Capítulo 19: A Boca que Espera
A luz sangrava de paredes cristalizadas. Elara avançou por corredores nunca destinados a pés mortais, e cada passo fazia fraturas de cor desabarem em cascata pelas superfícies que pareciam respirar. O tempo acumulado de deuses mortos pressionava-lhe a pele, espesso e sufocante. Minutos emprestados tremeluziam nas bordas de sua visão, criando ecos de si mesma que percorriam caminhos que ela ainda não tomara — alguns virando à esquerda quando ela virava à direita, outros congelados no meio da passada por obstáculos que não existiam no momento presente.
Um eco virou-se para olhá-la.
Seu rosto era mais velho. Marcado por anos que ela não vivera. Aqueles olhos guardavam um conhecimento que ela ainda não conquistara, e a expressão no rosto daquele eu do futuro não era de esperança.
Ela correu mais.
O trono estava despertando. Ela podia senti-lo puxando seu tempo emprestado como um anzol enfiado através do esterno, arrastando-a rumo a algo que esperara séculos por nova presa. Cassian e Veyrn já estavam a caminho — ela vira seus trajetos nos ecos temporais, dois rios de sangue divino convergindo para um único ponto de fome.
*Não olhe para eles. Não escute. Cada futuro que você vê é uma dívida que vai ter de pagar.*
Três caminhos se dividiam adiante, cada um cintilando com possibilidades cristalizadas. Seu sentido temporal se estendeu instintivamente, roçando futuros que ainda não haviam cristalizado —
Esquerda: um beco sem saída. Paredes desabando para dentro. O próprio corpo dela esmagado sob o peso cristalino.
Centro: as forças de Veyrn. Uma lâmina atravessando suas costelas antes que ela pudesse falar.
Direita: ar aberto. A câmara do trono. Uma chance.
Ela desviou à direita, e os ecos gritaram.
Não era som. Não exatamente. Memória forçada para o presente — impressões fantasmagóricas de conversas que ainda não tinham acontecido, discussões e súplicas e negociações desesperadas vazando através das paredes. O trono chamava qualquer um que pudesse ouvi-lo, e seu tempo emprestado fazia seus ouvidos zumbirem com promessas que não eram destinadas a ela.
*Volte para casa. Volte para casa. Volte para casa.*
O calor se espalhou por seu peito. A voz se enroscou nela como um abraço, densa e próxima. Soava como pertencimento. Seus dedos se contraíram em direção ao corredor à frente antes que ela se contivesse.
Uma mentira. Ela sabia que era uma mentira. O Prime Vellum lhe mostrara a verdade: o trono não oferecia pertencimento. Oferecia digestão.
Seu pé enganchou em alguma coisa. Ela tropeçou, se apoiou numa parede que pulsava de calor sob a palma, e percebeu tarde demais que a superfície cristalizada lhe mostrara outro futuro. No reflexo, Cassian estava sentado no trono. Seu rosto era sereno. Belo.
Então deixou de ser.
Seus traços ondularam como água perturbada por uma pedra, os olhos ficando ocos, a boca se abrindo num grito silencioso enquanto algo sob ele se alimentava.
Três batidas do coração. A visão se desfez. A mão dela tremeu contra a parede, a respiração vindo em arquejos irregulares. O chamado do trono se intensificara; o tempo que ela tomara emprestado esticava contra as próprias amarras, tentando arrebentar e voltar ao futuro a que pertencia.
*Ainda não. Não até você ter feito o que veio fazer.*
Outro eco surgiu ao lado dela — este caminhando para trás, os pés se movendo em reverso, o rosto voltado para algo atrás dela que ela não conseguia ver. Mais jovem do que ela, sem as marcas dos anos que roubara do próprio futuro. Os lábios se mexiam, formando palavras que ela não conseguia ouvir.
Ela não tentou escutar. Correu.
Os corredores se estreitaram. As paredes cristalizadas cederam lugar a algo mais antigo — pedra extraída antes de o panteão se erguer, antes de o primeiro deus reivindicar o primeiro domínio divino. O ar também mudou, perdendo o brilho, tornando-se denso e pesado de divindade acumulada.
Perto. Ela estava perto.
Um santuário de caminho surgiu através de um arco adiante — uma pequena alcova talhada na pedra, contendo uma bacia de água e um manto dobrado. Oferendas para peregrinos que tinham percorrido aquelas passagens quando os deuses ainda se sentavam em seus tronos. Ninguém usava aquele santuário havia séculos; ainda assim, a água permanecia límpida, intocada por poeira ou deterioração.
A passada de Elara vacilou.
Não havia tempo. Cada segundo que ela atrasasse era um segundo em que os sussurros do trono ficavam mais fortes, um segundo a mais para Cassian e Veyrn se aproximarem de cometer o erro que acabaria com tudo. Mas as mãos dela tremiam, o tempo emprestado instável, e ela não podia se dar ao luxo de encarar o que vinha pela frente enquanto o corpo gritava por descanso.
Ela parou.
A bacia estava fria sob os dedos. Ela recolheu água nas palmas e levou ao rosto, ofegando com o choque — limpa e cortante e real de um jeito que nada naqueles corredores tinha sido. Levou embora a poeira do arquivo, o suor da fuga desesperada, a sensação fantasma de futuros pressionando contra a pele.
O reflexo dela a encarou de volta da superfície da água. Mais velha do que deveria. Os anos que tomara emprestado haviam talhado linhas ao redor dos olhos e enfiado fios grisalhos no cabelo. Parecia uma mulher na casa dos quarenta em vez de trinta e poucos, e sentia cada ano roubado na dor das articulações, no peso dos membros.
*Você consegue. Você precisa. Eles não sabem no que estão se metendo.*
O manto novo repousava ao lado da bacia, de tecido áspero e cheirando a ervas. Alecrim. E algo mais antigo sob isso — algo que a lembrava da cozinha da mãe, de pequenos feixes de lavanda seca pendurados acima da lareira, de calor e segurança e de um tempo antes de deuses e tronos e minutos emprestados.
Ela ergueu o manto e o deixou pousar sobre os ombros. Por um único fôlego, não era uma mulher correndo para impedir uma catástrofe. Apenas presente. Apenas limpa. Apenas humana.
Então amarrou o manto e correu.
O corredor final se abriu numa câmara vasta, e o trono se erguia no centro como uma ferida na realidade.
Não era o que ela esperava. Não pedra, nem metal, nem madeira, mas algo que parecia respirar — a superfície ondulando com cores que não tinham nome, as bordas oscilando entre o sólido e o líquido e uma outra coisa inteiramente diferente. O assento se curvava para dentro, à espera de receber, e o ar ao redor dele zumbia numa frequência que lhe fazia os dentes doerem.
Duas figuras estavam de pé em lados opostos do estrado.
Cassian. O rosto voltado para o trono, a expressão presa entre o anseio e o terror. Parecia um homem ouvindo uma canção que procurara a vida inteira, apenas para perceber que era um cântico fúnebre.
Veyrn estava do outro lado, a postura rígida de desprezo e fome em medida igual. A mão já estendida para o braço do trono, os dedos tremendo com o esforço de não tocar.
Os dois se viraram quando ela entrou.
— Elara. — A voz de Cassian se partiu no nome dela. — Como você...
— Pare. — Ela respirava com dificuldade, o tempo emprestado tremeluzindo perigosamente. — Vocês dois. Eu vi o Prime Vellum. Eu sei o que isso é.
O lábio de Veyrn se retorceu. — O bichinho mortal voltou. Que comovente.
— Não é um trono. — Ela deu um passo à frente, forçando as pernas a levá-la mais perto da coisa que puxava seus minutos emprestados. — É uma boca.
O zumbido se intensificou. A superfície do trono ondulou mais depressa, e Elara conseguiu ver agora — a maneira como o assento se curvava para dentro não por conforto, mas por contenção; a maneira como os braços se estendiam não para apoio, mas para restrição. Uma armadilha projetada para parecer uma honra, a mandíbula de um predador disfarçada de assento de poder.
Os olhos de Cassian permaneceram fixos no rosto dela. — O que você disse?
— O panteão não abandonou os seus tronos. — Cada palavra lhe custava. Ela sentia o tempo emprestado tentando estalar de volta, cobrar a dívida. — Eles foram consumidos por eles. O Vellum me mostrou. Cada deus que se sentou aqui foi devorado de dentro para fora. Isso toma a sua consciência, a sua divindade, tudo o que você é — e digere você devagar, ao longo de séculos, usando o seu poder para chamar a próxima vítima.
Veyrn riu. O som era oco, quebradiço. — Mentiras bonitinhas de uma mortal que quer manter a coleira do seu mestre.
— Eu não sirvo a ninguém. — Ela sustentou o olhar dele através da distância impossível. — E você também não vai servir, se tocar nesse trono. Você vai alimentá-lo. É só isso que ele quer. É só isso que sempre quis.
O zumbido do trono mudou. Virou palavras. Não em nenhuma língua que ela conhecesse, mas ela sentia o significado pressionando a mente como um hematoma.
*Volte para casa. Volte para casa. Volte para casa.*
— Ele fala. — A voz de Cassian era pouco mais que um sussurro. — Eu ouvi isso a vida inteira. Achei que fosse o meu direito de nascença me chamando.
— Não está chamando você para governar. — Ela deu mais um passo à frente. — Está chamando você para alimentá-lo.
A mão de Veyrn aproximou-se do braço do trono. Os dedos pairaram a poucos centímetros da superfície, tremendo com o esforço de resistência — ou de antecipação. “Você espera que eu acredite que o trono que chamou todos os reclamantes legítimos por gerações é um… um parasita? Que o direito divino pelo qual eu sangrei é uma mentira?”
“Espero que você acredite nos seus próprios olhos.” Ela apontou para a superfície do trono. “Olhe para ele. Olhe de verdade. Isso parece um assento de poder para você? Ou parece algo esperando para engolir?”
Silêncio.
Então a mão de Veyrn avançou.
“Pare!” Ela não reconheceu a própria voz. O desespero nela era cru, animal. “Se você tocar, está morto. Você não vai sentir no começo — vai achar que venceu. Vai achar que enfim reivindicou o que sempre foi seu. Mas ele vai devorar você por dentro, ano após ano, século após século, até não sobrar nada além de uma casca oca usando o seu rosto.”
Veyrn hesitou. Os olhos oscilaram para o trono, depois de volta para ela, depois para Cassian. Algo em sua expressão mudou — dúvida, talvez, ou o primeiro movimento do medo.
A mão de Cassian começara a se mover. Elara viu aquilo em fragmentos. Os dedos se estendendo em direção ao braço do trono, não em aceitação, mas como se atraídos por uma força contra a qual ele lutava. O maxilar travado. Os olhos cerrados. Mas, ainda assim, a mão avançava, centímetro terrível a centímetro terrível, rumo à superfície que ondulava de fome.
“Cassian.” Ela já corria, encurtando a distância entre eles. “Cassian, não. Por favor.”
“Eu não consigo—” A voz dele falhou. “Eu ouço. Ele vem me chamando a vida inteira. Sabe o meu nome. Sabe tudo o que eu já quis.”
“Sabe como fazer você querer.” Ela o alcançou, agarrou-lhe o pulso, sentiu o tremor percorrendo o braço dele como uma corrente elétrica. “É isso que os predadores fazem. Fazem a presa querer chegar mais perto.”
Os olhos dele se abriram. Encontraram os dela. E, neles, ela viu a guerra — a parte dele que quisera aquilo por tanto tempo, a parte que construíra toda a própria identidade em torno de reivindicar o trono, guerreando contra a parte que aprendera a se importar com outra coisa. Algo que talvez fosse ela.
“Elara.” O nome dela era uma pergunta nos lábios dele. Um apelo. “Se eu não— se eu me afastar, tudo pelo que eu venho lutando—”
“Então você vai estar vivo para lutar por outra coisa.”
O zumbido do trono tornou-se um rugido. Cores espiralavam pela sua superfície, e Elara pôde senti-lo tentando alcançá-la agora — não pelo sangue divino, mas pelo tempo emprestado que a tornara, temporariamente, algo mais do que mortal. Ele a queria também. Queria todos. Estivera faminto por séculos, e agora conseguia farejar sangue.
A mão de Veyrn tocou o trono.
O tempo parou.
A superfície do trono explodiu para fora, não com luz, mas com ausência — um vazio que engoliu as cores, os sons, o próprio ar na câmara. O corpo de Veyrn enrijeceu, o rosto congelado numa expressão de êxtase e terror combinados. A boca se abriu, mas nenhum som saiu.
Então ele gritou.
Não era um som humano. Era o som de algo sendo desfeito, de uma consciência sendo desfiada fio a fio, de uma alma sendo digerida.
A mão de Cassian se fechou em torno da dela. O aperto era esmagador, desesperado. “O que está acontecendo?”
“Está se alimentando.” Ela não conseguia desviar os olhos do corpo de Veyrn, do jeito como a pele dele começava a ficar acinzentada, os olhos a se esvaziarem. “Está fazendo exatamente o que eu disse que faria.”
O grito de Veyrn foi interrompido de súbito. O corpo dele ficou imóvel por um batimento, dois — e então desabou, amassando-se sobre o estrado como um fantoche cujos fios tivessem sido cortados.
Mas algo permaneceu de pé onde ele estivera. Uma forma. Um eco. Uma sombra de Veyrn que não era Veyrn de forma alguma, seus traços borrados e mutáveis, a boca esticada num sorriso que não guardava nada do homem que o havia usado.
O zumbido do trono voltou, mais baixo agora. Saciado.
*Mais*, ele sussurrou. *Mais. Mais. Mais.*
A mão de Cassian ainda estava na dela. Ela podia senti-lo tremendo, sentir a atração do trono tentando puxá-lo para a frente outra vez agora que havia provado sangue. Os dedos dele se apertaram em torno dos dela, e ela não sabia se ele se agarrava para não se mover em direção àquilo ou para não cair.
“Elara.” A voz dele mal era audível. “O que a gente faz?”
Ela olhou para o trono. Para o corpo de Veyrn. Para a sombra que vestira o rosto dele e agora derivava em direção ao assento, fundindo-se com a superfície, tornando-se parte da fome que esperara tanto tempo para ser alimentada.
Não havia volta depois disso. Não havia como fingir que o trono podia ser reclamado em segurança, nenhum caminho adiante que terminasse com um novo deus sentado em julgamento sobre o mundo mortal. A guerra de sucessão nunca fora uma guerra de verdade.
Tinha sido um cardápio.
E o trono ainda estava com fome.
“A gente acaba com isso”, ela disse.
A superfície do trono ondulou. O sorriso do Veyrn-sombra se alargou pela borda, e o zumbido virou um sussurro que rastejou para dentro do crânio dela e fez morada ali.
*Volte para casa*, ele disse. *Volte para casa. Volte para casa.*
Ela apertou a mão de Cassian com mais força, e juntos encararam a coisa que devorara deuses.
Ela estava esperando que decidissem. Elara deu um passo à frente, puxando Cassian com ela, e pronunciou as palavras que encontrara gravadas na câmara oculta do Prime Vellum — as palavras que haviam derrubado impérios antes mesmo de o primeiro deus tomar fôlego.
O trono berrou. Não em palavras, mas num som que rasgou a câmara como se a própria realidade estivesse se rompendo nas costuras. A luz explodiu de sua superfície, derramando-se em Elara, através dela, e ela sentiu cada momento emprestado voltar correndo para cobrar o que era devido. A pele dela repuxou. Os ossos doeram sob o peso dos anos que esperavam para se assentar em seu lugar correto.
Ela desabou de joelhos. As mãos — ela as observou com um horror distante — ficaram finas e gastas diante de seus olhos, veias se erguendo como rios num mapa do tempo que ela tentara superar em fuga.
—Elara… —a voz de Cassian falhou. Ele estendeu a mão para ela, e ela viu o fulgor abandonar-lhe os dedos, viu a divindade escoar do seu rosto como água de um vaso rachado. Ele tombou ao lado dela e, de súbito, era apenas um homem. Nada mais.
A luz do trono vacilou. Falhou. Morreu.
No silêncio que se seguiu, Elara conseguiu ouvir o próprio coração — mais lento agora, mais pesado. O assento diante dela já não respirava. A coroa que cintilara por cima dele dissolveu-se em pó.
Veyrn ficou paralisado, a lâmina retinindo ao cair de uma mão que já não reluzia. —O que foi que você fez?
Os olhos de Elara se fecharam. —Eu paguei. Tudo o que tomei emprestado. Está pago.