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Capítulo 4: Ficha Fria, Corpo Quente

A UPA parecia uma chaleira esquecida no fogo baixo, prestes a bufar, mas sem coragem. Luz branca cansada pingava das lâmpadas. O ar-condicionado quebrado soprava só barulho, um ronco inútil no alto. O cheiro de álcool barato com fundo de sangue misturado grudava na pele, um vapor agridoce que entrava pelo nariz e descia rasgando a garganta. Atravessei a porta automática que emperrava no trilho. O sopro morno da rua entrou junto, trazendo fritura velha e maresia azeda da baía. O segurança da portaria ergueu o olho da TV minúscula, onde passava um jogo repetido, imagem cheia de chuvisco. — Documento, chefia. Entreguei a carteira funcional velha. O brasão desbotado da Civil ainda fazia seu teatrinho. — Não tô mais na ativa — falei —, mas o sistema ainda acha que tô. Ele passou o dedo lento pelo plástico, como se testasse autenticidade com a polpa. — Andrade… — leu em voz alta — Ih. Esse nome já rodou uns zap aí, hein. — Pois é. Finalmente tô famoso por coisa errada. Libera aí que eu tô com pressa. Ele hesitou. A TV chiou. Um grito de gol encheu o corredor, ecoando no metal, vibrando nos vidros. — Só não faz confusão, doutor. Agora plantão já tá cheio. — Confusão já fizeram lá em cima. Tô aqui pra ver quem tá limpando. Passei pela catraca. O ferro rangeu seco, protestando. O corredor estava cheio de gente encostada na parede: sandálias plásticas, chinelos, tênis furado. O ar ali dentro tinha a teimosia de água que não fervia nunca. Quente, parado, preso, mas sem chegar no ponto. O chão colava no solado a cada passo. Desinfetante doce demais se misturava com suor de gente cansada, criando um perfume ruim de esforço inútil. Mais ao fundo, uma máquina de raio-X tossia um zumbido constante. Um ventilador de teto girava quase sem vento, só fazendo barulho, como se empurrasse o calor de um canto pro outro. Sabia onde ir. Velho hábito de plantão. Madrugadas anotando horário de óbito, revisando ficha de baleado, decorando o caminho da recepção como quem decora saída de emergência. Três guichês. Só um funcionando. A mulher por trás do acrílico digitava com dois dedos, unha vermelha servindo de ponteiro. Um copinho de plástico com café ralo descansava ao lado, o líquido já frio, cheiro queimado de filtro reaproveitado impregnando o ar. Esperei. Atrás de mim, uma criança chorava com chiado de peito, o som raspando, molhado. A mãe abanava com um papelão, mão tremendo, o olhar perdido nas placas de “proibido fumar”. Quando a atendente finalmente olhou pra mim, soltou o automático: — Boa tarde. Nome completo? — Não é pra mim. Eu vim ver registro de óbito. Ela franziu a testa. — O senhor é parente? — Civil. Empurrei a carteira de novo, entre o acrílico e a madeira descascada. Ela leu o sobrenome e engoliu seco. Reconhecimento passou pelo rosto rápido, como água descendo torta pelo cano. — Ah. O teclado parou. O barulho do ventilador pareceu crescer um pouco, chiando sobre nossas cabeças. — O senhor… é aquele do… — Sou. — cortei — Mas hoje o morto é outro. Ela ajeitou o crachá com a ponta dos dedos, como se fosse colete de proteção. — O sistema… não sei se posso… — Pode. Lei ainda não proibiu policial aposentado de perguntar de morta. — Mas… Respirei fundo. O ar pesado raspou a garganta, trazendo cheiro de desinfetante pela metade. — Eu te poupo. Dia tal, noite de sábado de carnaval. Ladeira do morro do Itapiru. Queda de laje. Nome: Ana Clara. Dezoito a vinte e dois anos, dependendo de quem mente. Ela jogou o olhar pra tela, dedos pairando, prontos pra dança. — CPF? — arriscou. — Se eu tivesse, não tava aqui. Procura pela data e pelo endereço. Cê sabe fazer gambiarra nesse sistema melhor do que eu. Ela respirou fundo. O café no copinho tremeu quando a mão encostou no plástico, fazendo uma ondinha marrom. — Olha, doutor, sinceramente… ultimamente tá tudo… travando. Cai rede, some coisa do nada. Ela apertou mais forte o teclado, como se quisesse obrigar o sistema a obedecer. — Ainda assim eu… — Só tenta. O barulho das teclas veio rente, quase confortável. Quase chuva miúda em telhado de zinco. Me peguei contando os toques, como se cada um abrisse uma gaveta enferrujada na minha cabeça. Ela clicou, clicou, a testa se fechando mais a cada comando. — Estranho. — Estranho bom ou estranho ruim? O ventilador deu um tranco. As pás hesitaram um segundo, o som ficando mais arrastado, como se o tempo tivesse engordado. — Não consta. — disse, em voz baixa. O calor subiu pro rosto. A pele na nuca esquentou, o colarinho colou. — Como assim, não consta? A ambulância saiu daqui. Eu vi o adesivo. UPA da Penha. Vocês. Ela mordeu a unha do polegar, esmalte descascando, dente raspando no pedaço de tinta. — Eu puxei todos os óbitos da noite e da madrugada. Nada com esse nome. Nem no horário, nem no endereço. — Puxa sem nome. Só por ocorrência. Queda, trauma, qualquer coisa. — Já puxei. Tem acidente de moto, tem AVC, tem briga de bar. Laje de morro… nada. O barulho de uma maca rasgando o corredor invadiu o canto da recepção. Um rapaz com camiseta de bloco suja de sangue passou gritando de dor, o som rouco, quebrado. — Abre caminho, porra! — um enfermeiro berrou, voz limpa, irritada. A fila se abriu igual onda puxada pra trás. Gente encostou as costas na parede, cotovelos batendo, chinelos raspando no chão. Senti um toque no ombro. Um velhinho pediu licença com a outra mão, ossuda, quente, pele fina mas firme. O peso da mão dele me lembrou que ainda tinha corpo vivo ali, não só número em tela. Quando o corredor fechou de novo, voltei pra atendente. — Você tem certeza que tá olhando tudo? Ela encheu o peito de ar como quem se prepara pra mergulhar num tanque fundo. — O sistema novo é integrado. Se passou por aqui, tá aqui. Só se… Parou no meio. Engoliu a frase. — Só se o quê? O olhar dela escorregou pra porta dos fundos. Por ali, um corredor mais escuro levava pros consultórios e pro setor administrativo. A luz ali tinha um tom de cinza azedo, piscando sem ritmo. — Só se foi encaminhado direto pra outro lugar sem registrar aqui. Mas isso não é protocolo, entendeu? — Não é protocolo, mas acontece. Ela engoliu seco. A mão tremeu mais forte. O café fez um anel marrom na borda do copinho. — Doutor… o senhor tá querendo arrumar pra cabeça. — sussurrou — Deixa esse negócio pra lá. Carnaval, gente cai, gente some. — Aquela menina não só caiu. — minha voz saiu curta, quase rouca — E o corpo dela passou por essas portas. Atrás da gente, o choro da criança virou tosse mais feia, com um assobio no fim. A mãe pediu água. Um maqueiro, uniforme amarrotado, ofereceu uma garrafinha plástica. O barulho do plástico amassando veio alto demais. — Qual seu nome? — perguntei. — Pra quê? — Porque se der merda, quero saber quem foi corajoso hoje. Ela soltou um meio riso sem qualquer brilho. — Coragem aqui a gente guarda pra aguentar plantão. Meu nome não ajuda em nada. Faz o seguinte: fala lá com a chefe. Ela que libera coisa que some e aparece. — Chefe tá onde? Ela apontou com o queixo. — Porta cinza, ali ao fundo. Bate três vezes. Se tiver de bom humor, ela atende. Olhei pra porta. O corredor até ela era estreito, piso remendado com faixas de cimento mais escuro. A luz piscava num ritmo próprio, hesitante, como se quisesse desligar de vez. — Valeu. — falei — Qualquer coisa eu volto aqui pra te encher. Ela voltou pro teclado. Os dedos pousaram nas teclas, mas ficaram parados. Ela encarou a tela vazia, como se esperasse que ela confessasse alguma coisa. ** O corredor pro administrativo era mais quieto. Menos gente, menos gemido, menos tosse cortando o ar. O som dos respiradores vinha distante, abafado pelas paredes. Aqui, o que mandava era o tilintar de colherinha batendo em pires em alguma sala ao lado. Cheiro de café passado na hora escapava pela fresta de uma porta, forte, espesso, puxando lembrança de delegacia de bairro às cinco da manhã. O tipo de café que arranhava o estômago, mas mantinha o olho aberto. Parei diante da porta cinza. A tinta descascava em volta da maçaneta, revelando metal enferrujado por baixo. Bati três vezes. Nada. Esperei. O barulho de uma impressora velha começou a subir do outro lado, como se cuspisse folha engasgada. Bati de novo. — Já ouvi, calma. — veio uma voz abafada. A porta abriu um palmo. Uma mulher na casa dos cinquenta me avaliou de cima a baixo. Jaleco amarrotado, óculos pendurado no pescoço por um cordão gasto. O cabelo preso num coque frouxo, alguns fios grudados de suor na testa. — Setor de óbito é com a recepção, senhor. — Já passei lá. Disseram que quem mexe com coisa que some do sistema é a senhora. Ela suspirou, um som cansado que saiu do fundo do peito. De perto, o cheiro de talco se misturava com cigarro frio, formando um halo estranho em volta dela. — O que foi que sumiu? — perguntou, abrindo mais a porta. Entrei. A sala era pequena. Duas mesas, três computadores velhos, um armário metálico fechado com cadeado. Em cima dele, uma garrafa térmica encapada de crochê amarelo com flor azul na ponta dava um toque quase doméstico. O cheiro de café ali dentro era mais forte ainda, preenchendo tudo. — Uma menina. Ana Clara. Chegou aqui sábado de carnaval, cedo da madrugada. Queda de laje no morro do Itapiru. — falei. Ela puxou uma cadeira com rodinha e sentou, sem encostar as costas, coluna rígida. — O senhor é? — Miguel. Ex-Civil. Estive na laje. — Mostra documento. Já tava com a carteira na mão. Entreguei. Ela bateu o olho rápido no plástico e depois mirou meu rosto, demorando ali. — Ah. — murmurou — É você. — Eu quem? Ela desviou o olhar. — Nada. Coisa de zap, sabe. Matéria velha. Internet não esquece. — Mas sistema de UPA parece que esquece. — sentei na cadeira da frente. O plástico rangeu sob meu peso, soltando um estalo discreto. Ela ligou o computador. O ventilador de mesa girava preguiçoso, esparramando ar quente em círculos pequenos. A luz azul do monitor tingiu o rosto dela, cavando mais fundo as olheiras. — A recepção me disse que não tem registro. — completei. — Se elas falaram, deve ser isso mesmo. — A senhora não vai nem checar? Ela ficou alguns segundos encarando a tela de login. Os dedos pousaram no teclado, sem pressionar nada. — Essas coisas… — começou — às vezes vêm direto do SAMU pro IML. Não param aqui. — Desde quando vocês não carimbam passagem de corpo que entra pela porta? Ela respirou fundo, o peito levantando devagar. Olhou pro armário trancado. Depois pro corredor. Por último, pra minha carteira em cima da mesa, o plástico já meio soltando do RG. — Doutor Miguel… — disse meu nome devagar, testando a temperatura — O senhor sabe como é. Ordem vem de cima. — A ordem foi apagar uma morte? Ela encolheu os ombros, um movimento mínimo. O tecido do jaleco raspou no encosto da cadeira. Parecia que ela tentava ficar menor dentro da própria roupa. — A ordem foi agilizar fluxo. Nada de ficar segurando corpo de morro em pleno carnaval. IML tava lotado. Ligaram pra cá, pediram pra encaminhar direto. Sem cadastro, pra não travar sistema. Foi o que falaram. — Quem ligou? — Número restrito. Voz de homem, formal. Podia ser qualquer chefe. — Chefe não pede pra descumprir protocolo por telefone sem se identificar. Ela soltou um riso curto, seco. — O senhor ainda acredita em protocolo? Depois de tudo que falam de você? Cada palavra bateu duro, como gelo no fundo de copo. A mandíbula travou. Os dentes se encostaram com força. — Eu acredito em rastro. — respondi — Mesmo quando queimam papel, sempre sobra cinza. Ela me encarou alguns segundos. A mão direita tamborilou na mesa, unhas curtas batendo num ritmo impaciente. O relógio barato no pulso fazia tic-tac insistente, marcando o tempo da hesitação. — O senhor não ouviu isso de mim — murmurou, enfim —, mas… chegou uma menina, sim. Jovem. Pele lisinha demais, olho parado. De laje. Bota isso aí. As palavras dela puxaram imagem direto da minha cabeça. Laje molhada, cabelo grudado no rosto da menina, as unhas com um brilho estranho de festa interrompida. — Quanto tempo ela ficou aqui? — Pouco. — ela continuou — Não deu meia hora. Médico bateu o olho, mexeu no pescoço, olhou pupila. Jogou o jargão: “sem sinais vitais, trauma crânio-encefálico, óbito constatado”. Eu mal tive tempo de pegar ficha. — E mesmo assim não tem registro? Ela esticou o indicador até quase encostar na tela apagada, como se pudesse tocar a memória ali. — Tinha. Eu abri. Escrevi nome: Ana Clara, sem sobrenome completo. Coloquei “queda de altura, laje de residência”. Apertei salvar. O sistema travou. Os olhos dela estreitaram, recordando. — Quando voltou, o campo tava em branco. O médico olhou pra mim e falou: “Deixa quieto. A remoção já tá vindo direto. Ordem”. Aí… aí é aquilo. Quem trabalha pra não ser mandado embora engole. O ventilador fez um barulho mais agudo, como se uma hélice raspasse. Na prateleira, a garrafa térmica tilintou leve quando ela pegou pra encher a caneca. O cheiro de café recém-virado invadiu a sala, forte, concentrado. Ela encheu uma caneca e empurrou outra pra mim sem perguntar. Peguei. O calor do vidro queimou a ponta dos dedos. Não soltei. Deixei a quentura atravessar a pele, subir pro braço, como se aquilo segurasse a cabeça no lugar. — Essa história vai dar problema. — ela falou olhando pro café, não pra mim — Já deu, né. Vi seu rosto na TV quando foi aquele caso do menino. Meu marido disse: “Esse aí não volta mais pra delegacia”. — Voltou pior. — respondi, tentando encaixar humor onde não tinha espaço. — Por que o senhor tá se metendo de novo? Bebi um gole. O café veio amargo, doce demais e queimado ao mesmo tempo. Gosto de coisa requentada, igual lembrança que a gente insiste em revirar. — Porque dessa vez apagaram a menina na minha frente. E eu quero saber quem tá com esse poder na mão. Ela apertou a caneca com força. A cerâmica chiou, pronta pra escorregar. — Poder de apagar é antigo, doutor. Só mudou de jeito. — Mas antes o papel amarelava. Hoje, some. Ela levantou os olhos. Medo morava ali dentro, cavando sombra. A respiração dela encurtou, o peito mexendo menos. — Tem uma coisa. — disse depois de um tempo — Eu não devia, mas… quando a maca passou, a menina deu um cheiro esquisito. Não de cerveja, nem de cachaça. Era um doce estranho. Tipo bala derretida no sol, misturada com remédio. Nunca senti igual. Ficou no corredor. A gente passou pano três vezes e ainda parecia que tinha alguma coisa grudada no ar. Meu estômago virou. O corpo lembrou do brilho azulado embaixo da clavícula da menina, dos pontinhos marcando o pulso. — Você já sentiu isso aqui antes? — perguntei. — Numa ou outra overdose de droga que inventam. Mas esse… não sei explicar. Era como se o cheiro tivesse… novo demais. Forte, sem estar diluído. Ela nem percebia, mas descrevia exatamente o que eu temia. Alguma coisa sendo testada no corpo da menina, ainda sem rótulo. — Você lembra o nome do médico que atendeu? Ela desviou o olhar pro corredor, como se esperasse alguém entrar. — Não caiu na escala de ninguém daqui. — Como assim? — Ele veio com a ambulância. O ar parou um pouco. Até o barulho do ventilador pareceu baixar. — O médico veio com a ambulância? — Foi o que eu falei. Eu tava aqui. Quem sou eu pra inventar? — Descreve ele. Ela fechou os olhos por um instante, puxando imagem lá do fundo. — Branco, uns cinquenta e poucos. Cabelo grisalho bem cortado, pele clara sem marca de sol. Não era médico daqui. Não tinha crachá. Mas falava como quem manda. Quando saiu, entrou num carro preto, vidro escuro, ali na porta da UPA. Nem esperou a maca descer direito. A cena encaixou com uma foto guardada na minha memória recente. Dr. Alcides Rangel, sorriso treinado, jaleco impecável, posando em laboratório brilhante numa reportagem online. Vendedor de promessa de futuro limpo. O coração apertou num compasso mais pesado, pronto pra pancada. — Ele disse nome? — Só falou “doutor Alcides”. Mas não é daqui, não. Médico assim não se enfia em plantão de UPA de graça. O dedo dela batia na lateral da caneca, num tique nervoso. A sala parecia diminuir em volta, cada parede avançando um pouco. O ar, quente demais pra tantas peças soltas, grudava na nuca. — O rabecão veio de onde? — perguntei. — Placa de fora do estado. Eu reparei porque meu cunhado é caminhoneiro. Tinha adesivo de empresa grande. ATLÂNTICO… qualquer coisa. Não lembro o resto. Só sei que não era o carro da prefeitura. ATLÂNTICO VERTICAL. O nome subiu da memória como ferrugem raspando língua. — Você anotou placa? Ela riu, mais presa. — Doutor, se eu ficasse anotando tudo de errado que passa aqui, não trabalhava. Só que… Pausou. A mão rodou a caneca um pouco. — Só que teve uma coisa. Quando abriram a porta do carro pra colocar a maca, veio aquele mesmo cheiro. Forte. Como se o carro estivesse carregando aquilo faz tempo. O café que eu tinha bebido assentou pesado no estômago, virando pedra. — Quando a gente entrou pra limpar, depois que levaram a menina, o pano ficou pegajoso. Nunca vi desinfetante não dar conta. Fechei a mão sobre a mesa, os nós dos dedos esticando. A textura lisa do tampo, meio grudenta, lembrou luva de látex puxando pele. O corpo pedia pra bater, a cabeça insistia em manter o passo. — Tem câmera nesse corredor? — perguntei. — Tinha. Semana passada, queimou. Tão esperando vir alguém consertar. — E na entrada da UPA? — Também queimou. A mesma descarga. Foi o que disseram. Reconheci o som. Mentira institucional tinha tom próprio, um “foi o que disseram” colado no final. Levantei da cadeira. — Vou precisar do livro físico de ocorrências. Ela quase deixou a caneca escorregar. — O senhor quer que eu morra antes da hora, é? — Livro é prova. Se não tem digital, tem papel. O olhar dela foi pro armário trancado. A chave pendurada num cordão batia no jaleco dela, um toque leve a cada movimento, quase um aviso. Os ombros cederam um pouco. — Se eu abrir esse armário, o senhor leva o quê? — Foto. — respondi rápido — Não tiro nada daqui. Só registro. Se amanhã alguém riscar, a gente sabe que existiu. Ela se levantou. As rodinhas da cadeira chiaram. Os pés arrastaram no piso, o chinelo de borracha fazendo barulho de sala de hospital de madrugada. A chave tremia na mão quando girou no cadeado. O clique ecoou alto demais na sala pequena. Dentro, pilhas de papel encadernado, capa azul gasta, letras quase apagadas na lombada. O cheiro seco de papel velho, poeira e um restinho de mofo subiu, entupindo nariz. Arquivo que não via sol há muito tempo. Ela puxou um caderno grosso. — Plantão de carnaval. — murmurou — Só que… o senhor sabe. Não é tudo que passa pelo computador que passa pelo livro. E o contrário também. Abriu na data que eu tinha dado. A página estava cheia de nomes, horários, quadros clínicos escritos às pressas. Letras tortas, números correndo. Manchas de café em alguns cantos, marca de dedo em outro. Deslizei o dedo pela página, treinando o olho pra caça-palavra em meio ao caos. Cheguei no horário aproximado. Entre “homem, 34, ferimento por arma branca” e “mulher, 68, dispneia”, havia uma linha mais clara. Um começo de anotação com metade das letras e… nada. Alguém tinha passado borracha ali com raiva. O papel estava fino, quase transparente. Os sulcos dos traços antigos ainda marcavam fundo, mas a tinta tinha sumido. — Aqui. — apontei. Ela mordeu o lábio inferior até deixar marca. Olhou em volta, como se procurasse câmera escondida nas esquinas da sala. — Eu não vi isso. — murmurou. — Mas eu vi. Peguei o celular. A mão veio úmida, o aparelho escorregando um pouco na palma. A luz da tela iluminou o papel com um brilho frio. Apontei a câmera, aproximei. Tirei três fotos, de ângulos diferentes, garantindo. Cada clique soou como tiro abafado num beco distante. Ela fechou o livro rápido, como quem tampa panela antes de respingar. — Se alguém perguntar, o senhor não diga que fui eu. — Pode deixar. — guardei o celular no bolso — Você já arrisca demais todo dia. Ela trancou o armário. O som do cadeado encaixando desceu pesado no estômago. — Doutor… — chamou, quando eu já ia na direção da porta — O senhor vai atrás disso mesmo, né? — Já tô. — Então… cuidado. Tem coisa que, quando mexe, mexe de volta. O jeito como ela segurou a caneca, com as duas mãos, dedos quase brancos de tanta força, dizia mais que o aviso. Aquele café era amuleto, escudo, prece. Saí da sala carregando o calor dela pro meio do morno da UPA. ** O corredor me engoliu de novo. Barulho de gente. Maca rodando rápido. Tosse, choro, chamado de enfermeiro. O ar misturado de desinfetante e gordura de pastel, vindo do trailer lá fora, pesava na nuca, colando o cabelo. Na recepção, a atendente de antes me seguiu com os olhos. — E aí? — perguntou, quase sem mexer a boca. — Aqui nunca veio ninguém, lembra? — respondi. Ela entendeu. Voltou a olhar pra tela, mas o brilho no olho ficou úmido, refreando um comentário qualquer. Na porta, o segurança ainda assistia ao mesmo jogo repetido. A narração gritava gol com entusiasmo treinado, igual voz de propaganda tentando vender milagre. — Já indo, doutor? — ele perguntou, sem tirar o olho da TV. — Já. Empurrei a porta automática. Ela emperrou. Empurrei de novo com mais força, ombro colado. — Aqui tá tudo… normal. O calor da rua bateu no rosto como tapa. Lá dentro a temperatura cozinhava em banho-maria. Aqui fora, o sol fritava sem pena. Cheiro de gasolina, churrasquinho de gato e mar de esgoto aberto vinha em ondas, cada uma trazendo uma lembrança diferente de plantão antigo. Um carro de som passava devagar, vendendo mate e biscoito, a voz de locutor parecendo gravação usada em propaganda de banco, só que ecoando entre prédios descascados. Ao lado da UPA, uma barraca vendia café em garrafa térmica e bolo de fubá cortado em retângulos irregulares. O aroma forte do pó coado na hora brigava com o cheiro de lixo acumulado no canto, numa disputa desigual. A fila era pequena. Dois mototaxistas, uma senhora de avental, um porteiro aproveitando intervalo rápido. Me encaixei ali sem pensar. O corpo pedia cafeína, a cabeça queria qualquer gesto normal pra não desandar. — Preto, sem açúcar. — falei pro rapaz da barraca. Ele encheu o copo de isopor. O vapor subiu grosso, quase visível na luz estourada do meio-dia. O cheiro veio direto no nariz, quente, decidido. — Vai açúcar? — ele perguntou, sacudindo uma latinha de metal. — Assim mesmo. O guardanapo áspero arranhou meus dedos quando ele entregou o copo. O calor atravessou o isopor rápido, lambendo palma, punho, os ossos da mão. O gosto era mais honesto que o da sala da chefe. Forte, simples, sem conversa. Levou a cabeça direto pra madrugada de delegacia: mesa de fórmica, cinzeiro cheio, garrafa térmica descascando. Olhei o celular. Nada da Lívia. Ela tinha avisado que ia entrar na empresa naquele dia, fuçar de dentro o projeto da baía. Eu, do lado de cá, remexendo chão de UPA. Ela, lá em cima, onde o dinheiro nadava. Duas pássaras cutucando o mesmo ninho por lados opostos. Abri as fotos do livro de ocorrência. Ampliei a parte apagada. Os sulcos no papel pareciam arranhão de unha em pele fina. Se eu forçasse a vista, dava pra ver um “A” no começo. Talvez um “na” logo depois. Podia ser tudo. Podia ser “Ana”. Aquele pedaço de papel, quase rasgando, era o rastro mais sincero que eu tinha no dia. Prova de que alguém escreveu. Prova de que outra pessoa gastou tempo e força pra apagar. Não foi falha de sistema. Teve mão ali. Borracha. Intenção. Traguei o café, deixando descer quente demais. A garganta ardia, reclamando. O amargor grudou na língua igual notícia difícil. Uma sirene de ambulância começou a se aproximar. Primeiro fraquinha, lá longe. Depois crescendo, cortando o ar pesado como corte de faca em tecido grosso. O som passou por mim, entrou na UPA, abriu caminho mais uma vez. Por alguns segundos, o barulho vibrou dentro dos ossos. O pulmão esqueceu de encher. Fechei os olhos. Puxei o ar devagar. Deixei entrar raspando, empurrando a sensação de aperto pro fundo. O coração desacelerou, caindo num ritmo conhecido. Ritmo de cena crítica, de guerra antiga, de corpo se preparando sem pedir permissão. A cabeça começou a distribuir as peças, avaliando terreno, marcando onde podia pisar sem explodir. Se apagaram a morte da menina aqui, não era acidente. Era operação. E operação assim não vinha de PM com medo de boletim. Tinha gente grande enfiando dedo no teclado. O carro preto. A placa de fora. O adesivo da ATLÂNTICO. O médico de jaleco limpinho dentro da ambulância. O cheiro doce grudando em corredor, em pano de chão, em porta de rabecão. Linha demais convergindo pro mesmo ponto. Pro elevador escondido na baía. Pro consórcio que prometia pendurar o Brasil lá no alto. Pro meu passado, que continuava acoplado na minha nuca. O celular vibrou na mão. Quase derrubei o resto do café. Número desconhecido. Sem nome, só dígitos frios. “Tem coisa pior que livro apagado. Câmera que mente.” Outra mensagem entrou antes de eu reagir. “Quer ver a laje de novo, Andrade?” O dedo suou na tela. “Quem é?” — escrevi. Os segundos se arrastaram. Gente falando alto em volta virou ruído distante. “Chama de amiga. Hoje eu ainda tô do seu lado.” O link apareceu logo abaixo. Um arquivo de vídeo pesado, barra de progresso demorando a carregar. Não abri ali. O sol estourava na tela, apagando metade da imagem. Gente demais por perto, olho de curioso treinado pra bisbilhotar o que brilhasse. Virei o resto do café de uma vez. A bebida desceu queimando caminho, abrindo trilha até o estômago. Joguei o copo num saco de lixo transbordando ao lado da barraca. A borda suja de refrigerante e casca de fruta engoliu mais aquele pedaço de isopor. Guardei o celular no bolso. O aparelho, leve por natureza, pareceu ganhar peso de ferro. A mensagem não tinha cheiro, não tinha textura. Mas ficava ali, latejando, como explosivo esperando dedo bobo. Se uma câmera podia mentir, um livro podia ser raspado, uma morte podia sumir… que mais já tinham mexido sem ninguém perceber? E, pior, até onde minha própria memória tinha sido cutucada enquanto eu olhava pro lado? Atravessei a rua em direção ao ponto de ônibus. O asfalto quente devolvia calor pela sola dos tênis, subindo pro joelho. O barulho do trânsito, os gritos de vendedor, o chamado de um camelô oferecendo chá frio em garrafa reciclada viraram trilha de fundo, distante. A mão coçou querendo puxar o celular de novo. Abrir logo aquele vídeo. Ver a laje do jeito que alguém queria que eu visse. Eu sabia. Depois do play, não tinha volta. O problema não ia ser só o que aparecesse. Ia ser o que faltasse no quadro. O que tivessem cortado. O ônibus encostou, freio chiando alto, ferro chorando. A porta abriu num solavanco. Gente se apertou pra subir, sacola batendo em ombro, braço procurando apoio. Subi junto. O cheiro de desodorante barato misturado com suor, fritura e um restinho de perfume doce invadiu o corredor estreito. Segurei na barra de ferro. O metal veio quente, um pouco gorduroso de mão alheia. O motor roncava baixo, vibrando no chão, subindo gato pelo corpo. Pela janela, a cidade passava borrada, prédios descascados, fachadas coloridas demais, roupa pendurada, tudo misturado como vídeo acelerado de arquivo antigo. O celular vibrou de novo no bolso. Uma, duas vezes. A laje me esperava. Não mais na lembrança. Em vídeo. Em versão caprichada de alguém que achava que podia dirigir a história inteira. Eu precisava decidir se ia ver aquilo sozinho, trancado num quarto barato com café requentado na garrafa, ou se chamava alguém antes que apagassem mais uma camada da cidade. Por um instante, imaginei descer no ponto seguinte, voltar pra UPA, pedir outro café na barraca e fingir que a vida era esse vaivém morno de plantão e gole apressado. Mas o cheiro doce grudado no corredor da UPA parecia ainda preso dentro do meu nariz. Uma névoa que não achava janela pra sair. A saída, naquele momento, parecia muito mais longe do que qualquer ponto final de ônibus.

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