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O brilho azul da tela cortou a escuridão do escritório às 2h47 da madrugada.
A mão de Lu Chenzhou estava firme, tão firme quanto ao desarmar o detonador de uma bomba. Ele retirou o tablet antigo da bolsa Faraday, seus dedos sentindo o frio da carcaça. O cabo de conexão entrou na porta do notebook offline com um clique preciso e seco. Havia apenas essas duas máquinas na sala — uma fisicamente isolada, a outra nunca conectada à rede. A cidade lá fora ainda não dormia, o ruído branco do tráfego rodoviário sobre o asfalto da via elevada infiltrava-se através do vidro duplo, tornando-se a única trilha sonora naquele silêncio.
Ele pressionou Enter.
O script de descriptografia começou a rodar. A barra de progresso subia lentamente na tela, como uma serpente em hibernação. A respiração de Lu Chenzhou era controlada, cada expiração deliberadamente alongada até cinco segundos. Mas seu olhar estava cravado na tela, suas pupilas refletindo os caracteres pulsantes. Seus ouvidos, porém, estavam abertos — o leve zumbido do elevador no corredor, o tinir das chaves de um vizinho voltando tarde, o fraco sibilo da mudança no fluxo de ar na saída do ar-condicionado. Esses sons eram automaticamente classificados e ordenados em sua mente, demarcando os limites da janela de segurança.
O intervalo da ronda de vigilância era de vinte e três minutos. Ele ainda tinha dezessete.
O zumbido baixo da ventoinha do notebook se misturava ao leve calor que emanava da saída de ventilação. Havia no ar um odor característico de placas de circuito antigas, levemente adocicado e queimado. O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou começou a tremer, levemente, como se uma corda de violão quebrada estivesse enterrada sob a pele. Ele a ignorou. Seu dedo indicador direito batia inconscientemente na beirada da mesa — uma, duas, três vezes — era o ritmo que ele usava antigamente na sala de interrogatório para se manter acordado. Agora, servia para resistir a outro tipo de aprisionamento.
A barra de progresso chegou a oitenta e sete por cento.
Ele lembrou-se da coleção *Anuário de Tecnologia Criminal* no escritório de Shen Yan. Capa dura, lombada dourada, arrumada como um espécime. Gu Zhixing permitira que ele levasse alguns "itens pessoais irrelevantes" como "referência para análise comportamental"; aquela coleção de anuários estava na periferia da lista, assim como o tablet. Tão limpo. Limpo demais, como uma isca colocada ali de propósito. Na época, Lu Chenzhou não tocou nos anuários, pegou apenas o tablet e alguns cadernos de anotações. Agora, aquele tablet repousava em sua palma, a carcaça fria, a borda com uma pequena marca de batida — muito velha, não parecia algo que uma pessoa como Shen Yan usaria por muito tempo.
Noventa e nove por cento.
A tela escureceu por um instante, depois iluminou-se novamente. Uma partição que nunca aparecera na lista de unidades do sistema pendia silenciosamente no final do gerenciador de arquivos. O rótulo estava vazio. A capacidade exibia 2,4 GB.
Lu Chenzhou clicou nela.
Dentro, não havia uma estrutura complexa de pastas, apenas um arquivo compactado, com um nome que era uma sequência de caracteres aleatórios. Ele o descompactou; a senha foi o terceiro conjunto que tentou — a data da morte da mãe de Shen Yan, mais os últimos quatro dígitos do número de matrícula dele na universidade. O arquivo expandiu-se, revelando o conteúdo: dezenas de arquivos PDF digitalizados, centenas de capturas de tela de páginas da web e um arquivo de texto.
Ele abriu primeiro o arquivo de texto.
Havia apenas uma linha, em fonte Song tamanho 12, centralizada: «Eles ainda estão observando. Cuidado.»
Lu Chenzhou fechou o arquivo. Seu coração deu uma pancada forte no peito, mas ele o forçou de volta ao lugar com a força de vontade. Clicou no primeiro PDF. Era uma digitalização de um recorte de jornal, o papel amarelado, as bordas desfiadas
Seu processo. A testemunha-chave. O encanador que "já estava morto", cujo testemunho não podia ser confrontado. Entre as evidências apresentadas pela polícia na época, havia uma foto de um crachá de funcionário, o número também era SH-0743. Disseram que o corpo foi vaporizado no centro da explosão, restando apenas esses fragmentos. Lu Chenzhou havia solicitado uma comparação de DNA na época, mas o pedido foi negado. Motivo: necessidade insuficiente, e os familiares já haviam confirmado.
Agora, o mesmo nome, o mesmo número, aparecia no relatório do acidente secretamente colecionado por Shen Yan.
Circulado com caneta vermelha.
Lu Chenzhou fechou os olhos. Na escuridão, os números e letras não desapareceram, ficando ainda mais nítidos. SH-0743. Ele abriu os olhos novamente e clicou no próximo arquivo. Era um escaneamento de uma captura de tela de um fórum, o design da página era rudimentar, como o de um antigo BBS de mais de dez anos atrás. Título do post: "Algumas Dúvidas sobre o Acidente da Xinghuo Chemical". Postador anônimo, data marcada como oito meses atrás — três meses antes da morte de Shen Yan. O conteúdo do post listava várias inconsistências no relatório do acidente: números de vítimas inconsistentes, registros de manutenção de tubulações ausentes, testemunhos de testemunhas alterados...
Havia poucas respostas, apenas quatro ou cinco. Uma delas dizia:
"Cuidado, autor. Não cave muito fundo no assunto do Li Guohua. A família dele se mudou depois, ouvi dizer que receberam dinheiro para ficar quietos. Ninguém sabe onde moram agora."
Outra resposta estava abaixo, dois meses depois:
"Você ainda está aí, autor? Descobri um pouco sobre a cidade natal do Li Guohua, te enviei uma mensagem privada."
A captura de tela terminava aí. Sem continuação.
Lu Chenzhou fechou a imagem e abriu o próximo PDF. Era um escaneamento de documentos de desapropriação de terras, a parte B era a Xinghuo Chemical, a parte A era a "Terceira Filial Subordinada ao Grupo de Investimento Urbano Municipal". A data de assinatura era seis meses antes do acidente. Virando para a última página, a seção de assinaturas. Representante da parte B assinando: Shen Moqing. O carimbo era do Grupo Shen.
A ponta de seu dedo parou sobre o touchpad.
O ar no escritório parecia ter ficado mais denso. Na borda do halo da luz da mesa, poeira flutuava lentamente. Lu Chenzhou conseguia ouvir a própria batida do coração, uma, outra, batendo contra seus tímpanos. Ele ergueu a cabeça e olhou para o detector de fumaça no canto da parede — também era uma das câmeras. Os homens de Gu Zhixing podiam estar observando do outro lado, vendo-o apenas sentado em frente ao computador "organizando materiais". Eles conseguiam ver o reflexo da tela? Provavelmente não. O ângulo foi ajustado de propósito. Mas e se conseguissem?
Ele ainda tinha nove minutos.
Respiração profunda. Comprimiu as emoções para baixo, para dentro do estômago, transformando-as em um bloco de ferro gelado. Então continuou.
A maioria dos arquivos seguintes eram recortes de jornais e arquivos de artigos online, abrangendo um período desde o ano do acidente até o presente. Shen Yan parecia ter colecionado sistematicamente todas as reportagens públicas, incluindo até mesmo algumas discussões em fóruns locais. Entre eles, um artigo suplementar de um jornal metropolitano de três anos atrás, mencionando o projeto de reurbanização do local original da Xinghuo Chemical. Na foto da cerimônia de lançamento do projeto, Shen Moqing estava no centro da primeira fila, sorrindo, apertando as mãos de líderes municipais. O artigo usava um subtítulo: "Renascimento das Cinzas, Antiga Zona Industrial Revitalizada".
Shen Yan havia escrito algumas palavras a lápis ao lado deste trecho, letras muito pequenas, quase ilegíveis: "Dançando sobre as ruínas."
Lu Chenzhou fechou todas as janelas.
Ele recolocou o tablet de volta na bolsa de Faraday e apertou a abertura. Os dados do notebook offline já haviam sido copiados para aquele pequeno pendrive de criptografia física — do tamanho de uma unha, capa de metal, que ele havia escondido antecipadamente no compartimento oculto da tampa de sua caneta. Agora, além dos materiais do antigo caso já existentes, o pendrive continha mais uma pasta de 2
Lu Chenzhou abriu o anexo PDF. Na tela, as doze páginas inteiras que ele havia escrito na noite anterior, sobre "influência de anciãos" e "estímulo por informações passadas", estavam riscadas do início ao fim por linhas vermelhas cortantes. Aquelas linhas vermelhas pareciam cortes de faca, atravessando o texto em preto e branco. Uma anotação pequena ao lado dizia: «Esta parte pertence a especulações sem fundamento, tende a desviar a direção da investigação.»
Sua respiração parou por um instante.
O coração batia pesadamente no peito, uma vez, e outra vez. Um gosto metálico surgiu no fundo da garganta. Ele olhou para aquelas linhas vermelhas por dez segundos. A luz da tela refletia em suas pupilas, fria e estável.
Então, ele moveu o mouse e clicou em responder.
O som dos dedos batendo no teclado era especialmente claro no silêncio. Tac. Tac tac. Cada sílaba era precisa e contida.
«Advogado Gu: Comentários recebidos. Versão revisada lida. Realmente considerei de forma inadequada, finalizarei estritamente de acordo com isso. As investigações subsequentes focarão mais na análise do comportamento individual do falecido.»
Ele digitou esta linha e pousou os dedos sobre a tecla de enviar.
A cidade lá fora começava a despertar, um toque de buzina distante chegava até ele. As sombras das persianas se moviam lentamente, subindo pelo seu pulso. O leve calor da faixa de luz sobre a pele contrastava com o frio emitido pela tela.
Não podia parar aqui.
Ele retirou os dedos, voltou ao final do texto principal. Após aquela frase de submissão, começou uma nova linha e acrescentou, em um tom aparentemente casual de consulta:
«Além disso, ao organizar os dados passados do jovem Shen Yan, notei que ele pode ter deixado rastros de atenção sobre alguns casos antigos desta cidade (como a reforma da antiga zona industrial, acidentes em fábricas antigas, etc.). Essas informações devem ser mencionadas no relatório? Se sim, qual deve ser o nível de detalhe adequado?»
Ele leu mentalmente três vezes.
Esta frase tinha que ser como uma pedra lançada em um lago profundo — não podia ser grande demais, para não assustar os pássaros; nem pequena demais, para não passar despercebida. Tinha que soar como um consultor diligente, confirmando limites vagos dentro do escopo profissional. "Casos antigos". Um escopo amplo. "Acidente em fábrica antiga". Um direcionamento vago, mas suficiente para fazer um conhecedor estremecer.
Ele pressionou enviar.
A barra de progresso avançou lentamente. Enviando... 10%... 50%... Seu olhar não se desviou da tela, seus ouvidos captavam todos os sons. O zumbido baixo da saída de ar do ar-condicionado central. A vibração da partida do compressor da geladeira. No corredor externo, o rolar abafado das rodas do carrinho de limpeza sobre o carpete.
O som de confirmação de envio de e-mail soou, muito suave.
Ele recostou-se na cadeira e fechou os olhos. As imagens residuais das linhas de exclusão vermelhas permaneciam em sua retina, sobrepondo-se ao nome "Li Guohua", circulado em caneta vermelha no final da lista de vítimas que ele vira no tablet de Shen Yan na noite anterior. Uma era uma especulação apagada pelo poder, a outra era um ponto suspeito marcado pelo falecido.
Entre os dois, havia o mesmo abismo.
Ele abriu os olhos, já com uma clareza fria em seu olhar. Gu Zhixing exigiu a exclusão de todas as especulações sobre "fontes de informação externas" e "influência de anciãos". Isso equivalia a bloquear explicitamente seu caminho para sondar Zhou Zhengping. A sensibilidade da família Shen em relação a esse policial aposentado era muito maior do que o esperado.
Mas, no e-mail, a sonda sobre "casos antigos" ainda não tinha resposta de Gu Zhixing.
Lu Chenzhou fechou a interface do e-mail. Os dados extraídos na noite anterior, aqueles recortes de jornais sobre o acidente da fábrica Xinghuo, capturas de tela de fóruns, digitalizações da lista de vítimas... cada byte já estava gravado em sua memória.
Shen Yan estava investigando o antigo caso da fábrica química.
Shen Yan notou o encanador desaparecido Li Guohua.
Gu Zhixing proibiu-o de investigar profundamente "fontes de informação externas".
Três linhas se entrelaçavam e colidiam em sua mente. A proibição de Gu
Lu Chenzhou olhou para aquela linha, o canto da boca se contraiu levemente. Não era um sorriso, mas um arco frio de confirmação. A evasão de Gu Zhixing sobre "assuntos antigos" e a proibição de "fontes de informação externas" formavam um perfeito paralelo. Eles queriam encapsular a morte de Shen Yan como uma tragédia isolada, interna, puramente pessoal. Qualquer fio que tentasse ligar este caso a um contexto mais amplo de casos antigos seria cortado sem hesitação.
Seu caminho de investigação legal — aquele relatório sobre o caso Shen Yan que poderia servir como cobertura, uma abordagem indireta — já havia sido castrado.
Mas ele segurava em suas mãos a chave para os casos antigos que Shen Yan havia deixado em particular.
Uma porta estava soldada, e outra janela aparecia silenciosamente na escuridão. Só que fora daquela janela, não havia um caminho livre, mas um penhasco ainda mais íngreme.
Ele desligou a tela do celular e o virou sobre a mesa. O movimento era estável, sem um tremor sequer.
A luz do sol se moveu um pouco mais, iluminando o caderno aberto. Não havia nenhuma anotação, apenas os sulcos profundos e rasos que ele havia feito inconscientemente com a ponta da caneta. A mão esquerda repousava sobre o joelho, o indicador e o polegar esfregavam lentamente e repetidamente um velho percevejo tirado do porta-lápis. A ponta de metal pressionava a polpa do dedo, transmitindo uma dor sutil e clara.
O pensamento estava completo.
A decisão estava tomada.
Zhou Zhengping precisava ser contatado. Imediatamente, em segredo, e sem usar nenhum canal convencional que pudesse ser monitorado.
Ele precisava de um novo pretexto. Uma desculpa que pudesse ser ligada à investigação do caso Shen Yan e que naturalmente o levasse à área de especialização de Zhou Zhengping.
Seu olhar percorreu a estante. Fileiras de livros especializados, ciência da investigação criminal, medicina legal, psicologia criminal... Seus olhos pararam em um pesado anuário azul escuro.
*Anuário de Tecnologia Criminal (Edição Combinada 2018-2022).*
Ele lembrava que, antes de se aposentar, Zhou Zhengping havia sido um dos membros do comitê editorial deste anuário autoritativo. E no estudo de Shen Yan, também havia um conjunto do mesmo anuário. Um consultor técnico, ao analisar os livros especializados do falecido, descobre que certos detalhes técnicos são questionáveis e consulta o ex-membro do comitê editorial — esse pretexto era liso como uma pedra rolada, deslizando por qualquer fenda de escrutínio sem ficar preso.
Ele se levantou, caminhou até a estante e tirou o anuário.
O livro era pesado. A capa azul escura estava um pouco desgastada, os caracteres dourados na lombada ainda eram claros. Ele levou o livro de volta para a escrivaninha, os dedos passaram sobre a sólida junção colada da lombada. Então, pegou o cortador de papel fino como uma folha de salgueiro do porta-lápis — a ferramenta usada anteriormente para abrir o envelope do arquivo.
A ponta da lâmina entrou na costura entre a lombada e as páginas internas.
Uma leve pressão.
A linha vermelha de exclusão na tela parecia uma ferida fresca. Lu Chenzhou encarou aquelas linhas de texto apagadas, os dedos batendo levemente na borda do teclado, o ritmo estável, mas as juntas levemente pálidas. A barra de progresso do envio do e-mail terminou, emitindo um "ding" quase inaudível.
Ele recostou-se na cadeira e fechou os olhos.
A reação de Gu Zhixing foi mais rápida do que ele esperava. Excluir o capítulo sobre "influência de anciãos" significava que a linha de Zhou Zhengping estava claramente demarcada como zona proibida. Aquela pergunta de sondagem sobre "assuntos antigos" ainda não tinha resposta — o silêncio em si já era uma resposta. A vigilância sobre aquele nome já era evidente.
Ele abriu os olhos, o olhar se voltando para o pesado e velho notebook do outro lado da mesa. A tela estava escura, as aberturas de ventilação ainda retinham um calor residual.
Ele precisava de provas irrefutáveis. De algo que pudesse pregar duas linhas do tempo, dois casos não resol
Ele imediatamente acessou a seção sobre "testemunha-chave Li Guohua" em seu próprio dossiê. O "Relatório de Situação" era redigido de forma impecável: «... A testemunha Li Guohua, durante o período de cooperação com a investigação, infelizmente faleceu no acidente da Fábrica de Produtos Químicos Estrela Cadente. Seu crachá de funcionário (número SH-0743) foi encontrado no local e confirmado pelos familiares. Como o corpo estava gravemente danificado, impossibilitando a identificação, sua morte foi presumida com base no crachá e nos depoimentos dos colegas de trabalho.»
Presumida.
Duas palavras, levemente apagando a vida ou a morte de uma pessoa.
A mão esquerda de Lu Chenzhou estendeu-se inconscientemente para o porta-lápis, tocando o alfinete de mapa antigo. As pontas dos dedos sentiram o frio metálico. Ele o segurou e começou a girá-lo lentamente. A ponta afiada do alfinete pressionava a polpa do dedo, trazendo uma sensação aguda de dor.
Mesmo nome? Mesmo número?
Ele abriu a pasta de imagens no arquivo do fórum. A maioria das fotos estava desfocada. Ele passou por elas uma a uma, rapidamente, suas pupilas contraindo sob a luz azul da tela.
Até chegar à foto coletiva tirada antes do acidente.
A resolução da foto era baixa, o fundo mostrava os canos enferrujados da fábrica química, mais de vinte homens vestindo macacões azul-escuro dispostos em três fileiras. As bordas da foto já estavam amareladas e enroladas.
O olhar de Lu Chenzhou não se fixou nos sorrisos.
Ele observava o canto inferior direito da foto. Lá, um homem estava de pé de lado, parecendo estar prestes a sair do enquadramento, deixando apenas uma pequena parte das costas e um pedaço borrado do rosto de perfil. Ele usava o mesmo macacão, com um retângulo branco pendurado no peito.
Lu Chenzhou ampliou a imagem.
Ampliou mais.
Os pixels começaram a se desintegrar, virando blocos de cor como em um mosaico. Mas ele não precisava ver o rosto claramente. Precisava apenas ver aquele retângulo.
O crachá de funcionário.
Fundo branco, borda azul. Com duas linhas de texto impressas. A linha superior dizia "Estrela Cadente Química", e a linha inferior era o número.
A caligrafia ficou borrada com a ampliação, mas a forma dos números ainda estava lá.
S……H……-……0……7……4……3.
SH-0743.
O corpo de Lu Chenzhou congelou.
Os dedos que seguravam o alfinete apertaram subitamente, a ponta afiada penetrou na polpa do dedo, fazendo surgir uma pequena gota de sangue. Ele não sentiu dor. Toda a sua consciência estava congelada naquela sequência de números na tela.
Sete anos atrás, a polícia usou uma foto desse crachá como prova de que Li Guohua estava "morto", bloqueando o último caminho para reverter sua condenação.
Sete anos depois, Shen Yan, em sua investigação secreta, encontrou uma imagem do dono desse crachá ainda "vivo".
A linha do tempo aqui se torceu, convergiu e então desabou com estrondo.
Lu Chenzhou fechou os olhos e respirou fundo. Seus pulmões se expandiram, o ar inalado trazia o cheiro antigo do papel e do calor dos equipamentos eletrônicos do escritório. Quando abriu os olhos novamente, a onda de choque em seus olhos já havia se acalmado, restando apenas um frio profundo como um lago escuro.
Não era coincidência.
Não podia ser coincidência.
Shen Yan, nos meses anteriores à sua morte, vinha investigando secretamente o antigo caso da Fábrica de Produtos Químicos Estrela Cadente. Ele notara a figura-chave "desaparecida" de Li Guohua. Então, morreu.
E Li Guohua era exatamente a testemunha no caso de Lu Chenzhou que, naquele tempo, "infelizmente" "faleceu" no momento crucial, rompendo a cadeia de testemunhos-chave.
O ponto de convergência dos dois casos estava aqui. Exatamente neste pequeno crachá, com o número SH-0743 impresso.
Prova irrefutável.
Lu Chenzhou soltou o alfinete, a gota de sangue na ponta do dedo deixou uma mancha vermelho-escura na mesa. Ele agiu rapidamente: capturou a tela, colocou a foto do fórum lado a lado com a foto do crachá de seu dossiê, marcou a área de compara
Ele retornou à escrivaninha e abriu a gaveta. Lá dentro repousava uma faca de papel fina como uma folha de salgueiro, sua lâmina emitindo um brilho frio e duro sob a luz da luminária de mesa. Ele pegou a faca e inseriu a ponta na fenda da lombada do livro.
No instante em que a cola foi forçada a se soltar, um odor de produtos químicos envelhecidos misturado com o mofo do papel perfurou suas narinas. Seus movimentos eram leves, lentos. A luz do dia lá fora transitava do cinza-ferro para um branco sujo e brilhante. Ele desligou a tela do computador offline. No quarto, restava apenas a velha luminária de mesa, aquecendo um pequeno pedaço da superfície em um amarelo quente, enquanto o entorno mergulhava em sombras ainda mais profundas.
Ele se sentou, com a coluna ereta, sem se apoiar no encosto da cadeira.
As duas fotos lado a lado na tela já haviam desaparecido — a foto antiga e desfocada do fórum, o close nítido do crachá no arquivo de evidências da polícia — mas aquele número, SH-0743, permanecia como ferro em brasa gravado em sua retina.
Ele inspirou profundamente. O ar carregava o cheiro de papel velho, poeira e o leve odor irritante da cola que escapara ao forçar a lombada. Aquele cheiro o fez lembrar das compilações jurídicas da biblioteca da prisão, gastas e remendadas. Lembrou daquelas noites sem fim.
Ele abriu os olhos. Neles, nenhuma emoção, apenas uma concentração mecânica.
À sua esquerda, aberta, estava a coleção de capa verde musgo dos "Anais de Tecnologia Criminal", sete volumes no total, seus títulos dourados já desbotados. No topo da pilha, a lombada do primeiro livro estava levemente aberta, revelando uma pequena fenda, uma estreita camada oculta. À sua direita, um minúsculo pen drive preto, menor que uma unha, seu invólucro metálico brilhando friamente sob a luz.
Os dois casos haviam se cruzado.
Não era uma suposição, era evidência concreta. Nos meses antes de sua morte, Shen Yan havia retornado secretamente às margens daquele incêndio de sete anos atrás. Ele encontrara Li Guohua. Aquele encanador crucial, que nos registros oficiais estava "confirmado morto" e nos arquivos do caso de Lu Chenzhou era "uma testemunha morta sem confirmação".
Por que Shen Yan investigava isso? Por sua família? Para limpar algo? Ou percebera uma escuridão capaz de subverter tudo, tentando agarrar uma moeda de troca para se salvar?
Lu Chenzhou não sabia. Mas Shen Yan estava morto. Morto de forma "limpa" e "plausível".
E Gu Zhixing, com sua linha de exclusão vermelha, soldara a possibilidade de Lu Chenzhou investigar abertamente.
"É proibido aprofundar-se em conexões externas."
A ordem era clara como uma lâmina de guilhotina.
Lu Chenzhou pegou o pen drive. A ponta dos dedos sentiu o frio sutil do metal. Ele transferiu para dentro — usando seu próprio algoritmo de criptografia com camadas sobrepostas — a captura de tela do fórum, a análise comparativa das fotos, os resumos das postagens-chave... todas as evidências que provavam a sobreposição entre a linha de investigação de Shen Yan e a identidade de Li Guohua. Enquanto os dados eram escritos, o LED do pen drive piscou fracamente algumas vezes, como batimentos cardíacos moribundos.
Com uma pinça, ele pegou o pen drive e o alinhou com a fenda na lombada.
O movimento era lento. Seus dedos, firmes, sem o menor tremor. Ele podia ouvir sua própria respiração estável, porém profunda, ouvir o som distante de uma descarga de vaso sanitário, sentir o calor sutil do halo da luminária e a leve resistência quando a borda metálica do pen drive pressionava as fibras do papel.
"Clique."
Um som muito suave, mas anormalmente claro. O pen drive deslizou perfeitamente para o fundo da camada oculta, sendo comprimido e envolto pela espessura e peso do livro. Ele soltou a pinça e pressionou cuidadosamente a borda da lombada de volta ao lugar. A aderência da cola ainda estava presente, as bordas se alinharam quase sem deixar vestígios. Apenas cheirando bem de perto era possível captar aquele leve odor químico recém-exposto.
Ele pegou o anuário, pesou-o na mão, balançou-o suavemente.
Nenhum ruído
O contorno do plano rapidamente tomou forma em meio à lógica fria.
Com o pretexto de analisar os hábitos de coleção de livros e os focos profissionais de Shen Yan, descobriu que as explicações sobre certos padrões técnicos no anuário apresentavam áreas obscuras que precisavam ser esclarecidas em relação às intenções não reveladas ou evidências materiais deixadas por Shen Yan antes de sua morte. Sob o pretexto de consultar questões profissionais, ele entraria em contato com Zhou Zhengping. A consulta seria pública, profissional e serviria à investigação do caso de Shen Yan. Quanto a como o tópico, após a consulta, "acidentalmente" deslizaria para velhos conhecidos e acontecimentos passados, para a lista de baixas empoeirada e o encanador desaparecido... isso seria a arte da conversa e o jogo de riscos.
Ele iria, como consultor contratado por Shen Yan, com "dúvidas de trabalho", visitar um respeitado veterano.
E aquele veterano veria um "Anuário de Técnicas Criminais". Um anuário que talvez fosse "acidentalmente" aberto em uma determinada página durante a conversa, ou talvez fosse "esquecido" em sua casa na despedida.
Lu Chenzhou empilhou os sete anuários e os colocou de volta em suas posições originais na estante. O movimento era tão comum quanto lidar com qualquer material de mesa irrelevante.
Feito isso, ele desligou a lâmpada de mesa.
O quarto mergulhou completamente na escuridão. Apenas a fraca luz do amanhecer refletida no horizonte da cidade delineava os contornos vagos da janela e dos móveis. Ele ficou diante da janela, observando os faróis e as silhuetas que gradualmente aumentavam na rua abaixo. O vapor das barracas de café da manhã subia no ar frio, o som regular e distante da vassoura do zelador varrendo o chão.
Era uma manhã perfeitamente comum.
Mas Lu Chenzhou sabia que algumas coisas já haviam mudado irrevogavelmente. Ele acabara de esconder a primeira pedra fundamental da revisão do caso nas costas de um livro. Ele acabara de traçar um plano que o empurraria completamente para a beira do precipício.
Ele pegou o celular, abriu a lista de contatos e selecionou um número para o qual nunca havia discado. A anotação era "Professor Zhou". O número havia sido confirmado anteriormente, através de certos canais inconvenientes de mencionar.
O polegar pairou sobre a tecla de discagem, pausou por três segundos.
Pressionou.
O receptor emitiu um longo tom de espera, um após o outro, amplificado com clareza incomum no silêncio do quarto.
Tocou sete vezes.
Justamente quando Lu Chenzhou pensou que ninguém atenderia e se preparou para desligar, a chamada foi atendida.
Do outro lado, ninguém falou imediatamente. Apenas uma respiração pesada, com um ligeiro ruído de fundo. Ao fundo, havia o leve tilintar de porcelanas se chocando e o som de líquido sendo derramado.
Lu Chenzhou falou primeiro, a voz estável, com a deferência adequada: "Professor Zhou? Desculpe incomodá-lo. Sou Lu Chenzhou."
Silêncio por dois segundos do outro lado da linha. O som do líquido sendo derramado parou.
Uma voz masculina rouca, arrastada, como se estivesse lutando contra uma ressaca, surgiu, carregada de um forte sotaque regional e uma desconfiança nada disfarçada: "... Quem?"
"Lu Chenzhou." Ele repetiu, diminuindo ainda mais o ritmo da fala. "Consultor atualmente contratado pelo Grupo Shen, responsável pela investigação do caso da morte acidental do jovem Shen Yan. Há alguns detalhes técnicos sobre os quais gostaria de consultá-lo."
"Shen Yan..." A voz de Zhou Zhengping se arrastou, a terminação carregada de uma mastigação de significado incerto. "Gente de Shen Yan, o que quer consultar com um velho inútil aposentado como eu?"
"Não é sobre Shen Yan." Lu Chenzhou corrigiu, as palavras precisas como uma declaração em tribunal. "São algumas questões profissionais que encontrei durante a investigação do caso do jovem Shen Yan. Notei que no estudo do jovem Shen Yan há um conjunto do 'Anuário de Técnicas Criminais' no qual o senhor participou da compilação. O capítulo sobre a evolução dos padrões de coleta de evidências vestigiais apresenta associações com certos detalhes comportamentais dele antes da morte que me deixaram perplexo. Acho que talvez apenas os compiladores que vivenciaram a formulação dos padrões na época possam me ajudar a esclarecer."
Silêncio. Desta
“Fora do jogo…” Zhou Zhengping repetiu em voz baixa, em seguida soltou uma risada curta e quase sarcástica. “Tudo bem. Amanhã às três da tarde. Bairro antigo, casa de chá ‘Escutar a Chuva’. Sabe onde fica?”
“Sei.”
“Apenas você sozinho.” A voz de Zhou Zhengping de repente ficou fria e dura. “Não traga cauda. E não grave. Estou velho, mas meu nariz ainda não está inútil. Se sentir qualquer cheiro estranho, viro as costas e vou embora.”
“Entendido.”
A ligação foi desligada.
O sinal de ocupação apitava no silêncio. Lu Chenzhou colocou o telefone de lado e voltou seu olhar para o “Anuário de Tecnologia Criminal” na estante. Amanhã às três da tarde. Bairro antigo, casa de chá “Escutar a Chuva”. Um policial aposentado, um consultor restrito por uma proibição, um livro escondendo provas irrefutáveis.
A brecha já foi aberta. Agora, ele precisava se enfiar dentro.