Capítulo 28: A Muralha do Não-Ser
O metal gemia contra o vazio, um som que não vinha das rodas, mas da própria alma do vagão real. Não era o rítmico e reconfortante "cloc-cloc" das ferrovias imperiais. Era o lamento de uma estrutura física sendo forçada a existir onde a lógica já havia saltado pela janela. Joaquim Ferreira sentia a vibração subir pelas solas de suas botas, um tremor errático que imitava o batimento cardíaco de um animal encurralado. Ele olhou para as próprias mãos. Elas haviam se tornado quase invisíveis até os pulsos, emitindo uma luminescência química fria. Aquele brilho azulado não iluminava o ambiente; em vez disso, parecia corroer as sombras, transformando o veludo das paredes em algo pálido e doentio.
O ar reciclado do trem carregava um peso metálico, saturado de ozônio queimado e da poeira de séculos que se recusava a assentar. Joca tentou fechar os punhos. Seus dedos atravessaram a própria palma como se fossem feitos de fumaça condensada. A densidade de sua carne estava sendo devorada por uma maré silenciosa. Ele encarou o vazio onde deveria estar sua pele, e a revelação do capítulo anterior retornou para sufocá-lo. Cada pano que ele usou, cada solvente que aplicou com rigor religioso nos altares da Inquisição, nada daquilo fora escolha. Sua obsessão pela limpeza era apenas um trilho colocado diante dele, um condicionamento forjado para torná-lo o apagador de vestígios perfeito. Ele fora o zelador de uma realidade mantida sob um domo de vidro, limpando as digitais de Deus para que ninguém percebesse que o mundo era uma construção frágil.
— Você está desaparecendo, Joca.
A voz de Tião surgiu do canto escuro do vagão, rouca e carregada de um cansaço que não vinha de noites mal dormidas. O príncipe ocupava uma poltrona de carvalho entalhado, cujas pernas pareciam se fundir lentamente com o tapete persa, como se o mobiliário estivesse sendo digerido pelo chão. Seus olhos fractais brilhavam com uma intensidade febril. Padrões geométricos impossíveis giravam em suas íris, refletindo uma arquitetura que não pertencia ao plano material. Tião parecia ter envelhecido décadas em poucas horas. A arrogância aristocrática que outrora definia seu queixo erguido fora substituída por uma aceitação melancólica, uma expressão que cortava Joaquim mais profundamente do que qualquer insulto da corte.
— É o preço do remendo, eu acho — Joaquim respondeu. Sua voz saiu abafada, como se estivesse lutando para atravessar uma parede de água espessa. — Ou talvez eu esteja finalmente assumindo minha forma verdadeira. Um fantasma tentando limpar a casa de outros fantasmas.
— Não diga uma bobagem dessas.
Tião levantou-se, cambaleando quando o trem deu um solavanco violento para a esquerda. O som de cristais se estilhaçando ecoou dos vagões de trás, um tilintar que parecia o riso de uma criança cruel. O príncipe caminhou até Joca, e o toque de sua mão no ombro do limpador foi gélido. Era uma firmeza desesperada, como se ele tentasse ancorar o amigo à existência pelo puro poder da vontade.
— Você é a única coisa sólida que restou neste pesadelo de ferro — insistiu o príncipe, olhando para a janela. Lá fora, o vácuo branco passava como uma tempestade de neve estática, sem céu, sem terra, apenas o ruído visual do nada. — O trem está acelerando. Ele sente que o fim da linha está perto.
— O reinício, você quer dizer — Joca corrigiu, engolindo o gosto amargo de bile que subia por sua garganta. Ele se afastou do toque de Tião, temendo que sua própria instabilidade pudesse contagiar o outro. — Você disse que isso não era uma fuga. É um botão de pânico.
— E a Inquisição não vai permitir que apertemos esse botão sem lutar. Eles preferem o vazio absoluto a uma realidade que não podem controlar. O controle é a única religião deles, Joca.
Um estrondo surdo, semelhante ao disparo de um canhão pesado sob a água, sacudiu a composição. O estômago de Joaquim pareceu despencar pelo chão de madeira. O ritmo do trem mudou drasticamente; o chiado agudo de uma fricção impossível substituiu qualquer som mecânico reconhecível. Joca correu para a janela da frente, afastando as cortinas de seda pesada que cheiravam a mofo e opulência decadente. O que ele viu fez o sangue congelar em suas veias.
À frente do Último Trem, a fenda mnemônica havia sofrido uma mutação. Não era mais um túnel, mas uma muralha colossal de estática cinzenta e luz branca cegante. A barreira bloqueava o caminho de horizonte a horizonte, estendendo-se além do que a percepção humana conseguia processar. Aquilo não era um obstáculo físico; era uma zona de deleção total. Onde a barreira tocava a realidade, a matéria simplesmente deixava de ser mencionada. Os trilhos de lógica pura que sustentavam a locomotiva estavam sendo devorados por aquela névoa faminta antes mesmo de o trem alcançá-la.
— Eles bloquearam o caminho — sussurrou Joca. Os nós de seus dedos, ou o que restava daquela transparência pálida, ficaram brancos contra o parapeito de latão. — É uma distorção de fim de mundo.
— Valeriano — Tião pronunciou o nome com um desprezo que fez o ar vibrar. — Ele está usando os Sinos de Vácuo em escala global. O Inquisidor-Mor não está apenas nos caçando; ele está demolindo a estrada enquanto corremos por ela. Ele quer apagar o futuro antes que possamos habitá-lo.
A muralha à frente pulsava com uma frequência que fazia os dentes de Joaquim doerem. Era o som de bilhões de memórias sendo trituradas ao mesmo tempo, um grito silencioso que ecoava na base de seu crânio. Cada pulsação da estática parecia remover um pedaço da história do mundo.
— Precisamos parar o trem — Joaquim disse, virando-se para a porta que levava à cabine de comando. Sua mente já trabalhava nas alavancas, nos freios, na mecânica da sobrevivência.
— Se pararmos, a névoa nos alcança por trás — Tião rebateu imediatamente. Seus olhos fractais giravam em padrões de alerta vermelho. — O vácuo é um predador, Joca. Ele não aceita presas estáticas. Só existe um caminho: através daquilo.
— Através daquilo? — Joaquim apontou para a muralha, sua voz subindo um oitavo. — Aquilo é o solvente universal, Tião! Se entrarmos lá, não sobrará nem a lembrança de que um dia respiramos.
O príncipe deu um passo à frente, a luz da distorção refletida em sua pele pálida, dando-lhe a aparência de uma estátua de mármore prestes a rachar.
— Você é o Limpador, não é? Passou a vida removendo manchas da realidade. Pois olhe para aquela muralha. Aquilo é a maior mancha de todas. É a sujeira da Inquisição tentando esconder a verdade debaixo do tapete do nada.
Joaquim olhou novamente para suas mãos brilhantes. O solvente químico que emanava de seus poros era o mesmo que a Igreja usava para purificar santuários e apagar heresias. Agora, desatado dos dogmas e das orações, aquilo parecia algo muito mais primitivo e poderoso. Era a força bruta da desconstrução. Se ele pudesse aplicar essa força contra a muralha, talvez pudesse abrir uma fresta, um pequeno rasgo de existência no meio do vazio.
O trem soltou um apito longo e agônico, um som que lembrava o grito de uma baleia ferida. O vapor que escapava da chaminé não era branco; era uma fumaça negra e densa, carregada de fragmentos de papel carbonizado e cinzas de livros proibidos. A locomotiva, aquela fera de metal movida por lógica mnemônica, estava sofrendo. O calor no vagão aumentou subitamente, tornando o ar denso como melaço.
— Vou para a frente — anunciou Joaquim, a decisão disparando como um pistão dentro de seu peito. — Fique aqui. Se o vagão começar a se desfazer, corra para o fundo.
— Eu vou com você. — Tião não pediu permissão; ele apenas se moveu. — Não sou mais o ícone que eles querem proteger sob sete chaves. Eu sou a heresia que vai ver o mundo mudar.
Eles saíram do vagão real e alcançaram a plataforma de conexão. O vento do vácuo fustigou seus rostos instantaneamente. Era um frio que não vinha da temperatura, mas da ausência absoluta de calor, um vácuo térmico que parecia sugar a energia de seus corpos. O barulho era ensurdecedor. O metal da composição rangia sob a pressão da distorção, lembrando um navio de madeira sendo esmagado por um iceberg de proporções divinas.
Joca agarrou-se ao corrimão gelado. O tato era sua única âncora. Ele sentia a aspereza do metal sob as pontas dos dedos fantasmagóricos, as vibrações das máquinas trabalhando no limite do colapso. Cada parafuso parecia estar gritando por socorro. Eles atravessaram dois vagões de carga em silêncio tenso. Lá dentro, caixotes cheios de relíquias sagradas flutuavam em uma gravidade zero parcial. Tampas estouradas revelavam cálices de ouro e pergaminhos que se transformavam em pó ao menor toque do ar viciado.
Ao chegarem à porta da locomotiva, encontraram Beatriz Cavalcante e Gerson Magalhães. Bia segurava uma pistola de pressão em uma mão e uma faca de prata na outra. Seus olhos varriam as sombras com a agilidade de um felino acuado, procurando por ameaças que talvez nem fossem físicas. Gersinho, o gigante silencioso, mantinha as mãos pesadas sobre uma alavanca de emergência. Seus músculos estavam tensos como cabos de aço prestes a romper.
— A coisa está feia, limpador! — Bia gritou para ser ouvida acima do rugido do motor. — O motorista mnemônico acabou de evaporar. Literalmente! Sobraram só as botas e um cheiro de incenso barato.
— Quem está conduzindo o trem? — Tião perguntou, o horror estampando em sua face.
— A inércia e a vontade de Deus, suponho — Bia ironizou, embora não houvesse sombra de humor em seu rosto suado. — Gersinho está tentando manter a pressão nas caldeiras de memória, mas o combustível está acabando. Estamos queimando as últimas lembranças de Lisboa para manter essa banheira andando.
Joaquim olhou para o painel de controle. Os ponteiros dos medidores dançavam na zona vermelha, oscilando freneticamente como bússolas em um campo magnético instável. O motor rugia como um predador ferido, um som visceral de engrenagens moendo umas às outras.
— Eu preciso chegar ao bico da locomotiva — disse Joaquim. Sua voz ganhou uma firmeza que fez Bia baixar a arma por um instante.
— Você enlouqueceu? — Ela se aproximou, o suor escorrendo por sua têmpora. — Se você sair lá fora, a pressão da distorção vai te rasgar em mil pedaços antes que você consiga dizer "amém".
— Eu sou o único que pode tocar naquilo sem sumir imediatamente. — Joaquim mostrou as mãos, agora tão transparentes que os ossos pareciam feitos de vidro fosco. — O que está lá fora é o que eu sou agora. Eu não vou limpar a mancha, Bia. Eu vou ser o solvente que abre o caminho.
Gersinho olhou para Joca. Um brilho de respeito surgiu em seus olhos estóicos, uma comunicação silenciosa entre homens que entendiam o peso do dever. Ele assentiu lentamente, um gesto simples que carregava o peso de uma despedida definitiva.
— Tá feito — murmurou o gigante, sua voz grave fazendo o assoalho vibrar.
— Joca, espere. — Tião segurou seu braço uma última vez. — Se você fizer isso... se você se fundir com a muralha... o que sobra de você?
— O que sobrar será o suficiente para levar você até o fim, Tião.
Joaquim não esperou por mais perguntas ou protestos. Ele abriu a escotilha lateral da locomotiva e o vácuo rugiu para dentro, arrastando papéis e ferramentas leves para a escuridão eterna. O limpador se impulsionou para fora, seus pés encontrando apoio nos rebites de aço do bico da locomotiva. A visão era apocalíptica. O trem avançava a uma velocidade suicida contra a muralha de estática cinzenta.
A luz branca era tão intensa que parecia ter peso físico. Ela pressionava o peito de Joaquim, dificultando cada respiração, como se o oxigênio estivesse sendo substituído por areia. Ele rastejou pelo metal quente da caldeira, sentindo o calor do motor lutando uma batalha perdida contra o frio do nada. A cada centímetro que avançava, Joaquim sentia sua conexão com o mundo físico diminuir. Suas pernas pareciam virar areia molhada, pesadas e informes. O som do mundo desapareceu, substituído por um zumbido constante, a nota fundamental do esquecimento.
Ele chegou à ponta extrema da locomotiva. Diante dele, a apenas alguns metros, a muralha do não-ser pulsava como o coração de uma estrela morta. Não havia cor, apenas a ausência absoluta de todas elas. Joaquim estendeu as mãos. O brilho químico em seus dedos reagiu instantaneamente ao contato com a estática. Faíscas de luz azulada saltaram de suas unhas para a névoa, criando pequenas explosões de realidade. Era como jogar ácido em um tecido de seda; a muralha começou a chiar e a se retorcer onde a luz de Joca a tocava.
— Vamos lá, sua coisa imunda — Joaquim rosnou, as palavras se perdendo no vácuo antes mesmo de serem ouvidas. — Eu passei dez anos limpando o chão de Valeriano. Hoje eu vou limpar o céu dele.
Ele mergulhou as mãos diretamente na estática. A dor foi indescritível. Não era a dor da carne cortada ou do osso quebrado, mas a agonia de ter sua própria história sendo desfiada fio a fio. Ele viu flashes de sua infância: o rosto de sua mãe sob a luz da tarde, o cheiro de pão fresco saindo do forno, o som do riso de seu irmão no quintal. Todas essas memórias estavam sendo sugadas pela muralha, usadas como combustível para a própria destruição. Joaquim abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu; ele já não era mais feito de ar e pulmões, mas de vontade e solvente. Um passo. Apenas um passo para dentro do nada, e a gravidade se tornou uma sugestão distante. Joaquim sentiu a sola de sua bota direita afundar na estática, não como se pisasse em solo firme, mas como se atravessasse a superfície de um lago de mercúrio gelado. O vácuo tentou preencher seus poros, mas o solvente azulado em sua pele agia como um casco reforçado, repelindo a pressão do esquecimento com um chiado elétrico que subia por suas canelas.
— Joca! — O grito de Dom Sebastião Neto rasgou o zumbido, vindo de algum lugar atrás da cortina de fumaça da caldeira. — A estrutura está cedendo! O metal está virando vidro!
Tião surgiu na porta da cabine, segurando-se no corrimão com as juntas dos dedos brancas de tensão. O príncipe herético parecia uma miragem tremeluzente sob a luz errática da muralha. Seus olhos fractais giravam em um redemoinho de pânico, refletindo a destruição da locomotiva que, aos poucos, perdia sua coesão molecular. Para Tião, o mundo estava se desfazendo em equações impossíveis; para Joaquim, era apenas uma sujeira monumental que precisava ser removida.
— Fique onde está, Tião! — Joaquim rebateu, a voz soando como metal raspando em pedra. — Se você tocar nessa névoa sem o preparo, sua linhagem termina antes de eu conseguir piscar.
O Inquisidor-Mor Valeriano da Silva havia projetado aquele bloqueio com uma precisão cirúrgica. Não era apenas uma barreira física, mas um apagador de conceitos. Joaquim forçou o corpo para frente, mergulhando o tronco na massa cinzenta. O toque da estática era como mil agulhas de gelo costurando sua pele ao avesso. Ele tateou o vazio, procurando o ponto de ancoragem, a irregularidade na textura do nada que indicasse onde a realidade havia sido grampeada à força.
Seus dedos, brilhando com a química sagrada, encontraram algo sólido no centro do caos. Não era ferro, nem madeira. Era frio, liso e pulsava com uma cadência mecânica. Joaquim fechou a mão sobre o objeto invisível e puxou. A muralha reagiu com um rugido ensurdecedor, um som que lembrava o de mil correntes de navio arrebentando simultaneamente sob uma tempestade.
Ao puxar, a névoa se abriu por um breve segundo, revelando uma peça de metal dourado cravada no próprio tecido do espaço. Era um selo inquisitorial, mas corrompido; a efígie de Valeriano estava gravada no centro, cercada por runas que Joaquim reconheceu dos porões mais profundos do santuário. O selo agia como um prego, mantendo a ferida da realidade aberta e sangrando estática. Aquilo não era um acidente da natureza ou uma consequência da praga; era uma demarcação de território feita por mãos humanas.
— Eles estão usando âncoras... — Joaquim murmurou, o suor frio escorrendo por seu rosto e evaporando antes de tocar o chão. — Valeriano não está apenas limpando o mundo, ele está redesenhando o mapa com o nosso sangue.
O obstáculo escalou. Sentindo a interferência, a muralha do não-ser lançou tentáculos de pura dissonância contra o intruso. O ar ao redor de Joaquim começou a cristalizar, formando lâminas de realidade endurecida que cortavam o vento. Uma dessas lascas atingiu o ombro de Joca, rasgando o tecido grosso de seu uniforme de zelador e deixando um rastro de luz azulada onde deveria haver sangue.
— Joca, o motor! — Tião berrou novamente, apontando para a caldeira atrás deles.
A locomotiva soltou um gemido agônico. O vapor que escapava das válvulas não era mais branco, mas de um tom violeta doentio. O ritmo do havia desaparecido completamente, substituído por um silêncio pesado que precedia o desastre. O trem começou a inclinar-se para a esquerda, as rodas perdendo o contato com os trilhos que, à frente, simplesmente deixavam de existir, dissolvendo-se em uma cascata de poeira estelar.
Joaquim fincou os pés na plataforma vibratória, ignorando a dor que subia por seus braços. Ele precisava arrancar aquele selo. Se a âncora permanecesse ali, a locomotiva seria estraçalhada contra a parede de não-ser como um navio de madeira contra um recife de coral. Ele despejou o restante do solvente de suas palmas diretamente sobre o metal dourado.
A reação foi violenta. Uma explosão de luz branca cegou Joaquim por um instante, e o cheiro de ozônio e incenso queimado inundou seus pulmões. O selo começou a derreter, mas, ao fazê-lo, liberou uma onda de choque que empurrou a frente da locomotiva para cima. O trem empinou como uma besta ferida.
Joaquim sentiu o chão sumir. Ele estava pendurado sobre o abismo, com uma mão agarrada ao selo derretido e a outra tentando encontrar apoio no metal quente da caldeira. Abaixo dele, não havia nada além de uma queda infinita para dentro de uma memória que nunca existiu. O trem continuava a avançar, impulsionado por uma inércia suicida, em direção ao coração da estrela morta que Valeriano havia plantado em seu caminho.