Capítulo 8: Fantasmas no Morro do Itapiru
A subida do morro do Itapiru era um castigo físico. Naquela madrugada, a gravidade parecia cobrar juros sobre cada passo dado entre as ruelas estreitas. A chuva fina, persistente como uma dívida de jogo que nunca se paga, transformava o lixo acumulado nas valas em uma sopa cinzenta e viscosa. Minha capa de plástico barata, comprada num camelô da Central, estalava contra as rajadas de vento. O som seco imitava passos logo atrás de mim, uma perseguição fantasmagórica que me fazia olhar por cima do ombro a cada dez metros. Eu era um espectro rondando o próprio enterro. Cada beco que eu dobrava parecia uma peça de um mosaico que alguém havia forçado o encaixe até lascar as bordas. O ar fedia a óleo diesel e gordura de fritura rançosa, uma mistura que lutava contra a umidade pesada que subia do asfalto ainda quente. Meus pés decoraram aquele caminho há décadas, mas meus olhos estranhavam as lajes novas e os grafites coloridos que não existiam quando eu ainda carregava um distintivo no peito. O morro tinha esticado para cima, um animal de concreto tentando escapar de uma enchente invisível.
Parei diante de um bar com a fachada descascada e triste. Uma lona azul, esticada de qualquer jeito, acumulava uma barriga de água suja bem no centro. Lá dentro, o chiado de uma TV antiga mostrava um jogo de futebol borrado, lançando sombras trêmulas sobre o balcão de madeira. O dono do bar tinha a pele cor de couro curtido pelo sol e pelo descaso. Ele passava um pano encardido num copo de vidro com uma lentidão hipnótica. Entrei devagar. A água da chuva escorreu pela minha nuca, um rastro gelado que me fez encolher os ombros.
— Uma dose da pior que você tiver — eu disse.
Sentei no banco de madeira bambo, sentindo o equilíbrio precário. O homem me mediu de soslaio, avaliando o estrago na minha roupa e no meu rosto. Ele não viu um cliente; viu um problema que entrava pela porta.
— Só tenho da boa, patrão — a voz dele era um lamento rouco, de quem já gritou muito e desistiu de ser ouvido.
— Então me serve a melhor mentira da casa — respondi, apoiando os cotovelos no balcão gasto. — Esse lugar aqui já viu muita bala, não viu? Lembra daquela noite que a PM subiu pelo lado errado?
O movimento do pano no copo parou bruscamente. O silêncio que se seguiu pesou como chumbo derretido entre nós dois. Ele olhou para a rua deserta, depois para a cortina de contas que separava o salão dos fundos.
— Todo dia alguém sobe ou desce errado por aqui, senhor — ele disse, voltando ao trabalho com uma pressa repentina. — A gente esquece rápido pra conseguir acordar no dia seguinte.
A resistência dele era uma muralha de concreto armado. Forcei a mente, buscando a brecha necessária, mesmo que o preço fosse aquela enxaqueca que latejava como um prego sendo martelado na minha têmpora. Concentrei-me no zumbido estático da TV e no tamborilar da chuva na lona. Projetei a frequência. O efeito foi sutil, mas devastador. Para ele, o som do jogo desapareceu. No lugar, o rugido de um helicóptero que só existia na minha memória invadiu o bar, fazendo as garrafas vibrarem nas prateleiras. O homem empalideceu instantaneamente. Seus olhos focaram em um ponto invisível atrás do meu ombro.
— Esse barulho... — ele sussurrou, a mão tremendo sobre o balcão. — O ventilador gigante no céu.
— Fogo cruzado? — perguntei, baixando o tom até virar um segredo perigoso.
— Morreu criança naquela noite, senhor. Fogo cruzado não escolhe quarto tão pequeno assim.
— Não foi cruzado — as palavras dele saíram com espinhos, arranhando a garganta. — Foi um massacre limpo. Eles sabiam exatamente onde estavam atirando. Mas depois... depois o senhor e os outros chegaram. Vocês mudaram as coisas.
Minha têmpora latejou com uma pontada de agonia. O dom vibrava como uma corda de piano esticada até o limite da ruptura.
— O que você viu? — insisti.
— Vi o senhor mexendo nos corpos — ele cuspiu a verdade, o medo dando lugar a um ressentimento guardado em conserva por anos. — O senhor olhou pra mim e eu vi outra coisa. Vi flores onde tinha sangue. Vi brinquedos onde tinha fuzil. O senhor é o diabo que faz a gente duvidar do que o próprio olho mostra.
Recuei, sentindo a ilusão se desfazer como fumaça ao vento. O gosto metálico de sangue inundou minha boca. O homem me encarava agora com um ódio genuíno, o tipo de desprezo que se tem de quem rouba a sua própria dor para reescrever a história.
— Ninguém esquece grito de criança — eu disse, levantando-me com as pernas pesadas. — Nem com o melhor truque do mundo.
Saí do bar sem olhar para trás, deixando uma nota amassada sobre o balcão. A chuva tinha apertado, transformando as vielas em canais de lama e detritos. Caminhei até o beco onde tudo aconteceu, o epicentro do meu colapso nervoso e profissional. Encostei-me na parede de tijolos aparentes, sentindo a aspereza fria contra as costas. Fechei os olhos e tentei forçar o replay daquela noite. A cena na minha cabeça era um filme com a fita mastigada, saltando quadros. Um, dois... três corpos? Ou eram quatro? As imagens se dividiam em camadas contraditórias. Em uma versão, eu via os soldados da Civil entrando com precisão cirúrgica. Na outra, era um caos de sombras, clarões de fuzil e gritos que a chuva não conseguia abafar. Onde eu estava naquele momento? Eu me via parado no centro do tiroteio, mas as balas pareciam desviar de mim como se eu fosse feito de neblina. Minha memória era um labirinto de espelhos trincados. Eu via meu rosto jovem, limpo de cicatrizes, segurando um menino que sangrava. Mas o rosto do menino mudava a cada segundo. Às vezes era o filho de Joice, às vezes era Lucas, às vezes era eu mesmo. Senti minha pele apertada demais para o corpo, uma tensão que ameaçava rasgar o tecido da realidade. Eu não era apenas o autor da ilusão; eu era a primeira vítima dela.
Desci o morro tropeçando nos próprios passos. A sensação de ser uma peça de teste em um laboratório gigante era um gosto amargo que não saía com água. Eu precisava de um abrigo, de algo que me lembrasse que eu ainda era matéria, não apenas um feixe de percepções editadas por terceiros. Encontrei uma pensão barata perto da saída do morro, um prédio que parecia se manter em pé por pura teimosia e camadas de tinta velha. Paguei o quarto com o que restava do meu dinheiro suado. O corredor cheirava a desinfetante de pinho e desespero acumulado. Tranquei a porta de madeira compensada, que não seguraria nem um chute de criança, e me despojei daquela armadura de lama e culpa.
O banheiro era um cubículo com azulejos manchados de mofo, mas o chuveiro elétrico prometia um milagre térmico. Liguei-o no máximo. A água demorou a esquentar, tossindo ferrugem antes de virar um jato pesado e fumegante. Entrei debaixo daquele calor, deixando a água bater na minha nuca como se pudesse lavar os pecados que estavam tatuados nos meus ossos.
— Banho de motel — murmurei para o vapor que embaçava o espelho rachado. — Água quente demais, cama dura, consciência pior.
Encostei a testa na parede fria do box. O contraste era um choque necessário para me manter ancorado no presente. Por alguns minutos, eu não era o ex-detetive Andrade, o protótipo quebrado ou o pai ausente. Eu era apenas um corpo reagindo ao calor. O vapor subia como uma neblina protetora, isolando o mundo lá fora. Pensei em Lucas. O rosto dele, cheio de uma esperança que eu já tinha esquecido como era, surgiu na minha mente com uma clareza dolorosa.
— Lucas, se tu soubesse a metade, desligava o wi-fi e sumia do mapa — falei baixo, as palavras se perdendo no barulho da água. — Dessa vez eu fico na linha de tiro, não você.
Saí do banho com a pele vermelha e os pulmões cheios de umidade. Vesti uma camiseta limpa, o único luxo que eu carregava na mochila, e sentei na cama. O colchão era uma placa de espuma que tinha decorado o formato de mil colunas tortas antes da minha. Peguei o caderno de recortes que Joice me entregara. Era um objeto pesado, não pelo papel, mas pelo que continha. Abri o caderno sob a luz fraca de um abajur que piscava como um coração cansado. O cheiro de papel velho e cola seca subiu, um perfume de arquivo morto. Comecei a folhear as páginas, comparando as fotos com as datas que eu sabia serem reais.
— Dois mil e oito — li em voz alta, passando o dedo sobre uma foto de jornal amarelada. — Essa cara aqui é de trinta anos.
Mas em dois mil e oito eu tinha trinta e oito. Virei a página. Outra foto, de apenas cinco anos atrás. Eu parecia ter vinte e cinco. As olheiras estavam lá, a postura de quem carrega o mundo nas costas também, mas a pele... a pele era de um jovem que nunca tinha visto um cadáver de perto. Era um rejuvenescimento facial patrocinado pela Secretaria de Segurança, mas só para os trouxas da linha de frente.
— Eles me usaram como uma máquina ganhando vida — refleti, sentindo um frio na espinha que a água quente não conseguiu tirar. — Eu era o campo de testes para o que eles estão fazendo agora com o Doce de Saturno.
Cada recorte era uma peça de um quebra-cabeça que montava um monstro corporativo. Eu via os nomes da Atlântico Vertical aparecendo em notas de rodapé, em doações para hospitais, em parcerias com a perícia técnica. O Dr. Alcides Rangel de Sá estava lá em todas as fotos de eventos oficiais, sempre um passo atrás, com aquele sorriso de quem sabe o final do filme e acha a piada sem graça. A raiva começou a borbulhar no meu peito, uma determinação que endireitava minha coluna como se fosse feita de aço. Eu não era apenas um detetive encostado; eu era a prova viva de um crime contra a própria natureza humana. Se eu era o modelo original, o sistema precisava de mim para continuar funcionando.
Meu celular vibrou sobre a mesa de cabeceira, um som que pareceu um tiro no silêncio do quarto. Era Lucas. Atendi no segundo toque, a voz ainda rouca do vapor do banho.
— Oi, Luquinhas. Comeu ou tá vivendo de miojo e algoritmo? — tentei manter o tom leve, mas minha mão apertava o aparelho com força excessiva.
— Pô, pai, miojo é a base da pirâmide alimentar de qualquer criador de conteúdo respeitável — a voz dele veio cheia de ruído, o som de uma TV ligada ao fundo. — Onde você tá? Tá uma barulheira de chuva aí.
— Tô resolvendo uns problemas de gente velha, filho. Escuta, você chegou bem em casa? Viu alguma coisa estranha no caminho? Algum carro parado onde não devia?
— Relaxa, pai. Se a Atlântico quisesse me clonar, eu já tinha mais views que meu canal — ele riu, mas a risada soou curta, nervosa. — Mas, tipo... tive um sonho esquisito hoje. Um corredor todo branco, sem porta nenhuma. E um cheiro de ozônio, sabe? Aquele cheiro de quando vai cair um temporal brabo.
Senti um passarinho pressentindo o gato dentro do meu peito. O sistema estava tocando nele. Os lapsos de memória, as imagens implantadas. Lucas era a próxima versão, o upgrade que eles queriam para corrigir o meu erro de software.
— Lucas, presta atenção no que eu vou te dizer — baixei o tom, a seriedade cortando o ar como uma lâmina. — Se um dia você acordar e não lembrar de onde esteve nas últimas duas semanas, ou se sentir que o mundo ao seu redor parece um cenário de teatro... me liga. Não importa a hora. Me liga e a gente some. Tá ligado?
— Tá me assustando, pai — ele disse, e eu pude ouvir o medo de adolescente quebrando a casca de ironia. — O que tá rolando de verdade?
— Só me promete isso. Promete que vai confiar na sua cabeça, mas vai me chamar se o que você vê não bater com o que você sente.
— Tá bom, eu prometo. Mas volta logo, tá? A mãe tá perguntando de você.
Desliguei a chamada e fiquei olhando para a tela escura. O silêncio do quarto foi pontuado pelo latido de um cachorro na rua, um som solitário que ecoava entre os prédios. Eu me sentia como um guerreiro encontrando seu centro antes de uma batalha que sabia que não poderia vencer, mas que precisava lutar. A luz azulada da tela do celular iluminou o quarto escuro quando uma notificação de número oculto apareceu. Um arquivo de vídeo. Meus dedos hesitaram por um segundo antes de tocar no ícone.
O vídeo começou com granulado, uma gravação de câmera de segurança de baixa qualidade. A imagem mostrava o porto do Rio, os contêineres empilhados como blocos de montar gigantes sob uma luz de mercúrio que deixava tudo com um aspecto doentio. Um homem de jaleco claro, o rosto mergulhado na sombra de um boné, caminhava ao lado de um rapaz. O rapaz era eu. Eu tinha vinte anos naquela imagem. Andava com uma confiança que eu não lembrava de ter possuído naquela idade. Saíamos de um contêiner que tinha o logotipo da Atlântico Vertical pintado na lateral, um desenho que parecia uma espinha dorsal estilizada. Eu não parecia um prisioneiro. Parecia um funcionário exemplar saindo do turno.
— Olha aí, novinho — murmurei para a tela, a vertigem me fazendo segurar na borda da cama. — Andando solto no porto como se fosse dono do lugar.
Pausei o vídeo. Ampliei a imagem do homem de jaleco. Mesmo na sombra, a postura era inconfundível. Era Rangel, ou alguém que se movia exatamente como ele. O vídeo continuava por mais alguns segundos antes de ser cortado abruptamente. O Miguel do vídeo olhava para a câmera e sorria, um sorriso que não chegava aos olhos. Era o olhar de quem já tinha visto o futuro e não gostou do que viu.
— Cientista de jaleco, contêiner sem marca, placa da Atlântico lá atrás — enumerei os fatos, tentando manter a mente fria enquanto meu coração martelava contra as costelas. — Bonita a coincidência.
A verdade caiu sobre mim com o peso de uma laje. O erro do caso antigo, a morte das crianças, a manipulação da cena. Nada daquilo tinha sido um acidente ou uma escolha moral ruim feita no calor do momento. Tinha sido um roteiro. Um teste de estresse para o protótipo zero. Eles queriam ver se eu era capaz de editar a realidade sob pressão extrema. E eu tinha passado no teste com louvor.
Levantei-me e fui até a janela. A chuva tinha parado, deixando a cidade brilhando sob as luzes de sódio como um tabuleiro de um jogo que eu não sabia as regras. O ventilador de teto zunia acima de mim, um som constante que imitava o ruído de fundo da minha própria mente.
— Se eu sou o modelo — perguntei para o reflexo no vidro sujo —, desde quando minha vida é um teste?
A pergunta ficou suspensa no ar, sem resposta. Eu sabia que a partir daquele momento, cada memória minha era suspeita. Cada afeto, cada dor, cada escolha poderia ser apenas uma linha de código escrita por Rangel e seus comparsas. Mas havia uma coisa que eles não podiam simular: a raiva que eu sentia agora. Era uma raiva orgânica, suja, humana. Peguei o caderno de Joice e o vídeo no celular. Eu tinha as peças. A imagem que o quebra-cabeça formava era a de um abismo. Mas se eu ia cair, levaria o laboratório inteiro comigo.
Deitei na cama sem apagar a luz. O sono não viria. Fiquei olhando para o teto, contando as manchas de infiltração, esperando o sol nascer para começar a destruir o mundo que me criou. O cheiro de ozônio ainda estava nas minhas narinas, o aviso de que a verdadeira tempestade estava apenas começando. E dessa vez, nenhuma ilusão me salvaria do que estava por vir.