Capítulo 9: Retratos de um Ontem Editado
O aroma de barro úmido subia pelas vielas, um hálito pesado que emanava das entranhas da terra. Miguel Nunes de Andrade encolheu os ombros, tentando diminuir sua estatura física enquanto subia a ladeira íngreme. Seus olhos evitavam as janelas, mas ele sentia o peso de mil íris invisíveis cravadas em sua nuca, observando cada movimento do intruso. A chuva da madrugada transformara os degraus de concreto em armadilhas escorregadias, cobertas por uma fina camada de limo esverdeado.
Varais de arame cruzavam o caminho como teias de aranha metálicas, exibindo roupas úmidas que pingavam sobre o lodo negro das valas. De algum lugar acima, o grave de um funk saía de uma caixa de som estourada, distorcendo as batidas. As vibrações atingiam a caixa torácica de Miguel, um metrônomo sombrio que marcava o tempo de uma sentença que ele nunca terminara de cumprir. Ele parou em um recuo da escadaria, os pulmões queimando pelo esforço e pelo ar saturado de umidade.
A Baía de Guanabara brilhava ao longe, uma mancha cinzenta e metálica sob o céu carregado de nuvens chumbo. Uma gota de suor frio escorregou entre suas escápulas, traçando um caminho gélido por sua espinha, apesar do vento morno que soprava do mar. O morro mudara de dono, as pichações nas paredes agora exibiam siglas diferentes, mas o medo permanecia como a única moeda local que nunca sofria desvalorização. Miguel sabia que cada passo ali era um risco calculado em uma planilha de perdas e danos.
Suas mãos, enterradas nos bolsos do casaco gasto, estavam cerradas até que os nós dos dedos ficassem brancos. Ele precisava de respostas que só o passado, enterrado naquele labirinto de tijolos aparentes e fiação exposta, poderia fornecer. No próximo lance de escadas, um vulto bloqueou a passagem, materializando-se das sombras de um beco lateral. O rapaz usava um boné enterrado até as sobrancelhas e um rádio transmissor preso na cintura por um elástico improvisado.
Uma cicatriz fina, quase branca, rasgava o supercílio do jovem e desaparecia sob a aba do boné. Ele mastigava um palito de dente com uma calma que só os predadores ou os muito jovens possuem. Miguel sentiu a musculatura das pernas retesar, as fibras prontas para o disparo de uma adrenalina que ele esperava não precisar usar. O olheiro não parecia ter mais de dezoito anos, mas seus olhos carregavam o cansaço cinzento de quem já vira décadas de violência.
— Subiu errado, tio — disse o rapaz, a voz seca como cascalho sendo esmagado. — Aqui não é teu caminho, não.
Miguel manteve o rosto neutro, os músculos da face congelados para não trair qualquer sinal de agressividade ou pânico. Ele sabia que, naquele território, qualquer gesto brusco ou olhar enviesado poderia ser o último ato de sua biografia. A sombra da dúvida rastejava por suas costas, mas ele não permitiu que seus pés recuassem um centímetro sequer.
— Meu caminho acabou aqui uma vez — respondeu Miguel, a voz saindo rouca, arranhada pelo ar úmido da subida. — Vim ver se os destroços ainda estão no lugar.
O olheiro inclinou a cabeça, o nariz franzido como se farejasse algo desagradável no ar. Ele buscava o rastro químico de um policial, aquele odor de pólvora e autoridade que o tempo raramente conseguia apagar totalmente da pele de um homem. O rádio no cinto do rapaz chiou, uma voz metálica e distorcida pedindo uma posição que Miguel não conseguiu decifrar.
— Tá achando que a vida é filme de ação? — O rapaz cuspiu o palito no chão de barro, um projétil de madeira insignificante. — Desce logo, antes que tu suma de novo e ninguém ache o corpo.
— Tenho uma dívida lá em cima — insistiu Miguel, dando um passo curto à frente, testando o limite do espaço pessoal do jovem. — Não é de dinheiro, moleque. Cê sabe como essas coisas funcionam.
O rapaz hesitou por um segundo, os olhos vacilando entre a agressividade e a curiosidade. Foi o intervalo necessário para Miguel buscar aquele fiapo de energia que sempre parecia prestes a arrebentar em sua mente. Ele não projetou força bruta, mas sim uma exaustão profunda e melancólica. Criou a imagem mental de um homem cansado visitando um túmulo sem nome sob o sol do meio-dia.
O olheiro piscou repetidamente, o cenho franzido como se tentasse espantar um inseto invisível que zumbisse dentro de seu crânio. Ele balançou a cabeça e deu um passo para o lado, liberando a passagem com um aceno impaciente e confuso. Miguel continuou a subida sem olhar para trás, sentindo o coração martelar contra as costelas como um prisioneiro tentando derrubar as grades.
As paredes de tijolo aparente pareciam se fechar sobre ele, transformando a viela em uma fenda claustrofóbica que lutava por um fiapo de céu. O ar tornava-se cada vez mais denso, impregnado com o cheiro acre de fumaça de lenha e o odor persistente de esgoto a céu aberto. Ele finalmente alcançou o patamar onde ficava a pequena casa de Joice da Conceição Araújo.
A fachada exibia feridas de infiltração, mapas de mofo cinzento que desenhavam a história de décadas de descaso e umidade. Miguel parou diante da porta de madeira compensada, o peito subindo e descendo em um ritmo irregular. Ele bateu três vezes, toques secos que ecoaram pelo beco silencioso como pequenos disparos abafados. Por um momento, apenas o chiado de uma televisão vindo da casa vizinha preenchia o vácuo da espera.
O ferrolho correu com um estalo metálico, um som definitivo que sinalizou o fim da sua jornada de subida. Joice apareceu na fresta, seus olhos escuros brilhando como lâminas de barbear recém-afiadas sob a luz fraca do corredor. Ela usava um avental manchado de farinha, as mãos ásperas denunciando o trabalho contínuo, e um terço de contas gastas estava enrolado em seu pulso esquerdo.
— O que você quer aqui, doutor? — perguntou Joice, a voz carregada de um veneno antigo. Ela não abriu a porta totalmente, mantendo o corpo como uma barreira entre ele e sua intimidade. — Já não matou o suficiente naquela época?
As palavras atingiram Miguel com a força de um soco direto no plexo solar, roubando-lhe o oxigênio que ele acabara de recuperar. Ele viu o tremor leve nos dedos dela, um contraste com a dureza de suas palavras, e percebeu que o tempo não tinha curado nada; apenas tinha escondido as cicatrizes sob camadas de rotina e sobrevivência. Miguel engoliu em seco, sentindo o gosto metálico da adrenalina ainda presente em sua boca. Ele não esperava uma recepção calorosa, mas o veneno na voz de Joice era um lembrete físico de que o passado não era apenas um arquivo morto em uma delegacia esquecida. Ele olhou para o corredor estreito atrás dela, onde o cheiro de sabão em pó e feijão fresco tentava, sem sucesso, mascarar o odor de umidade das paredes.
— Eu não vim aqui para desenterrar os mortos, Joice — disse Miguel, a voz soando mais cansada do que ele pretendia. — Vim porque os mortos estão começando a caminhar entre nós de novo. E eles têm a minha cara.
Joice apertou o terço em seu pulso, as contas estalando suavemente. Ela olhou por cima do ombro de Miguel, vasculhando o beco em busca de ameaças fardadas ou sombras conhecidas. O morro estava em um equilíbrio precário; a mudança de facção deixara os olheiros nervosos, como cães de guarda em um jardim desconhecido. Miguel sabia que sua subida não passara despercebida. Ele precisara usar um fiapo de seu dom, uma distorção sutil na luz e no som, para convencer um jovem armado na entrada da viela de que ele era apenas um tio distante visitando uma sobrinha. O esforço deixara uma pontada de dor atrás de seus olhos, um aviso de que sua mente era um motor que andava falhando.
— Você sempre foi bom de conversa, doutor — disse Joice, embora o rigor em seus ombros tenha cedido um milímetro. — Mas aqui em cima, conversa não enche barriga e nem traz quem já foi.
— Eu sei. Mas eu vi algo, Joice. Algo que não faz sentido. No caderno que você guardou... nas fotos que você tirou do lixo da perícia. Preciso entender o que eu era naquela época.
Joice hesitou, o conflito interno visível no modo como ela mordia o lábio inferior. Ela olhou para o céu cinzento, onde o sol começava a lutar contra as nuvens como um boxeador veterano tentando encontrar uma abertura. O ar estava pesado, carregado com o cheiro de barro fresco da chuva que caíra de madrugada.
— Não vamos conversar aqui na porta — disse Joice, finalmente abrindo espaço. — Os meninos lá embaixo já estão de olho em você. Se acharem que você é polícia de novo, nem sua lábia vai te salvar. Vamos subir para a laje. O vento lá em cima limpa as ideias.
Miguel entrou, sentindo o espaço apertado da sala de estar, decorada com crochês impecáveis e fotos de família que pareciam santuários. Ele seguiu Joice por uma escada de caracol estreita que levava ao topo da casa. Quando emergiram na laje, o mundo pareceu se expandir. O sol finalmente rompera a barreira cinzenta, banhando o cimento úmido com uma luz dourada e pálida. O vapor subia das poças, criando uma névoa baixa que cheirava a terra e liberdade.
— Senta aí — disse Joice, apontando para uma cadeira de plástico desbotada pelo sol. — Vou pegar o café. Se você vai me fazer lembrar do que eu tento esquecer todo dia, pelo menos não vai ser de estômago vazio.
Miguel sentou-se, sentindo o calor do sol em sua nuca. Ele tirou o casaco pesado, sentindo o vento leve que subia da Baía de Guanabara trazer o som abafado da cidade lá embaixo. Era uma trégua improvável. O som de um funk estourado vinha de uma casa próxima, mas ali, na laje de Joice, havia um silêncio doméstico que parecia uma redoma de vidro. Ele observou um varal carregado de roupas coloridas balançando ao vento, as gotas de água brilhando como pequenas joias antes de caírem no chão.
Joice voltou minutos depois com uma bandeja de metal descascada. O cheiro de café passado em coador de pano inundou o ar, um aroma quente e terroso que parecia um abraço em meio ao caos. Havia duas canecas de porcelana lascada e um prato com pão amanhecido, cortado ao meio e dourado na chapa com uma camada generosa de manteiga que ainda borbulhava.
— É café ralo, do jeito que a gente consegue comprar — disse ela, entregando-lhe a caneca.
Miguel aceitou, sentindo o calor do líquido atravessar a porcelana e aquecer suas mãos calejadas. Ele deu um gole longo, sentindo o açúcar e a cafeína despertarem seus sentidos. O pão estava crocante, o sal da manteiga contrastando com o amargor do café. Por um momento, o peso da investigação e a paranoia do elevador espacial pareceram pertencer a outro homem. Ele se permitiu fechar os olhos e escutar o ritmo do morro: o grito de uma criança, o bater de uma porta, o motor de uma moto subindo a ladeira. Era um jardim de concreto, resiliente e vibrante.
— O café está ótimo, Joice. Obrigado — disse Miguel, e ele falava a verdade.
Joice sentou-se à sua frente, observando-o com uma curiosidade cautelosa. Ela não tocou no pão, mantendo as mãos envoltas em sua própria caneca.
— Você mudou, Miguel — disse ela, usando seu nome pela primeira vez. — Seus olhos parecem os de quem viu o fim do mundo e não gostou do que encontrou.
— Eu vi o que o tempo faz com a gente, Joice. E vi o que algumas pessoas tentam fazer com o tempo.
Ela suspirou, o som saindo como um desabafo guardado por décadas. Ela se levantou e foi até um canto da laje, onde uma caixa de plástico azul estava escondida sob uma lona. Ela voltou com um caderno de capa dura, as bordas desgastadas e remendadas com fita isolante preta. Era um objeto que carregava o peso de uma vida de luto.
— Eu não deixo ninguém tocar nisso — disse Joice, segurando o caderno contra o peito. — Nem meus outros filhos. Eles acham que é doença, que eu devia deixar o passado enterrado. Mas como você enterra algo que ainda dói quando chove?
— Eu não quero tirar ele de você — disse Miguel, colocando seu celular sobre a mesa, com a tela para baixo. — Pode ficar com ele o tempo todo. Eu só preciso ver as fotos. As datas.
Joice colocou o caderno sobre a mesa, mas manteve as mãos sobre a capa. Ela o abriu devagar, como se estivesse manuseando um manuscrito sagrado. As páginas eram um mosaico de recortes de jornal amarelados, boletins de ocorrência grampeados e fotos de perícia que nunca deveriam ter saído da delegacia. No centro de tudo, havia fotos que Joice tirara por conta própria, usando uma câmera velha, capturando Miguel e seus colegas durante as incursões no morro.
Miguel inclinou-se para frente, o coração martelando contra as costelas. Ele começou a folhear as páginas, seus dedos roçando o papel áspero. Ele parou em uma foto datada de quinze anos atrás. Nela, ele aparecia encostado em uma viatura, segurando um fuzil com uma displicência que agora o enojava. Ele olhou para o seu rosto na imagem. Depois, olhou para o próprio reflexo no vidro escuro do celular.
— Joice... essa data está certa? — perguntou ele, a voz falhando.
— Eu anotei cada uma, Miguel. No dia em que foram tiradas. Essa aí foi três meses antes do... do meu menino.
Miguel sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o vento da baía. Na foto de quinze anos atrás, ele parecia ter exatamente a mesma idade que tinha agora. As mesmas linhas de expressão ao redor dos olhos, a mesma cicatriz leve no queixo. Ele folheou para uma foto mais antiga, de vinte anos atrás. Nela, ele parecia *mais velho* do que na foto de quinze. Era um quebra-cabeça cujas peças se recusavam a se encaixar.
— Eu não entendo — sussurrou Miguel. — Eu deveria parecer uma criança nessas fotos. Eu tinha vinte e poucos anos quando entrei para a Civil.
— Na época, o pessoal comentava — disse Joice, a voz baixa, quase um segredo. — Diziam que vocês, os da equipe especial, não envelheciam. Que vocês tinham uma disposição que não era humana. Subiam esse morro correndo, sem nem suar, enquanto os outros policiais ficavam para trás, bufando.
Miguel fechou os olhos, tentando forçar uma lembrança. Ele se lembrou de um frasco âmbar, de comprimidos sem rótulo que o Inspetor Faria entregava toda manhã antes da operação. "Melhorador cognitivo", diziam. "Remédio de coragem para aguentar o tranco". Ele tomava sem questionar, confiando na hierarquia, confiando que o Estado cuidava dos seus cães de caça.
— Eles davam algo para a gente, Joice — disse Miguel, abrindo os olhos e encontrando o olhar intenso dela. — Um remédio. Diziam que era para o foco.
— Remédio de coragem — repetiu Joice, com um desprezo amargo. — Eu ouvi isso no enterro do meu filho. Dois policiais conversando nos fundos, achando que eu não estava ouvindo. Falavam que a dose tinha sido alta demais naquele dia. Que vocês estavam vendo coisas que não existiam.
Miguel sentiu o estômago revirar. O "dom" de criar ilusões, a habilidade de dobrar a percepção dos outros... e se isso não fosse um talento natural? E se fosse um efeito colateral, uma mutação cultivada em um laboratório fétido e depois testada no campo de batalha que era o morro?
Ele continuou folheando o caderno, sua mente trabalhando em alta velocidade, cruzando datas de operações com os períodos em que ele se sentia mais "vibrante". Joice observava cada movimento dele, pronta para fechar o caderno ao menor sinal de truque. Miguel precisava de uma prova física, algo que pudesse levar para Lívia ou para Rafaela analisar.
Ele viu um panfleto colado em uma das últimas páginas. Era um convite para um "Curso de Aperfeiçoamento Tático e Resiliência Operacional". No rodapé, um logotipo que ele reconheceria em qualquer lugar: o círculo estilizado da Atlântico Vertical, mas em uma versão primitiva, associada a um órgão federal de segurança que fora extinto anos atrás.
— Joice, eu preciso de um segundo — disse Miguel.
Ele usou um movimento rápido, um truque de perspectiva que aprendera a dominar. Enquanto fingia ajustar a caneca de café, ele projetou uma pequena distorção visual, uma mancha de luz que atraiu o olhar de Joice para o varal de roupas. Foi apenas um segundo, o tempo de um piscar de olhos. Nesse intervalo, ele deslizou o celular, acionou a câmera e tirou uma foto nítida da página com o panfleto e a foto ao lado.
O clique silencioso do obturador digital pareceu um tiro em seus ouvidos.
Joice voltou o olhar para ele, os olhos estreitados em suspeita. Ela percebeu algo, um deslocamento no ar, uma vibração que não deveria estar ali.
— O que você fez? — perguntou ela, a voz subindo de tom.
— Nada, Joice. Só... o sol bateu no meu olho — mentiu ele, sentindo o peso da culpa esmagar a trégua que haviam construído.
Ela fechou o caderno com força, o estalo ecoando pela laje.
— Chega, Miguel. Você já viu o que queria. Você continua o mesmo. Usando seus truques para conseguir o que quer, sem se importar com quem fica no caminho.
— Joice, escuta... isso é maior do que nós dois. Esse projeto do elevador, essa droga que estão distribuindo no carnaval... é a mesma coisa. Eles estão usando as pessoas como usaram a mim. Como usaram seu filho.
Joice levantou-se, a figura pequena e frágil agora parecendo feita de ferro.
— Meu filho não foi um teste, doutor. Ele foi uma vida. E você ajudou a apagar ela.
Miguel levantou-se também, guardando o celular no bolso. Ele queria pedir desculpas, queria dizer que daria a própria vida para desfazer aquele dia, mas as palavras pareciam vazias diante da dor monumental daquela mulher. Ele olhou para a foto que acabara de tirar, a imagem ainda processando na tela mental de sua memória.
A foto mostrava Miguel ao lado de um banner do "Programa Piloto de Desempenho Operacional". Ele parecia ter vinte e cinco anos. A data no jornal colado ao lado era de apenas cinco anos atrás. O cálculo era impossível. Ele estava rejuvenescendo enquanto o resto do mundo envelhecia, ou sua memória fora editada de forma tão profunda que ele não sabia mais em que década vivia.
No rodapé do banner, quase apagado pela umidade, ele leu o nome do órgão: *Gabinete de Desenvolvimento de Tecnologias de Transição*. O mesmo nome que Lívia mencionara como o principal financiador oculto dos contratos de infraestrutura do elevador espacial.
— Eu vou embora, Joice — disse Miguel, caminhando em direção à escada. — Mas eu vou descobrir a verdade. Por ele. E por mim.
— A verdade não vai te dar paz, Miguel — disse ela, voltando a se sentar e pegando a caneca de café frio. — Ela só vai te mostrar o tamanho do buraco onde você se meteu.
Miguel desceu as escadas, o coração pesado. Ele cruzou a sala de Joice e saiu para o beco. O sol agora estava forte, refletindo nas paredes de tijolo aparente e criando sombras profundas. Ele sentia o celular queimando em seu bolso, uma prova de que ele fora, talvez, o primeiro protótipo de algo terrível.
Enquanto descia o morro, evitando o olhar dos olheiros que agora pareciam mais atentos, Miguel sentiu uma tontura súbita. As cores do morro pareceram saturar demais, o som do funk tornou-se um ruído branco ensurdecedor. Ele se apoiou em um muro, sentindo a textura áspera do chapisco.
Ele olhou para as próprias mãos. Elas pareciam jovens demais para um homem de quarenta e três anos. A pele era firme, sem as manchas de sol que ele lembrava de ter visto na semana passada. O pânico subiu por sua garganta como bile.
Ele não estava apenas investigando um crime. Ele era a cena do crime.
Miguel alcançou a base do morro, onde o asfalto começava e a ilusão de ordem retornava. Ele pegou o celular e olhou mais uma vez para a foto do caderno. O rosto jovem dele sorria para a câmera, um sorriso de quem acreditava estar servindo a uma causa nobre. Atrás dele, o banner da Atlântico Vertical parecia uma promessa de futuro.
Ele percebeu um detalhe que deixara passar na laje. No canto da foto, um homem de jaleco branco observava a cena com um tablet na mão. O rosto era mais jovem, sem a barba bem aparada e os óculos caros, mas os olhos eram inconfundíveis.
Era o Dr. Alcides Rangel de Sá.
Miguel fechou o caderno mental de suas certezas e sentiu o chão tremer sob seus pés. O elevador espacial não era o objetivo final. Era apenas o palco. A verdadeira mercadoria era o tempo, e ele fora o primeiro laboratório onde essa mercadoria fora testada.
"E se o primeiro laboratório não foi a favela", pensou Miguel, enquanto caminhava em direção ao ponto de ônibus, "mas o meu próprio corpo?"