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Capítulo 2: Holofotes na Laje: O Silêncio em Volta do Corpo de Ana

O corpo de Ana tava no meio da laje, quase encostando na poça que a chuva cavava no cimento. A luz do helicóptero cortava o céu em pedaço curto, estourando em cima dela como holofote barato. Em volta o som do funk insistia, grave subindo por entre os becos, como se o morro não tivesse parado um segundo. Aquele barulho vibrava no peito, batendo contra o silêncio preso na laje. Ajoelhei sem pensar. O jeans rasgou na quina do cimento; o ardor subiu no joelho, quente, pegajoso. Deixei pra depois. Encostei a mão no braço dela. Frio de geladeira velha, daquele tipo que gela até os dedos, que não tem nada de descanso. — Afasta. — Minha voz saiu mais alta do que eu queria, dura. — Sai todo mundo da volta. Agora. Os seguranças do camarote olharam feio, mas recuaram um passo, arrastando o pé. Camisa preta grudada no corpo, radinho colado na orelha, cara de quem só conhecia corpo estendido pela tela da Netflix. Um deles abriu a boca: — Já chamaram a polícia. — Ele olhou pro chão, medindo a poça. — A laje vai alagar, chefe. Se a água desce por aqui, acaba com o camarote lá embaixo. — Camarote aguenta. — Não tirei a mão do braço de Ana. — Ela não. Levantei a mão e fiz sinal pros curiosos, palma aberta, como barreira. Um cara levantou o celular. O brilho da tela bateu na cara dela, indecente. — Guarda o celular, irmão. — Olhei direto pra lente. — Se quer ajudar, pega um balde e tira água da escada. Ele xingou baixo, puxando o ar pelos dentes, mas enfiou o aparelho no bolso. A chuva batia nas chapas de zinco ao lado como mão de gente impaciente, ritmo torto, quase tapa. A água respingava no meu pescoço, escorrendo fria pela nuca, colando o tecido na pele. Ana tava de costas, rosto pro lado. Cabelo grudado na bochecha, fio preto colado em pele clara demais. Não clara de sangue sumindo. Clara de quem não via sol de laje fazia tempo, pele guardada dentro de casa. Virei devagar o queixo dela pra mim, com cuidado, dois dedos embaixo da mandíbula. Pele lisa. Lisa demais. Nenhuma marca de espinha, nenhuma mancha de sol, nada. A textura lembrava superfície encerada sob aquela luz branca estourada do helicóptero, brilho sem vida. — Ô meu Deus. — Uma voz atrás de mim tremeu. — Não tava assim hoje à tarde. Virei só um pouco a cabeça. Uma senhora, lenço amarrado na cabeça, chinelo escorregando na borda da laje, se aproximava num passo hesitante. — Dona, como é que tava? — perguntei sem tirar o olho do rosto de Ana. — Tinha umas ruguinhas aqui, ó. — Ela apontou pro próprio rosto, apertando a pele do canto do olho. — Trabalha desde cedo, aquela menina. Queimava na rua. Hoje mais cedo tava com a carinha de sempre. Agora... — A voz dela falhou. — Sei lá. Parece mais nova. Devagarzinho. “Mais nova.” A expressão ficou batendo dentro do ouvido, abrindo espaço por dentro. O cheiro fraco de sangue, quase lavado pela chuva, vinha misturado com desinfetante vagabundo do camarote, aquele odor doce enjoado. Lá embaixo alguém já fritava carne de novo; gordura queimando subia num cheiro pesado, marcando o ar. Olhei o ombro de Ana. A blusa de alcinha tinha escorregado. Ombro nu, pele clara igual peça de porcelana em prateleira de loja cara, sem brilho de suor. Uma vizinha, colada na mureta, cochichou, mas alto o bastante pra chegar até mim: — Ela tinha uma flor aqui, ó. — A mulher indicou o próprio ombro. — Uma rosinha azul. O “tinha” arranhou por dentro. Vi semana passada no baile, a tinta quase brilhando quando a luz colorida batia. Puxei mais a alça, disfarçando, dedos firmes pra não tremer. Ombro limpo. Nada de desenho. Nem contorno, nem sombra de tatuagem velha. Passei os dedos pelo antebraço, sem apertar, a pele escorregando sob a ponta dos dedos. No pulso, três pontinhos escurecidos em linha, como se alguém tivesse furado com agulha fina, um após o outro, paciente. A luz do helicóptero batia ali e refletia de um jeito estranho, brilho seco, quase plástico amassado. A vizinha fez o sinal da cruz rápido, mão tremendo. Não soava como reza. Aquilo tinha cheiro de medo. Perto da mão esquerda dela, uma lâmina de brilho cortou a poça. Vidro rachado. Celular. Tela estilhaçada, metade enfiada na água, respirando bolha. Meu corpo se mexeu antes da cabeça terminar de encaixar tudo. Apoiei a mão aberta e cobri o aparelho, a água fria subindo pelos dedos. — Ninguém pisa aqui. — O aviso saiu seco. — Isso aqui é cena de crime. Usei o termo de propósito. “Crime” ainda pesava naquele morro, mesmo virando piada em delegacia. Fechei a mão em punho, puxei o celular pra mais perto da barriga dela, escondendo o movimento na confusão de pernas. Inclinei, como se fosse ajeitar a blusa de Ana. Num gesto só, escorreguei o telefone pra debaixo da minha coxa, sentindo o volume duro contra o jeans. Na dobra seguinte, enfiei o aparelho pela cintura da calça, na lombar, o plástico gelado encostando na pele. O helicóptero desceu mais baixo. O vento bateu na nuca, espirrando chuva pro lado e jogando gota no rosto. A sirene de viatura lá embaixo se misturava com o chiado do rádio no peito dos PMs subindo a escada, aquele som metálico cheio de ruído. — Quem mandou encostar rabecão? — gritei na direção da escada, sem ver ninguém ainda. — Quero homicídios aqui em cima. Já. Velha mania. Velho reflexo. O corpo ainda acreditava no cargo que o crachá não sustentava mais. Meu crachá agora só existia na memória, o metal apagado batendo no peito por costume. Mesmo assim a voz saiu do mesmo jeito de antes. E voz, por ali, ninguém esquecia fácil. Uma moradora, encostada na caixa d’água, me encarava com mais ódio do que medo. A água escorria pelo lenço dela, pingando no ombro. Um sussurro atravessou a laje, serpenteando pelos pés: — É ele. É o Andrade. O que matou menino lá embaixo, anos atrás. Os nomes vinham junto com a chuva. Grudavam na pele. Respirei fundo, o peito travando por um instante. Não era hora de lavar passado em voz alta. Tinha uma menina no chão, pele de boneca, rodeada de adulto tentando fingir que aquilo era só mais um tombo de carnaval. O primeiro uniforme apareceu no topo da escada. Sargento, pelo jeito. Colete aberto, barriga empurrando o zíper, fuzil pendurado na frente arranhando o peito. Subia respirando pesado, como se o morro puxasse o ar dele pra baixo. — E aí, que porra é essa? — Ele varreu o cenário com o olho, rápido demais. Bateu a vista no corpo e já encostou o rádio na boca. — Queda de altura, provavelmente etilismo. Cena liberada pro rabecão. — Cena ainda não tá liberada, não. — Fiquei de pé, mas deixei o joelho grudado no chão, do lado da menina, como se travasse a movimentação. — Falta perícia. Falta foto. Falta saber se ela desceu sozinha. O sargento me mediu de cima a baixo, demora calculada. O olhar trombou no distintivo velho no meu peito, metal gasto, quase sem brilho. — Andrade? — Ele riu pelo nariz, um sopro curto. — Pensei que você já tivesse sumido na praia. Tá fazendo bico de segurança agora? — Cada um arruma aposentadoria do jeito que dá, sargento. — Os dedos da minha mão boa apertaram o chão. — Eu pelo menos não ganho extra pra botar “acidente” onde não tem. O rádio dele chiou, voz nervosa lá de baixo falando de mais confusão, mais corpo, mais festa virando ocorrência. Ele desviou a atenção por meio segundo, ombro virando, mandíbula apertando. Voltei pro ponto que interessava. — Isola essa porra aqui. — Apontei em volta, dedo firme. — Queda em laje com vizinha falando de grito, tatuagem sumida, marca esquisita na pele. Isso é morte suspeita, não é bêbado tombado. — Você tá aposentado, Andrade. — Ele chegou perto o suficiente pra eu sentir o bafo. Cerveja mal escondida sob chiclete de hortelã. — Aqui quem decide sou eu. E eu tô vendo uma menina que deve ter entornado e voado. Carnaval. Normal. — Você tá vendo o que é mais fácil preencher no sistema. — Mantive o tom baixo, voz sem show, só firme. — Eu tô vendo a conta que entra no teu nome se isso estourar depois como homicídio que você empurrou pra debaixo da laje. A moradora do lenço, ouvindo, ergueu o queixo. Aproveitou a brecha. — Ela gritou, sim! — A voz dela cortou o barulho do funk um segundo. — Antes de cair. Não foi tropeço, não. Eu tava pendurando roupa. Ouvi. Outra vizinha, encostada no tanque, completou, vindo de mais longe: — Ana não bebe assim, não. Tava trabalhando, rapaz. Os olhos do sargento passearam pela roda, inquietos. Dá pra sentir quando o pavio de autoridade encurta. Ninguém gosta de ver o morro inteiro ouvindo um “não” saindo da própria boca. — Já chamei perícia. — Ele rosnou por fim, mandíbula tensa. — Mas se demorar, eu mesmo vou mandar descer. Não vou perder minha noite por causa de laje molhada. — Chama direito. Homicídios também. — Olhei pro rádio preso no peito dele, não pra cara. — Fala “morte suspeita”. Ele hesitou um segundo. Pequeno. Mas tava lá. A chuva engrossou, batendo no colete dele, escorrendo pro fuzil, desenhando riscos escuros no tecido. Cada gota apagava mais um traço fino de sangue no chão. Ajoelhei de novo, fingi ajeitar a mão de Ana, a pele fria encostando na minha. Olhei de perto as unhas. Restos de esmalte barato, quase transparente, descascando. Só que tinha algo a mais. Um brilho fino grudado na cutícula, como verniz que não vende em farmácia. Quando a luz do helicóptero girou, o reflexo veio verde. Não branco. A imagem do cilindro na baía cortou a cabeça num lampejo. Aquele tubo de metal erguido na água, atravessando neblina, luz fria espremida em volta. Empurrei a lembrança pro fundo. A laje vinha primeiro. *** O rabecão subiu a rampa gemendo, carroceria reclamando em nota longa. Sirene só piscando, som desligado, luz azul lavando as paredes de um lado pro outro. Dois técnicos desceram pela traseira com o saco preto dobrado no braço, plástico brilhando na chuva. Botina escorregando em degrau ensaboado, olhar de quem conta corpo por turno, não por nome. O perito veio depois, mochila nas costas, câmera pendurada no peito, luva já com rasgo no dedo indicador. Ele pisou na laje e a chuva, como se sentisse, resolveu acalmar um pouco, só o suficiente pra cena ficar nítida. — Ô, doutor. — O sargento abriu caminho com o fuzil, peito pra frente. — Queda de laje, álcool, carnaval. Vê se tira foto rápido que o asfalto tá pior. Levantei antes que o saco preto chegasse perto demais. — Segura. — Abri os braços, atravessando a frente dos técnicos. — Ninguém enfia essa menina nesse saco antes de fotografar tudo. Tudo. O perito me encarou com cansaço velho, peso de servidor sobrecarregado. Reconheceu o sobrenome. A boca dele entortou de leve. — Andrade. Achei que você tava fora do jogo. — Tô. — O joelho latejava sob o jeans molhado. — E você ainda tá dentro, então trabalha. Falei rápido, sem dar espaço pros dois lados se acostumarem à ideia de me ignorar. — Pontinho de perfuração alinhado no pulso, pele diferente aqui. — Apontei perto da clavícula. — Rastro de sangue quase apagado ali perto da borda. Testemunha falando de grito, tatuagem que sumiu. Isso é morte suspeita. Manual diz: em morte em altura com indício de interferência de terceiro, registra como possível agressão. O sargento bufou, revirando os olhos. — Manual a gente dobra hoje, doutor. — Ele deu um tapa no saco preto. — Você não tá na delegacia. Tá num camarote. Vamo fazer serviço e desocupar a laje. O perito enfiou a mão no bolso do jaleco, puxou o celular, abriu o sistema. A tela iluminou o rosto tenso. — Tá aberto como queda acidental, sem indício de crime. — Ele falou baixo só pra mim, o canto da boca quase imóvel. — Se eu mudar isso, amanhã tenho que justificar pra chefia. Vai cair na minha mesa. A engrenagem já funcionava. Mais rápida do que o corpo esfriava. A velha raiva começou a subir no peito, lenta, espessa, como água esquecida no fogo, ameaçando transbordar sem ninguém notar. Às vezes dava pra jogar dentro da regra. Às vezes, não. Olhei pros refletores do camarote, montados num tripé torto. Lâmpadas de LED tremendo, piscando quando a chuva batia num ponto específico. Luz dura, reta, metida a decretar realidade. Respirei fundo. Deixei o resto do mundo diminuir. O som do funk foi ficando pra trás, distante. Os gritos, o impacto da chuva, o bater metálico de arma no colete. Tudo virou ruído de fundo. Pensei no fio por dentro, aquecendo devagar, plástico mole, contato falhando. Tentei imaginar a luz saindo do prumo, o brilho escorregando pro lado, as sombras crescendo. Empurrei. A pressão veio pelo ouvido, sempre por ali. Um apito fino apareceu, atravessando o tímpano, como broca de dentista. O chão pareceu subir dois dedos num instante, o corpo desequilibrar por dentro. Pros outros, os refletores começaram a oscilar. Luz indo e voltando num ritmo estranho, que nenhum eletricista explica em relatório. Cada clarão batia na cara da equipe como flash estourado. No intervalo, sombra demais. Na cabeça deles, o pouco de sangue que restava no cimento se mexeu. Não cresceu de verdade. Mas se esticou na visão deles, se arrastou um pouco mais, desenhando um traço que começava perto da borda da laje e terminava onde Ana tava caída. Um dos técnicos parou com o pé no ar. — Ué. — Ele apontou com o queixo. — Tava assim quando a gente chegou? O perito seguiu o gesto. A pupila dele dilatou. Um peso apareceu num canto da visão, como se alguém tivesse encostado na mureta, observando, parado. Não tinha ninguém ali. Era só o que eu empurrava na lente deles. A câmera subiu até o rosto dele quase sozinha. Os dedos apertaram o botão. O clique cortou o barulho todo num segundo. O flash disparou, mesmo com a luz do helicóptero, lançando um clarão diferente no rosto de Ana. Por meio segundo, vi pontos azulados enterrados logo abaixo da clavícula, em linha, refletindo como bolinhas de vidro sob a pele. Sumiram quando a luz estabilizou de novo. — Porra, agora até luz vai fazer birra? — O sargento deu um tapa no tripé, irritado. — Faz logo isso aí, doutor. Não vou ficar plantado em laje por causa de rastro de poça. A cabeça apertava. A visão começava a escurecer nas bordas, o centro clareando demais. Continuei. — Vai registrar o quê? — perguntei pro perito, a língua pesada. Ele engoliu seco, pescoço se mexendo. — Rastro atípico. Possível arrasto. Vou colocar no laudo. — Anota direito, sargento. — Olhei pro rádio, não pro rosto dele. — “Morte suspeita, possível agressão. ” Escreve. Se isso aqui der bode, o delegado vai perguntar por que você ignorou “rastro atípico” em laje de favela. O dedo dele furou meu peito com força. — Tá atrapalhando procedimento, Andrade. Se continuar, desce algemado. A pressão no ouvido subiu outro degrau. O gosto de ferrugem invadiu a boca, cortando o café que ainda morava na língua. O joelho ameaçou dobrar. O mundo começou a afinar nas laterais. Um folião bêbado, vindo de não sei onde, tropeçou na fita amarela e quase caiu em cima de mim. A latinha voou, amassando no chão. — Ô, desculpa aí, chefia. — Ele riu e sumiu, puxado por amigos. A esbarrada me deu um apoio. Usei o impulso pra encostar na mureta, o concreto áspero raspando na palma da mão. Não dava pra cair ali, no colo de sargento nenhum. Fraco, sim. Frouxo, nunca. O perito, vendo a cena, baixou o tom com o PM. — Sargento, bota “suspeita” logo. — Ele coçou o queixo com a luva rasgada. — No sistema dá na mesma pra estatística, mas se a família arrumar advogado, fode todo mundo. Falou na língua que dói: processo. Planilha. Carimbo. O sargento resmungou, puxou o rádio com má vontade. — Central, registra morte em laje com indício suspeito, possível arrasto. — As palavras saíram rápidas, engolidas. — Rabecão tá descendo. Os técnicos abriram o saco. O plástico preto brilhou na luz molhada, cheirando a novo e química. Dei um passo pra trás. O odor do plástico abafou o resto de sangue e desinfetante barato. Ana sumiu lá dentro num movimento só, corpo virando volume. Quando passaram por mim, a mão dela escorregou um pouco pra fora, dedos moles, cutícula ainda com aquele brilho fino. O perito deu mais um clique ali, talvez tentando garantir que a própria consciência tivesse prova. Assim que o saco começou a descer a escada, a chuva decidiu apertar de vez. A água lavou o rastro que eu tinha obrigado a aparecer, escorrendo pela laje como se passasse borracha. A pressão na cabeça se desfez devagar, deixando só um zumbido insistente, rádio mal sintonizado. O sargento passou por mim, esbarrando o ombro de propósito. — Some daqui, Andrade. Vai brincar de segurança no ar-condicionado. Deixa quem tá na ativa trabalhar. Não respondi. De boca, não. O recado já tava dado no rádio, e isso bastava. *** Quando a laje começou a se esvaziar, procurei Douglas. O moleque tava espremido entre a caixa d’água e a parede, camisa colada no peito, chinelo patinando no limo. O olho dele pingava entre mim e a escada, rápido, sem sossego. — Vem. — Peguei o braço dele sem carinho, dedos fechando firme. — Vamos descer daqui. — Cê vai me levar pra polícia? — Ele travou, ombros duros. — Eu não vi nada, não, tio. Não vi, não. — Se eu quisesse te entregar, não tinha feito aquele truque com os PM lá embaixo, né? — Continuei andando, puxando. — Vamo. Tu tá roxo de frio. Descemos pelo corredor lateral do camarote, estreito, metal de cada lado, cheiro preso. O ar ali parecia intestino de ferro: cheiro de cerveja choca, fio elétrico pingando, som do funk entrando pelas frestas como se passasse por dentro dos canos. A porta da cozinha tava aberta. Entrei arrastando Douglas pelo punho. Lá dentro o mundo trocava de cara. O som virava vibração no azulejo; panela batendo, prato de plástico raspando, garçom reclamando da fila. Calor grudado, vapor subindo da chapa cheia de carne, cheiro de óleo velho misturado com alho queimado. Um toque fraco de cloro tentando vencer tudo. Empurrei Douglas pro canto perto do fogão elétrico. Ele encostou as costas na parede, parecendo bicho acuado, olhar pulando de rosto em rosto, medindo perigo. No chão, uma caixa de camiseta promocional esquecida, plástico brilhando molhado. Rasguei o plástico com o dente, puxei duas camisetas. Joguei uma nele. — Veste essa. — Apontei o queixo. — Senão amanhã cê acorda tossindo sangue. — Depois cê não vem cobrar blusa de favela pra polícia, não, tio? — Ele segurou a camiseta pela pontinha, desconfiado. — Relaxa. É de patrocinador. — Levantei a minha pra ele ver. — Tô roubando uma pra mim também. Vê se eu pareço delegado agora. Ele deixou escapar um sorriso curto, dente batendo de frio. Liguei o fogareiro. Peguei um galão de água, enchi uma bacia plástica e apoiei em cima da resistência. O metal ficou vermelho, zumbindo, cheiro de plástico quente subindo. Fiquei olhando o vapor começar a subir. Banho improvisado de laje, versão cozinha de camarote. Mesmo assim, aquele bafo morno parecia luxo depois da chuva gelada. Achei uma caneca lascada perto da pia. Lavei por alto, água escorrendo amarelada, e joguei um pouco da água quente dentro. — Lava o rosto, o pescoço. — Entreguei a caneca. — Esfrega essas mãos. Sangue de polícia pega mais que gripe. Douglas hesitou, olhando pras panelas, pro cozinheiro, pra porta. Um garçom passou varrendo com bandeja, quase batendo na gente. — Aqui não é abrigo, meu amigo. — O gerente surgiu, gordo, camisa social grudada no sovaco. — Favela é lá fora. Sai da pia. Virei pra ele, sem tirar a mão da bacia. — Se o garoto cair duro aqui dentro, a vigilância sanitária fecha teu camarote. — A voz saiu seca. — Me dá cinco minutos e eu te devolvo ele respirando e sem cuspir no teu buffet. Ele fez conta de cabeça, balançou o queixo pro lado, resmungou e sumiu pro salão. Douglas continuava colado na parede, caneca na mão, sem coragem de levantar. — Vamo, rapaz. — Falei mais baixo. — Se tivesse bala perdida em cozinha de camarote, eu era o primeiro no chão. Ele afundou o rosto na água quente, os dedos tremendo. A água escorria escura, misturando chuva, suor e pó. Tirou pelo menos uma camada da noite. Tirei minha camisa molhada. O tecido grudou, puxando pelos ombros. Torci sobre o ralo. A água que saiu parecia café fraco, marrom. Vesti outra da caixa. Tamanho errado, tecido áspero, arranhando a pele. Seco. O resto era detalhe. Vasculhei gaveta, empurrei panela, levantei tampas. Achei um coador de pano pendurado num prego, manchado de café antigo. Embaixo, um pacote aberto de pó escuro. Despejei metade do pacote no coador, derramei água quase fervendo por cima. O cheiro tomou a cozinha. Café forte, grosso, tapando o cheiro de gordura velha por alguns segundos. Um pedaço de casa enfiado no meio da bagunça. Enchi duas canecas, sem açúcar. Empurrei uma pra mão de Douglas. — Bebe. Devagar. Café é pra gente grande. Energético é pra influencer. — Eu sou novo, mas não sou burro, não. — Ele tentou tirar onda, mas a voz ainda veio trêmula. Tomou um gole, fez careta. — Tá forte isso aí, tio. — Melhor do que tomar choque lá fora. Ele riu pelo nariz, engasgando um pouco. O vapor das canecas subia entre a gente, fazendo uma cortina morna. A cor roxa da boca dele foi sumindo devagar. Uma TV pequena em cima da geladeira mostrava um desfile em outro bairro. Cores estouradas, purpurina demais, comentarista falando de “fantasia exuberante” enquanto o chão da cozinha ficava marcado de pegada molhada. Douglas finalmente criou coragem de tirar a blusa encharcada. O pano colou, fez barulho arrancando da pele. Ele se encolheu, envergonhado, torcendo a blusa no balde. A água que escorreu cinza entrava no ralo devagar. Quando ele abaixou pra pegar o shorts, alguma coisa plástica caiu do bolso e tilintou no chão. Blister amassado, transparente, com um desenho de planeta com anel impresso em prata num canto. Pisei em cima antes que alguém olhasse. A sola do tênis esmagou o plástico, fazendo estalo seco. Ninguém na cozinha reparou. Só a gente. Me abaixei devagar, com a calma de quem pega tampa de garrafa no chão. Peguei o blister entre dois dedos, levantei na altura do ombro dele. O desenho do planeta brilhou fraco na luz da cozinha. — E esse doce aqui, qual é? Douglas congelou. O ombro subiu, os olhos correram pra porta, pro blister, pra minha cara. Dava pra ver a cabeça dele procurando saída onde não tinha. — Isso aí... — Ele engoliu, o pomo da garganta subindo rápido. — Isso aí é só bala de festa, tio. Chega um cara e dá pra geral. Olhei o desenho com calma. Planeta com anel. Saturno. — Nome da bala? — Doce de Saturno. — Escapou sem filtro. Ele percebeu tarde. — Cê toma e a pele fica lisinha, tipo filtro de Instagram, tá ligado? Ana falou isso. Que parecia que tinha voltado uns ano. A frase se encaixou naquela palavra “mais nova” lá da laje. O ar pareceu ficar mais pesado. — E quem deu? — mantive o tom plano. Douglas coçou a nuca, a unha raspando a pele. — Um cara que trabalha num bagulho na baía. — Ele acelerou. — Negócio de torre, sei lá. Ele vem aqui às vezes, deixa um punhado. Disse que quem aguentasse ia ganhar “embarque”, tipo vaga num trampo. Trampo na baía. Torre. Embarque. As palavras se alinharam na cabeça, sem que eu mostrasse. Guardei o blister no bolso interno da camisa, perto do peito. O plástico gelado encostou na pele, insistente. — Ana tomou quantos? — perguntei. — Um só, acho. — Ele encarou a caneca, mexendo o café com o dedo. — Hoje tava diferente, viu. Subiu rindo, dizendo que hoje ia ser “noite longa”. Mas não tava bêbada, não. Nem cheirando. Só com esse doce aí. O óleo chiou na chapa, uma nuvem de fumaça subiu. Um auxiliar apareceu, pegou um saco de gelo, sumiu de novo. A cozinha seguia girando, mesmo com a laje lá em cima ainda úmida de morte. Douglas segurou a caneca com as duas mãos, firme. O tremor diminuíra. — Tio. — Ele olhou pro chão, voz mais baixa. — Aqueles polícia lá da viela. Cê fez o quê, hein? Juro que eu vi outro cara no teu lugar. Depois piscou e era você de novo. O estômago travou um pouco. Levei a caneca à boca, deixando o café queimar a língua. — Truque de luz. — Menti sem piscar. — Poste velho, chuva, cabeça de PM cheia de cerveja. Acontece. Ele franziu a testa, não satisfeito, mas o medo segurou a pergunta dentro da boca. Engoliu seco. Terminei o café num gole só. Desceu como se eu engolisse ferrugem quente, mas puxou de volta um fio de foco. — Escuta, Douglas. — Cheguei um pouco mais, sem encostar. — Se alguém vier atrás de você por causa desse doce ou desse cara da baía, você não fala nada. Nem meu nome, nem de Ana, nem de ninguém. Some. Pelo menos por uns dias. — Eu já sei sumir, tio. — Ele puxou a camiseta nova pra baixo, como se fosse capa. — Nasci aprendendo. — Só não vai se achar invencível. Bala perdida não pergunta se cê é esperto. Ele assentiu, sério, o queixo duro. — Valeu pelo café. — Ele levantou a caneca vazia. — E pela blusa. — Pela blusa também. — Deixei um canto de sorriso escapar. — Cê devia tá no bloco dos antigão, não correndo atrás de morto. — Antigão ainda é melhor que morto novinho, fio. A risada dos dois saiu rápida, meio torta, meio feia, mas saiu. A cozinha ficou menos pesada por alguns segundos, só alguns. Quando viu uma brecha no corredor, Douglas escorregou pra fora, sumiu por um beco interno que eu nem sabia que existia. Não chamei. Não dava pra puxar todo mundo pra dentro do mesmo abrigo. Fiquei ali um pouco, o vapor da água morna batendo no rosto, cheiro de café agarrado na garganta. Aquilo era o mais perto de conforto que aquele plantão ia ver. Depois, empurrei a porta de volta pro barulho da rua. *** Descer o morro depois daquilo parecia andar em escada rolante ao contrário. Cada degrau puxava pra trás. A rua na base tava mais suja. Lama de cerveja, confete colado, spray de espuma formando uma camada grudenta no asfalto, como se o chão tivesse puxado fantasia também. Ninguém lá embaixo parecia ter ouvido a queda. A bateria do bloco ainda marcava ritmo, um pouco mais arrastado, mas firme, como se insistisse em manter o carnaval respirando. O helicóptero tinha ido caçar outro problema. Encostei num muro molhado, um pouco fora da luz das viaturas. O cimento gelado grudou nas costas. Tirei o celular do bolso. Chamadas antigas piscavam, nomes de gente que já tinha cansado de falar comigo. Disquei o número de um ex-colega da Civil. Os dedos ainda sabiam o caminho sem olhar pra tela. — Fala. — Ele atendeu na terceira chamada, som de TV ao fundo, torcida de jogo vazando. — Preciso abrir morte suspeita na tua área. — Fui direto. — Laje de favela, queda estranha, corpo com marca esquisita. — Andrade. — Ele soltou uma risada sem vontade. — Tu escolheu boa noite pra lembrar que eu existo, hein? Carnaval. Tô com três homicídio aqui e cê quer mais um? Expliquei do jeito mais seco possível. Pontos azuis na pele, microperfuração na mão, rastro que a ilusão tinha arrancado do chão. Botei palavra de manual, tentando travar o atalho. — Registra como “morte suspeita”. Pelo menos isso. Bota possível agressão. Do outro lado, tec-tec de teclado, copo batendo na mesa. — Essa porra já entrou, sabia? — Ele suspirou. — Tá como queda acidental em laje, sem nome. Só número de plantão. E tem determinação de cima pra não inflar homicídio em carnaval. Tu sabe como é. A frase caiu pesada. “Tu sabe como é.” Tampa padrão. — Determinação de quem? — apertei. — Delegado? Secretaria? — Ô, Andrade, não começa. — A voz dele endureceu. — Tu não tá mais na casa. Errou feio, foi jogado pra escanteio, lembra? Não vem querer ser consciência agora. Se quiser bater nessa tecla, vai atrás de imprensa, ONG, pastor, o que for. Aqui eu só cumpro ordem. A porrada veio na altura do fígado. Ele não precisou falar “aquela criança”, “aquela laje”. O passado se instalou sozinho. — Reclassifica, porra. — Insisti, sem subir o tom. — Se der merda depois, vão puxar tua senha, não a minha. — Delegacia não vai comprar tua viagem hoje. — Ele riu curto, sem humor. — Pega outro dia pra bancar inquisidor. Hoje é carnaval. A linha morreu. Não deu nem chiado. Fiquei com o telefone encostado na orelha por dois segundos a mais, ouvindo o nada. Guardei a raiva junto da nicotina que ainda faltava queimar. O muro atrás de mim tava encharcado. A água escorria pela gola da camiseta nova, desenhando um trilho gelado pelas costas. Na praça, um posto móvel brilhava sob uma lona branca, escudo da PM estampado meio torto na frente. Um gerador roncava do lado, vibrando o chão de borracha. Entrei. O ar-condicionado lá dentro fazia barulho de pneumático cansado. Jogava vento morno, cheiro de mofo, cigarro velho, desinfetante e mijo de rua misturados. Um plantonista gordo, farda semi-aberta, dedo gordo batendo em teclado plastificado, nem levantou o olhar. — Boa noite pra quem? — falei. — Sistema é só pra ocorrência, parceiro. — Ele continuou olhando a tela. — Se quer informação, liga pra 190. — Curioso não sabe o atalho de tela que cê acabou de usar. — Apontei pro F5 que ele tinha acabado de apertar. — Abre de novo a última ocorrência de queda em laje aqui do morro. Ele largou o teclado. Me mediu, boca apertada. — Tu é quem? — Andrade. Civil, aposentado. — Puxei o distintivo, deixando o metal apagado pegar a luz. — A morte que eu tô falando acabou de descer num saco preto pro teu rabecão. — Já te falaram que você é insistente pra caralho? — Ele bufou. — Já. Com má vontade, girou o monitor um pouco. Só o bastante pra eu ver sem parecer que ele tava ajudando. A tela cinza, fonte pequena, aquele inferno padrão. Uma linha pulou aos olhos. “Ocorrência: queda acidental em laje. Vítima: feminina, sem identificação.” Mais embaixo, num campo cinza mais escuro, quase fora do lugar, aparecia um trecho que não combinava: “Projeto associado: AV-00 / Local origem: Baía/Nível Zero”. O olho prendeu ali. Aquilo parecia invasor. Texto de outro sistema encaixado na marra. Antes que eu abrisse a boca, ele fechou rápido a janela. — Isso aí é coisa de projeto. — A voz dele desceu um tom. — Nem era pra aparecer. Erro do sistema. Não posso mexer. — Projeto de quem? — Mantive o rosto neutro. — AV de quê? Avenida? Avatar? Atlântico Vertical? No “Atlântico Vertical”, ele travou o maxilar um segundo. Fingiu não ouvir. — Ordem é não aumentar índice de homicídio hoje. — Voltou pro tom de atendente cansado. — Quer reclamar, reclama com coronel ou delegado. Aqui eu só digito. — Aham. — Olhei pro gerador do lado de fora, o fio preto, a lona vibrando. — Só digita código que já vem pronto lá de cima. Ele fingiu não escutar. As teclas voltaram a cantar, grudando sob os dedos. Sai antes que a raiva escolhesse caminho ruim. A lona da tenda devolveu o barulho da praça com eco abafado. Do lado de fora, o mundo continuava no mesmo ritmo besta, glitter escorrendo junto da água da chuva. *** A calçada em frente a um bar fechado me recebeu. Toldo de plástico pingando gotas grossas em cima de uma mesa de ferro. Sentei no banco de cimento. O concreto frio atravessou o jeans. Acendi um cigarro. O primeiro trago rasgou a garganta, misturando com o cheiro de café, de gordura, de chuva enlameada ainda ali. Fumaça grossa saiu, se misturando ao vapor quente que subia do asfalto. Puxei o celular de Ana da lombar. O aparelho tava frio e pesado, como se carregasse um pedaço de laje dentro. A tela rachada ainda acendia um fiapo de luz quando eu apertava o botão lateral. Tentei ligar lá em cima, sem sucesso. Ali embaixo, o sinal talvez resolvesse trabalhar. Virei o aparelho. Tirei a tampa com a chave de casa, o plástico rangendo. Cutucando com a unha, arranquei o chip e enfiei no meu telefone. O 4G patinava. Uma maré de vídeo de fantasia, áudio de bloco, live de show invadia a tela. As barras de sinal subiam e desciam, nervosas. Enquanto o aparelho pensava, um sedã preto encostou alguns metros à frente. Sem placa na frente. Vidro fumê. Farol apagado. Motor ligado em ronco baixo, firme. Dois vultos no banco da frente. Pararam. Ficaram. Fingi que não era comigo. Olhei pro cigarro, pra poça, pro cadarço do tênis. Cada músculo queria olhar pro carro, medir cano de arma. Segurei. O celular vibrou na mão, quente. As mensagens do chip de Ana começaram a entrar em fila. Uma atrás da outra. Promoção de operadora, newsletter de loja de roupa, cobrança de plano atrasado. Lixo resistente. Essas coisas nunca morrem. Desci rápido, dedo deslizando pelo vidro molhado. A goteira do toldo pingava no meu ombro, marcando o ritmo. O cigarro queimava perto do filtro, esquecido entre os dedos. A cinza caiu na água e sumiu. Uma viatura passou devagar. Giroflex azul lavou a calçada, deu cara de aquário pra tudo por um instante. A luz bateu no sedã preto. Os vultos permaneceram imóveis. Nenhum rosto se confirmou. O telefone esquentava na palma, como se o chip estivesse estranhando a casa nova. A barra de bateria piscava em vermelho, implorando tomada. Quase na hora que eu sabia da queda, uma mensagem se destacou. Não era cobrança, não era propaganda. O mesmo ícone de planeta com anel do blister apareceu no canto. Abri. “embarque confirmado – Baía, nível zero” Só isso. Embaixo, um link encurtado, cheio de letra e número. Sem nome de empresa, sem horário, sem saudação. Só confirmação. Olhei de novo pra palavra “embarque”. A laje lá em cima ainda molhada. Ana sendo empurrada pra dentro de um saco preto. E algum sistema, em algum lugar da baía, marcando “embarque” na mesma hora. O sedã preto deu uma acelerada curta, só um ronco, como se estivesse espantando mosquito. Instinto mandou meu dedo agir antes do resto do corpo. Tirei uma captura de tela. A combinação apertou certa. A imagem congelou no meu aparelho: “embarque confirmado – Baía, nível zero.” Ícone de Saturno. Hora batendo poucos minutos antes da queda. Quando fui clicar no link, a tela apagou. Bateria decidiu que já tinha apanhado o suficiente. O telefone morreu na minha mão. Fiquei ali um instante, segurando o peso duplo: celular morto numa mão, cigarro quase apagado na outra. Chuva fina voltando a cair, mais insistente. O cheiro de gasolina úmida veio do sedã, misturado com espuma de carnaval indo pro bueiro. Levantei, dei dois passos na direção do carro. Nem rápido. Nem lento. O sedã engatou marcha. Sem acender farol, deslizou pra frente, virou na rua lateral e desapareceu atrás de um prédio grafitado. O som do motor se afastou, deixando só o eco do tamborim perdido e o zumbido distante do helicóptero voltando a rondar mais longe. Encostei de novo no muro. O cigarro apagou entre os dedos, filtro amassado, restos de cinza grudando na pele molhada. O celular de Ana voltou pro bolso da calça, frio e inútil. O blister de Saturno encostou no peito por dentro da camisa apertada, lembrando que ainda tava ali. No meu aparelho, a única coisa viva era o print daquela mensagem maldita. No papel oficial, a queda de laje era acidente sem nome. Em alguma tela de projeto na baía, no entanto, alguém tinha ganhado um embarque novo. Sem rosto. Sem história. Soltei a última fumaça presa na boca, gosto amargo, antigo. — Quantas, hein, Ana? — falei baixo, pro chão encharcado. — Quantas meninas de laje já viraram só código de embarque antes desse elevador começar a subir de verdade? A pergunta ficou ali, pesada, grudada no ar úmido. O helicóptero voltava a roncar ao longe, circulando como bicho grande em cima da cidade, como se procurasse mais carga pra levar.

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