Capítulo 18: A Boca Espera
Os corredores que conduziam ao trono vago jamais haviam sido feitos para pés mortais. Elara sentia isso a cada passo — as paredes cristalizadas respirando com o tempo acumulado, o ar denso com a pressão de um poder divino que não tinha para onde ir. O tempo emprestado dela tremeluzia nas bordas da percepção, criando ecos de si mesma que percorriam caminhos que ela ainda não tinha tomado. Um desses ecos virou-se para encará-la com olhos que já tinham visto o que aconteceria em seguida, e a expressão nele não era de esperança. Ela correu mais depressa.
O trono estava despertando. Ela podia senti-lo — uma fome que esperara séculos por nova presa, estendendo-se em sussurros que só sangue divino podia ouvir. Cassian e Veyrn já estavam a caminho. Ela precisava alcançá-los antes que o trono os alcançasse. Cada inspiração ardia no peito. As paredes cristalizadas mostravam reflexos de mil futuros possíveis, cada um se estilhaçando no seguinte — fragmentos do que poderia ser sangrando para dentro do que era. Ela captou relances de si mesma nas superfícies: mais velha, mais nova, morta, vitoriosa, despedaçada. Os ecos temporais estavam ficando mais fortes.
O poder instável dela puxava as bordas da realidade, arrastando momentos do seu futuro para dentro do presente. Não olhe para eles. Não escute. Cada futuro que você vê é uma dívida que terá de pagar. Um eco de si mesma saiu de um corredor que ainda não existia. Essa Elara era mais velha — fios grisalhos atravessando o cabelo escuro, sulcos fundos talhados ao redor de olhos que tinham visto demais. O eco abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. Apenas um aviso tomou forma, desenhado por lábios que tremiam.
Elara passou por ela à força. Não tinha tempo para os próprios fantasmas.
O corredor se dividia à frente. Três caminhos, cada um cintilando de possibilidade. Ela estendeu a mão para o poder, aquela habilidade proibida de tomar emprestado do próprio futuro, e sentiu a vertigem familiar de puxar o tempo para a frente. Só um relance. Só o bastante para ver qual caminho não a mataria. A dívida se acomodou de imediato nos ossos — as articulações doendo, a pele formigando com a sensação de horas sendo arrancadas da sua vida. Ela se viu pegando a passagem da esquerda e desabando três passos depois, o eco temporal consumindo-a por dentro. Ela se viu pegando a passagem da direita e emergindo numa câmara onde Veyrn já se sentava no trono, os olhos ocos com a fome do trono. Ela se viu pegando o caminho do meio e —
A visão se fraturou. Possibilidades demais. Dívida demais.
Então é o do meio.
As botas dela bateram no piso cristalizado num ritmo que acompanhava o pulso acelerado. As paredes ali eram mais antigas, a crosta de tempo sobre elas mais espessa. Ela sentia o peso dos séculos comprimindo tudo, cada momento que já atravessara aqueles salões ainda pairando, como fumaça em ar parado. Em algum lugar à frente, ouviu passos que não eram os dela — as forças de Veyrn por uma rota paralela, correndo rumo ao mesmo destino. Ela não podia deixar que chegassem primeiro.
O corredor alargou-se numa antecâmara, e Elara tropeçou até parar. Um antigo santuário de caminho fora talhado na parede, deixado por peregrinos que haviam percorrido aquelas passagens quando os deuses ainda se sentavam nos seus tronos. Uma bacia de água limpa recolhia a luz cristalizada. Ao lado dela, uma capa nova estava dobrada, deixada para viajantes que pudessem precisar de abrigo.
As mãos dela tremiam. Só agora se deu conta. A atração do trono vinha ficando mais forte a cada passo, aquela fome insidiosa estendendo-se para qualquer consciência que se aproximasse. Ela podia senti-la na base do crânio, uma pressão com gosto de cobre e profecia. A água na bacia ondulou sem vento.
Elara foi até o santuário e mergulhou as mãos na bacia. O frio chocou-lhe a pele, agudo e puro. Não percebera o quanto de poeira de arquivo lhe cobria os dedos até ver aquilo rodopiar e ir embora, fios escuros dissolvendo-se na água límpida. Levou água ao rosto em concha, deixando-a escorrer pelas bochechas, pelo queixo, pingando no chão cristalizado. Por um fôlego, não era uma mulher a correr para impedir uma catástrofe. Era simplesmente limpa. Simplesmente presente.
O reflexo dela encarou-a de volta na água que se aquietava. O rosto que a fitava envelhecera para além dos seus anos — novas linhas ao redor dos olhos, cabelo que rareara pelo empréstimo temporal, um cansaço que se instalara no osso. Ela roubara horas do próprio futuro para salvar o presente, e a dívida estava escrita na sua pele.
— Você consegue. — falou para o reflexo, com a voz áspera. — Tem que conseguir. Eles não sabem no que estão entrando.
A capa nova cheirava a alecrim e a algo mais antigo — algo que cheirava a memória, como as ervas que a mãe dela costumava guardar na pequena cozinha. Elara puxou-a sobre os ombros, e a trama grossa assentou-se contra a sua pele como um abraço. Por um momento, sentiu-se amparada. Protegida. Então amarrou a capa e correu.
O corredor final estendia-se diante dela, mais comprido do que deveria, a perspetiva errada de um jeito que lhe fez o estômago revirar. A presença do trono pressionava contra a sua consciência, já não um sussurro, mas uma voz — uma voz que falava numa língua mais antiga do que os deuses, prometendo tudo o que ela alguma vez desejara. Poder. Conhecimento. A capacidade de reescrever cada escolha errada que já fizera. Ela compreendeu, então, por que os reclamantes não conseguiam resistir.
O tempo que ela tomara emprestado tremeluziu de novo, e surgiu mais um eco — este caminhando ao lado dela, acompanhando-lhe o ritmo. Este eco era mais jovem, sem as marcas das dívidas que Elara já pagara. Virou-se para ela com lágrimas nos olhos e articulou uma única palavra: Corre.
— Eu estou correndo — arfou Elara, com as pernas em brasa. — Estou correndo o mais depressa que consigo.
O eco sacudiu a cabeça e apontou para a frente.
O corredor terminou. Uma grande porta elevava-se diante dela, talhada com símbolos que se moviam quando ela não os fitava diretamente. Ela ouvia vozes do outro lado — duas vozes, erguidas em discussão, as palavras distorcidas pela magia antiga da porta. A fome do trono batia contra a sua mente como um segundo pulso. Ela atirou o peso do corpo contra a porta. A madeira gemeu, resistiu, e então cedeu.
A câmara do trono abriu-se diante dela.
O espaço era vasto, maior do que qualquer sala tinha o direito de ser, com o teto perdido em sombras que pareciam respirar. Paredes de tempo cristalizado rodeavam-na, tal como os corredores, mas aqui os reflexos eram mais nítidos — mostrando não apenas futuros possíveis, mas momentos passados, deuses que tinham caminhado por aqueles salões, procissões de poder divino que tinham alimentado algo à espera no centro.
O trono assentava num estrado elevado, e não tinha nada a ver com o que ela esperava. Nem ouro, nem prata, nem qualquer material que ela conseguisse nomear. Parecia ter sido cultivado em vez de construído, a superfície ondulando com algo que podia ser luz ou podia ser pensamento. Ele respirava. Ela via-o agora — a lenta expansão e contração de algo que esperara séculos para voltar a alimentar-se.
Cassian estava de um lado do estrado. Veyrn, do outro. Ambos se viraram para olhar para ela quando ela tropeçou ao passar pela porta.
— Elara. — A voz de Cassian era estranha, distante, como se falasse do fundo de um poço. — Não devias estar aqui.
— Parem. — Ela arrancou a palavra de entre ofegos. — Os dois. Eu vi o Prime Vellum — eu sei o que isto é. Não é um trono. — Ela deu um passo à frente, com as pernas a ameaçar ceder. — É uma boca.
O lábio de Veyrn enrolou-se. O rival The Claimant sempre a olhara com o desprezo reservado aos insetos, mas agora havia algo mais na sua expressão — algo faminto que não era inteiramente dele. — Mentiras bonitas de um bichinho mortal. Cassian, controla a tua criatura.
Cassian não respondeu. Os olhos estavam presos no trono, o rosto frouxo numa expressão que Elara nunca lhe tinha visto antes. Anseio. Um anseio terrível, desesperado.
— Eu consigo ouvi-lo — disse ele, baixo. — Chamou-me a vida inteira.
— Não te está a chamar para reinar. — Elara aproximou-se, a voz a subir. — Está a chamar-te para o alimentares.
A superfície do trono ondulou. O movimento foi subtil, mas ela apanhou-o — um arrepio de antecipação, como uma boca a preparar-se para uma refeição. O zumbido na base do seu crânio cresceu, e ela quase conseguia distinguir palavras. Quase entender o que aquilo prometia.
— O panteão não abandonou os seus tronos — disse ela, forçando cada palavra através da pressão que se acumulava na cabeça. — Foram consumidos por eles. O Vellum mostrou-me. Cada deus que aqui se sentou foi devorado de dentro para fora. O seu poder, a sua consciência, tudo o que eram — alimentou aquela coisa.
Veyrn riu, mas o som era oco. — Fábulas. Os deuses abandonaram-nos porque não éramos dignos. O trono escolhe os dignos.
— O trono não escolhe nada. — Elara chegou à beira do estrado. — Ele espera. Ele tem fome. E quando alguém com sangue divino se senta, ele toma tudo.
— Espera que acreditemos— — começou Veyrn.
— Não me importa no que acredita. — Ela virou-se para Cassian, cuja mão começara a derivar em direção ao braço do trono. Não em aceitação — ela via-o a resistir, via o terror nos seus olhos —, mas como se alguma coisa o puxasse. — Cassian. Olha para mim. Tu conheces-me. Alguma vez te menti?
O olhar dele desviou-se para o rosto dela. Ela viu-o — o homem que arriscara tudo para a proteger, que lhe dissera que ela era mais do que uma ferramenta, que olhara para o rosto envelhecido dela e, ainda assim, estendera a mão para a dela. Então a atração do trono apertou, e os olhos dele escorregaram de novo para o assento.
— Ele conhece-me — sussurrou ele. — Sabe o que eu sou. O que eu poderia ser.
— Sabe que tu és comida.
Veyrn moveu-se primeiro. O requerente rival avançou para o trono, a mão estendida, a ambição e a fome do trono a fundirem-se num único impulso. — Se isto for verdade, então o primeiro a sentar-se reivindica o poder. Se for mentira, então eu tomo o que é meu por direito.
— Não! — Elara lançou-se para a frente. Não foi rápida o suficiente.
Mas Cassian foi. Agarrou o braço de Veyrn, puxando-o para trás, para longe do estrado. Por um batimento do coração, debateram-se — duas linhagens de sangue divino, dois requerentes que tinham passado anos a lutar por um trono que queria devorá-los aos dois. O zumbido do trono subiu num pico até se transformar num guincho, e Elara sentiu alguma coisa rasgar-se na sua mente. O tempo emprestado dela estalou.
Ecos jorraram pela fratura — versões dela própria, de momentos que ainda não tinham acontecido, cada uma a gritar um aviso diferente. Viu Cassian sentar-se. Viu Veyrn sentar-se. Viu-se a si própria sentar-se. Viu o trono consumi-los a todos, um a um, os corpos a esvaziarem-se por dentro enquanto algo antigo e faminto se alimentava da sua essência divina.
— Elara! — A voz de Cassian cortou as visões. Ele atirara Veyrn para trás e agora estava de pé entre o requerente rival e o trono, o peito a arfegar. — O que viste?
— Morte. — Ela pressionou as mãos contra as têmporas, a tentar manter-se inteira. — Tudo. Todos vocês. O trono não pára num só. Ele quer um panteão. Ele quer—
Interrompeu-se, ofegante. Os sussurros do trono tinham-na encontrado, mesmo sem sangue divino. Estava a oferecer-lhe algo agora — tempo. Todo o tempo que ela perdera, todos os anos que tomara emprestados, devolvidos a ela. Sentia a promessa a infiltrar-se nos seus pensamentos como água em terra seca. Vem. Senta-te. Eu dar-te-ei tudo o que te foi roubado.
— Está na minha cabeça — murmurou ela. — Está— Cassian, está a tentar chegar até mim também. Quer qualquer pessoa com poder. Qualquer pessoa que o possa alimentar.
O rosto de Cassian empalideceu. Ele compreendia. O próprio poder dele, o sangue divino, a própria essência do que o fazia um requerente — era tudo isco. O trono chamara por ele a vida inteira, não porque ele fosse escolhido, mas porque era comestível.
Veyrn ergueu-se de onde caíra, os olhos em desvario. “Mentiras. Tudo. Você quer o trono para você, mortal. Você quer—”
“Olhe para ele.” Elara apontou para o trono, para a maneira como a sua superfície começara a mover-se mais depressa, ondulações se espalhando para fora como água antes de uma tempestade. “Olhe para ele e me diga que isso é um assento. Diga que isso é algo feito para sustentar uma pessoa.”
A respiração do trono se acelerara. Sua superfície já não parecia pedra, nem metal, nem nada sólido — parecia uma membrana esticada sobre algo que tentava escapar. Ou que tentava puxá-los para dentro.
Veyrn hesitou. Pela primeira vez, a incerteza tremeluziu em seu rosto. A fome do trono era inegável agora, pressionando contra todos eles, prometendo tudo sem esconder nada.
A mão de Cassian derivou de novo na direção do braço do trono. Desta vez, ele não lutava contra isso. Sua expressão se tornara frouxa, os olhos fixos no assento com o olhar de um homem que encontrara a resposta para uma pergunta que fizera a vida inteira.
“Cassian.” Elara avançou até ele; cada passo, um esforço contra a atração do trono. “Não. Por favor.”
“Passei a vida inteira querendo isto.” Sua voz era distante, sonhadora. “Tudo o que eu fiz, cada escolha que eu tomei — tudo estava me trazendo até aqui. Como pode estar errado? Como pode ser errado algo que parece tão certo?”
“Porque não é o seu sentimento.” Ela o alcançou, agarrou-lhe o braço, sentiu os músculos tremendo sob seus dedos. “Não é a sua vontade. É a fome do trono, refletida de volta em você. Ele não está chamando porque você merece. Está chamando porque você vai ter um gosto bom.”
A mão dele estava a poucos centímetros do braço do trono agora. Ela via a luta em seu rosto — a parte dele que a ouvira, que acreditava nela, combatendo a parte a que prometeram tudo o que sempre quisera.
“Elara.” Ele disse o nome dela como uma prece, como um homem se afogando que estende a mão para uma tábua de salvação. “Eu não sei se consigo parar.”
“Você tem que conseguir.” Ela apertou ainda mais o braço dele. “Você tem que conseguir, porque se não, eu vou perder você. Não para a morte — para aquela coisa. Ela não vai só devorar seu corpo. Vai devorar tudo o que você é. Cada memória, cada escolha, cada momento que fez de você Cassian. E o que sair de lá não vai ser você. Vai ser—”
“Vazio”, ele terminou. A mão dele tremeu sobre o braço do trono, tão perto que ela podia ver o calor se erguendo da superfície. “Eu vou ficar vazio.”
Atrás deles, Veyrn voltou a rir — mas não havia convicção nisso. O rival requerente recuara do estrado, sua ambição em guerra com o instinto de sobrevivência que o mantivera vivo durante anos de guerra de sucessão. “Isto é um truque”, disse ele, mas a voz tremeu. “Tem que ser um truque.”
“O truque”, disse Elara sem se virar, “foi tudo o que veio antes. A guerra de sucessão. Os requerentes. Os artefatos. Tudo isso era um cardápio. O trono estava escolhendo a sua próxima refeição.”
A mão de Cassian pairava no ar. Os dedos estremeceram em direção ao braço do trono, recuaram, e então tornaram a derivar para a frente. Suor perlava-lhe a testa. Os sussurros do trono tinham se tornado um bramido, enchendo a câmara de promessas que afogavam o pensamento.
“Elara.” A voz de Cassian mal passava de um sussurro. “Preciso que você faça uma coisa por mim.”
“Qualquer coisa.”
“Se eu não conseguir parar — se a minha mão tocar naquela coisa — prometa que vai correr. Não tente me salvar. Não tente me puxar de volta. Só corra.”
“Não.” Ela deu um passo à frente, colocando-se entre ele e o trono, quebrando a linha de visão. “Eu não vou te deixar. Nós acabamos com isso juntos, ou então não acabamos com isso de jeito nenhum.”
Os olhos dele se fixaram no rosto dela. Ela o viu com clareza — o homem por baixo do requerente, a pessoa que a tinha escolhido em vez do trono uma vez antes. A mão dele ainda tremia, ainda presa entre o puxão do trono e a presença dela, mas alguma coisa na expressão dele mudou.
“O Vélum Primordial”, ele disse devagar. “Você tem certeza? Ele te mostrou—”
“Mostrou tudo. O panteão original. A primeira alimentação. O trono acordou com fome e os devorou, um por um. E depois esperou. Por nós.”
A superfície do trono estremeceu. Um som emergiu de suas profundezas — não uma voz, não exatamente, mas algo que poderia ter sido decepção. Ou antecipação. Porque Veyrn voltava a se mover. O requerente rival tinha contornado os dois, os olhos cravados no trono com uma intensidade que não tinha nada a ver com razão. O trono tinha encontrado uma mente mais fraca, um coração mais faminto, e o puxava para dentro.
“Se você não vai tomá-lo”, disse Veyrn, a voz espessa de desejo, “então eu tomo. Alguém tem que tomar. Alguém tem que acabar com isso.”
“Veyrn, não—”
Mas ele já estendia a mão para o braço do trono, já subia ao estrado, já se entregava à fome que esperara séculos para ser saciada. E a mão de Cassian disparou para detê-lo. Os dois requerentes tocaram o trono ao mesmo tempo.
A câmara explodiu em luz.