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O baile na beira do asfalto fervia desde cedo. Lá dentro, a luz de LED cortava a fumaça branca do gelo seco vagabundo. O grave batia no peito, cada caixa um coração descompassado da cidade. Cerveja quente escorria de latinha amassada, deixando o chão pegajoso. Cheiro de suor, desodorante doce demais, lança-perfume e gordura de espetinho se misturava num caldo único que grudava no nariz.
Miguel encostou no balcão improvisado, uma tábua sobre dois cavaletes, e pediu a primeira cerveja. — Traz duas logo — disse, jogando uma nota amassada. — Uma é do amigo aqui.
O “amigo” nem virou o rosto. Ainda assim o corpo dele ocupava espaço como se mandasse ali: boné reto, cordão grosso, sorriso fácil, mão pousando em ombro de qualquer um que passasse perto. Miguel já tinha visto aquele tipo em dezenas de bailes, anos de plantão: logo em seguida virava líder informal. O cara que repassava recado de quem realmente mandava, sem nunca assinar nada.
Ele esperou o sujeito pegar a garrafa. A mão do homem estava úmida de gelo derretido e suor, escorrendo pelo vidro. Os olhos avaliavam Miguel de cima a baixo, medindo se aquele coroa ia estragar a noite ou não.
— Valeu aí, tio — o cara disse, enfim. — Mas cê é de onde?
Miguel deu um gole rápido. O gosto azedo da cerveja raspou a língua. A espuma ajudou a empurrar pra longe o cheiro de sangue que ainda carregava da UPA preso no fundo do nariz.
— Daqui e de lugar nenhum — respondeu. — Já rodei muito. Hoje eu só quero ouvir som e fofoca boa.
O cara riu, meio desconfiado, canto de boca duro.
— Fofoca é com as menina — disse. — Homem fala é negócio.
Miguel apontou com o queixo pra pista. Por cima da fumaça, as luzes piscavam em reflexo na pele suada da galera. Um garoto magro, camisa do Flamengo colada no corpo, exibia uma fileira de balinhas coloridas na mão, cristais de açúcar brilhando sob o LED.
— Negócio tipo aquilo ali? — perguntou.
O líder deu uma olhada rápida, automática, sem mover muito a cabeça.
— Aquilo ali é alegria parcelada — respondeu. — Cê tá muito sério pra esse papo, coroa.
Miguel fingiu rir. O som saiu rouco, arranhando.
— Alegria eu vi hoje. Na maca da UPA. Menina com cara de vinte e RG de quarenta e dois. Deu uma tragada errada nessa bala nova aí.
O líder virou a cabeça de vez. O sorriso apagou um meio tom. A combinação de palavras não agradou. O ar entre eles mudou de temperatura, um frio súbito, como água caindo da chaleira antes de ferver.
— Que papo é esse, tio? — o homem perguntou, agora sem sorriso nenhum. — Carnaval tá chegando, ninguém quer ouvir terror não.
Miguel se mexeu devagar. Deixou o ombro parecer mais caído do que já tava. Corpo cansado. Inofensivo.
— Terror é acordar sem lembrar o próprio nome — disse, encostando o cotovelo na tábua. — Vi isso hoje. Mesmo doce. Mesmo cheiro.
Abriu a mão no ar, a palma voltada pro teto. Deixou a lembrança de Ana subir na cabeça, mas só de passagem, como foto que escorrega do maço. Recuou dela. Puxou em vez disso o dom que carregava na nuca, como quem força um acendedor de fogão velho até a faísca sair.
Para aquele homem, por um instante, o rosto de uma menina surgiu em reflexo no vidro da garrafa. Pele lisa demais, poros apagados. Um brilho meio azulado perto da clavícula, como mancha de luz fria. Sorriso congelado, fora de época, num rosto que não batia com o número do documento.
O líder piscou forte. Abaixou a garrafa, limpou o suor da testa com as costas da mão, esfregando com força.
— Tá quente demais hoje, né, tio — murmurou. — Tô vendo coisa.
— Todo mundo tá — Miguel respondeu, ainda baixo. — Só que tem coisa que tão plantando pra gente ver. E coisa que tão plantando pra gente esquecer.
O som trocou de batida. Entrou um funk mais pesado. O grave tremeu na tábua do balcão, fazendo a garrafa vibrar na mão de Miguel. Um cheiro doce de lança passou por eles como vento morno, deixando a boca meio anestesiada.
O garoto das balas, o “farmacêutico”, se aproximou por fim. Camisa colada, boné virado pra trás, tatuagem antiga desbotada no antebraço. Ele olhou Miguel de lado primeiro, medindo.
— Fala, coroa, quer experimentar? Saturno hoje tá na promoção de amigo.
Miguel sorriu de canto. Os olhos seguiram a cor da bala, azulada, reflexo de luz roxa por dentro.
— Saturno… bonito o nome. Dá volta completa ou só meia? — perguntou.
Alguns em volta riram, cutucando o ombro um do outro. O líder aproveitou o embalo, a brecha aberta.
— Tio aqui tá dizendo que viu gente caindo com tua bala — falou, olhando pro garoto. — Com documento que não bate com a cara.
O moleque apertou os olhos. Avaliou Miguel de cima a baixo, pescoço tenso. A desconfiança ali era outro tipo de calor, seco, de lâmina.
— Cê trabalha onde, tio? — ele perguntou. — Fala que é rede, fala.
— Hoje? — Miguel deu outro gole, mais demorado. O líquido escorreu pesado pela garganta. — Trabalho no que me deixa dormir. Ontem, ajudei a carregar uma menina morta pra UPA. Corpo liso, sem tatuagem. RG dizendo que ela tinha idade pra ser mãe da maioria daqui. Mas a pele era igual da sua irmã mais nova.
Ele soltou a imagem no ar de novo, agora sem tanto foco. Não pra um só. Pra quem estivesse suficientemente perto e não muito chapado. Um lapso rápido: uma tatuagem de rosa azul sumindo do ombro, como desenho em vidro embaçado quando alguém passa o pano.
Quem estava ao lado coçou a própria pele, arrepiado. Uma menina arrumando o top encarou o ombro nu, os olhos checando se o desenho dela ainda tava ali.
O garoto das balas franziu a testa.
— Tá querendo fazer terrorzinho, é, coroa? — disse. — Bala é limpa. Vem selada, laboratório. Nada de pó de banheiro.
— Laboratório é que me preocupa — Miguel respondeu. — Na UPA o cheiro não era de fermento de esquina. Era doce demais. Igual essa fumaça.
Respirou fundo de propósito. O cheiro de lança-perfume grudou na garganta, fizera um nó junto com a gordura do espetinho queimando na brasa. Engoliu seco. Tudo formou uma camada grossa, áspera, que a água ia sofrer pra arrancar depois.
Um grupo de meninas passou rindo, batendo cabelo no ombro dos outros. Uma delas puxou o líder pelo braço.
— Vamo pra pista, pô. Tá mó arrasto aqui.
Ele se soltou devagar, ainda com o olhar preso em Miguel.
— Calma, princesa. Depois. Tô ouvindo uma história.
Miguel viu a brecha aumentar.
— História corre mais rápido que vídeo, meu filho — disse. — Se esse doce teu apaga lembrança, quem vai lembrar quem te pagou a primeira leva? Quem trouxe? Quem mandou subir pro morro?
O moleque apertou o maxilar, veia esticada no pescoço. Não respondeu. O silêncio dele respondeu por ele. O líder assentiu, leve, quase imperceptível.
— Fala mais baixo, tio — murmurou — mas continua falando.
Miguel ergueu a garrafa num brinde silencioso, vidro suando na mão.
— Só vou deixar uma frase — disse. — “Doce de Saturno rejuvenesce, mas rouba pedaço da cabeça”. Se você achar útil, espalha. Avisa teu povo. Melhor ter medo agora do que não sentir nada depois.
O líder repetiu “doce de Saturno” pra si mesmo, como quem prova tempero novo na ponta da língua. A expressão pareceu encaixar na batida. Cabia num verso.
— Doce de Saturno… — ele disse. — Dá até pra botar no refrão.
Miguel viu nos olhos dele o momento em que a engrenagem interna girou. Ali nascia boato de verdade. Bastava recuar.
— Vou lá ver a pista — Miguel falou, se afastando. — Cerveja eu pago essa volta. O resto vocês decidem.
***
Na pista, o som vinha ainda mais alto, atravessando os ossos. A multidão se mexia como massa fervendo, bolhas abrindo espaço e fechando em segundos. Miguel se enfiou pela lateral, sentindo o chão grudar na sola do tênis, mistura de refrigerante, cerveja e suor velho. Luz de LED explodia em roxo e verde sobre a fumaça, cortando rostos, apagando outros.
Do alto da estrutura de som, o DJ mexia nos controles com braço pesado, como maestro cansado segurando orquestra bêbada. Cada movimento do pulso mexia o corpo da galera.
Miguel achou o grupo que procurava. Três caras, um pouco mais velhos que a média ao redor. Barriga saliente em um, camisa polo aberta demais no peito, corrente barata brilhando no suor. Na mão dele, uma bala azulada refletia a luz como se tivesse lua própria dentro.
— Vai, Tuquinho, manda ver — o amigo gritou, sacudindo o ombro dele. — Cê vive reclamando do joelho. Depois dessa vai tá pulando que nem moleque.
O apelido colou na cabeça de Miguel como etiqueta de prova. Tuquinho. Guardou. O homem de meia-idade riu, meio envergonhado. O suor já brilhava na testa, mesmo parado.
— Se eu morrer, cês avisam pro plano de saúde — disse.
Levantou a mão, dedos grossos, unhas quadradas com pequenas manchas de tinta nas cutículas. Enfiou a bala na boca. Miguel reparou nas mãos. Mão de obra, oficina, cimento. A luz roxa bateu na pupila dele quando engoliu.
Miguel sentiu vontade de desviar o olhar. Não desviou.
Alguns minutos se arrastaram. O grave marcava o limite do peito. Miguel aproveitou e comprou outra cerveja num isopor ali do lado. A mão escorregou no plástico molhado de gelo derretido. O vendedor nem olhou pra cara dele, só passou a garrafa e pegou o dinheiro.
O amigo cutucou o braço de Tuquinho.
— E aí, parceiro, bateu?
O homem respirou fundo. Os ombros pareceram menos pesados de repente. O pescoço ergueu. A coluna se esticou, como se alguém tivesse tirado uma mochila de tijolo das costas.
— Rapaz… bateu leve, sabe? — respondeu. — Tô… sei lá. Tô mais solto.
Riu alto. Um riso agudo, quase adolescente, destoando daquele rosto queimado de sol e calo.
O amigo olhou e riu também.
— Cê tá é rindo igual moleque, Tuquinho.
O homem parou. A expressão dele travou um segundo.
— Tuquinho? — repetiu. — Quem te falou esse apelido, mano?
O amigo franziu a testa.
— Sempre te chamei assim, pô. Desde o Campo de Deus, lembra não?
Tuquinho levou a mão à cabeça. Coçou a têmpora com força, como se procurasse fechadura de lembrança.
— Campo… — murmurou. — Ih… deu branco. Que viagem.
Miguel chegou de mansinho. Postura de tio simpático. Cerveja na mão, sorriso torto.
— E aí, parceiro, bateu como? — perguntou. — Melhor que viagra do SUS?
Os amigos riram, aliviados com a piada fácil. Homem mais velho em baile virava sempre chacota de desempenho. Tuquinho olhou pra ele. Os olhos tinham brilho estranho, mais abertos. As linhas em volta da boca pareciam menos marcadas.
Miguel piscou. Tentou separar o que era efeito da droga do que ele mesmo podia estar projetando sem querer. A nuca formigou.
— Bateu… diferente — o homem disse. — Ó aqui, ó.
Puxou a pele do rosto com os dedos. A ponta deslizou sem pegar tanta flacidez.
— Tô lisinho, porra — falou, rindo alto. — Fala tu.
Miguel segurou a vontade de acreditar em milagre. Encostou um pouco mais, quase rosto com rosto. O hálito do homem veio quente, cheiro de álcool misturado com desodorante barato. Ele viu, sim, uma ou outra linha mais suave. Mas o que prendeu atenção foi outra coisa: o olhar. Vago, deslocado, como se ele tivesse acordado num quarto estranho e aceitasse aquilo como normal.
— Sedução é isso aí — Miguel disse. — Cê acha que tá com vinte de novo. E amanhã acorda sem lembrar onde deixou os quarenta.
Tuquinho gargalhou.
— E tu acha ruim? — perguntou. — Esquecer é bênção, meu irmão.
A palavra atravessou Miguel como ponta de ferro no estômago. Ele levantou a garrafa, deu um gole longo, forçando o líquido azedo goela abaixo. O gosto puxou o estômago, lembrando café velho esquecido no fogo.
— Depende do que cê esquece — respondeu, devagar. — Se for dívida, beleza. Mas e se for nome de filho?
O riso morreu na roda, de uma vez. Um silêncio curto, pesado, disputou espaço com o funk. Tuquinho apertou a lata nas mãos, o alumínio amassando com um estalo suave. Olhou pro chão.
— Eu… — começou, e engasgou. — Tenho… tenho menino?
O amigo arregalou os olhos.
— Para com essa porra, Tuco — disse. — Tu só tem a cachorra da tua ex te enchendo o saco. Filho cê nunca fez.
O homem relaxou de repente, como se algo tivesse sido devolvido. Voltou a rir.
— Verdade. Tô viajando.
Miguel não esqueceu o intervalo. Aquele fragmento de segundo em que o ar pareceu rarear, oxigênio sumindo da bolha. A droga corria na cabeça dele como cronômetro em contagem regressiva, ponteiro invisível avançando sem ninguém ver.
A nuca de Miguel latejou. A linha entre o dom dele e aquela química ficava fina demais. Parecia que duas máquinas diferentes rodavam o mesmo código por baixo.
— Onde cês arrumaram esse doce? — Miguel perguntou, mantendo o papel de tio chato. — Vem de onde?
O amigo abriu a boca, mas Tuquinho se adiantou.
— Lá do cais… — disse, e travou. — Não, pera. Do… do… esqueci, mano. Esqueci bonito.
O sorriso que veio em seguida era bobo, quase feliz. Miguel percebeu ali uma mistura indigesta de medo e alívio. Mosca escolhendo ficar presa na teia porque não aguentava mais bater asa.
Uma mão pesada empurrou o ombro de Miguel.
— Chefe, vamo maneirar aí nas entrevista — uma voz grossa soltou. — Cê tá achando que isso aqui é Ibope?
Miguel virou. Deu de cara com um segurança de firma. Coletinho preto, rádio preso no ombro, postura de quem já tinha decorado cada esquina daquele terreno. O olhar dele varria a pista sabendo quem estava em cada canto.
— Só tô conversando, patrão — Miguel disse, solto. — Nem perguntei CPF.
O segurança não riu.
— Cê tá perguntando demais de coisa que não te diz respeito, chefe — falou. — E olhando demais pra cara de quem não te convidou.
O coração de Miguel acelerou um ponto. Não o suficiente pra travar o corpo. Mas o sangue esquentou na medida exata da raiva. Aquele tipo de postura tinha cheiro de terceirizada presa entre milícia e consórcio chique.
— Conversa agora precisa de alvará? — Miguel perguntou, mantendo a voz baixa. — Me avisa que eu vou lá na prefeitura pedir.
O segurança encurtou a distância. O bafo de café requentado bateu no rosto de Miguel, misturado ao cheiro de tecido sintético suado do colete.
— História errada vira pânico — ele disse. — Patrão nenhum gosta.
Miguel inclinou a cabeça, como quem concorda.
— Nem eu — respondeu. — Principalmente quando a história começa pela parte que apaga memória.
O rádio chiou no ombro do segurança. Uma voz metálica falou de confusão no portão lateral. Ele nem olhou pro aparelho.
— E aí, chefe — continuou. — Tá com cara de quem já foi polícia. É?
A palavra entrou fria, cortante, pelos ouvidos. Miguel sustentou o olhar dele.
— Já fui muita coisa — disse. — Nenhuma paga bem o suficiente pra você perder sono.
— Se cê foi polícia, sabe — o segurança insistiu — quem manda na história é quem assina embaixo. E aqui, quem assina não gosta quando inventam droga fantasma, entendeu?
Miguel mediu a frase. Pesou a própria respiração. Ele precisava sair inteiro. E com o boato vivo.
— Droga fantasma não — disse. — Droga real. Com efeito de fantasma: some com pedaço de gente. Cês, como segurança, deviam querer saber.
O homem fez uma careta rápida. Alguma coisa ali entrou onde devia. Miguel sentiu que era hora de puxar o freio.
— Olha, patrão — completou. — Eu já vi noite demais terminar em saco preto. Hoje eu vim só dançar de longe. Se tô falando, é porque prefiro baile cheio a velório.
O segurança respirou fundo, costa inflando o colete. A música subiu de volume, e uma sirene distante começou a se somar ao grave. Miguel reconheceu o som de giroflex no asfalto lá embaixo. O clima mudava.
— Fica na tua, então — o segurança disse, por fim. — E espalha menos. Que tem gente ouvindo.
O jeito que ele falou “gente” apertou o peito de Miguel. Não era só o moleque das balas nem o líder do pedaço. Tinha alguém acima, papel timbrado, logo caro, contrato pairando invisível junto da fumaça.
Miguel se afastou, forçando o corpo a parecer relaxado. O suor escorria pelas costas, grudava a camisa na pele. Cheiro de cerveja derramada impregnava nas calças. A sirene lá embaixo crescia, mais próxima. Giro da PM, vindo.
***
Quando as primeiras luzes azuis bateram nos carros estacionados, o baile reagiu de uma vez. Rápido. Estourado. Barulho espalhado em todas as direções.
— Ih, polícia! — alguém gritou.
Metade correu pro beco da direita. Outra metade se enfiou entre os carros. Copo caiu, garrafa rolou, chinelo ficou. Miguel viu o segurança de firma se mexer junto com o garoto das balas. Os dois vinham direto na direção dele. Olhar fixo demais pra ser acaso.
— Aí, tio, vem cá — o garoto chamou, chegando perto. — Vamo trocar uma ideia melhor.
Ideia melhor, na boca dele, tinha gosto de sarjeta. Miguel sentiu o ar ficar mais pesado. Cada músculo reclamava cansaço, mas o corpo sabia que ia ter que rodar no limite, motor antigo estourando valeta.
Entrou no modo que conhecia. Respiração curta. Olhos caçando ponto de luz, sombra, qualquer coisa que pudesse virar ferramenta.
O poste perto da entrada tinha uma lâmpada amarela, velha, tremendo. Na rua de baixo, uma moto subia a ladeira, farol piscando. Miguel grudou o olhar na interseção dessas duas luzes. Puxou, lá de dentro, o fio de percepção que sabia torcer.
Não era bonito. Não era truque de cartola. Era só o cérebro dos outros sendo lembrado, com força, do que já esperava ver.
Para o segurança e pro garoto, naquele segundo, a sombra do poste ganhou contorno. Alongou, engrossou, formou silhueta de homem com arma na mão. Ao mesmo tempo, a luz da moto estourou em azul alguns instantes, como giroflex mal regulado.
Os dois travaram, olhos arregalados na falsa ameaça.
— Puta que pariu, é caveirão? — o garoto soltou, engolindo seco.
O segurança levou a mão à cintura, tateando a arma que talvez estivesse sem bala. O ombro dele endureceu.
Miguel usou aquele microtempo. Virou de lado. Se enfiou no corredor estreito entre dois carros. O chão estava coberto de garrafas plásticas, copos, lama de bebida. Um pé escorregou. Ele quase caiu, a lateral da coxa batendo com força no parachoque de um Gol corroído de ferrugem.
Cheiro de freio queimando de moto cortou o ar, mais próximo. Alguém atrás gritou:
— Polícia! Caralho, corre!
Não era o segurança. Não era o garoto. Algum inocente tinha visto o falso giroflex também. A ilusão escapava sempre um pouco além da mira de Miguel quando ele forçava demais. Espalhava.
O baile virou correria real. Cotovelo batendo em costela. Gente empurrando, chão escorregando. A música teimou uns segundos a mais, até ser cortada no meio de um verso. Um copo plástico esmagado estalou debaixo do tênis de Miguel. A respiração dele ardia quente, arranhando a garganta.
Ele entrou no beco à direita. Mais escuro. Cheiro de esgoto raso, água fina escorrendo pela calçada. Uma luz de cozinha no fundo de uma casa deixava tudo num tom amarelo sujo.
Outra moto passou na rua de cima. A sirene agora vinha de verdade, não da cabeça de ninguém. Miguel sentiu o coração acompanhar aquele som, batida por batida.
Encostou na parede respingada, respirando forte. Gotas de suor desciam pela testa, se misturando ao sal já seco na pele. Passou a mão no rosto, raspando a barba, tentando tirar pelo menos o grosso da sujeira.
Um corpo veio correndo na direção dele pelo beco. Miguel quase levantou o braço por reflexo. Era só um moleque de boné, uns treze anos, sem camisa, descalço. Cada passada dele parecia uma quase escorregada.
— Sai da frente, tio! — o menino gritou, sem diminuir.
Miguel colou mais no muro. A textura áspera da parede arranhou o braço. O menino passou num sopro, deixando pra trás cheiro de suor novo e medo acelerado.
Miguel retomou o caminho. Dobrou pra esquerda, se afastando do grosso da confusão. Sabia que alguns celulares já tinham filmado a correria. Talvez ele aparecesse em mais de um vídeo, cara de pedra velha no meio da bagunça.
O dom salvava. Mas jogava luz demais em cima dele.
***
A quitinete cheirava a sabonete barato e café passado na hora. Cheiro simples. De vida comum. Nada de metal, nada de pólvora, nada de hospital.
Miguel fechou a porta com cuidado. Encostou o corpo por um instante na madeira. Os ombros doíam. Os joelhos reclamavam como se ele tivesse subido dez lances de escada com saco de cimento nas costas. Cada músculo ardia.
Lívia estava sentada na única mesa de fórmica, notebook fechado, caneca de louça descascada entre os dedos. A luz amarela fraca da lâmpada pendurada num fio nu fazia sombras dançarem no rosto dela.
Ela levantou os olhos e fez uma careta.
— Entra logo nesse chuveiro, Miguel — falou. — A cidade inteira tá grudada em você.
Ele puxou um meio sorriso, cansado.
— Pelo menos hoje não é sangue — disse. — Esse sai com água quente.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Hoje saiu? — perguntou, seca. — Lá atrás não saiu, né?
A frase encontrou o ponto exato entre as costelas dele. Miguel desviou o olhar, fingindo que não ouviu. Deixou a mochila cair num canto. O barulho pesado denunciou papel, metal, coisa demais ali dentro.
Tirou o tênis, apoiando a mão na parede. A sola do pé encostou no piso frio, arrepiando o corpo inteiro.
— Tem água ainda? — perguntou, apontando pro banheiro com o queixo.
— Tem — ela respondeu. — Mas não garante muito tempo de luxo. A caixa-d’água da dona que alugou isso aqui é menor que minha paciência.
Ele soltou um riso curto que doeu no peito.
— Cê primeiro — disse.
Lívia balançou a cabeça.
— Não começa — cortou. — Vai você. Tô acostumada a cheirar obra. Você tá cheirando… baile inteiro. E meia dúzia de pecado junto.
Miguel levantou as mãos, rendido.
— Sim senhora engenheira — murmurou.
O banheiro era apertado, azulejos antigos com flor quase apagada. O espelho rachado em cima da pia já tinha metade do vidro tomado por marcas d’água e vapor de banho anterior. Ele puxou a porta, fechou. O som da rua virou eco distante.
Tirou a camisa. O tecido desgrudou da pele com barulho úmido, liberando cheiro de suor velho e fumaça de churrasco. Abriu o registro. A água saiu fria num jato fino, depois engrossou e esquentou rápido, batendo forte na nuca.
O vapor tomou o pequeno espaço, subindo até cobrir o espelho e apagar o pouco que dava pra ver do próprio rosto.
Quando o jato quente acertou as costas, os ombros de Miguel afrouxaram de um jeito quase dolorido, nervo por nervo. Um alarme interno, ligado desde a laje de Ana, finalmente reduzia o volume.
A água escorria levando restos de cerveja, fumaça, poeira, suor de baile. Filetes desciam pela coluna até as pernas, contornavam cicatrizes antigas e sumiam pelo ralo. O piso áspero arranhava a planta do pé, lembrando que ele continuava ali, inteiro.
Miguel encostou a testa no azulejo frio. Por alguns segundos, só existia o barulho do chuveiro. O funk do morro parecia ter ficado dentro de outra caixa, com a tampa fechada.
Queria que bastasse. Água quente, sabonete com cheiro de qualquer coisa limpa, café esperando na mesa. Mas a água só lavava a superfície. O resto agarrava por dentro.
Ele passou as mãos no rosto, sentindo a barba áspera arranhar os dedos. O sabonete deslizou pelo corpo, espuma clara, cheiro floral barato, doce demais. A memória puxou o cheiro doce do corpo de Ana na UPA, e o estômago virou uma pedra.
Miguel girou o registro um pouco mais. A água começou a queimar a pele, avermelhando o ombro. Não recuou. Queria ver se fervia a culpa.
Quando fechou a torneira, o silêncio pesou. O vapor ainda cobria o espelho, transformando o rosto dele num borrão sem contorno. Pegou a toalha gasta no gancho. O tecido, já fino, era macio pela insistência dos anos.
Enrolou na cintura. O ar mais frio do cômodo bateu no peito quente, levantando pequenos arrepios. Saiu do banheiro ajeitando a toalha com uma mão.
Lívia já estava de pé, pronta pra ocupar o lugar. Passou por ele, quase encostando o ombro no braço nu. O cheiro de café fresco vinha da mesa, misturado ao sabonete dela que tinha deixado trilha no ar. Quase cheiro de cozinha em fim de tarde.
— Deixei o chuveiro aquecido como sauna russa — ele disse, forçando leveza.
— Ótimo — ela respondeu. — Ajuda a abrir o pulmão depois desse cheiro de laje que cê trouxe.
Entrou no banheiro e fechou a porta. O som da água recomeçou, desta vez mais rápido, mais impaciente.
Miguel se sentou na cadeira de fórmica. A toalha enrolada na cintura, outra nos ombros. Pegou a caneca de café. O calor preencheu a mão. Levou à boca e tomou um gole devagar. O gosto forte, um pouco queimado, acalmou o estômago. Quase um abraço por dentro.
Olhou pra mochila no canto. Parecia maior do que era, como se o conteúdo empurrasse a lona de dentro pra fora.
Quando Lívia saiu, vestia um vestido simples de algodão, ainda colando um pouco no corpo úmido. O cabelo pingava gotas que escorriam pelo pescoço até sumir no decote. O cheiro de sabonete dela tomou conta do espaço, se somando ao do café, criando uma bolha temporária de aconchego deslocado.
Ela se sentou de novo, cruzando as pernas. Pegou outra caneca, enrolando os dedos em volta.
— Fala — disse, direto. — Como foi o baile?
Miguel respirou fundo. O vapor do banho ainda fazia a lâmpada parecer enevoada.
— Plantado — respondeu. — Joguei a frase. “Doce de Saturno rejuvenesce, mas rouba pedaço da cabeça”. O líderzinho da área gostou. Já tá virando música dentro da cabeça dele.
Lívia girou a caneca nas mãos. O café fez pequenos círculos escuros.
— Você fala como se fosse campanha de marketing — ela disse. — O que mais cê viu?
Ele contou. O garoto com as balas na mão. Tuquinho e o apelido esquecido. O segurança falando de patrão e história controlada. À medida que descrevia a pele lisa demais, o olhar bobo demais, reparou na mão dela: os dedos apertavam a porcelana, brancos nos nós.
— Esse cara… o Tuquinho — Lívia interrompeu. — Ele esqueceu de onde vinha a droga? Ou esqueceu do próprio passado?
— Os dois — Miguel respondeu. — A parte de trás da cabeça dele tá sendo formatada aos poucos. Reinstalação limpa. Sem backup.
Ela puxou o ar fundo, os ombros subindo e descendo devagar. A pele ainda rosada pelo banho parecia mais viva que o olhar.
— Você sabe que tá jogando o mesmo jogo, né? — disse, enfim. — Tá mexendo em percepção. Só que na escala de botequim, não de elevador.
Miguel encarou o fundo da caneca. A verdade ali já tinha rondado a mente dele no caminho de volta.
— Eu sei — murmurou. — A diferença é que eu não tô vendendo passagem pro espaço.
— Tá vendendo medo — ela rebateu. — “Doce que rouba pedaço da cabeça”. Essa frase vai virar meme, áudio, vai rodar zap, rádio de moto, boca de caixa. Daqui a pouco ninguém lembra que foi você que começou. Mas o efeito fica.
Ele levantou os olhos.
— E qual é a alternativa? — perguntou. — Deixar geral tomar isso rindo?
Ela calou por um tempo. Uma gota d’água escorreu da ponta do cabelo dela, desceu pelo pescoço até sumir no algodão do vestido.
— Sinceramente? — disse. — Não sei. Só sei que quando a gente começa a mexer em como os outros veem o mundo, a linha entre salvar e controlar fica… muito fina.
Miguel riu, sem graça.
— Fina igual cabo de aço de elevador — respondeu.
O silêncio que veio não era confortável. Mas tinha intimidade. Ele passou a mão no rosto, sentindo a barba quase seca.
— Lá atrás — disse, olhando pra mesa, não pra ela — eu fiz pior. Apaguei coisa que não devia. Mexi no que vocês chamam de cena. Até hoje não sei tudo que tirei de lá.
Lívia levantou o rosto. Os olhos dela mudaram de temperatura.
— Que cena? — perguntou, devagar.
Miguel puxou a mochila. O zíper arranhou o metal, som grande demais pro tamanho do quarto. Tirou um envelope de papel pardo, gasto nas bordas, estufado de recorte, foto, cópia de laudo. Espalhou alguns sobre a mesa.
As imagens antigas ficaram ainda mais duras sob a luz amarela. Mancha escura no chão, criança caída onde não devia.
— Essa — disse. — Operação no outro morro. Criança morta no meio. Meu “erro imperdoável”, como vocês gostam de sussurrar em corredor de fórum.
Os dedos dele tremeram enquanto empurrava uma foto na direção dela. Uma gota de café escapou da caneca, caiu na mesa, abriu mancha marrom.
Lívia não recuou. Pegou a foto com a ponta dos dedos. Olhou. A mandíbula enrijeceu. O vapor do banho parecia agora vir só da cabeça dela.
— Você não fala desse tiroteio como quem leu notícia — Miguel disse, vendo a mudança no rosto dela. — Fala como quem mediu o sangue.
Ela fechou os olhos por um instante. Quando abriu, encarou a papelada.
— Eu assinei um laudo que nunca foi pra lugar nenhum — falou, baixo. — Sumiu do sistema. Igual as crianças.
A frase caiu pesada entre as canecas. O café na xícara de Miguel parou de girar.
— Laudo de quê? — ele perguntou.
Ela passou o dedo por uma das cópias, parando num canto de papel onde um logotipo quase apagado insistia em existir. Três linhas curvas discretas. Marca de empresa que ele tinha visto recentemente no portão de um contêiner na baía.
— “Estudo piloto de agente modulador de foco em ambiente de estresse” — ela recitou, como se o título estivesse gravado por dentro do crânio. — Vendiam como “melhorador cognitivo pra tropa”. Primeiro lote testado em policiais de linha de frente de operação em área de risco.
O estômago de Miguel virou. O som do baile veio de novo à cabeça, mas distante, como se passasse por um cano comprido.
— Só que no laudo interno — Lívia continuou — a gente já via efeito colateral. Distúrbio de memória, lapso temporal, alteração de percepção visual. Principalmente em quem tinha passado muito tempo em situação de luz irregular. Viela, holofote, reflexo de sirene quebrada.
Ela levantou os olhos e fincou neles o olhar.
— A pergunta que nunca quiseram que eu fizesse — completou. — Quem eram exatamente esses policiais de linha de frente?
Miguel apertou a caneca. O calor atravessou a porcelana e queimou a palma da mão.
— E eu? — perguntou, a voz raspando. — Nesse papel aqui… onde é que eu entro?
Lívia respirou fundo, como quem prepara o corpo pra mergulhar em água muito fria.
— Antes do laudo — disse. — Na fase de teste. Informal. Barata. Sem formulário.
Pegou outra folha. Virou. Mostrou o rodapé. O mesmo logo discreto da empresa. O mesmo que hoje aparecia em slide bonitinho de apresentação do elevador da ATLÂNTICO VERTICAL.
O celular de Miguel vibrou na mesa, cortando o ar pesado. Uma vez. Duas. Três. O som do motorzinho parecia inseto preso em vidro.
Ele olhou de relance. Notificações de vídeo, áudio de grupo de zap. Títulos pulavam na tela: “Doce de Saturno na Penha”, “olha essa história aí kkkkk”, “bala que te deixa novo”. Em algumas miniaturas, o baile de antes. Em uma, o rosto de Miguel aparecia de lado, desfocado, a luz roxa do morro ainda estourando atrás.
O boato já corria sozinho. Tortinho. Crescido.
Lívia acompanhou com os olhos as notificações subindo. O clarão do celular iluminou as olheiras de Miguel.
— Miguel — ela disse, quase num sussurro — o mesmo consórcio que hoje ergue elevador já colocou substância parecida no sangue de policial há anos. Eu vi os números. Só trocaram o nome de fantasia.
Ele engoliu em seco. A garganta arranhou. Ela pousou o dedo num código de laudo, na borda esgarçada do papel. As letras iniciais eram as mesmas da placa do contêiner do vídeo anônimo. As mesmas dos anúncios de futuro brilhando na televisão.
— E se… — ela começou, a voz falhando um pouco — e se o primeiro “doce de Saturno” que deu ruim foi dentro de você?
Os áudios no celular começaram a tocar por cima uns dos outros, vozes repetindo a história que ele tinha inventado, já cheia de floreio, ameaça a mais, promessa nova. Miguel ficou olhando pro brilho da tela, pro logo no papel, pro vapor ainda preso no azulejo do banheiro.
Pensou no menino morto anos antes. Em Ana Clara na laje. Em Tuquinho perguntando se tinha filho. Cada lembrança puxava outra, como se alguém tivesse começado a rebobinar uma fita antiga.
Tudo parecia ligado por um fio invisível, esticado até o limite. Ele sentiu esse fio vibrar dentro da própria cabeça. E, pela primeira vez de verdade, se perguntou quanta coisa da memória dele ainda era dele. Ou se alguém, num laboratório qualquer, já tinha mexido em tudo muito antes daquele baile começar.