Capítulo 16: A Hora Estilhaçada
O Cofre Coração de Pedra não tinha janelas. Elara contava as batidas do coração entre as rondas dos guardas — dezessete, dezoito, dezenove — e o peso acumulado do tempo emprestado comprimia-lhe o peito como água de enchente contra uma represa. Três dias de cativeiro. Três dias observando as próprias mãos tremerem, sentindo os anos que roubara do amanhã roerem-lhe os ossos hoje. A Coroa das Horas tinha sumido. Os soldados de Veyra a haviam levado quando a arrastaram para lá e, sem sua influência estabilizadora, a dívida que ela devia ao próprio tempo começara a render juros.
Ela pressionou a palma contra a porta de ferro frio. Nenhum calor. Nenhuma folga. A pedra úmida deixava o frio infiltrar-se por suas roupas finas de prisioneira e, em algum ponto além das paredes, ela ouviu o tinir distante de uma troca de turno. Dezessete batidas. Dezoito. O guarda do lado de fora da cela pigarreou.
Agora.
Elara estendeu a mão para o tempo do jeito que uma mulher se afogando estende a mão para o ar — e algo se rasgou dentro dela. O empréstimo veio como um soco. Não eram segundos desta vez. Minutos. Ela arrancou cinco minutos inteiros do próprio futuro, e a dívida desabou sobre ela de uma só vez: anos de instantes emprestados exigindo pagamento numa única onda devastadora. Seus joelhos cederam. A visão se estilhaçou em imagens sobrepostas, cada uma fora de compasso por uma batida do coração. A porta de ferro existia em três estados ao mesmo tempo: fechada, abrindo e já aberta. Ela tropeçou através da versão que a deixava passar.
— Cuidado — ela está se movendo!
O grito veio de trás dela, ou à frente, ou de uma versão do corredor que ainda não tinha acontecido. O próprio grito de Elara ecoou de volta, vindo de momentos que ela ainda não vivera. As mãos dela estavam velhas. Depois jovens. Depois velhas de novo, a pele fina como papel e manchada, os nós dos dedos inchados de uma artrite que levaria décadas para surgir no tempo natural. A dívida vencia mais depressa do que ela conseguia pagá-la.
Corra.
O corredor se estendia à sua frente, a luz das tochas gaguejando em ritmos que não faziam sentido. Um guarda ergueu a besta. Ela viu o virote deixar a corda — viu-o congelado no meio do voo — viu-o cravar-se na parede atrás dela. As três versões existiam ao mesmo tempo, sobrepostas como transparências colocadas uma sobre a outra. Elara correu na direção da versão em que o virote errava.
— Não, não, não —
A voz dela vinha de todos os lados. Da frente, gritando. De trás, arfando. Da própria boca no presente, as palavras despedaçadas pelo caos que ela soltara. O chão ondulou. Pedra virou água, virou pedra outra vez, e ela caiu por um instante em que a gravidade esqueceu para que lado apontava. O ombro dela bateu em algo sólido. A dor floresceu, aguda, imediata e real — a única coisa real num corredor que se transformara num caleidoscópio de tempo fraturado.
Ela se pôs de pé cambaleando. O corpo inteiro gritava em protesto, as juntas rangendo como dobradiças enferrujadas, músculos que deveriam pertencer a uma mulher trinta anos mais velha do que ela era. Cada célula do seu corpo estava pagando o preço.
Outro guarda. Outra besta. O virote ficou suspenso no ar diante dela, congelado entre um batimento e o seguinte, e ela buscou mais tempo sem pensar—
O mundo rachou.
O som se estilhaçou como vidro. Elara cambaleou quando o corredor se dividiu em três versões de si mesmo, cada uma ligeiramente fora de fase com as outras. Em uma versão, o guarda ainda erguia a arma. Em outra, ele já tinha disparado. Na terceira, jazia encolhido no chão, inconsciente por causa de um golpe que ela ainda não tinha desferido. O próprio rosto dela encarou-a de volta a partir de um instante fraturado — mais velho, mais jovem, gritando em agonia silenciosa.
Os ecos estavam piorando. Cada empréstimo criava ondulações, e as ondulações estavam virando ondas. Ela não conseguia controlar. O poder que manejara com tanta precisão cuidadosa se tornara algo selvagem, uma fera que mordia a mão que a alimentava. Ela estendeu-se para o instante seguinte e, em vez disso, agarrou um punhado de ontem, a lembrança da voz de Veyra escorrendo sobre ela como óleo.
*"Os documentos trazem a assinatura dele, Archivist. A própria mão de Cassian, ordenando a construção de campos de trabalho. Ordenando os programas de reprodução. Ordenando a subjugação de toda alma mortal que não seja útil ao seu reinado."*
O pé de Elara prendeu numa laje que existia e não existia ao mesmo tempo. Ela tombou para a frente, bateu no chão, sentiu gosto de sangue. Os gritos temporais ressoavam nos seus ouvidos — uma cacofonia da sua própria voz, berros de guardas, o ranger de pedra contra pedra enquanto a própria Stoneheart Vault começava a se desestabilizar.
Levante. Apenas levante, ou você morre aqui.
Ela se forçou a ficar de pé. Os braços tremiam. A visão duplicou, triplicou, mostrou-lhe uma dúzia de versões do mesmo corredor se estendendo em uma dúzia de direções diferentes. As tochas ardiam com intensidades distintas em cada versão, algumas fortes, outras vacilantes, outras já apagadas. Para que lado era a saída? Ela não conseguia lembrar. A planta da Stoneheart Vault existia na sua memória, mas a sua memória existia em fragmentos espalhados pelo caos que ela tinha soltado. Ela buscou o conhecimento e só apanhou pedaços — esquerda na junção, não direita, não reto, não—
Uma mão se fechou em torno do seu pulso.
Quente. Sólida. Real.
A cabeça de Elara ergueu-se num sobressalto. Cassian estava diante dela, os dedos enrolados no braço dela, os olhos encontrando os dela através da cascata de instantes fraturados. Ele parecia errado no caos temporal — estável demais, presente demais, um ponto fixo num mundo que não parava de girar.
“Elara!”
A voz dele cortou o ruído. Ela a ouviu com clareza pela primeira vez desde que o empréstimo começara, ouviu sem os ecos sobrepostos de passado e futuro sangrando para dentro do presente.
“Você—”
Ela não conseguiu terminar. Os documentos. A assinatura. As ordens para a subjugação dos mortais. Veyra lhe mostrara provas, deixara que ela sentisse o Prime Vellum autêntico sob as pontas dos dedos, observara o rosto dela se desmanchar enquanto a evidência destruía tudo em que ela acreditara sobre o homem que agora lhe segurava o pulso como uma âncora.
—Eu sei o que te mostraram. —o aperto de Cassian se intensificou. A voz dele estava baixa, urgente, quase inaudível por cima do uivo do vento temporal. —Eu sei. Mas não agora. Anda.
O corredor atrás dele tremeluzia. Guardas apareciam e desapareciam, congelados em instantes que ainda não tinham chegado a se solidificar. Um virote de besta atravessou o espaço onde a cabeça dele estivera um segundo antes, atravessando um eco como um fantasma. Ele era real. Ele estava ali. E estava estendendo a mão para ela através do fim do mundo.
A mão de Elara tremeu quando ela a ergueu na direção da dele. A dúvida azedou no estômago, espessa e venenosa. A prova de Veyra fora irrefutável. O Prime Vellum não podia ser falsificado. A assinatura de Cassian era autêntica, era real, tinha sido—
Os dedos dele se entrelaçaram aos dela. O contato a sacudiu como um relâmpago. Calor. Pressão. A simples realidade física da pele de outra pessoa contra a sua. No caos do tempo estilhaçado, o aperto dele era a única coisa que fazia sentido.
—O quê… —Ela engoliu em seco. A voz lhe saiu de três direções ao mesmo tempo, sobrepondo-se a si própria. —Como é que você…
—Herança divina tem suas utilidades. —Ele a puxou para ficar de pé, amparou-a quando as pernas dela cederam. —Eu consigo ver as costuras. Os lugares onde o tempo ainda está se mantendo inteiro. Você consegue andar?
Ela não sabia. Não sabia mais nada. O corredor se estendia em direções demais, e o corpo dela parecia pertencer a outra pessoa —alguém velho, alguém morrendo, alguém que pegara emprestado demais e não conseguia pagar de volta.
—O seu poder. —Os olhos de Cassian vasculharam o rosto dela. Na luz oscilante das tochas, as feições dele pareciam alternar entre o homem em quem ela confiara e o tirano que Veyra lhe mostrara. —Você consegue parar isso?
—Eu não… —As palavras se prenderam na garganta. —Eu não consigo…
—Então a gente corre. —A mão dele encontrou a dela de novo, dedos entrelaçando-se, o aperto firme e quente e impossivelmente presente. —A gente corre até isso parar.
Ele a puxou para a frente. Ela tropeçou atrás dele, os pés encontrando apoio num chão que insistia em tentar virar outra coisa. O caos rugia ao redor, mas Cassian se movia por dentro dele como um homem caminhando por uma trilha conhecida em plena luz do dia. Ele via os instantes estáveis, os fios do tempo que ainda não tinham se desfiado, e conduzia-a pelas brechas.
Um guarda se materializou diante deles. Cassian não diminuiu. Deu um passo para dentro de um instante em que o guarda ainda não tinha aparecido e, em seguida, saiu do outro lado, arrastando Elara pela abertura antes que a linha do tempo pudesse se solidificar ao redor deles.
—Como… —Ela não conseguiu formular a pergunta. Os pensamentos se espalharam como folhas numa ventania.
—Limiar. —Ele se abaixou sob uma viga que existia em três posições ao mesmo tempo. —Eu consigo caminhar entre um e outro. Sempre consegui. Só nunca pensei que isso fosse servir para isto.
O corredor se abria numa encruzilhada. A memória de Elara tremulou — ela já estivera ali antes, ou estaria ali, ou estava ali em uma dúzia de momentos diferentes ao mesmo tempo. Os ecos lhe mostravam cem versões do mesmo espaço, cada uma ligeiramente distinta. Em algumas, guardas permaneciam em posição de sentido. Em outras, a encruzilhada estava vazia. Em uma delas, o fogo consumia as paredes.
Cassian a puxou para a esquerda. “Por aqui.”
“Espera —” Ela fincou os calcanhares. O corpo gritou em protesto, as articulações rangendo, mas ela se obrigou a parar. “Os documentos. Veyra me mostrou —”
“Eu sei o que ela te mostrou.” Ele se virou. O rosto estava tenso, o maxilar travado, e naquela luz fraturada ela não conseguiu decifrar a expressão dele. “Eu sei o que você acha que eu sou. Mas, se ficarmos aqui discutindo isso, os laços vão nos apanhar. Vão nos dobrar em momentos dos quais não dá para escapar. É isso que você quer?”
A pergunta ficou suspensa entre os dois. Ao redor, o tempo continuava a se estilhaçar. Um trecho de parede à direita tremulou e sumiu, revelando uma escuridão além — então estalou de volta à existência com tanta rapidez que os olhos dela lacrimejaram.
“Não”, ela sussurrou.
“Então anda.”
Eles correram. A câmara virou um pesadelo de realidades sobrepostas. Os pés de Elara pisavam em pedras que se deslocavam sob ela, em superfícies cuja textura mudava a cada passo. Às vezes, ela se via adiante deles — uma imagem-fantasma, um eco de um momento que ainda não acontecera — cambaleando por um corredor a que eles ainda não tinham chegado. Ela ouviu a própria voz gritando atrás, um aviso ou um grito de dor; ela não sabia dizer qual.
A mão de Cassian não soltou a dela. O aperto era a única constante, a única coisa que permanecia sólida quando todo o resto se desfazia. Ela se odiou pelo conforto que aquilo lhe dava. Odiou a parte dela que queria confiar nele apesar das provas, apesar do Prime Vellum, apesar da assinatura que ela mesma rastreara com os próprios dedos.
Virotes de besta sibilaram, passando por eles. Um atravessou o ombro de Cassian, passando por um eco como fumaça. Outro apanhou a barra da manga de Elara, rasgando o tecido, mas sem atingir a pele. Os guardas atiravam às cegas no caos — e o caos revidava, virotes surgindo do nada, sumindo em momentos que não existiam.
“Ali!” Cassian apontou adiante. Uma porta. Ferro de verdade, madeira de verdade, ancorada num momento que parecia estável. “A muralha externa. Do outro lado, o pátio. Você consegue—”
Uma onda desabou sobre eles.
A visão de Elara ficou branca. Ela sentiu-se cair, sentiu o aperto de Cassian se desfazer, sentiu o mundo se dissolver em mil fragmentos sobrepostos. Ela era jovem. Ela era velha. Ela estava morrendo numa cama que nunca tinha visto. Ela estava de pé num campo de flores, o cabelo grisalho, as mãos firmes. Ela estava gritando num corredor que existia em dezessete versões diferentes ao mesmo tempo.
A dívida. A dívida estava vencendo de uma vez só, exigindo pagamento por cada momento que ela roubara, por cada segundo que tomara emprestado de um futuro que se esgotava depressa.
“—lara! Elara!”
Mãos no rosto dela. Calor. Pressão. Alguém a segurava, ancorando-a, puxando-a de volta da beira do esquecimento. Ela abriu os olhos. O rosto de Cassian veio à tona, nítido, a poucos centímetros do dela. A expressão dele estava tensa, controlada, mas alguma coisa tremeluzia sob a superfície — medo, talvez, ou algo que se parecia quase com preocupação.
— Fica comigo. — A voz dele era baixa. Urgente. — Não deixa isso te levar. Luta.
— Eu não consigo— — A voz dela falhou. — A dívida, ela...
— Eu não me importo com a dívida. — As mãos dele deslizaram do rosto dela para os ombros, apertando com força suficiente para deixar marcas. — Luta. Você já pegou emprestado do seu futuro antes. Você sabe como pagar. Um momento de cada vez. Um fôlego. Fica aqui. Fica agora.
Ela tentou. Tentou se concentrar no presente, na sensação das mãos dele nos ombros, na pedra fria sob os joelhos. Mas o caos continuava a puxá-la, continuava a tentar arrastá-la para os momentos fraturados que giravam ao redor deles como destroços numa enchente.
— Olha pra mim. — A voz de Cassian cortou o ruído. — Não pros ecos. Não pros fragmentos. Pra mim. Eu sou real. Eu estou aqui. Eu vim por você.
Por quê?
A pergunta queimava na garganta, mas ela não conseguiu dizê-la. Por que ele viria por ela? Se ele era o que Veyra afirmava — um tirano à espera, um homem que planejava escravizar mortais no instante em que tomasse o trono — por que arriscaria a própria vida para salvar uma única arquivista que já tinha cumprido seu propósito?
A menos que Veyra tivesse mentido. A menos que os documentos tivessem sido falsificados. A menos que nada fosse verdade anymore, e o mundo tivesse se tornado tão fraturado quanto o tempo que ela quebrara.
— Elara. — A voz de Cassian suavizou. O aperto nos ombros afrouxou, virou algo quase como um abraço. — Eu vim por você. Seja lá o que você acha que eu sou, seja lá o que te mostraram... eu vim por você. Isso tem que significar alguma coisa.
Ela não sabia. Não podia saber. As provas e a realidade existiam em universos separados, e ela estava presa no espaço entre eles. Mas as mãos dele eram quentes. A voz, firme. E, num mundo que não parava de se estilhaçar, ele era a única coisa que parecia real.
— A porta — ela conseguiu dizer. — A gente tem que...
— Sim. — Ele a ajudou a se levantar. O braço dele passou em torno da cintura dela, sustentando seu peso quando as pernas se recusaram a colaborar. — O pátio. Você consegue correr?
Ela não tinha certeza de que conseguia andar. Mas assentiu mesmo assim, porque a alternativa era ficar ali, virar uma peça permanente nos ciclos, um fantasma assombrando um corredor que existia em dezessete versões diferentes ao mesmo tempo.
Eles se moveram juntos. Cassian praticamente a carregou através do caos, sua herança divina permitindo que ele navegasse pelas fraturas com uma segurança que ela não conseguia igualar. Ele encontrou os momentos estáveis, os fios do tempo que ainda se mantinham, e a puxou por eles como um homem conduzindo uma mulher cega por dentro de um prédio em chamas.
A porta apareceu diante deles. Real. Sólida. O ombro de Cassian atingiu a madeira com todo o peso do corpo por trás do golpe, e a fechadura se estilhaçou.
O ar frio da noite atingiu-lhe o rosto. Elara arfou; a sensação foi aguda e límpida depois da proximidade bafienta do cofre. Estavam num pátio, céu aberto por cima, estrelas espalhadas pela escuridão como sal derramado. A distorção ainda grassava em torno da entrada do cofre, mas ali — ali, o ar estava quieto. O presente mantinha-se. Por enquanto.
“O teu poder.” A voz de Cassian estava tensa. Não a largara; o braço continuava enrolado à volta da cintura dela. “Não está a parar. Os ciclos estão a seguir-te.”
Ela conseguia senti-lo. A distorção temporal agarrava-se a ela como fumo, infiltrando-se no mundo à sua volta. As pedras aos seus pés cintilavam entre estados. As estrelas lá em cima pareciam engasgar-se nas suas órbitas, saltando para a frente e para trás.
“Eu não consigo controlá-lo.” A confissão rasgou-lhe a garganta ao sair. “A dívida — é demasiado. Eu pedi emprestado demais. Não sei como—”
“Então corremos.” Cassian virou-a na direção da muralha do pátio. Para lá dela, a cidade estendia-se na escuridão, um labirinto de ruas e sombras. “Corremos até parar, ou até encontrarmos um sítio seguro. Consegues mexer-te?”
Ela conseguia mexer-se. Tinha de conseguir. A alternativa era deixar o caos consumi-la, tornar-se um fantasma preso para sempre nos próprios instantes fraturados. Elara assentiu.
Correram. A muralha ergueu-se à frente. Cassian escalou-a primeiro, com movimentos fluídos e rápidos, depois estendeu a mão para a puxar para cima atrás dele. Ela sentiu a pedra áspera sob os dedos, a tensão nos músculos enfraquecidos por dias de cativeiro e anos de dívida de tempo. Mas subiu. Subiu porque a alternativa era desistir, e desistir significava morrer numa prisão feita por ela mesma.
Deixaram-se cair na rua do outro lado. As pedras da calçada estavam escorregadias com o orvalho do entardecer, e os pés de Elara deslizaram na superfície molhada. Cassian apanhou-a antes que caísse, o aperto firme no braço dela.
“Por aqui.” Puxou-a para as sombras de um beco. A distorção seguiu-os; as paredes tremeluziam nas margens da sua visão, mas ali parecia menor. Mais silenciosa. Como se o céu aberto tivesse dado espaço à tempestade para se dissipar.
“Há uma casa segura. Três ruas a leste. Consegues chegar lá?”
Ela não sabia. Já não sabia nada — não sabia se podia confiar nele, não sabia se as provas contra ele eram reais, não sabia se o próprio poder a mataria antes de a noite acabar. Mas estava livre. O cofre ficara para trás, as paredes a recuarem para a escuridão. A Coroa das Horas continuava perdida, ainda nas mãos do inimigo, mas ela estava livre. E Cassian viera buscá-la.
Isso tinha de significar alguma coisa.
Elara deixou que ele a conduzisse pelas ruas obscurecidas, a mão dela ainda presa na dele, o corpo a tremer com os abalos posteriores do colapso temporal. Os ciclos seguiam-na — ela conseguia senti-los, conseguia ver o mundo a soluçar nas margens da sua visão —, mas agora eram mais lentos, mais fracos, como se a tempestade finalmente estivesse a começar a esgotar-se. Ou como se estivesse a juntar forças para algo pior.
“Os documentos.” A voz saiu-lhe rouca, mal um sussurro. “A Veyra mostrou-me—”
“Eu sei o que ela te mostrou.” A mandíbula de Cassian retesou-se. Não abrandou, não parou de se mover, mas o aperto na mão dela mudou — tornou-se mais do que apoio, algo quase parecido com consolo. “E vou dizer-te a verdade. Toda ela. Mas não aqui. Não agora. Quando estivermos em segurança.”
“Como é que eu sei—” Ela engoliu em seco. “Como é que eu sei que não estás a mentir?”
Ele parou. Na escuridão do beco, o rosto estava meio oculto pela sombra, mas ela conseguia ver-lhe os olhos. Eram firmes. Límpidos. E havia neles qualquer coisa que se parecia quase com luto.
“Não sabes”, disse ele em voz baixa. “Não podes. Ainda não. Mas eu vim buscar-te, Elara. Entrei numa tempestade temporal para te encontrar. Arrisquei tudo para te tirar daquele cofre.” A voz desceu ainda mais. “Um homem que planeia escravizar mortais arriscaria a própria vida por uma arquivista?”
Ela não tinha resposta. A prova e a realidade existiam em universos separados, e ela estava presa no espaço entre ambos. Mas a mão dele era quente em volta da sua. E num mundo que não parava de se estilhaçar, aquele calor era a única coisa que parecia real.
“Três ruas”, disse ela por fim. “Disseste três ruas.”
A expressão de Cassian mudou — algo que podia ser alívio, ou podia ser algo mais fundo. Ele assentiu uma vez e depois virou-se e conduziu-a para a escuridão.
Atrás deles, a tempestade continuava a enfurecer-se. O Stoneheart Vault tremeluzia nas margens do seu campo de visão, as paredes a oscilarem, entrando e saindo da existência. A dívida que ela tinha para com o tempo ainda não estava paga, continuava a exigir o que lhe era devido. E algures no caos que deixara para trás, os ciclos já começavam a alastrar-se — a sangrar para o mundo à sua volta, a fraturar a realidade, um momento de cada vez.
Ela estava livre. Mas a prisão criada por ela própria estava apenas a começar.