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Carnaval é bonito lá de cima. Primeiro aqui de cima do camarote, quero dizer. A lona branca brilhava com os holofotes, luz quente queimando leve a pele, cheiro de vodka cara misturado com suor açucarado de corpo bronzeado e perfume importado barato. A música vinha em ondas, grave vibrando no peito, copo de acrílico batendo em copo, gargalhada passando rente ao ouvido. A cidade lá embaixo parecia outra coisa, um mapa de pontos acesos espichado até o fundo da baía, tudo brilhando úmido, como se o chão tivesse sido recém-lavado. Aqui em cima tinha DJ de boné virado, garçom de luva servindo taça sem olhar pra cara de ninguém, blogueira equilibrada no salto, fazendo vídeo com o spray de glitter desenhando nuvem prateada no ar. Lá embaixo, na boca do morro, o grave do funk batia direto no osso junto com o barulho seco das rajadas mais longe, um tatatá que o som do camarote não conseguia cobrir.
— Miguel, olha lá, vê se aquela galera tem pulseira — o dono do camarote falou, quase berrando no meu ouvido, hálito de uísque caro quente na cara. O pescoço dele suava por baixo da camisa social aberta demais, cordão de ouro colado na pele. Fingi que escutei, rápido. Só balancei a cabeça, mão indo na cintura por reflexo, conferindo o rádio e a arma escondida. As pulseiras piscavam verde na luz vermelha que vinha de baixo, sirene rodando na pista como se fosse efeito de festa. Até rico coberto de glitter percebe quando tem caveirão subindo, o burburinho muda, o riso falha, a conversa cai meio tom. Alguns já empurravam a grade com o peito, celular acima da cabeça, tentando filmar o helicóptero que riscou o céu, farol branco varrendo o morro como se fosse parte do show, como se procurasse palco e não alvo.
O rádio da empresa chiou na minha cintura. O plástico vibrou contra minha camisa molhada de suor. Nem precisei ouvir código nenhum. O som de comandante PM descendo esporro vazava até aqui, aquele tom duro de quem acha que é dono do ar. Quando virei pro lado da favela, vi. Douglas. O moleque disparava morro acima de repente, ombro magro cortando o fluxo de gente que descia, corpo indo contra a maré do carnaval. Camisa branca encharcada grudando nas costas, marcando a espinha, chinelo quase voando do pé a cada passo.
Atrás dele, em silêncio, três silhuetas de colete, arma pendurada no peito, subiam pesado na chuva, bota afundando na água que corria pela ladeira. PM em subida não corre. Sobe empurrando o chão com raiva, cada passo um xingamento. O estômago travou, fez nó rápido, como se alguém tivesse torcido por dentro. Mesmo assim, não tinha salário de camarote que segurasse aquilo. A mão suou na mesma hora, dedo coçando perto da arma que eu fingia não estar carregando.
— Aí, segurança! — a blogueira me cutucou com unha brilhante, ponta dura arranhando meu braço. — Olha o helicóptero, faz eles virem mais pra cá que a luz tá estourando pra selfie.
— Vai na fé, princesa, levanta o braço que ele vem — respondi, sem olhar pra cara dela, a atenção já três becos abaixo.
Soltei o rádio no bolso, deixei regra, contrato e dignidade pra trás encostados na grade. Apoiei a mão no metal gelado, o ferro vibrando com o som, e pulei pro corredor de serviço. O cheiro mudou na hora: o perfume caro ficou lá dentro, aqui embaixo mandava o de chuva batendo em concreto quente, esgoto aberto subindo vapor, fritura velha. O som também trocou. O DJ ficou distante, virou eco abafado. O que entrou foi o grave estourado do baile lá de baixo, sirene azul girando e refletindo nas poças de barro, menino gritando mais longe.
Desci a escadaria lateral quase escorregando, tênis raspando no degrau liso. A arma fria pesava na cintura, metal duro contra a pele, registro vencido, numeração mais suja que eu. Não podia aparecer com ela pra ninguém se achar no direito de revistar. Mas lá em cima ninguém tinha regra pra bala perdida, então por que eu ia ter?
— Miguel, volta aqui! — o dono do camarote gritou atrás, voz misturada com o som do DJ subindo drop. — Qualquer coisa chama a polícia!
Dei um riso sozinho, curto, sem humor. Se ele soubesse.
***
Quando pisei na rua, o chão parecia inclinar de leve pra baixo, a enxurrada levando lata amassada, purpurina derretida, confete, sangue ralo misturado à água suja. A sola do tênis escorregou em algo mole, papel de hambúrguer ou resto de fantasia, não parei pra ver. Gente descia esbarrando, fantasia rasgada, cara borrada de maquiagem, glitter escorrendo pela testa como tinta barata. O cheiro de cerveja velha, suor e desinfetante de banheiro químico vinha em ondas. Alguns insistiam em subir contra o fluxo, olho vidrado, passo torto, louco de bebida ou de ideia ruim.
— Sai da frente, meu irmão! — um cara trombou em mim, latinha esmagando no meu peito, espuma morna estourando no meu pescoço. O cheiro de cerveja se misturou com o de pólvora recente, aquele ácido leve que queima por dentro do nariz. Tentei olhar por cima, mas a massa engolia tudo, ombro empurrando ombro, cabelo grudando na minha cara. Só dava pra ver, de vez em quando, o clarão do holofote do helicóptero riscando fachada, batendo numa parede pichada, escorrendo por janela aberta, depois sumindo mais adiante. Lá em cima, o camarote parecia uma caixa branca limpa, suspensa, separado do resto como se fizesse parte de outro mapa.
— Douglas! — berrei, voz raspando de cigarro velho, já adiantando a bronca que viria depois. — Douglas, caralho!
Nada respondeu. Só batuque, grito, sirene engolindo meu nome. O caveirão apareceu no fim da rua, farol baixo comendo o asfalto molhado, a carroceria pesada se mexendo como bicho cansado. O som de metal pesado passando em buraco velho vibrou nos joelhos, subiu pela canela como choque. Do alto-falante vazou um "recolhe geral" abafado, sem força nenhuma, mas a ordem sempre acha ouvido. O funk baixou de volume por uns segundos, como se tivesse pedido licença, depois subiu de novo, teimoso, roncando por cima da voz da polícia. Carnaval é isso. Cada um aumenta o som que aguenta.
Por um segundo vi o boné de Douglas virando a esquina da viela do tanque, aquele azul desbotado que eu reconheceria em foto ruim. Os PMs atrás, fuzil pendendo, dedo perto demais do gatilho pro meu gosto, nervo à flor da pele. O peito apertou. Não pensei. Fui.
Entrei no fluxo forçando ombro, mão aberta afastando gente, trombada de um lado, xingamento do outro, spray de espuma estourando no meu rosto, ardendo no olho. A chuva lavou na hora, fria, cortando o calor grudado na pele como lâmina gelada. Cheiro de churrasquinho queimado, de cabelo cheio de laquê queimando no ferro, tudo misturado com a fumaça que vinha mais de cima, grossa, densa.
— Miguel, tá doido — resmunguei pra mim mesmo, soltando o ar pela boca. — PM não mira em quem anda certo, mira em quem corre.
E o moleque correndo.
***
A viela do tanque era mais estreita que na lembrança. O corpo quase raspava dos dois lados. Parede descascada, mofo velho fazendo desenho, fios cruzando lá em cima, linha de varal passando por cima, roupa encharcada pingando direto na minha cabeça. A água batia no couro do pescoço gelando tudo. Do lado de fora as luzes de pisca-pisca de uma barraca de cerveja tremiam com o vento, cor vermelha, verde, azul, se embolando e batendo refleto numa poça marrom no chão. O barro chupava o tênis a cada passo.
Douglas tava encurralado no meio, costas coladas na parede, ombros levantados, peito subindo rápido, puxando o ar como se não desse tempo. Os olhos rodavam, procurando saída onde só tinha tijolo. Os três PMs se aproximavam devagar, formando meia-lua, coletes brilhando na luz do helicóptero que caía em faixas tortas.
— Encosta, porra! — um deles berrou, voz rebatendo no tijolo molhado e voltando em eco curto. A mão dele apertava o fuzil mais forte do que precisava, o indicador roçando o arco do gatilho.
Minha mão foi na arma por automatismo, dedos achando o cabo frio por baixo da jaqueta. Parei no meio do gesto. Se puxasse, virava alvo igual, nem dava tempo de explicar carteira vencida e história ruim. Ex-Civil sem colete no meio de operação é corpo neutro pro IML, sem nota no jornal. A respiração veio pesada, o peito ardendo. A têmpora latejou. Um zunido fino começou no ouvido, quase escondido pelo grave do funk, mas estava ali, insistente, como mosquito preso na cabeça.
Luz sempre ajudou. Desde novo. Em todo canto. Olhei pro poste no fim da viela. A lâmpada amarela oscilava no vento, molhada, fio chiando baixo num ritmo constante. Foquei ali, fixo, como se mirasse de verdade. Deixei o resto virar figura de fundo. Sirene virou ruído distante, as vozes dos PMs se afastaram um pouco, mergulhando.
Só fiquei com a luz.
Puxei ela mentalmente um pouco pro lado. Coisa pouca. Truque de distração. Um "olha aqui, não ali". A lâmpada vacilou, deu um pulo leve. Piscou três vezes, estourou num clarão branco que lavou a viela inteira de repente, apagando sombra antiga. As sombras dos PMs se alongaram pro lado errado, se desenrolando na parede como gente correndo pra outra direção, outra rua.
— Linha três pela escadaria! — minha voz saiu automática, grave de comando de rádio, garganta apertando no tom antigo. — Recua, recua, recua!
Nem precisava ter gritão nenhum, mas saiu daquele jeito, o corpo lembrando da farda sem pedir licença. Os três viraram juntos, como se alguém lá de cima tivesse puxado cordinha. O olho grudou na sombra longa que parecia um grupo subindo pela escadaria, mais pra cima da viela. Fuzis acompanharam as silhuetas tortas na parede, não o garoto real na frente deles.
— Direita é fogo — falei, baixo, só pro Douglas, a boca quase sem mexer. — Esquerda tem saída pro tanque. Vai, moleque.
Ele me viu por cima do ombro, rápido. Olho preto arregalado, pupila dilatada, boca entreaberta, o peito chiando, barulho de mangueira furada tentando segurar pressão demais. O olhar cruzou o meu por um segundo, pergunta e medo no mesmo brilho.
— Vai — repeti, mexendo só os lábios, o queixo indicando de leve.
Douglas disparou pra esquerda, corpo raspando na parede, mão agarrando uma caixa d’água verde pra não cair, escorregando mas indo, sumindo por trás de uma pilha de telha velha. Os PMs ainda olhavam pro outro lado, sombra correndo parede acima, ruído inventado de passo na água que eu quase podia ouvir também. A chuva engrossou, gotas maiores batendo com força, como se tivessem aberto torneira lá no céu sem pensar na conta.
Por um momento, funcionou. Quase bonito. Quase leve.
***
Poderia ter parado ali. Tinha tirado o moleque da linha, pelo menos naquele minuto. Era só voltar pro camarote, inventar qualquer história de confusão lá embaixo pro patrão, fingir que a noite continuava igual. Mas o ar mudou. Um cheiro diferente cortou o de esgoto e churrasco queimado: algo metálico, frio, como quando a gente encosta a língua numa pilha velha. O zunido no meu ouvido subiu alguns tons, virou pressão pesada, deu a impressão de que o morro inteiro prendeu a respiração de uma vez. As folhas do único pé de árvore no beco pararam de se mexer, mesmo com a chuva descendo reto.
Devia ter entendido naquela hora. Não entendi. Achei que dava pra puxar mais um pouco, ajeitar o quadro. Costumo fazer isso. Há anos mexendo no foco dos outros, virando cara pra um lado, luz pro outro. Fechei a mão no ar, dedos dobrando como se segurassem alguma coisa invisível. Quis espalhar. Desta vez quis que os PMs vissem uma equipe deles vindo pelo flanco, lá pela escadaria de cima, pra cortar a sanha. Quis que os moradores, quem tivesse enfiado olho na fresta da janela, enxergassem rota de fuga onde só tinha parede úmida.
Botei força demais.
O clarão do helicóptero desceu mais um palmo, o feixe rasgando o ar molhado e pegando em cheio na minha cara, esquentando a pele molhada, ardendo na pálpebra. Nessa hora puxei tudo: luz do poste, sirene azul refletida na água, pisca-pisca da barraca, farol do caveirão lá embaixo, até a claridade da TV aberta ligada numa sala qualquer. Deixei o beco virar um corredor de claridade torta, tudo enviesado.
O ar cheirou a ozônio, aquele cheiro de fio queimando antes de apagar. As gotas pesaram, caindo mais devagar, parecendo granizo mole. As paredes pareceram chegar um pouco mais perto, como se o cimento tivesse inchado. O zunido virou ronco surdo, igual despressurização de avião. Meus ouvidos estalaram, som abafado por dentro, e precisei pisar firme pra não balançar.
Ouvi primeiro.
— Olha ele. — Voz de mulher, de algum lugar acima, rasgando a claridade. — Ele voltou.
Voltou quem? A pergunta subiu até o céu da boca e ficou presa, pesada, com gosto de ferrugem. O coração bateu um pouco fora de compasso. Um dos PMs virou o rosto pra mim. O olhar atravessou minha jaqueta, não me viu. Ou viu outro. O corpo dele endireitou num gesto automático de continência torta, mão indo à testa como se tivesse boné, mesmo sem boné nenhum. O queixo levantou meio centímetro, postura de "ordem recebida".
Mais longe, na sombra da porta de uma casa, um homem magro, sem camisa, pele brilhando de chuva e suor, apontou pra mim com o queixo. Os olhos dele abriram num ódio que não tinha nascido naquela noite. Era ódio antigo, de foto que ninguém mostra, de nome que não se fala mais.
— É ele mesmo. — A voz saiu da garganta desse cara, rouca de cigarro e mágoa. — O desgraçado.
Não sou ele, pensei. Nunca usei aquela patente. Só o erro. O erro, sim. Mas ninguém ali escutava o que vinha da minha cabeça. Escutavam só a imagem que eu tinha puxado sem querer.
***
Dei mais dois passos na viela e cada um parecia pesar o dobro. O chão puxava minhas botas pra dentro, como lama invisível. A coluna reclamou, o ombro endureceu. A mão subiu num gesto que eu não planejei, palma virada pra frente, dedos abertos, jeito de quem manda parar, avançar, recuar com um movimento só. Era gesto de comando, hábito antigo gravado nos músculos.
— Por aqui! — tentei gritar pra chamar Douglas, que já sumia por trás das caixas.
Outra coisa saiu. A voz veio com timbre que eu lembrava pouco, mais seco, mais autoritário.
Um clarão de celular acendeu numa laje à direita, lá em cima. Vi só um recorte rápido: menina de short jeans, capa de chuva transparente com brilho, a água escorrendo pelos ombros, cabelo preso num coque malfeito com algumas mechas soltas. O celular na mão, luz virada pro beco, tentando enquadrar helicóptero, PM e a própria cara na mesma tela. Um brilho num dente, talvez piercing. Rosto de dezoito anos, no máximo.
— Filma esse verme, Ana! — alguém atrás dela falou, voz excitada, sem medir palavra.
Lá de baixo, porta meio aberta, sombra recortada na luz amarela, um homem levantou uma arma. Mão tremendo, cano curto, pistola velha com fita isolante na coronha. Pra ele, ali, eu não era ex-Civil sujo de chuva nenhuma. Era outro. Um fantasma de farda antiga que ficou pendurado no morro anos atrás.
Ele atirou pra se defender. Defender a casa, a memória, talvez o filho que dormia atrás. O dedo apertou sem hesitar mais um segundo. Um estampido só, que atravessou o funk, a sirene, o helicóptero e até o barulho da chuva. O som ricocheteou entre as paredes, seco, limpo, um corte. Mesmo com tanta bagunça, dava pra apontar o segundo exato em que o morro inteiro ouviu.
A bala não me achou. Subiu mais alto.
O corpo de Ana Clara — eu só fui saber o nome depois — deu um tranco brusco, como se alguém tivesse puxado os fios dela. O celular voou primeiro, rodando no ar, tela acesa, luz branca girando, refletindo em gota de chuva. Ela tentou se agarrar na beirada de tijolo, dedos raspando, unha riscando o cimento molhado e deixando rastro branco. O chão desistiu dela.
O corpo despencou da laje como se tivessem cortado a corda que segurava. Bateu primeiro no telhado de zinco de baixo, um som metálico oco, o ferro afundando um pouco. Escorregou, quicou no beiral, caiu no chão encharcado da viela. Um baque seco, pesado, diferente do estouro do tiro. A água espirrou, lama subiu, respingos mancharam minha calça.
O grave do funk continuou, teimoso, feliz e ignorante. Um grito agudo atravessou tudo, rasgando a música como faca em pano. Alguém gritou "mataram a menina", a voz rachando. Outros gritos vieram junto, viraram coro, mistura de nome e palavrão.
A boca secou. A língua colou nos dentes. Os dedos formigaram. Meu dedo nunca apertou aquele gatilho. Só meu rosto estava no lugar errado, virado pro ângulo errado.
***
O beco virou formigueiro. Portas que estavam trancadas abriram na mesma hora, trinco batendo na parede. Gente saiu da sombra, uns com celular levantado, outros empurrando com ombro, chorando, xingando, tremendo de medo ou raiva. Uma mulher se jogou pro lado de Ana, joelhos afundando no barro, mão segurando o rosto da menina que jazia de lado, bochecha colada na lama, cabelo grudado no sangue e na água. O perfume doce que ela tinha passado no pescoço subiu no ar, nota açucarada grudenta por cima do cheiro de ferro.
Alguém jogou desinfetante de balde no chão, querendo lavar o sangue, o líquido azul se misturou com o vermelho, cheiro de produto químico queimando o nariz, ardendo. O barro virou pasta colorida.
— Foi ele! — o homem da pistola berrou, ainda com a arma na mão, apontando pra mim, dedo tremendo, olho arregalado. — Ele mandou atirar, porra! Ele que chamou!
Os PMs olharam pra mim como se eu fosse superior. O fuzil de um deles baixou meio palmo, num gesto de respeito torto que eu não tinha pedido. A boca do mais novo quase formou a palavra "senhor". A ilusão ainda grudava na retina deles, no jeito como a luz batia no meu rosto.
— Baixa a arma, cidadão — minha voz saiu de novo no tom antigo, mais grossa, obrigando.
Era pra ter falado "joga isso fora, antes que te matem". A boca escolheu outro texto. O sangue pareceu escorrer inteiro pros pés, deixando as mãos frias, dedos pálidos. A pele arrepiou mesmo com o mormaço grudando a camisa nas costas.
O helicóptero afastou um pouco, barulho diminuindo, mas o farol ainda rodava, pegando pedaço de telhado, de rosto chorando, de lata amassada no canto. Douglas sumiu. Pelo menos isso.
— Abre espaço! — Um dos PMs se abaixou perto do corpo, joelho espirrando lama. A luva de látex foi puxada às pressas, cheia de água por dentro, bolhas escorregando. — Respira? Vê se respira!
O peito de Ana Clara não mexia. O buraco no lado da blusa se enchia de água de chuva, sangue misturado, escuro, transbordando devagar. O cabelo colava na testa, os cílios pesados de rímel derretido.
Alguém esbarrou no meu ombro com força, tentando chegar mais perto. Empurrei de volta, automático, sem olhar pra cara.
— Chama a ambulância, caralho! — a voz de um adolescente quebrou, quase virando choro.
Ambulância vinha. Sempre vinha. Atrás. E o IML sempre chegava pontual, o único que não perdia a hora.
***
Fui recuando devagar, costas encontrando a parede fria. O reboco arranhou minha jaqueta, farelo de cimento caindo na nuca. A cabeça martelava, pulsando atrás dos olhos. A luz parecia forte demais ali, até a lanterna de celular do moleque filmando no fundo do beco incomodava, queimando a retina. Soltei o foco da luz que eu tinha segurado sem querer. Deixei cada claridade voltar pro lugar dela, como se soltasse elástico esticado demais.
Os rostos ao redor mudaram um pouco, expressão trocando, como se tivessem acordado rápido de cochilo pesado. O PM que tava quase em continência me enxergou de verdade pela primeira vez. O olho estreitou. Ali na frente não tinha comandante nenhum, só um cara de jaqueta velha, barba por fazer, olheira funda. Um ex-qualquer.
— Quem é você? — ele perguntou, a mão firmando no fuzil, a coronha grudando mais no ombro.
— Segurança do camarote lá em cima — respondi, sem piscar. — Vim tirar um menor daqui antes que virasse alvo.
Não era mentira inteira. Também não era verdade inteira. Ele demorou um segundo me avaliando, medindo minha postura, o jeito de falar, o suor, a lama. A sirene lá embaixo gritou duas vezes, lembrando que o caveirão tava esperando ordem. Tinha protocolo, papel pra preencher, rádio chiando no ombro pedindo andamento de ocorrência.
— Sai da cena, chefe — ele disse, com uma ironia automática presa no canto da boca. — Não inventa moda, não.
Obedeci. Pelo menos dessa vez. Os pés acharam o caminho pra trás sozinhos.
***
Arrastei as pernas de volta pro fluxo, o barulho do morro crescendo em volta, cada som enganchando no outro. Cada passo parecia mais pesado, a sola puxando a lama, o joelho reclamando. A lembrança da mão levantando sozinha, do tiro subindo, do corpo caindo rodava na cabeça como propaganda ruim repetindo na TV de bar.
— Miguel! — um sussurro veio de perto do chão, cortando o resto.
Douglas. Enfiado atrás de uma pilha de engradado de refrigerante, plástico colorido brilhando de chuva, ele parecia ainda menor, encolhido, respiração descompensada. A camiseta colava no tórax fino. O olho arregalado me seguia como se eu tivesse virado bicho estranho.
— Que porra foi aquela, tio? — ele falou, voz baixa, gíria presa no medo. — Você mandando nos cara. E a mina. Cê viu a mina?
— Vi — respondi, duro, a palavra raspando. — E você não viu por pouco. Levanta.
Ele começou a se erguer, joelhos tremendo, e fez menção de ir na direção do beco de novo, o pescoço esticando pra ver.
— Não, Doug. — Segurei o braço dele, dedos apertando firme demais na pele molhada, sentindo o osso por baixo. — Lá não é mais lugar pra você. Agora é lugar de papel e saco preto.
— Mas, mano, a Ana. — a voz dele quebrou no nome, como se a sílaba fosse espinho. — Ela tava ali em cima, na laje. Sempre fica ali filmando, tu sabe. Eu falei que ia buscar cerveja e.
A mão dele tremia, o ombro também, ou era o corpo inteiro vibrando num ritmo próprio. Puxei o garoto pro meu lado, meti ele na minha frente, começando a arrastar morro abaixo contra a maré.
— Depois você chora — falei, seco, sem carinho na voz. — Agora come.
— Comer o quê, cara? — ele bufou, sem entender, tentando soltar o braço. — Cê tá maluco, olha lá pra cima, tão matando geral.
— Fome vem depois do susto — cortei, aumentando o passo. — Se você desmaiar na rua, é mais um corpo pro helicóptero filmar. Vem comigo.
Ele resmungou um "papo reto, mas" que se perdeu no barulho de tiro distante, talvez fogos, talvez não. O coração dele batia rápido, dava pra ver na veia do pescoço. Eu já sabia onde ia. Todo morro tem um buraco onde o barulho entra mais baixo.
***
A birosca ficava dois becos abaixo, numa esquina onde o som do baile chegava abafado, como se viesse de fundo de piscina. A porta de ferro tava meio fechada, só uma fresta aberta, luz amarela vazando, tentando segurar o mundo de fora do lado de lá. Empurrei com o ombro, metal rangendo, cheiro velho escapando.
Lá dentro, o ar era pesado, quente. Cheiro de feijão gorduroso, linguiça fritando no fogão de boca azul, óleo antigo saturando tudo. O vapor subia, encostava no teto e fazia um halo em volta da lâmpada amarela pelada, vidro sujo. Um rádio velho chiava um samba-enredo de ano atrasado, bem baixinho, como se tivesse vergonha de conversar com o funk do lado de fora.
— Já fechou — a dona do bar falou sem tirar o olho da TV pequena que passava desfile antigo, imagem granulada, luz estourada. Ela repousava o cotovelo no balcão engordurado, cigarro apagado esquecido num canto.
— Dois PF e uma cerveja — respondi, puxando dinheiro molhado do bolso, cédula murcha colando uma na outra.
Ela levantou o olhar devagar, varreu minha cara, a do moleque, o sangue escuro respingado na minha calça que não era meu. Voltou pro dinheiro. A mão dela vacilou um segundo, depois pegou as notas, dedo áspero arrumando tudo.
— Senta lá atrás — apontou com o queixo pra um canto. — Que hoje o movimento tá do cão e eu não tô a fim de polícia nesse balcão.
— Tô aposentado — murmurei, mais pra mim do que pra ela, puxando Douglas pelo ombro até uma mesa de fórmica encostada na parede. O ventilador no teto girava devagar, cuspindo vento morno que só mexia o cheiro.
Douglas caiu na cadeira, o corpo afundando como se as pernas tivessem finalmente lembrado da gravidade. Os dedos dele batiam na borda da mesa, ritmo rápido, trêmulo. Sentei de frente, costas viradas pra porta, hábito antigo que nunca aposentou. O barulho de fora ficou filtrado, como cobertor puxado sobre a cabeça, as sirenes virando zumbido de longe.
A quentinha chegou rápido. Alumínio amassado, tampa de papel já manchada de molho, a mão da mulher segurando firme pra não queimar. Quando ela puxou a tampa, o cheiro tomou o ar de vez. Feijão preto grosso, arroz soltinho, linguiça tostadinha, um ovo frito com gema quase dura tremendo, gordura brilhando. Um resto de farofa grudou na tampa, caindo no caminho.
— Come, moleque — empurrei a quentinha na direção dele, o alumínio raspando na mesa. — Culpa no estômago dói menos com feijão por cima.
— Não tô com fome — ele soltou, automático, a voz ainda fina, frase de quem perdeu apetite junto com o chão.
Peguei meu garfo, enfiei no arroz e no feijão, botei na boca. O calor bateu primeiro na língua, depois desceu, esquentando o peito por dentro, espalhando um peso bom. A gordura da linguiça grudou no céu da boca, sabor forte, real demais pra noite que eu tinha na cabeça.
— Fome vem depois — falei, de boca cheia, sem vergonha. — Mas se você não der nada pro corpo agora, as mão vão continuar tremendo até amanhã. Confia em quem já correu de fuzil demais.
Ele me olhou com desconfiança, a testa franzida, depois com curiosidade cansada. Por fim pegou o garfo. A primeira garfada quase escorregou da mão, de tão mole que o punho tava. Ele enfiou a comida na boca e mastigou rápido, como se o medo pudesse engasgar junto com o arroz.
— Tá salgado — comentou, sem levantar o olhar, boca ainda trabalhando.
— Melhor que muito buffet de formatura de delegado que eu já fui — respondi, limpando o molho com o pão, lembrança amarga esbarrando.
Um canto de boca dele puxou pra cima, involuntário. Riso pequeno, culpado, quase um espasmo. A cerveja chegou quente, garrafa suando pouco, rótulo começando a descolar na beirada. Servi pra mim, um dedo pro garoto, a espuma marcando o vidro.
— Não bebo — ele disse, segurando o copo como se fosse prova.
— Hoje bebe. Só um gole. — Empurrei o copo pela mesa, a base deixando trilho brilhante. — Pra tirar o gosto de pólvora.
Ele levou o copo à boca, as duas mãos em volta do vidro. O gole foi mínimo, mas o rosto fez careta de adulto tentando parecer firme.
— Mano. Cê viu a cara dela? — sussurrou, olhos perdidos num ponto qualquer da mesa. — Parece que. Sei lá. Não parecia. Velho, tava estranho. Ana sempre teve cara de novinha, né. Hoje tava. Diferente.
Engoli metade do meu gole. A cerveja desceu amarga.
— Diferente como? — perguntei, fingindo desinteresse, mexendo na minha quentinha com o garfo, espalhando o feijão.
Ele tentou achar palavra, o olho procurando no teto. O rádio no canto entrou num chiado mais forte, a voz do cantor sumindo quase inteira, depois voltando de leve. O ventilador estalou, uma das lâminas batendo em alguma coisa solta.
— Sei lá, tio. — Douglas passou a mão na testa, arrastando suor e água, deixando rastro brilhante. — Tipo. Ela é nova, tá ligado? Mas hoje tava com. Cê sabe quando a luz pega e parece que a pessoa é mais velha? Tipo isso. Um bagulho no olho. Na testa. Não sei explicar.
A palavra "luz" bateu e ficou.
Antes que eu respondesse, a dona do bar passou perto, pano de prato no ombro.
— Cês não viram nada — ela avisou, sem olhar pra gente, o olhar firme na panela. — Nada, ouviram? Que hoje tão catando tudo que mexe. Menor, então. Se for pego, some.
— Tá tranquilo, tia — falei. — Ele tava comigo lá em cima. Fazendo entrega pro camarote. Não é isso, Doug?
Ele assentiu com a cabeça, boca cheia, molho no canto do lábio. A mão já tremia menos. A comida fazia seu trabalho silencioso, puxando o sangue pro estômago, obrigando o corpo a lembrar de digestão, não só de fuga.
— Qualquer coisa a senhora diz que não conhece — completei, olhando pro balcão.
— Isso eu já ia dizer mesmo — ela resmungou, indo pegar mais copos. — Conhecer homem nessa cidade é assinar recibo de problema.
Dei um sorriso de canto. Justo.
Ficamos um tempo em silêncio. Só o barulho da colher raspando o alumínio, o rádio chiando samba antigo, o zumbido do ventilador empurrando calor. A cerveja quente descia arrastando, mas ainda servia pra lavar um pouco o paladar de pólvora e chuva. Lá fora, o helicóptero se afastou pro outro lado do morro. A sirene também foi ficando mais longe, como eco dentro de túnel.
— Vão botar culpa nela, né? — Douglas murmurou, sem me encarar, olhando pro feijão que faltava. — Vão falar que tava com arma, que tava filmando não sei quê, que tava no corre.
— Vão tentar — respondi, repousando o garfo. — É o que sempre tentam.
— E cê? — Ele levantou os olhos, a faca de plástico parada no feijão, mão firme agora. — Tu vai fazer o quê?
Respirei fundo. O cheiro de feijão gordo ainda enchia o ar, mas lá no fundo tinha outro, mais fino, de papel queimando longe. Registro antigo.
— Vou olhar direito — disse, escolhendo as palavras. — Antes que façam a gente esquecer.
Ele engoliu seco, o pomo de adão subindo. Não perguntei se queria entrar nisso. Ainda não. Terminei a minha quentinha, passei o pãozinho no resto de molho, como se pudesse tirar também o que tinha ficado grudado em mim lá no beco. Não sai. Mas engana por alguns minutos.
— Come mais — mandei, empurrando o restante da minha pro lado dele. — Você ainda tem que crescer, moleque. Eu já passei do ponto.
— Tu é velho não, tio — ele arriscou, com a boca suja de farofa. — Só tá. Amassado.
Quase ri alto, um sopro escapou pelo nariz.
— Amassado é copo de plástico. Eu tô é reciclado errado.
O riso dele saiu inteiro dessa vez, curto, meio culposo, mas saiu. O ombro relaxou um pouco. As mãos pararam de bater na mesa, agora seguravam o garfo com firmeza. Quando a quentinha virou alumínio limpo, só com gordura grudada, levantei.
— Bora?
— Pra onde? — ele perguntou, limpando a boca com o dorso da mão.
— Pra casa. A sua. Depois eu subo.
— Tu vai voltar lá pra laje? — Os olhos dele reacenderam o medo.
— Vou.
— Cê é doido.
— Só desempregado. — Puxei uma nota amassada a mais e deixei na beirada do balcão, o papel grudando no tampo molhado. — Se vier polícia aqui, você tava jogando baralho comigo. Entendeu?
Ele assentiu, sério, guardando aquilo como instrução.
Deixei o moleque com a dona do bar segurando a porta com uma mão. Ela me lançou um olhar que dizia duas coisas claras sem falar: "não traz problema de volta" e "se cuidem". Bati de leve na madeira com os nós dos dedos, gesto antigo de quem pede proteção a santo que não atende mais. Voltei pro corredor de chuva.
***
O morro tinha mudado de tom. O som do baile seguia, mas mais distante, como se a música evitasse passar por certos becos. As vozes eram outras: discussão baixa, choro engolido, sussurro de versão sendo montada, boato nascendo. Gente demais calada pra uma noite de carnaval.
Subi mais devagar, sentindo a água fria bater na nuca, escorrendo pelas costas por dentro da camisa. A arma na cintura parecia um pedaço de gelo, pesando torto. Passei pela viela do tanque de novo. O cheiro me acertou antes da cena: sangue, desinfetante, chuva. Três notas e um enjoo.
A fita amarela improvisada com sacola de mercado dava a volta num pedaço do beco, prendendo com nó ruim numa grade torta. Alguns curiosos ainda enfiavam o celular por cima, braço esticado, dedo gordo mexendo no zoom, tentando arrancar imagem que depois ia virar story, legenda de luto. Um PM novo, cara de vinte e poucos, segurava a fita com uma mão e mexia no próprio celular com a outra, provavelmente avisando alguém que o plantão ia varar.
O corpo de Ana Clara ainda tava ali. Por pouco. A pele já começava a esfriar, dava pra ver na forma como a água escorria sem levantar fumaça nenhuma. O plástico preto do saco mortuário estava semiaberto, colando na coxa dela, grudando na pele molhada, textura de borracha contra carne. O rosto ainda de fora, virado pro lado, boca entreaberta, cílios pesados, o rímel desenhando trilha.
Cheguei até onde a fita deixava, meti o corpo como quem conhece o terreno. Ninguém me barrou. Ex-Civil aprende a andar em cena sem acender alarme, sem parecer curioso demais.
— Documento? — ouvi alguém perguntar mais à frente, voz cansada.
Um PM mais velho, olhar apagado de fim de turno, boia no bolso, segurava uma prancheta molhada. Um papel qualquer começava a desmanchar na chuva, letras borrando.
— Achei na bolsinha dela — uma mulher magra, vizinha, entregou um RG com o dedo sujo de farinha. — Ana Clara. Ela mora ali em cima.
O PM bateu o olho, anotou qualquer coisa numa folha já meio mole. Levantou o rosto, conferiu o rosto dela de relance, como quem checa se a foto bate e quer que bata logo. A testa dele franziu um nada, quase não deu pra ver.
Cheguei mais perto, girando um pouco o corpo, encostando no muro pra ganhar visão.
— Dá uma olhada aí — falei, voz baixa mas firme, apontando pro RG com o queixo. — Foto tá antiga, né?
Ele me encarou, mediu de cima a baixo. Tinha aquilo no olho: "esse cara fala como se ainda mandasse alguma coisa". Mesmo com jaqueta surrada.
— E você é quem na cena, parceiro? — perguntou, sem muita vontade de brigar, mais pra cumprir papel.
— Já fui Civil — respondi, sem dar detalhe. — Hoje só curioso profissional.
Ele riu curto, uma fungada. Quase simpatia.
— Aqui tá dizendo trinta e dois anos — comentei, lendo rápido o RG que ele deixou à vista por descuido. — Cara dela é de o quê, dezoito?
O PM voltou a olhar. Desta vez demorou um pouco mais. O farol do helicóptero fez uma passagem rápida, iluminando o rosto dela como flash estourado. Naquela luz dura, a pele parecia mesmo mais jovem que a data escrita. Sem marca, sem ruga, sem o peso que trinta e dois costumam deixar.
— Problema seu agora é descer, doutor — ele cortou, fingindo que não ligou, guardando incômodo pra depois. — O resto é com o sistema.
Sistema. Buraco que engole papel, nome, idade.
O morador mais velho, cigarro apagado pendurado no canto da boca, encostado na porta com o ombro, fingia que não prestava atenção. Mas o olho dele vinha e voltava pro saco, pro RG, pra minha cara, num vai e vem lento.
— A menina não tem essa idade, não — ele murmurou, quase sem abrir a boca, quando passei do lado dele.
— Conhece ela? — perguntei, sem virar todo, só mexendo o queixo.
— Vi nascer. — Ele deu uma tragada num cigarro imaginário, dedo fazendo o gesto completo. — Se tivesse trinta e dois, eu tinha mais. E não tenho.
— Como é que consta aí, seu nome? — tentei me inclinar pra pegar o RG de novo, mas o PM já tinha enfiado no plástico da prancheta.
— Ana Clara de Souza — ele respondeu, sem olhar pra mim. — Nascida em oitenta e.
A chuva aumentou exatamente na hora em que ele ia dizer o ano. As gotas grandes bateram na prancheta, borrando a tinta que já tava fraca. O papel pregou na madeira úmida, as letras escorregando.
— Que merda — ele resmungou. — Depois eu confiro lá no sistema.
Tirou o RG de dentro do plástico sem cuidado, o documento escapando da mão um segundo, quase caindo. Enfiou no bolso da calça junto com um maço de cigarro amassado. Só vi porque tava a dois passos, olho treinado em detalhe.
Um outro PM gritou do lado da viatura, impaciente:
— Vamo, vamo, enrola isso aí. Tem mais ocorrência lá embaixo.
Dois caras do rabecão pegaram o saco pelos dois lados, plástico arranhando no chão. Uma das mãos escorregou, o corpo deu uma balançada dentro, a cabeça de Ana Clara bateu de leve na beirada do degrau. O som foi pequeno, mas nítido, couro contra pedra.
— Cuidado aí, porra — o velho vizinho rosnou, o cigarro caindo da boca pra lama.
Ninguém respondeu. O saco preto começou a descer degrau por degrau, tropeçando no cimento irregular, raspando. A lâmpada do beco acendia e apagava, reflexo deslizando no plástico brilhante, como se ainda tivesse alguém ali embaixo, se mexendo.
A cada degrau, um pedaço dela sumia do campo de visão de quem tava lá em cima.
O PM da prancheta procurou a folha onde tinha escrito alguma coisa. Nada. Revirou as folhas, tirou uma multa velha, um panfleto de candidato, uma folha em branco. A ficha médica que alguém tinha trazido da UPA — eu tinha visto um papel diferente, carimbo azul, idade rabiscada — tinha sumido.
— Não anotou? — falei, casual, encostando o ombro na parede molhada.
— Aqui, ó — ele levantou uma folha em branco, confuso, a caneta escorrendo tinta na mão. — Pera.
Enfiou a mão no outro bolso, revirou tudo. Tirou só um pacote de bala velha e o RG de outra ocorrência. A ficha não tava mais ali. O RG dela também não vi mais. Podia estar em qualquer bolso, em qualquer mão. Ou ter desaparecido entre um passo e outro.
Um moleque filmando do canto murmurou:
— Posta logo, mano, antes que sumam com tudo.
Antes que sumam.
O mal-estar subiu de novo, pesado, vindo do fundo do estômago até a garganta, dando vontade de cuspir a noite. Não era só culpa, embora tivesse isso sobrando. Tinha outra coisa. Como se, quando puxei a realidade pro lado lá atrás, tivesse aberto um rasgo por onde pequenos pedaços de fato escorriam fácil.
Olhei pro degrau onde uma mancha de sangue ainda resistia à chuva e ao desinfetante. O vermelho clareava, indo embora devagar, dissolvendo, fugindo pelo ralo invisível do beco. Se ninguém lembrasse, aquele corpo ia virar estatística nenhuma, número sem papel. Menos que isso: vazio.
O helicóptero afastou de vez. A luz subiu, foi atrás de outro morro, outro problema. O beco foi escurecendo, voltando pra penumbra habitual, lâmpada amarela tremendo no poste, sombra desenhando as mesmas rachaduras de sempre no cimento.
Pouco a pouco o saco preto virou esquina, levando Ana Clara embora sem nome direito, sem idade certa, sem ficha guardada. Fiquei parado mais um pouco, olhos cravados no espaço que ela tinha ocupado. Gravei na cabeça a cara dela, o corte da blusa, o jeito como o cabelo grudava no pescoço, o brilho apagado do brinco na orelha, o cheiro agridoce de perfume barato e sangue lavado.
Ali, naquele pedaço de noite em que a luz tinha errado de alvo por minha culpa, já dava pra saber. Se eu não ancorasse aquela morte em algum lugar, o morro ia acordar amanhã como se nada tivesse acontecido. E a pior coisa que pode acontecer com um morto é virar fantasma sem história nenhuma pra segurar o nome.