Capítulo 14: O Preço da Estabilidade
O ar dentro da sacristia abandonada pesava como chumbo derretido, carregando um gosto persistente de moedas velhas e o estalo seco do ozônio. Joaquim Ferreira, o homem que todos na Baixa conheciam apenas como Joca, atravessou o umbral com os músculos do pescoço retesados. Ele não olhava para as imagens sacras decapitadas, mas para o teto de pedra. Suas vértebras protestavam, encolhidas sob a expectativa de que a gravidade decidisse, naquele exato segundo, desistir de sua função. O lugar cheirava a abandono, mas não àquela poeira mansa de sótãos esquecidos. Era o odor da realidade se esgarçando, um aroma metálico e frio que fazia os pelos de seus braços se erguerem em um aviso silencioso.
Atrás dele, Dom Sebastião Neto, o príncipe que os becos apelidaram de Tião, tropeçou em um degrau de mármore cujas rachaduras pareciam pulsar. O jovem nobre era o retrato do desamparo; suas vestes reais, antes impecáveis, agora exibiam manchas de fuligem e rasgos que nenhuma costureira da corte ousaria tocar. O medo em seus olhos não era apenas uma emoção, mas uma névoa densa que Joca sentia que jamais conseguiria dissipar, por mais que esfregasse. Joca não parou para oferecer palavras de conforto. Ele não tinha esse luxo.
Com um movimento brusco, ele depositou a maleta de couro sobre uma mesa de carvalho. O móvel rangeu, as pernas de madeira lutando para sustentar o próprio peso em um mundo que se tornava cada vez mais leve. Os dedos de Joca, marcados por cicatrizes de queimaduras estáticas, moveram-se com a cadência de engrenagens bem lubrificadas. O fecho de latão estalou. O som cortou o silêncio da igreja como um disparo, fazendo Tião saltar. Dentro da maleta, o caos de Lisboa encontrava seu oposto: frascos de vidro âmbar brilhavam sob a luz pálida das janelas altas, organizados em nichos forrados de veludo. Óleos, solventes e rolos de fios de prata repousavam ali, cada um em seu lugar. Para Joca, aquela ordem era a única barreira física contra a inundação de entropia que devorava a capital.
— Fique perto da luz, Tião — Joca murmurou. Sua voz era um sussurro rouco, cada sílaba medida para não perturbar o equilíbrio precário do ambiente.
O príncipe obedeceu sem questionar. Ele se deixou cair em um banco de madeira que protestou com um som semelhante ao de um mastro de navio prestes a partir sob uma tempestade. Tião observava os preparativos com uma intensidade que beirava o pânico. Joca ignorou o olhar do rapaz e puxou uma escova de crina de cavalo. No centro do piso de granito, uma mancha de "não-ser" começava a se espalhar. Não era sujeira comum; parecia uma poça de óleo negro que devorava a luz ao redor, uma ferida na própria existência da pedra.
O som das cerdas contra o granito tornou-se o único batimento cardíaco daquela sala morta. Joca aplicava pressão, os ombros subindo e descendo em um ritmo obsessivo.
— Por que você ainda faz isso, Joca? — A voz de Tião saiu entrecortada, acelerada pela ansiedade. — O mundo está se desfazendo como uma tapeçaria roída por traças. Se a realidade é uma mentira, como dizem os textos que a Inquisição queima, por que gastar seus últimos minutos polindo o chão de uma igreja morta?
Joca interrompeu o movimento. A escova ficou suspensa a poucos centímetros da mancha negra, que parecia vibrar em uma frequência baixa, um zumbido que fazia os dentes de Joca doerem. Ele não olhou para o príncipe. Seus olhos permaneciam fixos no vazio que tentava crescer sob seus pés.
— Não é pela igreja, Alteza — respondeu Joca, a voz desprovida de qualquer emoção. — É sobre o que sobra de nós quando a estrutura falha. Se aceitarmos a distorção, se pararmos de lutar pela forma das coisas, nós nos tornamos parte do borrão. A limpeza não é um capricho. É o que mantém o chão sólido o suficiente para que você possa dar o próximo passo sem cair no nada. Sem ordem, a mente se apaga antes mesmo do corpo sumir.
Ele voltou ao trabalho, vertendo algumas gotas de óleo de cedro purificado sobre a pedra ferida. O aroma amadeirado e quente imediatamente travou uma batalha olfativa contra o cheiro de ozônio. Era uma pequena vitória, um centímetro de território recuperado em um campo de batalha invisível. Joca sentia a resistência do granito; a matéria parecia querer se transformar em fumaça sob suas palmas, mas ele a forçava a permanecer mineral, a manter sua densidade e seu propósito. Era uma negociação física, um diálogo silencioso onde o preço cobrado era a exaustão que subia por seus braços.
Passos pesados e arrastados ecoaram pelo corredor lateral. O som de botas batendo contra o mármore fez Tião se levantar de um salto, derrubando o banco. Joca fechou a maleta em um movimento único e fluido, sua mão direita já mergulhando para buscar o cabo da agulha de prata. No entanto, a figura que emergiu da penumbra não vestia o escarlate temido da Inquisição.
Era Anselmo. O velho sacristão caminhava com as costas tão curvadas que parecia carregar o peso de toda a nave central sobre os ombros. Seus olhos eram pequenos, úmidos e brilhavam como contas de vidro em um rosto que lembrava um pergaminho amassado e esquecido na chuva.
— Joaquim? É você mesmo, homem? — O sussurro de Anselmo era uma lixa contra o silêncio, carregado de uma surpresa que Joca não conseguiu classificar como alívio ou medo.
— Anselmo. O Elias me garantiu que este lugar ainda tinha peso — Joca relaxou os ombros minimamente, embora seus sentidos permanecessem em alerta máximo. Ele era como um animal que sente a mudança na pressão do ar antes de um raio cair.
O velho sacristão aproximou-se com as mãos trêmulas escondidas nas mangas de sua batina gasta, que cheirava a mofo e incenso velho. Ele lançou um olhar rápido para o príncipe. Joca notou a hesitação. Anselmo não olhou para o rosto de Tião; seus olhos focaram na qualidade do tecido da túnica, na postura que, mesmo sob o terror, ainda traía séculos de linhagem. Foi um olhar de cálculo, como o de um predador medindo a resistência de uma presa ferida, mas a expressão desapareceu tão rápido quanto surgiu, substituída por uma máscara de hospitalidade cansada.
— O Elias sempre teve bons instintos, embora o fim dele tenha sido... desordenado — disse Anselmo, traçando um sinal da cruz apressado e torto no ar. — Venham para os fundos. Tenho um pouco de fogo no chão e um caldo que pode aquecer esses ossos. Lisboa não é lugar para se estar ao relento quando a realidade começa a soluçar.
Eles seguiram o velho por um labirinto de corredores onde as paredes pareciam se inclinar para dentro. A arquitetura da igreja parecia querer escutar seus segredos, as pedras úmidas exalando um frio que penetrava as roupas de Joca como agulhas de gelo. Chegaram a uma pequena sala de serviço, onde uma lareira improvisada consumia restos de caixotes de madeira. O calor era uma presença física quase agressiva, um abraço necessário que fez os dentes de Tião pararem de bater quase instantaneamente.
Anselmo serviu duas tigelas de barro. O caldo era ralo, mas fumegava. Joca aceitou a sua, sentindo o calor reconfortante migrar para suas mãos calejadas. O aroma de alecrim e pão amanhecido subiu com o vapor, um cheiro que evocava um tempo em que o sol nascia no leste e as sombras não tinham dentes. Ele entregou a primeira tigela a Tião, pousando a mão no ombro do rapaz por um breve momento. O gesto era raro para Joca, um homem de distâncias e silêncios, mas ele sentiu que o príncipe precisava de uma âncora antes que flutuasse para longe de si mesmo.
— Coma, Tião. Você precisa de substância para não virar sombra — Joca instruiu, sua voz suavizando pela primeira vez na noite.
O príncipe agarrou a tigela com mãos ávidas. O calor do barro pareceu devolver o sangue às suas bochechas pálidas. Ele tomou um gole longo, fechando os olhos enquanto o líquido descia por sua garganta.
— É real — murmurou Tião, a voz embargada. — O gosto do alecrim... tem peso. Não é como a comida da corte, que agora parece ter gosto de cinzas e conceitos abstratos. Isso aqui é sólido.
Anselmo sentou-se em um canto escuro, observando-os. Ele começou a falar, suas perguntas saindo como fios de seda tentando tecer uma rede invisível ao redor deles.
— E para onde pretendem ir? A cidade está cercada. Dizem que o Inquisidor-Mor Valeriano está fechando o cerco como um pescador recolhendo uma rede cheia de furos. Ninguém entra, ninguém sai. E os que ficam... estão sendo processados.
Joca olhou para o velho sobre a borda de sua tigela. A desconfiança, que nunca o abandonara totalmente, começou a fincar raízes mais profundas em seu peito. Havia algo errado na forma como Anselmo pronunciou o nome do Inquisidor-Mor. Não era o medo que um homem comum sentiria; era um tom de reverência, quase de expectativa.
— Estamos apenas de passagem, Anselmo. Buscamos o mar. Dizem que as ilhas ainda mantêm a forma original — respondeu Joca, mantendo a voz neutra, desprovida de qualquer pista sobre seus planos.
— O mar. — Anselmo repetiu a palavra, e ela soou oca em sua boca. — O mar também está mudando, Joaquim. Os marinheiros dizem que a água está ficando sólida em alguns pontos e que o horizonte não é mais uma linha, mas uma curva que se fecha sobre si mesma. Não há para onde fugir da vontade de Deus.
Tião limpou a boca com a manga da camisa, os olhos brilhando com uma intensidade súbita.
— Não é a vontade de Deus, mestre Anselmo — interveio o príncipe, sua voz recuperando a cadência das salas de aula proibidas da universidade. — É uma flutuação na densidade do ser. A Inquisição chama de praga porque não consegue controlar a gramática desse novo mundo. Eles querem que acreditemos que o trabalho do Joca é um ato de fé, mas é física aplicada. Se entendermos como os fios da realidade se cruzam, poderemos tecer algo novo, em vez de apenas tentar remendar o que já apodreceu.
Anselmo soltou uma risada seca, um som que lembrou o ranger de uma engrenagem enferrujada.
— Física? Gramática? Você fala como um herético, rapaz. Ou como um príncipe que esqueceu que o sangue real é apenas tinta no livro da história. A ordem exige sacrifícios, Joaquim. Você, melhor que ninguém, deveria saber que uma mancha deve ser removida para o bem do tecido. Se uma parte do mundo está podre, ela deve ser cortada para que o resto sobreviva.
Joca sentiu um arrepio na espinha que não vinha do frio. Ele pousou a tigela no chão de terra batida com cuidado deliberado. Seus olhos se voltaram para a pequena janela que dava para o pátio interno. O sol estava escondido atrás das nuvens de estática, mas as sombras no pátio não se moviam conforme a luz. Elas estavam estáticas, formas alongadas e escuras que pareciam esperar por um sinal. O silêncio que se seguiu foi uma corda esticada até o limite.
— Você não está limpando o mundo, Anselmo — disse Joca, sua voz agora baixa e perigosa. — Está apenas escondendo o lixo debaixo do tapete da Inquisição. O que eles prometeram a você? Estabilidade? Uma Lisboa que pare de mudar de forma enquanto você dorme?
O rosto de Anselmo se transformou. A máscara de velho bondoso caiu, revelando o fanatismo gélido que ardia por baixo. Ele se levantou com uma agilidade surpreendente para sua idade e recuou em direção à porta pesada da sacristia.
— Eles prometeram paz, Joaquim! — gritou o sacristão, sua voz subindo de tom até se tornar um guincho. — Prometeram que, se entregássemos a fonte da discórdia, a realidade voltaria a se assentar. O sacrifício de um príncipe salvará a cidade da distorção. É um preço pequeno para que milhões possam acordar sem medo de que suas casas tenham se transformado em névoa!
Com um movimento brusco, Anselmo puxou uma alavanca de ferro escondida atrás de uma estátua de santo decapitada. O ranger de uma tranca de ferro ecoou pela sala, e o tilintar metálico de armaduras marchando em uníssono começou a subir pelo corredor. O som era como o de uma máquina de guerra sendo ligada, um ritmo implacável que esmagava qualquer esperança de diálogo.
Tião levantou-se, o rosto pálido. A tigela de barro caiu de suas mãos e se estraçalhou no chão. O caldo espalhou-se como uma mancha de sangue pálido.
— Minha vida vale menos que a ilusão de paz que vocês criaram? — perguntou o príncipe, sua voz tremendo de uma indignação profunda.
— Vale tudo, Alteza — sibilou Anselmo através da fresta da porta que se fechava. — Vale o mundo inteiro.
A porta bateu com um estrondo final, deixando Joca e Tião presos na pequena sala. Do lado de fora, as botas pesadas batiam contra o calçamento irregular, um som que lembrava martelos batendo em pregos de um caixão. Joca não entrou em pânico. O pânico era uma forma de desordem, e ele era, acima de tudo, um limpador. Ele abriu sua maleta e pegou a agulha de prata, um instrumento longo e fino que brilhava com uma luz própria, quase invisível.
— Joca, eles estão vindo! — Tião apontou para a porta, onde a madeira começava a vibrar sob o impacto dos ombros dos guardas.
— Eu sei. Ajude-me com a mesa — ordenou Joca.
Eles arrastaram o pesado móvel de carvalho para frente da porta, mas Joca sabia que madeira e pregos não deteriam a Inquisição por muito tempo. Ele se ajoelhou diante da fresta da porta, onde a luz do corredor tentava penetrar. Seus dedos começaram a tecer o ar. Ele não estava apenas costurando; ele estava pegando os fios da realidade local e amarrando-os em nós cegos. A sensação de eletricidade estática arrepiou os pelos de seus braços, uma corrente que parecia querer fritar seus nervos.
Desta vez, Joca sentiu o peso do "não-ser" pressionando contra sua vontade. A realidade ao redor da porta começou a vibrar e desfiar, as cores sumindo em tons de cinza estático. Era como tentar segurar a água de uma represa que acabara de romper com as mãos nuas.
— Tião, procure uma saída! — Joca gritou, o esforço fazendo veias saltarem em sua testa.
O príncipe, em vez de se encolher, começou a tatear as paredes de pedra. Sua curiosidade, tantas vezes uma maldição, agora era sua única ferramenta. Ele lembrou-se dos mapas que estudara escondido na biblioteca real, diagramas antigos de Lisboa que mostravam as veias secretas da cidade.
— Aqui! — Tião gritou, chutando uma placa de bronze na base de uma coluna. — Há uma passagem de ventilação que leva aos canais de drenagem. Mas é pequena demais para nós dois!
— Faça ser grande o suficiente! — Joca respondeu, sua voz saindo por entre dentes cerrados.
Ele sentiu a porta ceder alguns centímetros. Um machado de guerra atravessou a madeira, a lâmina brilhando com um reflexo cruel. Joca puxou um fio de prata de sua maleta e o enrolou na agulha. Com um movimento preciso, ele "espetou" o espaço vazio entre ele e a janela alta da sacristia. Ele não estava apenas abrindo a janela; ele estava alargando a própria definição de espaço.
A moldura de pedra da janela gemeu, um som de agonia mineral enquanto a geometria se dobrava sob a vontade do limpador. O buraco expandiu-se, distorcendo a luz lá fora como uma lente de aumento defeituosa. Joca sentiu uma onda de náusea; alterar a realidade daquela forma era como arrancar um pedaço de sua própria alma para usar como remendo.
— Vá, Tião! Agora! — Joca cambaleou, o suor escorrendo por seu rosto e deixando um rastro salgado em seus lábios.
O príncipe hesitou por um milésimo de segundo, olhando para o homem que estava arriscando tudo por ele.
— Não olhe para trás — Joca disse, a voz recuperando a autoridade mansa. — O que ele chama de estabilidade é apenas uma prisão que ainda não ruiu. Corra!
Tião saltou para o parapeito da janela alargada e mergulhou no beco escuro lá fora. Joca recolheu sua maleta com um movimento desesperado. A porta da sacristia finalmente explodiu em estilhaços, e os primeiros guardas da Inquisição irromperam na sala, suas armaduras brilhando como escamas de um predador metálico. Anselmo estava atrás deles, seu rosto contorcido em uma mistura de triunfo e horror.
Joca não esperou. Ele se lançou pela abertura distorcida logo atrás do príncipe. O impacto seco de suas botas no lodo do beco enviou uma onda de dor por suas pernas, mas a adrenalina era um combustível que ele não podia desperdiçar. Ele agarrou a mão de Tião, que o esperava nas sombras, e os dois começaram a correr.
Atrás deles, o grito de frustração de Anselmo ecoou pelas paredes do beco, mas algo mais terrível estava acontecendo. Joca olhou por cima do ombro e viu que a realidade na entrada da sacristia não estava apenas se fechando. Ela estava desaparecendo. Onde antes havia uma porta e uma janela, agora havia apenas um vácuo cinzento, uma ferida aberta no tecido do mundo que se recusava a cicatrizar. A traição de Anselmo, motivada pelo desejo de ordem, havia rasgado o próprio véu que ele tentava proteger.
— Não pare! — Joca ordenou, puxando Tião através de uma curva fechada no beco.
O ar no beco era frio e carregado com o cheiro de esgoto e medo. O gosto metálico na boca de Joca era tão forte que ele quase podia sentir o sangue. Eles corriam sobre o calçamento irregular, cada passo uma aposta contra a gravidade que parecia oscilar a cada segundo. As paredes dos prédios ao redor pareciam se inclinar, como se quisessem se tocar sobre suas cabeças, transformando o beco em um túnel de pedra e sombras.
— Para onde agora? — Tião perguntou, ofegante, sua voz perdendo a cadência aristocrática para o puro instinto de sobrevivência.
— Para onde a estática for menos densa — Joca respondeu, seus olhos escaneando o ambiente em busca de falhas na geometria que pudessem usar a seu favor.
Eles pararam por um segundo em uma encruzilhada de ruelas. O silêncio que caiu sobre eles era pesado, uma calmaria antes do terremoto que Joca sabia que estava por vir. Ele olhou para o príncipe, cujas roupas estavam agora definitivamente arruinadas, mas cujos olhos tinham uma lucidez que Joca nunca vira em um nobre.
— Você está bem? — perguntou o limpador, sua mão ainda segurando firmemente a alça da maleta.
Tião assentiu, tentando recuperar o fôlego.
— Eu vi o que aconteceu lá atrás, Joca. O espaço... ele simplesmente sumiu. Como se nunca tivesse existido.
— É o que acontece quando se tenta consertar o mundo com mentiras — disse Joca, sua voz soando como o julgamento final. — A partir de agora, não podemos confiar em ninguém que prometa estabilidade. A estabilidade é uma âncora que eles usam para nos afogar.
Eles continuaram a fuga, mas Joca sentia que o mundo ao redor deles estava se tornando cada vez mais fino. O som de suas próprias botas parecia vir de uma distância imensa, e o cheiro de ozônio estava se tornando insuportável. Era como se a cidade de Lisboa estivesse sendo mastigada por uma fera invisível, e eles fossem as migalhas que tentavam escapar por entre os dentes.
Joca parou abruptamente, estendendo o braço para barrar o caminho de Tião. À frente deles, o beco simplesmente terminava em uma parede de estática pura, uma névoa cinzenta que vibrava com uma energia faminta. Não era uma parede sólida; era a ausência de tudo.
— Estamos encurralados? — Tião sussurrou, o medo voltando a nublar sua voz.
Joca olhou para trás. O som das botas da Inquisição estava mais perto agora, um ritmo mecânico que não conhecia o cansaço. Ele olhou para a parede de estática e depois para sua maleta. Ele sabia que o que estava prestes a fazer era perigoso, talvez fatal. Mas a alternativa era a "estabilidade" de Anselmo e o fogo de Valeriano.
— Segure-se em mim, Tião — disse Joca, sua voz agora um sussurro firme. — E não feche os olhos. Se você fechar os olhos, a realidade esquece que você está aqui.
Ele abriu a maleta e pegou o frasco de essência pura, um líquido que brilhava com todas as cores que o mundo estava perdendo. Com a outra mão, ele empunhou a agulha de prata. Ele não ia apenas remendar; ele ia abrir um caminho através do nada. O Inquisidor-Mor Valeriano sempre dizia que o mundo era um jardim que precisava de poda. Joca, enquanto mergulhava a agulha na estática, pensou que o mundo era mais como um mar revolto, e ele era apenas um marinheiro tentando não deixar o barco virar.
A agulha tocou a névoa cinzenta e um grito de realidade rasgada ecoou pelo beco, um som que não era humano nem animal, mas o som da própria existência protestando contra sua manipulação. A luz que emanou do ponto de contato foi cegante, um flash de azul elétrico que iluminou as faces suadas e aterrorizadas dos dois fugitivos. Joca sentiu seus músculos se contraírem, uma dor lancinante percorrendo sua espinha enquanto ele forçava a abertura. Era como empurrar uma porta de chumbo que pesava toneladas.
— Agora! — ele gritou, e os dois mergulharam no brilho insuportável.
Por um instante, não houve chão, não houve teto, não houve Joca ou Tião. Houve apenas a sensação de serem desfiados e tecidos novamente em uma fração de segundo. O frio era absoluto, um vácuo que roubava o fôlego e o pensamento. E então, com a mesma rapidez com que começou, o tormento terminou.
Eles caíram sobre um monte de sacos de grãos em um armazém escuro. O cheiro de mofo e poeira era a coisa mais maravilhosa que Joca já sentira. Ele tossiu, tentando expelir o gosto de ozônio de seus pulmões. Ao seu lado, Tião estava caído de bruços, tremendo violentamente. Joca levantou-se com dificuldade, suas articulações gritando de protesto. Ele olhou para onde vieram, mas não havia porta, não havia fenda. Apenas a parede de madeira do armazém.
Ele havia fechado o caminho atrás deles, mas a que custo? Suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia segurar a maleta.
— Onde... onde estamos? — Tião perguntou, sua voz saindo como um guincho.
Joca caminhou até uma pequena fresta na porta do armazém. Lá fora, o céu de Lisboa estava tingido de um roxo doentio, e as torres da catedral pareciam se contorcer como dedos de um gigante agonizante.
— Ainda em Lisboa — respondeu Joca, a exaustão pesando em suas palavras. — Mas em uma parte da cidade que a Inquisição ainda não "limpou".
Ele olhou para o príncipe, que agora se sentava nos sacos de grãos, abraçando os próprios joelhos. O jovem herdeiro do trono parecia pequeno, uma criança perdida em um pesadelo que não tinha fim. Joca sentiu uma pontada de compaixão, um sentimento perigoso para um homem em sua posição.
— Eles não vão parar, Joca — disse Tião, olhando para o nada. — Anselmo tinha razão sobre uma coisa. Eu sou a mancha. Enquanto eu estiver vivo, eles vão continuar rasgando o mundo para me encontrar.
Joca aproximou-se e sentou-se ao lado dele. O silêncio do armazém era um refúgio temporário, uma bolha de normalidade em um oceano de loucura.
— Você não é a mancha, Tião. Você é a testemunha. E é por isso que eles têm tanto medo de você. A Inquisição quer um mundo estático porque é fácil de governar. Um mundo que muda, um mundo que evolui, é um mundo que eles não conseguem controlar.
Ele abriu sua maleta e começou a organizar seus frascos, um ritual que o acalmava. A ordem física era sua oração, sua forma de dizer ao universo que ele ainda estava no comando de sua própria pequena parcela de realidade.
— O que fazemos agora? — perguntou o príncipe, sua curiosidade voltando a lutar contra o medo.
— Agora, nós sobrevivemos — disse Joca, fechando a maleta com um estalo definitivo. — E amanhã, nós encontramos uma forma de costurar esse mundo de um jeito que ninguém consiga rasgar de novo.
Mas, enquanto falava, Joca sentiu um tremor no chão sob seus pés. Não era um terremoto comum. Era uma vibração rítmica, como o bater de um coração imenso e doente. Ele olhou para a porta do armazém e viu uma luz pálida começar a vazar pelas frestas. Não era a luz do sol, nem a luz das tochas da Inquisição. Era uma luz cinzenta e fria, a luz do "não-ser" que os seguira através da fenda.
A traição de Anselmo fora apenas o começo. A realidade atrás deles não estava apenas desaparecendo; ela estava caçando-os. Joca levantou-se, sua mão buscando novamente a agulha de prata. O descanso havia acabado antes mesmo de começar.
— Levante-se, Tião — ordenou Joca, sua voz voltando ao tom de aço. — O mundo está desmanchando de novo.
E enquanto se preparavam para sair novamente para as ruas distorcidas de Lisboa, Joca percebeu que a maleta em sua mão parecia mais leve. Ele olhou para baixo e viu, com um horror que não conseguiu esconder, que um dos cantos da maleta de couro estava começando a se transformar em fumaça cinzenta. A distorção não estava apenas ao redor deles. Ela estava começando a afetar as ferramentas do próprio limpador.
O perigo daquela noite não era apenas sobre os guardas que os perseguiam, mas sobre a possibilidade de que o próprio remendo estivesse se tornando parte do rasgo. Joca apertou a alça da maleta, ignorando a sensação de que seus próprios dedos estavam começando a perder a densidade. Eles tinham que continuar. Em um mundo onde nada era sólido, a única coisa que restava era a vontade de continuar caminhando.
As sombras do armazém pareciam se alongar em direção a eles, dedos escuros tentando puxá-los para o esquecimento. Joca abriu a porta e o ar de Lisboa o atingiu como um soco metálico. A cidade não era mais uma cidade; era um labirinto de conceitos em colapso, e eles eram os únicos fios de realidade que ainda tentavam manter o tecido unido.
— Não olhe para trás — Joca repetiu, mais para si mesmo do que para o príncipe.
Eles mergulharam na noite, dois pontos de luz em um mundo que estava se tornando cinzas, enquanto atrás deles, o armazém, os sacos de grãos e a própria rua começavam a ser apagados da existência, como se uma mão gigante estivesse passando uma borracha sobre um desenho malfeito. A fuga não era mais apenas de homens, mas do próprio fim de todas as coisas.