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Lendo
O grave do funk golpeava o esterno de Miguel Nunes de Andrade. A vibração não se limitava aos tímpanos; era uma massa física que fazia os dentes chocalharem contra a gengiva. No Baile da Fronteira, o ar possuía a consistência de um xarope denso, saturado de suor humano, cerveja derramada e o rastro químico de solvente. Miguel puxou a aba do boné para baixo, tentando se dissolver na maré de corpos que pulsava sob os estrobos de LED. Paredões de som cuspiam frequências tão baixas que a poeira do chão se erguia em redemoinhos frenéticos.
Ele navegava pela pista com a tensão de um invasor em solo inimigo. Seus olhos, moldados por décadas de plantões e delegacias, ignoravam o brilho das luzes para focar nas fissuras da euforia. Onde a alegria parecia forçada, o problema se escondia. Grupos de jovens exibiam pupilas tão dilatadas que a íris era apenas um aro fino, mas o brilho ali não vinha do ecstasy. Uma luminescência azulada, quase elétrica, vazava pelos poros daquela garotada.
Miguel parou junto a uma mesa de plástico que cambaleava a cada batida do som. A poucos metros, Tuquinho segurava uma lata de cerveja amassada. O homem, um mestre de obras que o sol havia curtido como couro, aparentava cada um de seus cinquenta anos. Miguel o conhecia das manhãs na padaria, onde o sujeito sempre reclamava da lombar travada. Naquela noite, porém, os dedos de Tuquinho tremiam em torno de algo novo.
Uma pequena pastilha azul repousava na palma de sua mão, exibindo o relevo delicado de um anel planetário. O famoso Doce de Saturno. Miguel deslizou entre dois grupos de dançarinos, sentindo o calor das peles suadas roçando em seus braços. Ele se encostou na parede de tijolo aparente, mantendo a voz baixa para que o som não a devorasse por completo.
— Tuquinho? — Miguel tocou o ombro do homem com a ponta dos dedos. — Vai mesmo engolir essa porcaria?
O operário deu um solavanco, quase entornando a bebida no chão. Os olhos injetados focaram em Miguel, mas não havia medo ali, apenas uma esperança desesperada e quase infantil.
— Andrade? Coé, mermão. — Uma risada nervosa escapou pelos lábios de Tuquinho. — A dor tá me matando hoje. Dizem que essa aqui faz a gente esquecer até que o aluguel tá vencido.
— E o resto, Tuquinho? — Miguel estreitou o olhar, a testa franzida. — Dizem que ela apaga muito mais do que a dor física.
O homem deu de ombros, um gesto solto que ignorava a gravidade da situação. Sem pronunciar mais nada, ele jogou a bala azul para dentro da boca e a empurrou com um gole longo de cerveja quente. Miguel permaneceu estático, observando o relógio invisível daquela transformação. O ambiente ao redor continuava um caos de decibéis, mas Tuquinho se tornou o epicentro de algo perturbador.
O suor na testa do mestre de obras adquiriu um brilho metálico sob o neon. O odor de corpo cansado e cimento evaporou, substituído por um cheiro pungente de ozônio e flores de plástico. Um calafrio percorreu a espinha de Miguel. Em tempo real, as rugas profundas que cercavam os olhos de Tuquinho começaram a ceder. A pele esticava, suavizando-se como se um ferro quente deslizasse sobre um tecido amarrotado.
— Como você está se sentindo? — A pergunta de Miguel saiu carregada de uma urgência gélida.
Tuquinho não respondeu. Suas mãos subiram ao rosto, tateando a própria mandíbula com um espanto mudo. Os dedos, antes grossos e marcados por calos de décadas, pareciam perder volume, tornando-se finos e ágeis. O cinza do cabelo retrocedeu, mecha por mecha, enquanto o pigmento negro subia da raiz como uma maré escura.
— Eu... eu tô leve, Andrade. — A voz de Tuquinho subiu um oitavo, perdendo a rouquidão crônica do cigarro. — Parece que arranquei um colete de chumbo que eu carregava desde moleque.
— Tuquinho, olha para mim. — Miguel segurou o rosto do homem, forçando o contato visual. — Qual o nome da sua filha? Aquela que se formou no mês passado?
O homem piscou, as pálpebras agora lisas e firmes. O pânico começou a nublar o brilho azulado em suas pupilas. Ele abriu a boca, mas o som morreu na garganta. Seus olhos vasculhavam o vazio, tentando agarrar memórias que se desfaziam como fumaça ao vento. O rosto diante de Miguel era o de um homem de trinta anos, vigoroso e belo, mas a expressão era de um vácuo absoluto.
— Minha... filha? — O sussurro de Tuquinho foi um esforço hercúleo. — Eu tenho uma filha?
— Você sabe que tem, porra. — Miguel insistiu, sentindo o gosto amargo de bile na boca. — Pensa no rosto dela. Tenta lembrar o nome.
— Não tem nada aqui, mermão. — Tuquinho começou a rir, um som histérico que não carregava um pingo de alegria. — Tá tudo limpo. Como uma casa nova antes da mudança.
Miguel soltou o homem, sentindo uma náusea que subia do estômago. A regressão física era um milagre biológico, mas o preço era o confisco da identidade. Tuquinho florescia ao contrário, voltando a ser um botão enquanto as pétalas de sua história eram arrancadas. Aquele espetáculo de juventude artificial era mais horripilante do que qualquer cena de crime que Miguel já tivesse periciado.
Ele deixou Tuquinho para trás. O homem agora dançava com uma agilidade que seu corpo de cinquenta anos jamais permitiria, um fantasma jovem em uma casca sem passado. Miguel precisava da fonte. Ele seguiu o rastro das trocas rápidas, observando o fluxo do veneno azul. No canto mais sombrio do galpão, perto de uma saída obstruída por engradados, ele avistou o fornecedor.
Era um garoto. Não devia ter mais de doze anos. Vestia uma camisa de time falsificada e mantinha um olhar que flutuava entre o tédio profundo e um transe hipnótico. Miguel se aproximou pelas sombras, movendo-se como uma falha na luz. Quando o menino esticou a mão para entregar um pacote, Miguel deu o bote. Ele travou o pulso do garoto com firmeza, sentindo a ossatura fina sob a pele.
— De quem você pegou isso, moleque? — O rosnado de Miguel foi baixo e perigoso.
O menino tentou puxar o braço, mas Miguel era uma âncora de ferro. A luz de um refletor próximo incidiu sobre o antebraço do garoto, e o mundo de Miguel balançou. Na pele jovem e elástica, havia uma tatuagem desbotada. Letras cursivas, com a tinta craquelada e azulada pelo tempo, típica dos anos noventa. "Ana 1998".
Miguel sentiu o pulso do menino falhar sob seus dedos. Aquela marca não pertencia àquele corpo. A derme era nova, sem porosidade, mas a tatuagem tinha décadas de história. Era como encontrar um fóssil incrustado em um ovo fresco.
— Quem fez isso em você? — A voz de Miguel tremeu, uma nota de pavor escapando pelo controle.
O garoto olhou para a própria tatuagem como se a visse pela primeira vez. Seus olhos rolaram, revelando apenas o branco esclerótico. Ele começou a balbuciar palavras desconexas, um dialeto de memórias que não eram suas.
— O ferro... o ferro tá subindo. — O menino babava um pouco no canto da boca. — O Dr. Rangel disse que o céu é o limite. O elevador não para, tio. Ele só sobe.
— Que elevador? Onde o Rangel está escondido? — Miguel sacudiu o garoto, mas o pequeno entrou em colapso mental.
Antes que qualquer resposta surgisse, a atmosfera mudou. O funk pareceu se distanciar, abafado por uma frequência aguda que perfurava o crânio de Miguel. Pelo canto do olho, ele detectou três figuras se aproximando. Não eram bandidos comuns com correntes de ouro. Usavam paletós escuros sobre camisetas básicas, com o volume inconfundível de coldres sob as axilas. Seguranças da Atlântico Vertical.
Miguel soltou o menino, que desabou no chão, ainda em transe. Enfrentar três homens armados naquele confinamento seria um suicídio coletivo. Sua mente disparou, as peças de sua habilidade se encaixando com um estalo seco. A pressão atrás dos olhos aumentou, a enxaqueca familiar sinalizando que o dom estava pronto para ser drenado.
Ele respirou fundo, concentrando-se no cheiro de ozônio que ainda pairava no ar. Miguel fechou as pálpebras por um segundo e projetou. O grito de "FOGO!" rasgou o baile, mas não saiu de garganta alguma. Foi um pulso auditivo direto nos centros nervosos de quem estava por perto. Simultaneamente, ele teceu a ilusão de fumaça negra jorrando das caixas de som.
O pânico foi um rastilho de pólvora. A multidão, já instável pela droga, transformou-se em uma manada em debandada. Os seguranças da Atlântico travaram, confusos. Eles olhavam para o teto, onde chamas inexistentes pareciam lamber o zinco com um calor que eles jurariam ser real. Miguel aproveitou a brecha. Ele se abaixou, serpenteando entre as pernas das pessoas que corriam.
Para selar a fuga, ele sobrepôs mais uma camada: o som ensurdecedor de sirenes e o clarão de girolflex refletindo nas paredes.
— Polícia! Todo mundo no chão! — Miguel projetou sua voz para que parecesse vir de quatro direções diferentes.
Os seguranças sacaram as armas, mas giravam em círculos, sem alvo. O caos era absoluto. Miguel correu para uma janela basculante nos fundos. Ele sentiu o gosto metálico de sangue; o esforço mental rompia capilares em seu nariz. A luz do baile oscilava, as ilusões piscando como lâmpadas no fim da vida. Ele se impulsionou para fora, caindo em um beco úmido.
A chuva batia contra o asfalto, lavando o calor do baile de sua pele. Miguel não parou. Correu pelas vielas até que o funk fosse apenas um eco fantasmagórico. Cada passo era uma agonia; sua cabeça parecia um motor prestes a fundir. Só parou na avenida principal, onde o carnaval de rua oferecia um disfarce natural.
Pegou um táxi e deu o endereço do esconderijo. Durante o trajeto, manteve a testa colada ao vidro frio. As luzes da cidade passavam como borrões, lembrando as balas de Saturno. Pensou em Tuquinho, jovem e oco. Pensou no menino de 1998. O mundo estava sendo reescrito, e ele era um dos poucos que ainda guardavam a versão original.
Quando chegou ao apartamento no Centro, Miguel mal conseguia coordenar os movimentos. Trancou as três fechaduras com mãos trêmulas. O silêncio do pé-direito alto era opressor. Lívia estava na sala, cercada por telas e plantas técnicas. Ela levantou o olhar, a preocupação vincando sua testa ao notar o sangue no nariz dele.
— Miguel? O que aconteceu? Você está péssimo. — Ela fez menção de se levantar.
— Preciso de um banho. — A voz dele era um lixa. — Depois a gente fala.
No banheiro pequeno, ele se livrou das roupas que cheiravam a desespero. Abriu o chuveiro no máximo, esperando o vapor embaçar o espelho manchado. O jato quente batendo nas costas foi um bálsamo necessário. Miguel apoiou as mãos nos azulejos frios, deixando a cabeça pender. O calor começou a soltar os nós de tensão em seus ombros.
O aroma do sabonete de glicerina, simples e honesto, expulsou o odor metálico da droga. Por alguns minutos, ele se permitiu não ser o ex-detetive. Ele era apenas um corpo buscando alívio. Lavou o rosto repetidamente, tentando apagar a imagem da pele de Tuquinho esticando sob o efeito da química. Ficou ali até que a pele ficasse vermelha, exausto, mas minimamente recomposto.
Ao sair, encontrou uma toalha limpa e uma caneca de café fumegante em um banco. Um pequeno sorriso amargo surgiu em seus lábios. Lívia lia seus silêncios com uma precisão irritante. Miguel se vestiu e voltou para a sala, o café aquecendo suas entranhas.
— O que você viu lá, Miguel? — Lívia perguntou, a voz suave, mas sem rodeios.
— Eu vi o tempo andando para trás, Liv. — Ele se afundou na cadeira de balanço, que rangeu sob seu peso. — Vi um homem de cinquenta anos esquecer a própria filha para ter a pele lisa. E vi um moleque com uma tatuagem feita antes de ele nascer.
Lívia tamborilou os dedos no tablet.
— A droga de regressão. — Ela murmurou. — Os dados que interceptei fazem sentido agora. A Atlântico Vertical não está vendendo diversão. O baile é um laboratório de campo.
— E o elevador espacial? — Miguel apontou para os diagramas na mesa. — O moleque mencionou o Rangel e disse que o elevador não para de subir.
Lívia virou a tela para ele. Mostrava um cilindro complexo se estendendo para além da atmosfera.
— O elevador é o coração de tudo, Miguel. — Ela explicou, apontando para os módulos superiores. — Para estabilizar a fórmula, eles precisam de microgravidade constante. O ambiente orbital permite manipular proteínas sem a interferência da gravidade da Terra. O elevador não transporta apenas carga; é uma fábrica de juventude.
— Uma fábrica que usa a favela como matéria-prima. — Miguel completou, a raiva borbulhando. — Eles testam as versões instáveis no morro, observam os estragos, apagam as memórias e vendem a versão limpa para quem paga em dólar.
— Exatamente. — A ironia na voz de Lívia era cortante. — É o negócio perfeito. Eles criam o problema e vendem a cura, limpando os rastros com a própria droga.
Miguel terminou o café, mas o frio interno permanecia. Lembrou-se do Dr. Rangel na TV, falando sobre o progresso brasileiro. O futuro era um jardim construído sobre o cemitério do passado alheio.
— Precisamos parar isso, Liv. Não é só pela Ana Clara. É pela cidade.
— Eu sei. — Ela concordou, fechando o tablet. — Mas eles controlam a polícia, a mídia e agora a biologia das pessoas.
Miguel caminhou até a janela. No horizonte, a estrutura do elevador cortava a neblina da Baía de Guanabara. Seu celular vibrou. Uma mensagem de número privado. Sem texto, apenas um link criptografado. Miguel clicou.
A imagem era granulada, vinda de uma câmera de segurança antiga. Mostrava o porto do Rio sob chuva. No centro, dois homens conversavam diante de um contêiner azul da Atlântico Vertical. Um era o Dr. Alcides Rangel, mais jovem. O outro homem fez Miguel perder o fôlego.
Era ele mesmo. Miguel Nunes de Andrade, com o rosto liso, sem as cicatrizes de hoje, sorrindo e apertando a mão de Rangel com a familiaridade de velhos sócios.
Miguel assistiu ao vídeo três vezes. Ele não possuía nenhuma lembrança daquele encontro. Nenhuma memória de ter trabalhado para a Atlântico, muito menos de ser amigável com o homem que caçava. Era como se um pedaço de seu próprio quebra-cabeça tivesse sido roubado e substituído por uma peça falsa.
— Miguel? O que foi? — Lívia notou sua palidez.
Ele não respondeu, apenas entregou o aparelho. A chuva lá fora batia com força nas telhas, um tique-taque contando o tempo que ele já havia perdido. A cidade continuava em transe, dançando para esquecer, enquanto Miguel percebia que seu passado era a maior ilusão de todas. O vídeo rodava em loop. O aperto de mão. O sorriso. O contêiner.
— Eles mexeram em mim, Liv. — O sussurro de Miguel falhou. — Eles já estavam lá atrás.
— A gente vai descobrir o porquê. — Ela devolveu o celular com mãos firmes. — Papo reto. A gente queima esse elevador se for preciso.
Miguel assentiu, mas seus olhos permaneciam fixos no vácuo. O mistério não estava mais nas ruas. Estava dentro dele, escondido em camadas de memórias editadas. A noite estava longe do fim, e o carnaval do Rio estava prestes a mostrar sua face mais cruel. Ele não era mais o investigador; ele era a prova do crime.