo por pura teimosia. A Coroa mantinha-se apertada contra o peito dela, os seus segredos agora legíveis na sua mente. Ela tinha o que vieram buscar. O custo estava escrito na sua carne.
— Aprendeste o que precisávamos? — perguntou Cassian. A voz dele era baixa, feita apenas para os ouvidos dela.
— Sim. — Ela engoliu, contra a secura na garganta. — O trono não é o que acreditávamos. Não é um assento de poder. É uma boca.
Ele não respondeu de imediato. O aperto dele na cintura dela apertou-se um nada. — Então teremos de ser muito cuidadosos com quem se senta nele.
Avançaram pelos corredores cristalinos, deixando para trás a câmara central. As paredes ainda ressoavam com os seus mil anos de vozes roubadas, mas agora Elara conseguia ouvir outra coisa por baixo do coro. Passos. Muitos passos. A aproximarem-se de múltiplas direções.
— As defesas exteriores caíram. — A voz de Cassian perdera toda a suavidade. Ele era, outra vez, um pretendente, um predador diante da competição. — Estão cá dentro.
A mão de Elara apertou-se em torno da Coroa. Passara meses da sua vida a decifrar-lhe os segredos. Não perderia o artefacto agora.
— Consegues chegar à passagem oriental? — perguntou ele. — Há uma saída secundária que ainda deve estar sem vigilância.
Ela assentiu. Falar exigia uma energia que não tinha.
Aceleraram. As paredes cristalinas devolviam-lhes a passagem em cem ângulos diferentes e, em cada reflexo, Elara via o fantasma do seu eu mais velho tremeluzir nas margens do seu campo de visão. Os ecos temporais continuavam a infiltrar-se. O aviso naqueles olhos ocos era claro.
Aquilo fora apenas o primeiro pagamento. A dívida continuaria a acumular-se.
As passadas aproximaram-se. Elara já conseguia ouvir vozes, elevadas em alarme ou em comando. Os caçadores tinham encontrado os restos estilhaçados do campo de estase. Saberiam exatamente o que fora levado.
— Aqui. — Cassian puxou-a para uma passagem lateral mal larga o suficiente para uma pessoa. Avançaram em fila indiana, as paredes cristalinas a rasparem-lhes nos ombros. — A saída é já ali à frente.
Elara conseguia vê-la. Um retângulo de escuridão que prometia fuga. Impeliu-se na direção dele com as últimas forças.
Atrás deles, as passadas multiplicaram-se. Os caçadores convergiam. Ela sentia a presença temporal deles como calor contra as costas, o peso acumulado dos poderes emprestados a pressionar-lhe os sentidos.
Reconheceria aquela assinatura em qualquer lado. Um rival claimant. Uma das fações que os vinha seguindo desde que a guerra de sucessão começara.
Não se virou para olhar. Olhar só a atrasaria.
Irromperam pela saída para o ar frio da noite. A passagem trouxera-os ao flanco de uma colina com vista para a cidade, as luzes da capital espalhadas lá em baixo como brasas dispersas. O vento mordeu a pele envelhecida de Elara com dentes que antes não lhe tinham parecido tão afiados.
Cassian não abrandou. Guiou-a encosta abaixo, a mão firme na sua cintura. Avançaram por sombras e mato, ganhando distância da entrada do cofre. Quando por fim pararam, numa depressão entre duas árvores antigas, as pernas de Elara cederam por completo. Ela afundou-se no chão, as costas encostadas a um tronco, a Coroa ainda apertada contra o peito.
Cassian agachou-se ao seu lado. Na escuridão, era difícil ler-lhe o rosto. Mas as mãos dele, quando encontraram as dela, foram gentis.
— Descansa. — manteve a voz baixa. — Temos tempo antes de perceberem qual foi a saída que usámos.
Ela quis rir. Tempo. Tinha passado tanto dele naquele cofre. Anos da sua vida, comprimidos em cinco minutos de lucidez emprestada.
— Os segredos da Coroa. — A voz dela mal passava de um sussurro. — Agora sei o que ela contém. Sei o que o trono é de verdade.
— Diz-me depois. — Ele tirou um cantil de algum lugar dentro do casaco e colocou-o nas mãos dela. — Bebe. Precisas de líquidos.
Ela bebeu. A água era fresca e limpa, e suavizou a aspereza na sua garganta. Quando baixou o cantil, encontrou Cassian a observá-la com uma expressão que não conseguiu interpretar.
— Dói?
Ela ponderou a pergunta. O corpo doía-lhe com uma pulsação funda e persistente. As articulações estavam rígidas. A pele parecia-lhe demasiado esticada sobre os ossos. Mas a dor não era a pior parte. A pior parte era saber que aquilo era apenas o começo. Cada empréstimo custaria mais. Cada dívida se acumularia. No fim, não restaria nada para tirar.
— Dói. — Devolveu-lhe o cantil. — Mas tenho o que viemos buscar.
Cassian ficou em silêncio por um longo momento. Depois estendeu a mão e afastou da testa dela uma madeixa de cabelo riscado de prata. O toque foi leve como uma pena, quase reverente.
— Lamento. — A voz dele era baixa. — Eu não queria isto para ti.
Ela queria acreditar nele. Queria acreditar que o pesar na sua voz era real, que a ternura no seu toque refletia algo genuíno. Mas ela lera os segredos da Coroa. Sabia o que o trono fazia àqueles que o procuravam. Sabia como o poder corrompia até as melhores intenções.
Cassian era um Claimant. Ele queria o trono. E ela acabara de lhe dar o conhecimento de que ele precisava para o tomar.
— Lamentas porque te importas — disse ela — ou porque uma ferramenta danificada é menos útil?
A mão dele imobilizou-se junto à têmpora dela. Ela pensou que ele se afastaria, que recuaria para trás das suas muralhas de cálculo e controlo.
Em vez disso, sustentou-lhe o olhar.
— Talvez. — Falou baixo. — Essa é uma pergunta a que ainda estou a responder, eu próprio.
Ele não moveu a mão. Ela não se afastou.
Lá em baixo, as luzes da cidade ardiam como mil pequenas chamas, cada uma uma vida que seria afetada pelo que tinham posto em marcha. A Coroa das Horas pesava muito nas suas mãos gastas. E, algures nas profundezas cristalinas do cofre, o fantasma do seu eu mais velho ainda tremeluzia nas paredes, de olhos vazios, advertindo para custos que ainda estavam por vir.