Capítulo 13: O Peso das Peças Soltas
Miguel Nunes de Andrade forçou a passagem pelo corredor estreito. O metal frio das paredes raspava em seus ombros, um rangido de dentes de uma engrenagem sem óleo. A porta à frente era um bloco maciço de aço. Pesada. Tinha a densidade de um segredo de família enterrado no fundo de um baú mofado. Ele puxou a alavanca com a mão trêmula. O ar escapou em um chiado agudo, como uma chaleira esquecida no fogo.
Ao cruzar o limiar, o mundo dobrou. Miguel sentiu a massa do próprio corpo ser sovada por mãos invisíveis e cruéis. A gravidade no módulo não era um abraço constante. Era uma tempestade caprichosa. Ela puxava seus ossos em ângulos impossíveis, exigindo uma negociação exaustiva com cada músculo. O chão parecia alternar entre gelatina e chumbo a cada passo. O ar ali dentro carregava o cheiro acre de desinfetante barato e o odor metálico de componentes eletrônicos fritando.
Miguel tentou manter a arma firme. O peso do revólver em seu pulso triplicou, transformando o metal em uma âncora de navio que o arrastava para baixo.
— Isso aqui parece um puxadinho feito por um empreiteiro bêbado — resmungou Miguel.
Sua voz saiu rouca, como se ele estivesse mastigando areia. Ele varreu o espaço com o olhar. A precariedade daquela "favela orbital" que Lívia tanto temia estava escancarada. Cabos coloridos serpenteavam pelo teto. Pareciam trepadeiras venenosas em um jardim abandonado. Painéis de controle piscavam em um ritmo cardíaco irregular, uma arritmia tecnológica. A luz era uma mistura doentia de azul neon e vermelho de emergência. Sombras dançavam nas paredes, alongando-se como manchas de tinta em um papel úmido.
Uma pressão brutal atingiu suas juntas. O aviso era claro: seu corpo de quarenta e poucos anos não fora projetado para aquela diversão tecnológica.
— Belo lugar para uma inauguração — disse ele para o vazio. — Só falta o cafezinho e o laudo da Defesa Civil.
A náusea subiu por sua garganta como uma maré negra. Ele engoliu em seco. De repente, o ar à frente começou a vibrar. Um enxame de pixels azulados se aglutinou no centro da sala. O Dr. Alcides Rangel de Sá surgiu em uma projeção holográfica. O rosto era liso demais. Não havia as rugas que a vida costuma esculpir nos homens comuns. Ele parecia um fruto colhido antes do tempo, mantido artificialmente fresco em uma vitrine de luxo. Rangel sorriu. O gesto não alcançou seus olhos, que permaneciam frios como mármore de necrotério.
— Processador Nunes — disse Rangel. A voz era modulada, suave como a de um tio benevolente em um almoço de domingo. — É fascinante ver como o protótipo ainda insiste em funcionar. Mesmo com o hardware tão defasado.
Miguel apontou a arma para o centro do peito da imagem. Sabia que as balas apenas atravessariam a luz como se fosse fumaça de cigarro, mas o peso do gatilho era o único conforto que lhe restava. O suor escorria por suas costas, um rastro gelado contra o calor seco que emanava das máquinas. Sua visão começou a embaralhar nas bordas. Pequenos pontos de luz piscavam como vaga-lumes em um pomar escuro.
— Protótipo é a mãe, Rangel — devolveu Miguel. Ele forçou um sorriso cínico que fez seus lábios racharem. — Eu sou o erro de cálculo que você esqueceu de apagar da planilha. É isso que vocês chamam de futuro? Um elevador que parece uma UPA sucateada no meio do nada?
Rangel soltou uma risada curta. O som seco lembrou Miguel de folhas mortas sendo esmagadas sob botas pesadas. O cientista fez um gesto sutil com a mão. A gravidade no módulo deu um solavanco violento. O impacto empurrou Miguel contra a parede metálica. O ar foi expulso de seus pulmões em um estalo. O gosto de ferro inundou sua boca, amargo e familiar como uma derrota antiga.
— Você sempre foi limitado pela sua própria percepção, Miguel — afirmou Rangel. Ele caminhava pela projeção como se estivesse em um jardim botânico, ignorando a desordem ao redor. — O seu "dom", essa pequena mágica de feira que você usa para enganar batedores de carteira, é apenas um subproduto. Um bug em uma linha de código que estamos prestes a reescrever em escala global.
O peito de Miguel apertou como um tambor sendo esticado até o limite. A raiva fervia sob a pele, uma água em ponto de ebulição. Ele precisava de espaço. Precisava quebrar aquela ilusão de controle que Rangel ostentava com tanta arrogância. Com cuidado, fechou os olhos por um segundo. Buscou no fundo de sua mente o padrão de ondas que costumava projetar nas ruas sujas do Rio.
— Vamos ver como você lida com um pouco de realidade crua — murmurou Miguel.
Ele concentrou toda a sua vontade em um único ponto no teto. Projetou a imagem de um colapso estrutural. O som de metal se rasgando como tecido velho ecoou pelo módulo. Faíscas elétricas explodiram em cascata. Por um momento, as paredes pareceram rachar. Fissuras negras subiram pelo aço como raízes de uma árvore maldita. O alarme que ele imaginou começou a soar, um grito estridente que deveria ter feito Rangel recuar em pânico.
O sistema do elevador reagiu com a velocidade de um predador faminto. Sensores neurológicos ocultos nas paredes detectaram a interferência. Emitiram um contrasinal que vibrou nos dentes de Miguel. A voz sintética do computador central sobrepôs-se ao seu delírio. Recitava códigos de protocolo em um tom neutro e implacável. A imagem das rachaduras começou a se duplicar, distorcendo-se até que Miguel visse o próprio braço parecer se partir em mil pedaços de vidro.
— Interferência neural detectada — anunciou a voz feminina metálica. — Ajustando parâmetros de estabilidade.
Miguel caiu de joelhos. As mãos pressionaram as têmporas enquanto a dor de cabeça explodia como uma granada de efeito moral. O truque voltara-se contra o mestre. A realidade do elevador era um muro alto demais para ser saltado com meras sugestões mentais. Rangel observava tudo com uma curiosidade clínica. Parecia um entomologista estudando os últimos espasmos de um besouro espetado em uma agulha.
— Você é um rádio velho tentando sintonizar uma frequência digital, meu caro — disse Rangel. A voz estava cheia de uma piedade insultante. — O seu cérebro foi o canteiro de obras onde plantamos as sementes da Atlântico Vertical. A colheita agora pertence a nós.
As luzes do módulo piscaram violentamente. Um zumbido grave, como o motor de um navio cargueiro, cessou abruptamente. A gravidade desapareceu. Miguel flutuou em um vácuo súbito e desorientador. Foi uma falha de energia, um soluço na máquina gigantesca que lhe deu uma chance inesperada de respirar. Miguel usou o impulso para se agarrar a uma barra de ferro. Impulsionou-se em direção a uma escotilha lateral. Parecia levar a um compartimento técnico.
Ele forçou a porta com os pés. Deslizou para dentro de uma cabina de descanso pequena e abafada. Ao fechar a porta atrás de si, o silêncio caiu sobre ele como um cobertor pesado. Apenas o som de sua própria respiração, curta e ruidosa, quebrava a quietude. O espaço era minúsculo. Oferecia, porém, um conforto que Miguel não sentia há dias. Havia um aquecedor portátil ligado em um canto. O calor seco começou a descongelar o frio que se instalara em seus ossos.
Miguel encontrou um reservatório de água fixado na parede. Bebeu avidamente. A água morna desceu por sua garganta como um bálsamo milagroso. Sentou-se em um banco dobrável de tecido áspero. O corpo finalmente cedeu ao cansaço acumulado. Um fone de ouvido estava pendurado em um gancho próximo. Movido por um instinto de detetive que se recusava a morrer, Miguel colocou-o nos ouvidos. Uma gravação antiga de briefing de segurança começou a rodar. Era a voz de uma mulher com um sotaque carioca carregado. Cansada. Humana.
— "Lembre-se, funcionário, a segurança é a base do nosso progresso" — dizia a gravação entre chiados de fita velha. — "Mantenha as ferramentas organizadas e o coração no projeto. O elevador é a nossa escada para um amanhã sem fome."
Miguel soltou uma risada amarga. Fechou os olhos enquanto o calor do aquecedor atingia suas canelas. Imaginou a mulher que gravara aquilo. Provavelmente uma engenheira como Lívia. Ou talvez uma técnica que acreditava piamente que estava construindo algo bom para o povo. O contraste entre aquela promessa de esperança e o horror biológico que vira nos andares debaixo era um quebra-cabeça cujas peças se recusavam a encaixar.
— Um amanhã sem fome, né? — murmurou ele para o fone. — Só esqueceram de dizer que o preço era a nossa memória. Que a gente ia virar peça de reposição em uma máquina que nem entende o que é ser gente.
Ele pensou em Lucas. Seu Luquinhas estava lá fora, arriscando a vida com uma câmera na mão e um idealismo que Miguel já perdera há muito tempo. O medo pelo filho era um peixe avistando a rede. Uma sensação de pânico que ele tentava sufocar com o cinismo de sempre. Ele não podia falhar. Não podia deixar que Lucas se tornasse mais um "Processador" em uma sala escura, esquecendo quem era o pai ou por que lutava.
— Eu vou tirar a gente dessa, moleque — prometeu Miguel em voz baixa. O gosto da água morna ainda estava na boca. — Nem que eu tenha que quebrar esse brinquedo caro peça por peça.
O momento de paz foi interrompido por um solavanco violento. A cabina rangeu como um navio velho em meio a uma tempestade. A gravidade retornou em degraus pesados, empurrando-o contra o banco de tecido. Miguel soube que o tempo de descanso acabara. Guardou a garrafa de água vazia no bolso. Checou a munição da arma. Abriu a porta da cabina e voltou para o corredor do módulo.
O ambiente mudara. Os painéis de controle agora projetavam imagens da cidade do Rio de Janeiro. Eram visões distorcidas. Cheias de ruído visual e cores saturadas. Miguel viu a Marquês de Sapucaí, os arcos da Lapa e as praias da Zona Sul. Tudo estava coberto por uma névoa digital que parecia pulsar. A voz de Rangel retornou, multiplicada por todos os alto-falantes. Cercava Miguel como um cerco policial.
— Você chegou bem na hora da prévia, Miguel — anunciou Rangel. Sua imagem agora ocupava várias superfícies ao mesmo tempo. — O sistema está entrando em modo de demonstração. O teste massivo que você tanto queria entender.
Miguel avançou mancando. Cada movimento enviava uma pontada de dor aguda para suas articulações. Ele tentou focar nas imagens, gravando cada detalhe que podia. O sistema começou a emitir um anúncio protocolar. Uma voz feminina metálica cortava a arrogância de Rangel com a frieza de um laudo pericial.
— "Atenção, unidades de controle. Preparar demonstração massiva de ajuste de percepção. Alvo: faixa litorânea. Evento: Desfile Principal de Carnaval. Horário de início: vinte e duas horas. Protocolo de regressão ativado."
O coração de Miguel bateu contra as costelas como um prisioneiro tentando escapar de uma cela. O plano era maior do que ele imaginara. Não era apenas um teste em uma favela isolada. Eles iam usar a maior festa da cidade como laboratório para uma lavagem cerebral coletiva. Milhares de pessoas, turistas e moradores, todos recebendo doses da droga e estímulos do elevador. O Rio se transformaria em uma massa de manobra sem passado.
— Vocês vão apagar a cidade inteira? — gritou Miguel. Tentava sobrepor sua voz ao zumbido crescente das máquinas. — É esse o seu grande ato, Rangel? Transformar o carnaval em um hospício de luxo?
Rangel apareceu em uma projeção bem na frente dele. O rosto exibia uma satisfação quase religiosa.
— Não é apagar, Miguel. É editar. Vamos remover as cicatrizes, a dor, o ressentimento que impede o progresso. No final da quarta-feira de cinzas, o Rio será uma página em branco. Pronta para ser escrita pela Atlântico Vertical. E você deveria estar grato. Você foi o primeiro a receber essa graça, mesmo que tenha sido um experimento imperfeito.
O suor escorria pelo rosto de Miguel, misturando-se com o sangue de um corte pequeno em sua testa. A determinação era um rio talhando a pedra dentro dele. Uma força que ele não sabia que ainda possuía. Ele olhou para a projeção de Rangel e sentiu um desprezo profundo. Era uma clareza que só o desespero absoluto pode trazer.
— Cicatriz é prova de que a gente viveu, seu desgraçado — disse Miguel. A voz era firme apesar do tremor nas mãos. — Apagar o passado de um homem é o mesmo que matar ele. Você não é um cientista. É só um assassino que usa jaleco branco.
Ele sabia que não venceria Rangel em um debate ideológico. Nem em um duelo de hologramas. Precisava sair dali. Tinha que levar aquela informação para Lívia e Lucas. Precisava encontrar um jeito de sabotar a frequência antes que o desfile começasse. Miguel olhou ao redor e viu um mapa de emergência brilhando em um painel lateral. Indicava um eixo de manutenção que levava para fora do núcleo do módulo.
A gravidade aumentou novamente. Uma pressão esmagadora que parecia querer transformar seus ossos em pó. Miguel sentiu a visão escurecer nas bordas. O peito subia e descia em espasmos de agonia. Ele precisava de um truque. Não um para enganar Rangel, mas para enganar o próprio corpo. Fechou os olhos e puxou o foco para dentro de si. Para a rede de nervos e sinapses que o sistema do elevador tentava controlar.
Em vez de projetar uma imagem externa, ele projetou a sensação de leveza em seus próprios membros. Imaginou-se boiando em uma maré baixa na Praia de Ramos. O sol aquecendo sua pele. A água sustentando seu peso. Foi uma ilusão interna. Um remendo desesperado em sua própria percepção da dor. Funcionou, mas apenas em parte. A dor subjetiva diminuiu, permitindo que ele se movesse. Seus músculos ainda tremessem sob o peso real da gravidade modificada.
Miguel se arrastou em direção à escada técnica. As mãos agarraram o corrimão de metal com uma força que fez seus nós dos dedos ficarem brancos.
— Onde você pensa que vai, Processador? — perguntou Rangel. Sua voz soava distante, como se viesse do fundo de um poço. — Você não pode escapar de quem você é. Você é parte da máquina.
Miguel não respondeu. Ele se puxou para cima, degrau por degrau. O som de sua respiração rasgava o silêncio do eixo de manutenção como uma serra elétrica. O cheiro de ferrugem e óleo velho era mais forte ali. Um odor de coisa real e suja que o ajudava a manter o foco. Ele sentia o sangue pulsando em seus ouvidos. Um ritmo constante que lembrava o tambor de uma escola de samba, marcando o tempo que ele ainda tinha.
Ao chegar ao topo da escada, ele olhou para trás uma última vez. A projeção de Rangel ainda estava lá. Um fantasma de luz em um mar de tecnologia perversa.
— Eu vou estragar o seu desfile, Rangel — prometeu Miguel. O cinismo retornava como um velho amigo. — E quando eu terminar, ninguém vai lembrar de você como o gênio do futuro. Vão lembrar como o homem que tentou roubar o carnaval e levou um tombo de um ex-policial de merda.
Rangel apenas o observou com frieza. A imagem começou a falhar enquanto Miguel se enfiava pelo duto estreito.
— A memória é um recurso deletável, Miguel — disse o cientista. Sua voz foi abafada pelo fechamento da escotilha. — Em breve, você não será nem mesmo uma nota de rodapé.
Miguel continuou rastejando pelo metal frio. O corpo estava esmagado, mas a mente estava em chamas. O anúncio do sistema ainda ecoava em sua cabeça. Era uma sentença de morte para a identidade da cidade. Ele sabia a data. Sabia o horário. Só não sabia se teria forças para chegar ao chão e impedir que o Rio de Janeiro se tornasse o maior jardim de infância sem memória do mundo. A escuridão do duto o envolveu. O peso da gravidade parecia agora o peso de toda a favela que ele deixara para trás. Puxava-o para baixo, para a verdade que ele jurara nunca mais editar.