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Membaca
O cheiro de cerveja quente e mijo chegou antes da música. Eu já tava na porta do camarote, colete sintético grudando nas costas, quando vi ela. Subia da calçada como quem atravessa vento gelado: queixo um pouco pra cima, passo firme, ombros tensos quase encostando na orelha. A luz estroboscópica cortou o rosto dela em pedaços. Branco. Depois roxo. Depois verde. Num desses flashes, rápido, deu pra pegar o essencial: olhos escuros, atentos, mais gastos do que assustados.
Parei o corpo na frente dela.
— Acesso tá fechado lá pra cima — falei.
O grave do funkeiro do bar ao lado estourava, batendo no peito como marreta. Uma sirene distante entrava no som, embolada com grito de vendedor de cerveja. O chão era um tapete de latinha amassada brilhando sob os postes, tudo escorregadio, tudo cheirando a fim de festa e começo de confusão.
Ela não diminuiu o passo. Ficou a um braço de distância.
— Eu tenho autorização — disse, levantando um crachá de plástico, encharcado de chuva e de suor de gente trombando.
O crachá não era de ONG de beco. Logotipo limpo, nome comprido demais, inglês demais pro meu gosto, letras que cheiravam a sala com ar-condicionado forte. Engenheira. Empresa grande, lá fora. Cara de quem lidava com software caro e discurso de impacto social, olhando o Rio pela janela fumê de van blindada.
— Autorização de quem? — perguntei. — Polícia? Prefeitura? Algum iluminado de gabinete?
— Projeto da baía — ela respondeu, impaciente. — Tô procurando uma funcionária. Ela sumiu aqui em cima. E, sinceramente, eu não tô com tempo pra discutir com segurança de camarote.
A “segurança” ainda raspou por dentro do ouvido. A outra palavra, “projeto”, acendeu um alarme antigo. Atrás dela, a massa empurrava o gradil. Camiseta de bloco suada roçando, gente forçando entrada no camarote, outra galera usando a lateral como banheiro improvisado, zíper baixando sem vergonha nenhuma.
Um PM apareceu pela lateral, fuzil pendurado, cara de saco cheio, olho vidrado na confusão e no que não devia.
— E aí, meu parceiro, vamo liberar ou vou ter que resolver? — perguntou, já mirando o decote da primeira da fila, não a minha cara.
O calor subiu pela coluna. As costas ficaram encharcadas por dentro do colete. Suor, não chuva.
— Calma, sargento — falei. — Setor de laje ainda tá em ocorrência. Se subir mais gente, cês vão tá respondendo em boletim, não eu.
Ele bufou, impaciente.
— Ocorrência de quê? Já era. Rabecão levou, perícia acabou. Enquanto isso, carnaval tá rolando. Vamo andar.
Ela me encarou na mesma hora.
— Ocorrência? — perguntou. — Teve morte?
Saiu seca. Quase burocrática. Como se “morte” fosse linha de formulário. Só que a mão dela apertou o crachá com força demais. As pontas dos dedos embranqueceram.
— Caiu uma menina da laje — falei. — Idade discutível. Papel diz uma coisa, o corpo dizia outra. Você não tá subindo.
Ela avançou meio passo. O perfume leve dela bateu, tentando cobrir o fedor da rua. Não combinava com o chão pegajoso de cerveja, mas ficou ali, teimoso.
— Eu vou subir — disse. — A pessoa que eu tô procurando mandou mensagem dali. Dessa laje. Dez minutos antes da queda. Ela não atende mais. Cê prefere segurar isso sozinho ou subir do meu lado, ex-detetive?
Travei. O “ex-detetive” veio solto, como se fosse sobrenome. Lá embaixo, um estouro de fogos fez metade da fila virar o rosto. O PM levou a mão pro fuzil no reflexo, depois relaxou quando viu que era só cor no céu, não bala.
— Cê sabe meu nome? — perguntei, baixo.
— Sei seu rosto — ela respondeu. — Foto velha de jornal. Caso do menino. E, hoje, foto nova rodando no celular de quase todo mundo aqui por causa da menina da laje.
A garganta arranhou. Um gosto de ferrugem subiu junto com lembrança de flash, sangue e manchete.
Ela abaixou o tom.
— Eu não tô aqui pra mexer em processo antigo, tá? Tô procurando alguém vivo. Se você quiser continuar fingindo que isso aqui é só um camarote caro, beleza. Mas aí a conta vai pro seu CPF, Andrade.
O PM já batia o pé, ansioso.
— Meu amigo, eu vou começar a liberar no grito, hein — resmungou. — Tem gente pagando caro ali atrás.
Um organizador de camarote chegou, camisa polo branca manchada de vodca, energético e descuido. Relógio grande, sorriso treinado.
— Andrade, pelo amor de Deus — ele disse, me puxando pelo braço — deixa o fluxo andar. A celebridade já tá lá em cima. Se der confusão, é minha cabeça, não desse povo da rua.
Olhei pra engenheira. Ela levantou um pouco o queixo, como motor subindo giro. A multidão prensava as costas dela contra o gradil. Ainda assim, nem meio passo pra trás.
Podia deixar o PM arrastar. Dizer que cumpri ordem. Me esconder atrás de protocolo. Era o caminho fácil. Só que o rosto da menina da laje insistia na memória, com a idade errada e um vazio difícil de encaixar. E a sensação de que todo mundo com algum tipo de crachá naquela noite queria botar o pé naquela laje a qualquer custo.
Suspirei.
— Sargento, faz assim — falei. — Eu subo com a doutora. Daqui pra cima não entra mais ninguém sem meu ok. Se der merda lá em cima, cê diz que barrou geral, menos o ex-Civil doido. A bronca cai em mim. Fechado?
O PM me mediu de novo. O “Civil” ainda pesava. Manchado, mas pesava.
— Cinco minutos — decidiu. — Daqui a pouco o helicóptero sobe. Não vou segurar pista por causa de maluquice de vocês.
— Três — respondi.
Ele riu de canto de boca.
— Sempre assim, né? Civil acha que manda.
— Já mandou mais — falei, dando de ombros. — Hoje eu só impeço bêbado de virar manchete.
Virei pra engenheira.
— Subiu a cotação — disse. — Agora cê tem escolta VIP. Nome?
— Lívia Tavares Guimarães — respondeu na lata. — Mas pode chamar de Lívia. Ou Liv.
— Andrade.
— Eu sei.
Virei pro morro. A ladeira brilhava de água, lixo e purpurina pisoteada. Vários paredões de som disputavam espaço no ar quente, cada batida tentando engolir a outra. Na esquina, churrasquinho queimando, gordura estalando alto, fumaça subindo.
— Cola em mim — falei. — E guarda esse crachá. Hoje ele vale menos que bilhete de ônibus usado.
Ela deu meio sorriso, cansado.
— Crachá é a única coisa que me deixa subir em lugar assim, Andrade. Você sabe.
— Sei. — Ajustei o colete. — Mas aqui em cima quem manda é o porteiro. No caso, eu.
***
A gente entrou na viela como quem entra em garganta de bicho. O chão escorregava com mistura de cerveja, lama e chuva fina. Chinelo batendo, salto afundando, tênis raspando em papelão encharcado. Fumaça doce de maconha saía de um portão entreaberto, misturada com cheiro de carne gorda virando no espetinho sobre brasa baixa.
Lívia tentava passar sem encostar em ninguém. Bobagem. Em dois passos já tinha ombro suado batendo nela, antebraço estranho encostando, plástico de capa de chuva arranhando.
A manga da blusa dela esbarrou no meu braço. O tecido ainda guardava um restinho de ar frio, longe do abafado da ladeira.
— Você sempre faz plantão de segurança de luxo? — perguntou, subindo ao meu lado, respiração um pouco mais rápida.
— Só quando a pensão aperta — falei. — Melhor que vender água morro acima. Menos peso na mão.
— E mais peso na consciência, talvez.
— Pode ser. Mas eu durmo igual. Quando consigo.
Ela puxou ar fundo, tentando achar ritmo na subida.
— Esse caso da menina — começou.
— Ana Clara — cortei. — Nome assim não evapora.
— Ana Clara — repetiu. — Você disse que os documentos e o corpo não batiam. Como?
Passamos por um grupo em roda com caixa de som própria. Grave tão pesado que o chão vibrava, como se tivesse motor velho rugindo embaixo da laje.
— Cê sabe qual idade tava no registro? — perguntei.
— Tô perguntando.
— Quarenta e dois.
Ela errou o passo por meio segundo. O salto raspou numa pedra, quase torceu.
— E o corpo?
— Pele clara demais pra quem encarou sol de obra, zero ruga. Se me mostrasse sem papel, eu chutava vinte. Vinte e um, estourando. Vizinhas juram que viram tatuagem de rosa azul no ombro dela mais cedo. Sumiu. Como se tivessem passado borracha. Nem sombra.
Lívia lançou um olhar rápido, quase ofendida.
— Isso não acontece.
Um balão estourou perto do poste à frente, estalo seco. Meio mundo abaixou a cabeça no instinto. Um cara gritou “tiro”, outro respondeu xingando. A viela virou túnel. Minha mão voou pro lado do corpo, procurando o coldre que não existia mais. Achou só tecido úmido e vazio.
— Foi balão! — um morador gritou, rindo, levantando o restinho de plástico no pé.
A pressão baixou devagar. O barulho normal voltou. O coração de Lívia, não. A veia pulava visível no pescoço.
— Bem-vinda à ladeira — falei. — Aqui qualquer estalo lembra que cê ainda tá respirando.
Ela apertou a pochete contra o corpo, protegendo celular e crachá como se fossem escudo.
— A funcionária que sumiu — retomou, quase atropelando as palavras. — Ela mandou uma mensagem estranha antes de parar de responder.
— Estranha como?
— “Vi uma coisa errada. Não é só teste de estrutura.” — recitou, decorado. — Depois disso, silêncio.
Não perguntei “estrutura de quê”. Ainda não. Um bloco improvisado travava a rua mais acima. Fantasia de astronauta barata pra tudo quanto é lado: macacão prateado grudando na pele, capacete de papelão amassado, antena de arame caindo pro lado.
Puxei o cotovelo dela.
— Por aqui.
— Eu sei andar — reclamou, mas deixou a mão ficar.
— Sei que sabe. Não sabe ainda é pra onde olhar quando tudo começa a correr na direção errada.
Um grupo de moleques parou de dançar quando me viu. O olhar deles grudou um segundo a mais do que deveria. Reconhecimento. Um, de boné pra trás e lata de cerveja na mão, apontou o queixo.
— Olha lá, mano, é o polícia do vídeo. Comandante voltou, hein.
O outro riu, sem saber se ria ou não.
— Aí, doutor, vai cair alguém hoje também?
Senti o rosto esquentar. O apelido antigo, “comandante”, pesou na nuca, como mão empurrando.
— Tô em outro trampo hoje, rapaziada — falei, sem diminuir o passo. — Quem manda aqui é a tia do churros ali em cima. Vai peitar ela se tiver coragem.
O primeiro fez menção de chegar mais perto, meio teatro, meio teste.
Lívia esticou a coluna, travou o maxilar.
— Vamo, Andrade.
Deixei o moleque falando sozinho. Segui. As vozes deles sumiram no emaranhado de som logo depois.
— Você é odiado aqui — ela soltou, sem enfeite, quando dobramos a esquina seguinte.
— Depende da boca que fala — respondi. — Pra quem enterrou filho com minha assinatura no papel, eu sou o nome no laudo. Pra quem viu eu segurar bala de colega, também não sou santo. A cidade não tem carinho por quem ficou no meio do tiroteio.
Ela engoliu, tensa.
— Não tem meio — disse. — Tem lado.
— Você fala da varanda de qual prédio? — perguntei. — Climatizado, vista pra baía, coffee break a cada duas horas?
— Eu falo da sala onde eu vejo relatório desviando caminhão de concreto da creche pra plataforma de teste — rebateu. — Não me confunde com investidor, Andrade.
Um cheiro forte de esgoto subiu de um bueiro estourado, misturado com perfume doce barato, suor e gordura fria de fritura velha.
— Essa funcionária sua — perguntei. — É daqui?
— Não. Veio transferida. Mas escolheu ficar na rua hoje. Disse que não queria ver tudo lá debaixo de tenda VIP. Queria sentir “impacto real”. Palavras dela.
— Impacto ela sentiu — murmurei.
Lívia me fuzilou de lado. Não gostou.
— Ela não é a menina da laje — avisou. — Mas as duas histórias tão amarradas. Uma caiu, outra sumiu, e o projeto que eu assino tá bem aqui. Se eu não subo, viro cúmplice por omissão.
— E se sobe, vira o quê?
— Talvez testemunha. Talvez morta. Hoje em dia a diferença é de meia página no laudo.
Não segurei.
— Você fala bonito.
— Não foi pra te agradar — disse. — Foi pra ninguém dizer que engenheiro só sabe fazer conta em planilha.
A ladeira apertou. Goteira de dez lajes caía em cima da gente. A camisa grudou nas costas. O colete virou sauna ambulante. O joelho esquerdo começou a protestar, lembrança viva do tombo na laje, sangue de Ana molhando calça, concreto raspando osso.
A chuva engrossou num estalo. Veio de uma vez, cortina torta. O céu virou borrão pesado.
— Vem — falei. — Tem abrigo ali.
Empurrei uma portinhola de metal meio abaixada. O ferro raspou, reclamando. Entramos num vão estreito, garagem improvisada com laje baixa demais pra gente alta.
[COMFORT]
Por dentro, o funk perdeu volume. Ainda batia, mas parecia morar no apartamento ao lado. O ar mudou. Cheiro de café recém-passado, fraco, se misturava com mofo de parede úmida. Um ventilador velho insistia em girar, fazendo barulho de hélice cansada.
Uma mulher de meia idade, camiseta larga, cabelo preso num lenço florido, levantou o rosto de uma garrafa térmica.
— Tá chovendo mais lá fora do que dentro do meu telhado — comentou. — Senta aí. Cês tão com cara de quem já tomou água demais na cabeça hoje.
— Só um minuto, dona — falei. — A gente já sai.
Ela puxou duas cadeiras de plástico. Uma com marca de umidade, outra com perna remendada. Empurrou na nossa direção.
— Se molhar lá fora, pega gripe. Caso fica sem final — disse. — Café?
Lívia hesitou. A água escorria do cabelo pro pescoço, gelando a pele. O vento que entrava por baixo da porta arrepiava o braço dela.
— Aceita — murmurei. — Se ela tá oferecendo, é porque dá conta.
A mulher encheu dois copinhos de plástico. Lívia pegou o dela. A mão tremeu pouco, de frio, cansaço, raiva. Talvez tudo junto.
— Obrigada — disse.
Sentei. O plástico frio da cadeira grudou na calça molhada. O copo morno esquentou um pouco a palma da mão. Cheiro de café ralo, mas café de verdade. Coisa que segurou muito plantão em pé de madrugada.
— Cês tão subindo pra laje? — a mulher perguntou, baixando a voz um tom.
— Tamo — respondi.
Ela me encarou com calma. O reconhecimento veio devagar, como foto velha voltando à memória.
— O senhor é o Andrade, né?
O estômago puxou pra baixo. Não respondi.
— É sim — ela mesma completou. — Vi no vídeo de zap. Num tá igual, mas o olho continua igual.
Lívia me observava por cima do copo, avaliação rápida.
— A senhora conhecia a Ana Clara? — perguntei.
Os ombros dela murcharam um pouco.
— Conhecia de oi e bença — disse. — Menina de corre. Trabalhava direito. Não merecia esse carnaval, não. Tão dizendo aí que caiu sozinha. Mas quem mora aqui sabe que ninguém despenca daquele jeito.
A chuva batia na telha de zinco com força, marcando um ritmo torto no teto. O barulho forçava a gente a falar mais alto.
— A senhora viu alguma coisa? — Lívia perguntou, quase num sussurro mesmo assim. — Grito, troca de roupa, alguém correndo.
— Eu vi foi a ambulância não descer — a mulher respondeu. — Só vi caminhonete subir. Serviço rápido. Depois, silêncio. Nem sirene quiseram ligar. Isso eu achei errado.
Olhei pra Lívia.
— Quando eu cheguei, o corpo já tava esticado — falei. — Chuva lavando tudo. Tentei segurar a perícia por mais tempo. Sistema preferiu acelerar. Laje pobre assusta relatório. Melhor apagar logo.
Ela apertou o copo de plástico, deformando a borda.
— A funcionária que eu tô procurando se chama Camila — disse, jogando o nome pela primeira vez. — Ela me mandou foto da laje. Tinha uma marca no chão, perto do parapeito. Um círculo mais claro no concreto, tipo coisa que você encosta, tira, e fica o halo.
Círculo. Halo. Lembrei do piso molhado de sangue e água, do pedaço de concreto mais limpo, estranho, no meio do caos.
— Não reparei em círculo nenhum — falei, cortando a verdade ao meio. — Vi rastro de sangue. De arrasto.
Lívia me avaliou, como se tentasse medir o buraco que eu tinha deixado.
— Eu sei ler foto, Andrade — disse. — Mesmo ruim. Aquilo ali não era só sangue.
— Foto essa que sumiu do celular dela depois da mensagem? — perguntei.
Ela puxou ar devagar.
— Sumiu do servidor da empresa. Mas eu printei na hora. — Tirou o celular da pochete. — Aqui não pega nada, mas tá salvo.
A mulher se afastou, foi mexer numa panela no fundo. O cheiro de algo refogando subiu leve, se enroscando com o café.
Lívia virou a tela pra mim. A imagem era granulada, escura, mas dava pra ver o parapeito. E, no chão, quase centralizado, o tal círculo mais claro, borda irregular. Dentro dele, o concreto parecia outro. Mais liso, quase encerado.
— Isso deveria estar lá ainda — ela disse. — O círculo.
— Depois da chuva que caiu e do cloro que jogaram pra “limpar” pra abadá não escorregar? — falei. — Se sobrou qualquer coisa, é milagre.
— Cloro? — Ela ergueu as sobrancelhas.
— Cheiro. Quando voltei pra pegar minhas coisas mais tarde. Limpeza demais pra padrão de laje em noite de carnaval.
A chuva apertou mais uma rodada. Alguns respingos entraram pela lateral da garagem, gelando o chão e o couro do meu tênis. A mulher voltou com um pano velho, secando o que dava.
— Ana trabalhou aqui embaixo hoje cedo — contou, meio pra gente, meio pra ela mesma. — Servindo cerveja. Tava com tatuagem de rosa na perna. Não no ombro. Rosa azul. Linda. Disse que ia subir um pouco, ver o camarote, depois descia.
Ela balançou a cabeça, dura.
— A menina nunca voltou.
Eu e Lívia trocamos um olhar rápido.
— A senhora viu quem subiu com ela? — perguntei.
— Vi um homem de camisa social clara, crachá igual o seu aí — apontou pro peito de Lívia — falando baixinho com ela. Depois só vi os dois sumindo pra cima.
Lívia endureceu. Os dedos esmagaram o celular, o plástico rangendo.
— Crachá da minha empresa? — ela perguntou.
— É tudo igual, minha filha — a mulher respondeu. — Pra mim é tudo povo de empresa que vem brincar de ver favela de cima. Chega de van, sobe em carro. Só quem morre faz o trajeto a pé.
O silêncio que veio pesou. Não era pausa, era peso.
Tomei o resto do café. O gosto queimado do pó ruim ficou na língua, mas tinha alguma coisa de acolhimento ali. Tipo cobertor velho de sofá.
— Obrigado, dona — falei, me levantando. — A gente precisa subir antes do helicóptero.
Ela assentiu.
— Então sobe. E vê se volta vivo, Andrade. Já vi homem sair daqui pela tela da TV, não pela escada.
Lívia levantou devagar. Guardou o celular na pochete, fechou o zíper com cuidado.
— Obrigada pelo café — disse.
A mulher sorriu de leve.
— Café segura a alma no lugar — respondeu. — O resto o povo tenta roubar faz tempo.
Saímos de volta pra chuva. O som bateu na cara. Funk, grito, fogos, sirene, tudo junto. A laje lá em cima esperava.
[COMFORT END]
***
O caminho afunilou de novo. Casas empilhadas, parede grudada em parede. Fios caíam dos postes como trança descuidada, alguns faiscando fraco. A água descia pelos degraus como córrego apressado, batendo no tornozelo a cada passo mais fundo.
Meu joelho estourado reclamava a cada subida. Dor surda, insistente, lembrando que o tempo tinha passado.
— Esse projeto na baía — comecei, sem encarar o rosto dela. — Tem a ver com corpo?
— Todo projeto grande tem — Lívia respondeu. — De um jeito ou de outro. Mão de obra, morador removido, gente usada de cobaia. Qual tipo você quer saber?
— O que mete agulha fina no pulso de menina com documento de quarenta e pele de vinte.
Ela tropeçou de leve, recuperou, a mão indo na parede pra se firmar.
— Você viu perfuração? — A voz dela subiu meio tom.
— Vi três pontos escuros alinhados. Parecia coleta. Nada de UPA registrado. E a funerária chegou rápido demais.
— Funerária de onde?
— Fura-fila da zona portuária. Caminhonete sem logo decente. Só adesivo com nome de terceirizada de remoção. Nunca vi subindo morro. O normal é chamar a velha conhecida, aquela que todo mundo sabe o nome.
— Isso tá errado — murmurou, mais pra ela do que pra mim. — Tem protocolo pro corpo…
Ela cortou a frase pela metade.
— Você não confia em protocolo, né? — perguntou.
— Confio no papel — falei. — Não em quem segura a caneta.
Chegamos à última escadaria antes da laje. O som do helicóptero começou de leve, crescendo, aquele ruído de lâmina rodando dentro da cabeça. Uma luz forte varreu o paredão ao lado, sombra dançando desequilibrada junto.
— Tá vindo imprensa junto — comentei. — Querem foto de drone. Vista bonita. Nada de sangue na composição.
Lívia apertou os lábios.
— Você virou especialista em maquiagem de cena?
— Virar, não. Me usaram assim por anos. Hoje eu só reconheço mais rápido o que tão tentando cobrir.
Subimos o último lance. O vento da baía chegou de lado, trazendo cheiro de sal misturado com fumaça de fogos queimados. A laje abriu de repente, larga, concreto áspero e ainda úmido, povo espalhado em blocos.
À direita, camarote improvisado, tenda branca, luz colorida riscando o ar. À esquerda, uma fita amarela frouxa marcava área de polícia sem afastar ninguém de verdade. Um PM fazia esforço pra segurar meia dúzia de curiosos atrás da linha.
No meio, o parapeito. O ponto da queda.
No chão, nada. Nenhum rastro vermelho. Nenhuma poça. Só um pedaço de concreto levemente mais claro, cheiro de cloro ardendo nas narinas. Limpeza recente demais.
— Cês demoraram — o PM reclamou, assim que me viu. — Isso aqui não é passeio guiado, não.
— Tô achando que você tá curtindo ficar de babá de fita — retruquei. — Melhor que pegar pedra na nuca, né?
Um cara de camisa polo, irmão gêmeo do organizador lá de baixo, gesticulava com dois seguranças perto da tenda. O cabelo dele tava milimetricamente arrumado, mesmo com a umidade.
— Não pode essa bagunça aqui quando ela chegar de novo — dizia. — A influencer vai subir pra fazer story da vista. Tira esse povo feio da frente.
Ele me avistou e veio na hora.
— Andrade, meu querido, dá um jeito — pediu, sorriso implantado. — A laje precisa estar clean. Você sabe. O público paga pra ver cidade, não fita de polícia.
— O público pagou em carne hoje também — respondi. — Essa não veio no ingresso.
Ele fingiu não ouvir. Lívia já tinha ido até o centro da laje. Olhava o chão, o parapeito, depois o entorno, fazendo um mapa mental.
O helicóptero passou mais baixo. O vento que veio com ele levantou guardanapo, girou confete, tirou purpurina de cabelo alheio.
— Aqui — ela falou, ajoelhando perto do parapeito.
Cheguei junto. O concreto ali tava um tom mais claro, igual à foto. As bordas marcadas, como se tivessem esfregado com força, escova ou esponja. A textura mais lisa, arranhando menos a ponta do dedo.
Encostei.
O cloro ardeu a pele, leve, mas direto.
— Isso é recente — comentei. — Limpeza caprichada. Não tava assim quando eu desci.
— Alguma coisa marcou esse lugar — ela disse. — E alguém teve muita pressa em apagar o desenho. Pergunta é: por quê?
— Porque aparência pesa mais que fato — respondi. — Especialmente com câmera voando aqui em cima.
O PM se aproximou, desconfiado, mão na cintura, olho na nossa postura.
— Ah, não, Andrade. Não começa a inventar história. Já tem relatório. Eu não tô a fim de BO extra.
Ele deu mais dois passos na direção da marca, pronto pra apontar o chão e dizer que era “só concreto”.
O formigamento veio, familiar, atrás dos olhos. Aquela pressão que eu conhecia desde plantão antigo, quando a luz da viatura batia demais e eu, sem querer, deixava um canto da cena ficar invisível.
Foquei na tenda do camarote. Nas luzes, no brilho artificial, no movimento dos corpos dançando. Dei um empurrão por dentro. Só um pouco. Como se arrastasse o foco do ambiente um metro pro lado.
Uma luz de refleto piscou, estalando, como curto-circuito. O clarão chamou atenção. O PM virou a cabeça pro outro lado, automático.
— Que merda… — começou.
Do ângulo dele, por um segundo, o pedaço de chão mais claro perdeu interesse. O olho dele correu, escorregando pela superfície sem fixar. Só cimento molhado, igual ao resto.
Segurei o esforço. A boca encheu de gosto metálico. As bordas da minha visão escureceram por um instante. Aguentei.
— Teu problema tá ali, ó — falei, apontando pra roda de gente no canto. — Celular quase dentro da fita. Se der confusão, vai sobrar pra você.
Ele coçou o queixo, hesitou, depois seguiu o barulho.
— Ô, ô, rapaziada, vamo recuar aí! — começou a gritar. — Cês querem sair no jornal é?
Lívia me observava de baixo, ainda ajoelhada. Olhos estreitos.
— Você tirou ele daqui — disse. Não foi bronca. Foi constatação.
— Só falei o óbvio — respondi, secando a mão na calça. — Farda vai sempre atrás do tumulto maior.
— Não foi só isso.
Não respondi. Esperei o gosto de ferrugem aliviar na garganta. O helicóptero dava volta, o som rodando em cima da gente.
Lívia puxou uma trena pequena da pochete. A fita metálica brilhou sob a luz colorida. Ela mediu o espaço do círculo até o parapeito, depois a altura do muro. O vento grudou uma mecha de cabelo na testa dela.
— Três metros do centro até a borda — murmurou. — Se isso aqui era plataforma, alguém calculou. Não foi improviso de bêbado.
— Plataforma de quê? — perguntei.
Ela recolheu a trena.
— De teste — respondeu. — Mas não pra ver se o concreto aguenta. Pra ver se gente aguenta.
— Gente não é material de laboratório — falei, automático.
— Fala isso pra quem assina termo sem entender. Ou pra quem nunca viu o termo — devolveu.
Um grito mais alto cortou uma batida do funk. Alguém tropeçou perto da gente, empurrado pela massa querendo encostar no parapeito pra filmar a vista. Instinto. Minha mão fechou no antebraço de Lívia e puxou.
A pele dela tava gelada por fora, quente por baixo. Ela desequilibrou meio passo, veio na minha direção, o ombro batendo no meu peito. O helicóptero girou mais uma vez, fazendo o mundo dar um leve tranco junto.
— Cuidado — falei, soltando devagar.
— Valeu — ela respondeu, puxando o fôlego de novo. — Eu odeio altura, pra completar.
— E assinou projeto pra pendurar coisa no alto.
Ela deu um sorriso curto, torto.
— Ninguém me avisou que laje de carnaval tava incluída no pacote.
Uma funcionária do camarote se aproximou correndo, prancheta na mão, crachá balançando.
— Gente, por favor, recua um pouquinho — pediu, voz doce demais pra noite. — A influencer vai fazer uma live daqui a pouco. A gente precisa de espaço limpo, sem muita gente aparecendo, tá?
— Limpo igual esse chão — murmurei.
Ela já tinha virado, pedindo licença pra outro grupo. Não ouviu.
Lívia encarou o parapeito. Depois, a mim.
— Camila — começou.
— Sua funcionária.
— Minha colega — corrigiu. — Ela tava investigando coisa no projeto. Mudança de rota. Os corpos… — ela parou, pesando a palavra — os corpos de teste tinham fluxo X. Do nada, passaram pra rota Y. Ela me mandou planilha com comparação. As contagens não batiam. E decidiu vir pra cá, hoje, pra ver de perto.
— Ver o quê exatamente? — perguntei.
Ela olhou pro horizonte além da borda. A cidade piscava inteira.
— “Fonte real de regressão” foi o termo que ela usou — disse. — Achei exagero de relatório. Estilo.
A palavra grudou na cabeça. Regressão. Lembrei da pele lisa de Ana. Da tatuagem sumida. Dos três pontos no pulso. Do círculo no chão.
Fui até a borda da laje. A grade metálica, baixa, fria, tava escorregadia de água. Apoiei as mãos. O ferro gelado grudou nos dedos quentes, um choque rápido.
O vento da baía vinha direto, forte, carregando cheiro de maresia sobreposto ao de esgoto. Coisa rara. Lá embaixo, a cidade se esticava, toda acesa. Poste, carro, varanda, fogos. Uma manta de luz tremida. No meio, uma mancha escura: a água.
E, no meio da água, ele.
No começo, achei que fosse sombra de navio cargueiro parado. O contorno, porém, não batia. Reto demais. Seco demais. Um cilindro metálico gigantesco subia da superfície, cortando a neblina baixa como ferramenta atravessando tecido. Luzes de obra marcavam alguns pontos da estrutura, amarelo frio, piscando irregular. Os fogos refletiam no metal, deixando manchas de cor que dançavam rápido e sumiam.
O resto era só breu e fumaça.
Por um instante, pensei que era minha cabeça. Algum reflexo torto, ilusão escorrendo da laje pra água, projeção errada. Pisquei forte.
O cilindro continuou lá. Mais nítido. Mais sólido. Como se tivesse sempre estado ali, quieto, e eu é que tivesse evitado enxergar.
— Que porra é aquilo? — escapou, baixo, entre os dentes.
Lívia se aproximou, apoiando a mão no parapeito a meu lado. O helicóptero fez mais uma curva, o foco de luz varrendo a água um pouco além, sem encostar direto na estrutura.
— Não era pra estar tão visível daqui — murmurou.
— Então facilita: o que é?
Ela mordeu o lábio inferior. Os ombros subiram, tensos.
— Obra de teste — disse. — Infraestrutura de transporte. Fase zero.
— Transporte pra onde?
Dois segundos de silêncio. Talvez menos. Pareceram mais.
— Pra cima — ela respondeu, enfim. — Se funcionar.
— E se não funcionar?
— A gente desce junto.
Continuei olhando. Cada vez que eu piscava, o cilindro parecia crescer um pouco. A cabeça latejava no compasso da hélice. As luzes da cidade piscavam falhas, como letreiro velho tentando não apagar de vez.
Atrás da gente, o funk engoliu qualquer conversa, grave enganchado no peito de todo mundo. Gente ria, dançava, filmava, subia no parapeito pra fazer pose. A laje vibrava. O chão cheirava a cloro, chuva e alguma coisa que não saía mais.
Com a mão agarrada no ferro frio, a conclusão veio cortante, sem frase feita. A menina que despencou daquela borda não morreu por causa de salto, chuva ou azar. Morreu por causa do que tava ali embaixo, rasgando a baía em metal e promessa.
Aquele pedaço de futuro enfiado no mar, levantando dinheiro demais e explicação de menos.
Faltava descobrir só uma coisa: desde quando a cidade tinha achado normal construir caminho pro céu sem contar quantos corpos iam ficar no degrau do meio.