Okunuyor

Capítulo 5: O Registro das Correntes Submersas

O ruído de fundo da corrente no fone de ouvido zumbia continuamente, como se fosse uma criatura viva. Lu Chenzhou estava sentado em uma cadeira dobrável velha. A tela do laptop à sua frente emitia uma luz branca e fria. O relatório já estava finalizado – o registro da perícia da cena da morte de Shen Yan, na garagem. Cada detalhe estava de acordo com os padrões profissionais da investigação criminal, impecável. Mas ele sabia que não era isso que Gu Zhixing queria ver. Ele pegou o comunicador criptografado preto sobre a mesa. O invólucro de metal era gelado, com pequenos desgastes nas bordas. Tinha sido entregue três dias antes por um jovem de terno e luvas brancas, com a observação "apenas para comunicação de trabalho". Não havia teclado de discagem, apenas um botão verde. Seu dedo pairou sobre o botão. Uma pausa de três segundos. Uma sensação seca e áspera surgiu no fundo de sua garganta, como se grãos de areia estivessem se esfregando. Ele engoliu saliva, mas não adiantou. Lá fora, a cidade gradualmente se esvaía no crepúsculo, as luzes dos carros no viaduto distante formando um rio intermitente de luz. Este ponto de trabalho temporário, na periferia do centro antigo, havia sido arranjado por Gu Zhixing. Era um apartamento de um quarto e sala, com mobília tão simples que beirava a precariedade. A única coisa especial era a conexão de internet – fibra óptica independente, com um roteador de modelo personalizado, sem qualquer identificação de marca no invólucro. "Consultor Lu." A voz de Gu Zhixing veio do fone, clara, estável, sem qualquer ruído de fundo. "O relatório está pronto?" "Está pronto," disse Lu Chenzhou. Ele manteve seu tom no modo profissional, o ritmo de fala constante, cada palavra pronunciada com clareza. "Foi enviado através do canal criptografado para o servidor por você especificado. Além disso, em relação à direção das investigações subsequentes, tenho alguns requisitos para reportar a você." Seu olhar caiu sobre o caderno à sua frente. Na página aberta, havia uma lista escrita por ele a lápis – a caligrafia era organizada, a lógica clara. Mas entre o terceiro e o quarto itens, a superfície do papel estava áspera, marcada por repetidas borrachas. Ali havia sido escrita originalmente outra frase, um pedido de comparação cruzada dos arquivos do caso de incêndio de 1987. Ele a riscou no último momento. O que restava no papel agora era uma "lista de requisitos do consultor" que parecia girar inteiramente em torno do caso de Shen Yan. "Primeiro," Lu Chenzhou começou, sua voz soando particularmente clara no silêncio do quarto. "Preciso acessar os registros de itinerário do jovem Shen Yan dos últimos seis meses. Incluindo viagens de negócios, encontros privados, consultas médicas – todos os deslocamentos rastreáveis, públicos e não públicos. Isso é crucial para mapear sua rede de relações sociais." "Pode ser," disse Gu Zhixing. "Os registros relevantes serão fornecidos após organizados." "Segundo, solicito entrevistas informais com membros centrais da equipe de trabalho subordinada diretamente ao jovem Shen Yan em vida, o número limitado a três a cinco pessoas. As entrevistas serão conduzidas no local por você designado, com gravação de áudio e vídeo permitida durante todo o processo." Um leve som de papel sendo virado veio do fone. Gu Zhixing parecia estar verificando algo. "A lista de nomes precisa ser pré-aprovada," ele disse. "Os arranjos específicos serão comunicados separadamente." A ponta dos dedos de Lu Chenzhou bateu inconscientemente na mesa. Uma vez, duas vezes. O ritmo era leve, mas as juntas dos dedos estavam brancas de tensão. "Terceiro," ele continuou, a sensação de secura na garganta mais perceptível. "Para uma avaliação abrangente das relações sociais e potenciais conflitos do jovem Shen Yan, solicito acesso limitado aos arquivos não centrais relacionados a aprovações de pessoal e projetos dentro do grupo nos últimos três anos com os quais ele esteve envolvido." Ele fez uma pausa. E acrescentou: "Limitado apenas a documentos processuais diretamente relacionados a ele pessoalmente, não envolvendo segredos comerciais ou planejamento estratégico." Ele havia elaborado cuidadosamente as palavras – "arquivos não centrais", "documentos processuais", "diretamente relacionado". Cada termo delimitava uma fronteira segura, tentando fazer o pedido soar razoável, necessário e inofensivo. A "Entendo que seja por considerações de segurança da informação", disse Lu Chenzhou. Ele fez sua voz soar o mais calma possível, até mesmo com um toque de compreensão. "Mas Sr. Gu, se for completamente impossível acessar o rastro do comportamento do jovem Shen Yan dentro do grupo, a investigação provavelmente ficará na superfície. Alguns conflitos potenciais podem estar escondidos nas interações diárias de trabalho." "Respeito seu julgamento profissional", disse Gu Zhixing. "Mas os procedimentos são procedimentos. Este pedido não será aprovado." Quatro palavras, transmitidas pelo fone, comprimidas e restauradas pela linha criptografada, ainda soavam frias como pregos de ferro. Algo afundou no peito de Lu Chenzhou. Não era uma queda súbita, mas um afundamento lento e irrevogável. Ele respirou fundo, o ar entrou em seus pulmões, trazendo o leve cheiro de mofo e poeira característico deste quarto. "Então", ele perguntou, a voz ainda estável, mas o ritmo inconscientemente mais lento. "O que o Sr. Gu considera como informações que estão dentro do meu 'escopo de autorização' e são substancialmente úteis para a investigação?" Isso era uma sondagem. Uma sondagem cuidadosa, nos limites. Gu Zhixing pareceu ajustar sua postura. Um leve som de tecido esfregando veio pelo fone. "Você já obteve os registros de itinerário e a permissão para entrevistas", ele disse. "Isso já é a máxima cooperação que podemos oferecer com base em sua identidade especial. Consultor Lu, por favor entenda, alguns limites não são direcionados a você pessoalmente, mas às regras em si." Lu Chenzhou cerrou o punho sob a mesa. As unhas afundaram na palma da mão, trazendo uma dor aguda. Ele precisava dessa dor para suprimir outra emoção mais avassaladora — a humilhação de ser rotulado na cara, de ser lembrado de que "você sempre será um estranho". O som do tráfego lá fora parecia ter aumentado, zumbindo para dentro, misturando-se com o ruído de fundo da linha. "Entendo", ele disse. Três palavras, sussurradas suavemente, mas cada uma parecia ter sido espremida entre seus dentes. "Além disso", continuou Gu Zhixing, seu tom ganhando um ar mais formal e profissional. "Sobre seu ambiente de trabalho. Considerando a sensibilidade da investigação e os requisitos de confidencialidade, o grupo decidiu designar um assistente adicional para você. Li Ming, chegará amanhã às nove da manhã. Ele será responsável pela coordenação de suas atividades externas, entrega de informações e garantirá que seu ambiente de trabalho esteja em conformidade com os padrões de segurança de comunicação da empresa." Os dedos de Lu Chenzhou pararam sobre a mesa. "Assistente?" "Sim. Afinal, você não está familiarizado com os processos internos do grupo, ter alguém especializado para ajudar pode aumentar a eficiência." Gu Zhixing fez uma pausa. "Além disso, a rede do seu local de trabalho temporário foi atualizada para uma linha criptografada dedicada. A banda larga civil original será desligada às doze horas desta noite. Daqui para frente, todas as comunicações relacionadas ao trabalho devem usar os dispositivos fornecidos a você." Da vigilância invisível e remota, para uma pessoa concreta. Uma pessoa que apareceria pontualmente às nove da manhã de amanhã neste quarto, ficaria ao seu lado, observando cada um de seus movimentos. "Assistente". E a rede — cortar a linha civil significava que até mesmo seu último canal privado e potencialmente não registrado de comunicação externa havia sido removido. O pomo de Adão de Lu Chenzhou moveu-se. Ele soltou o punho cerrado, a palma da mão deixando quatro marcas profundas em forma de meia-lua, lentamente mudando de branco para vermelho. "Mais uma coisa." A voz de Gu Zhixing veio novamente, desta vez com um tom quase gentil, mas por isso mesmo mais arrepiante. "Consultor Lu, você está disponível para vir à sede do grupo agora? Precisamos fazer um relatório de trabalho presencial sobre o relatório preliminar do caso Shen Yan. Além disso, alguns novos arranjos também precisam ser informados a você pessoalmente." Lu Chenzhou levantou a cabeça. Lá fora estava completamente escuro agora, as luzes da cidade formavam um mar difuso de brilho. Seu reflexo no vidro era borrado, distorcido, como outra pessoa presa no espelho. "Agora mesmo", disse Gu Chenzhou. "O carro já está lá embaixo. Carro preto, placa terminando em 337." O olhar de Lu Chenzhou foi para a janela. Na estreita entrada do beco lá embaixo, de fato havia um carro preto estacionado, sem luzes No instante em que a tela se apagou, a última fonte de luz no quarto desapareceu. Ele ficou parado na escuridão, imóvel por alguns segundos. Em seguida, pegou o casaco pendurado no encosto da cadeira — uma jaqueta comum de cinza escuro, com tecido áspero. Vestiu-a, fechando o zíper até a altura do peito. Então, tirou do gavetão o comunicador criptografado e o segurou na mão. O invólucro de metal já estava impregnado pelo calor de sua palma, não mais tão frio. No momento em que sua mão tocou a maçaneta da porta, ele fez uma breve pausa. Do outro lado da porta estava o corredor antigo do prédio. A lâmpada acionada por som provavelmente estava quebrada, deixando tudo em completa escuridão. Ele conseguia ouvir sua própria respiração, que soava nitidamente clara no silêncio. Então, girou a maçaneta, puxou a porta e saiu. De fato, não havia luz no corredor. A escuridão envolvia-o como um fluido tangível, apenas a fraca luz que vazava da janela na curva da escada, originária do brilho tênue do carro estacionado na entrada do beco lá embaixo. Lu Chenzhou desceu os degraus um a um, seus passos ecoando no vazio do corredor, abafados e monótonos. O ar noturno invadia o espaço, trazendo o frescor do início do outono e o odor característico da cidade — escapamento de carros, a fumaça oleosa de uma barraca de comida distante e o aroma de alguma flor desconhecida. O beco era estreito, ladeado por paredes manchadas, com entulhos abandonados amontoados junto aos muros. O motorista desceu do carro. Era um homem por volta dos trinta anos, com cabelo curto militar e trajando um terno escuro. Ele não disse nada, apenas abriu a porta traseira e fez um gesto de "por favor". Lu Chenzhou aproximou-se. Ao passar pelo motorista, sentiu um leve aroma de colônia, misturado com o cheiro de couro novo do carro. Inclinou-se para entrar no banco traseiro. O assento era macio, mas oferecia bom suporte. O interior do veículo estava impecavelmente limpo, o ar impregnado pelo aroma do purificador automotivo — um cheiro cítrico barato de limão. O som da partida do motor era suave, quase imperceptível. O carro saiu suavemente do beco e fundiu-se ao fluxo da via principal. Lu Chenzhou recostou-se no banco, o olhar fixo na janela. A paisagem urbana desfilava rapidamente do lado de fora, as placas de neon formando uma fita contínua de luzes fluentes. Sua mão esquerda repousava ao lado do corpo, os dedos se contraindo e relaxando involuntariamente. Então, no momento em que o carro fez uma curva e subiu o viaduto elevado, ele levantou a mão e, com a unha, cravou-a com força na marca de meia-lua que já existia em sua palma. Ele precisava disso. Precisava da dor para se lembrar de manter a lucidez, para gravar a sensação deste momento — aquela sensação de estar sendo barrado por um muro erguido por procedimentos, regras e por aquelas recusas educadas de "não aprovado". Para lembrar o frio na voz de Gu Zhixing. Para lembrar o que as palavras "assistente" e "linha criptografada" representavam — a gaiola mais rigorosa que se aproximava. O carro acelerou na via elevada, as luzes laterais se transformando em linhas borradas. Mas na escuridão, sua mente já começava a funcionar a todo vapor. Como uma máquina precisa, mas silenciosa, engrenagens se encaixando, rolamentos girando, processando todas as informações recém-obtidas: a razão da recusa foi "procedimento" e "escopo de autorização", e não uma negação direta da necessidade da investigação; a forma específica do aprimoramento da vigilância era "pessoas" mais "tecnologia"; Gu Zhixing exigia um "relato presencial"... E aquele som sutil, quase abafado pelo ruído de fundo da linha, no final da chamada — o som que Gu Zhixing provavelmente fez ao ajustar sua postura e tocar acidentalmente em algo. Ele abriu os olhos. Seu olhar caiu sobre o reflexo no vidro da janela. Um rosto borrado, uma expressão tão serena que beirava o vazio. Mas apenas ele sabia que, sob aquela calma A imagem no espelho foi gradualmente engolida pela fenda da porta, até restarem apenas um par de olhos que, no instante em que a porta se fechou por completo, cintilaram com uma luz fria, quase desumana e afiada. Uma leve sensação de queda livre se fez sentir. O interior do elevador estava tão silencioso que se podia ouvir a própria respiração. Lu Chenzhou ergueu a cabeça e observou os números dos andares pularem: 1, 2, 3... Os dígitos aumentavam de forma estável na tela vermelha de LED. Sua mão direita pendia ao lado do corpo, os dedos batendo levemente na costura da calça. As portas do elevador se abriram. Vigésimo oitavo andar. O corredor era coberto por um carpete cinza-escuro, com excelente isolamento acústico, que quase engolia todos os passos. O ar estava impregnado por um cheiro misto — o odor de couro de móveis novos, a brisa fria filtrada e expelida pelo ar-condicionado central, e um leve traço de desinfetante. As paredes eram de material metálico fosco, com faixas de luz embutidas e rebaixadas a intervalos regulares. A iluminação era uniforme e indiferente, incapaz de refletir qualquer sombra. A porta da sala de reuniões estava entreaberta. Lu Chenzhou entrou. Gu Zhixing já estava sentado na extremidade oposta da longa mesa, com um notebook fino aberto à sua frente e um envelope de papel pardo ao lado da mão. Hoje ele vestia um terno cinza-carvaço, sem gravata, com o primeiro botão da camisa desabotoado, parecendo menos rígido e mais controlado do que pelo telefone. "Consultor Lu, por favor, sente-se." Gu Zhixing ergueu o olhar. Seus olhos por trás dos óculos de armação dourada estavam calmos e imperturbáveis. Ele fez um gesto. Lu Chenzhou sentou-se a três cadeiras de distância dele. A cadeira era de design ergonômico, com um bom envoltório, mas a curvatura do encosto o obrigava a endireitar ligeiramente a coluna. A superfície da mesa era tão polida que refletia as luzes quadriculadas do teto, bem como seu próprio rosto borrado e um tanto tenso. Gu Zhixing dispensou as formalidades. Diretamente do envelope, ele tirou uma folha de papel e a deslizou com dois dedos. O papel deslizou pela superfície lisa da mesa, emitindo um leve som de "sussurro", e parou diante de Lu Chenzhou. No topo, em proeminentes caracteres Song vermelhos, lia-se: "Departamento de Gestão de Assuntos Internos do Grupo Shen Yan — Notificação de Não Aprovação". Abaixo, listavam-se o número, a data e os "requisitos" que ele havia lido ponto por ponto meia hora antes, por telefone. Após cada item, seguia-se uma breve justificativa de rejeição, redigida com uma precisão quase jurídica: "Excede o escopo de autorização do acordo de consultoria", "Envolve informações de gestão interna familiar, conforme Artigo 12, Capítulo 3 do 'Regulamento de Gestão de Arquivos Shen Yan'", "Não é uma etapa diretamente necessária para a investigação do presente caso, podendo afetar a eficiência da investigação". No final, carimbado, estava um selo vermelho vivo: "Selo de Aprovação Especial do Departamento de Gestão de Assuntos Internos do Grupo Shen Yan". O olhar de Lu Chenzhou pousou sobre aquele selo por dois segundos. A borda do carimbo apresentava alguns traços de tinta esborrada, seja por excesso de almofada de carimbo ou por pressão desigual ao aplicar. Um detalhe. Um detalhe irrelevante. A ponta de seus dedos tocou inconscientemente a superfície do papel, transmitindo aquela sensação típica do papel de fotocópia barato — liso mas leve, com um friozinho sutil. "O procedimento é assim." A voz de Gu Zhixing soou, não alta, mas nítida na sala de reuniões excessivamente silenciosa. "Espero que possa compreender." Lu Chenzhou ergueu os olhos. "Compreendo o procedimento," disse ele, com uma voz tão estável que até a si mesmo lhe soou estranha. "Mas, Sr. Gu, a investigação requer informações. Especialmente informações sobre as relações sociais e potenciais conflitos “Sua autoridade é concedida com base na identidade de ‘Consultor Especial’ aprovada pelo Sr. Shen Moqing.” Gu Zhixing falou lentamente, articulando cada palavra com clareza. “Ela permite que você forneça assistência profissional na investigação do infeliz incidente do jovem mestre Shen Yan, dentro do escopo designado pelo grupo. Para garantir que seu trabalho possa ser realizado com mais eficiência e segurança...” Ele fez uma pausa e tirou outra folha de papel impressa da pasta de documentos. Desta vez não a empurrou para frente, apenas a segurou nas mãos. “O grupo designou um assistente para você. Li Ming. Amanhã às nove da manhã, ele comparecerá ao seu local de trabalho temporário para se apresentar.” O olhar de Gu Zhixing pousou no papel, como se estivesse lendo um arranjo de pessoal comum. “As responsabilidades de Li Ming são auxiliá-lo no coordenamento de trabalho externo, na transmissão e entrega de informações com a polícia e dentro do grupo, e garantir que seu ambiente de trabalho atenda aos padrões de segurança de comunicação da empresa. Ele acompanhará todas as suas atividades de investigação subsequentes.” A respiração de Lu Chenzhou ficou mais pesada. Não era um suspiro, mas algo pesado que pressionava seu peito, tornando cada inspiração lenta e trabalhosa. Ele sentiu a garganta apertar, como se todo o líquido tivesse sido sugado por aquele vento frio e seco. “Além disso,” Gu Zhixing colocou o papel de lado e olhou para ele. “Por considerações de segurança, a linha de internet civil do seu local de trabalho temporário será desligada antes das seis da tarde hoje. O grupo instalará equipamentos de rede criptografados dedicados para você, garantindo a segurança na transmissão de todos os dados relacionados à investigação. Seu telefone pessoal pode ser mantido, mas se precisar entrar em contato com pessoas externas não relacionadas ao caso através de canais não criptografados, é aconselhável informar Li Ming com antecedência, para evitar mal-entendidos desnecessários.” Cada palavra estava envolta em um pano macio, mas dentro havia blocos de ferro duro. Os dedos de Lu Chenzhou apertaram-se sob a mesa. As unhas pressionaram as palmas das mãos, transmitindo uma dor surda e clara. Ele precisava dessa dor para conter aquela coisa ardente que fervia em seu estômago. Aquela coisa se chamava raiva, se chamava humilhação, se chamava o mesmo sentimento gelado de impotência que sentiu dez anos atrás, ao assinar seu nome na sala de interrogatório. Mas seu rosto não mostrava nenhuma expressão. Apenas baixou o olhar mais uma vez para aquele “Aviso de Não Aprovação”. O carimbo vermelho parecia um olho indiferente, observando-o. “Entendo,” disse Lu Chenzhou, sua voz ainda calma, até um pouco mais calma do que antes. “Cooperarei com os arranjos da empresa.” Ele disse “empresa”, não “Família Shen”. Um corte pequeno e inconsciente. Gu Zhixing pareceu acenar com a cabeça, ou talvez não. Ele levantou a mão e olhou para o relógio de pulso, um gesto muito natural. “Sobre a inspeção do local do caso de Shen Yan, o consultor Lu tem alguma descoberta adicional ou inferência preliminar?” Ele perguntou, seu tom voltando ao canal profissional. Lu Chenzhou não respondeu imediatamente. Aquela coisa ardente em seu peito fervilhava, procurando uma saída. Não podia ser emoção, não podia ser questionamento. Tinha que ser outra coisa. Ele lembrou da frase de Gu Zhixing no telefone, “eficiência da investigação”, lembrou desse pedaço de papel leve carimbado com vermelho, lembrou da sombra que chegaria em breve, chamada “Li Ming”. Então, ele falou. O tom era tão calmo que beirava a frieza, como se estivesse discutindo um parâmetro técnico que não lhe dizia respeito. “Sr. Gu, na noite da morte do jovem mestre Shen Yan, os registros do sistema de segurança da sede do grupo, especialmente os registros de controle de acesso e câmeras do andar onde ficava seu escritório, os dados originais já foram selados?” Ele fez uma pausa, deixando a questão pairar no ar silencioso por meio segundo. “Ou será que, no processo de ‘migração digital de arquivos’ que o grupo está atualmente promovendo, o acesso a esses dados centrais de segurança também enfrenta restrições ‘processuais’ semelhantes?” Ele conseguiu o que queria — não a resposta, mas a reação. Aquele instante de congelamento, como o ponteiro de um instrumento de precisão que dá um salto repentino no mostrador e depois retorna a zero, provava que ele havia tocado em uma peça real, com substância. Também provava que as palavras no canto do relatório que ele espiara não eram insignificantes. Ele se levantou. "Se não há mais nada, vou voltar para preparar a transição", disse, usando a palavra "transição", referindo-se ao ainda desconhecido "Li Ming". Gu Zhixing também se levantou, acenando levemente com a cabeça. "Trabalho árduo. Li Ming o levará amanhã para conhecer os novos equipamentos de comunicação e o fluxo de trabalho." Lu Chenzhou virou-se e caminhou em direção à porta. Seu passo era estável, nem rápido nem lento. O olhar fixo à frente, percorrendo as paredes metálicas brilhantes, as faixas de luz rebaixadas, a grande mesa de escritório atrás de Gu Zhixing. Justamente no momento em que seu olhar estava prestes a passar pela ponta da mesa, ele viu. A pasta de documentos que Gu Zhixing havia deixado ali antes, casualmente, tinha o zíper lateral não totalmente fechado, revelando a borda superior de uma pilha de documentos. No topo estava um relatório interno, o papel era azul claro, um pouco mais estreito que o A4 comum. Na barra de título do relatório, algumas palavras em negrito saltaram para seu campo de visão: **[Relatório de Progresso do Projeto de Migração Digital de Arquivos do Grupo Shen Yan (Fase 1)]** Abaixo parecia haver uma linha de letras menores, não dava para ver tudo, mas algumas palavras o prenderam — "documentos históricos remanescentes", "classificação e disposição", "revisão de permissões". O tempo provavelmente só permitiu aquele rápido olhar. Seu passo não hesitou nem um pouco, nem mesmo diminuiu um centésimo de segundo. Mantendo a mesma cadência, ele estendeu a mão, agarrou a maçaneta de latão gelada, puxou, e saiu. O corredor continuava vazio e silencioso. A porta atrás dele fechou-se suavemente, isolando o ar seco e frio da sala de reuniões e o possível olhar de Gu Zhixing. O elevador ainda estava esperando naquele andar, a porta aberta, como se nunca tivesse se movido. Lu Chenzhou entrou, pressionou o botão do térreo. A porta do elevador fechou-se lentamente, a parede interna de metal refletindo sua imagem borrada, ereta, com expressão inexpressiva. No exato instante em que a fresta da porta estava prestes a se fechar completamente, de costas para as possíveis câmeras, sua mão direita pendia ao lado do corpo, e com a unha do polegar, ele pressionou com força na palma da mão esquerda. Uma dor aguda explodiu, clara, específica, como um raio cortando os pensamentos confusos. "Migração digital de arquivos (Fase 1)". "Documentos históricos remanescentes". "Classificação e disposição". "Revisão de permissões". Essas palavras, junto com a marca de pressão na palma da mão que desaparecia rapidamente mas ainda latejava, foram gravadas por ele no fundo da memória através da dor. O elevador começou a descer, uma leve sensação de queda envolvendo-o. A cabine metálica emitia um zumbido baixo, abafando o súbito aceleração de seus batimentos cardíacos. Ele fixou os olhos nos números dos andares que mudavam constantemente, o olhar gelado. Controle de acesso. Câmeras. Dados originais. Migração digital. Processos. Brechas. Permissões temporárias. Fragmentos começaram a colidir, girar, nas cinzas da raiva reprimida e da humilhação, tentando se encaixar em outra forma. Uma forma mais oculta, mais perigosa, talvez... a única viável. O elevador chegou ao térreo, um

⚙️ Okuma Ayarları

18px
1.8