Capítulo 18: A Lista Invertida Pendurada
As flores tardias da velha pereira caíam sussurrantes, cada pétala como se fosse puxada por um fio invisível, caindo direto na terra.
Zhu Hanli acabara de apertar a faixa de pano no ombro de Yue Tingzhou, seus dedos ainda não haviam deixado o nó, quando o vento ao pé da montanha parou subitamente. Não era uma parada natural — era aquela parada como se algo tivesse sido estrangulado pela garganta. As pétalas de pera ficaram suspensas no ar, como se esperassem um comando, até mesmo o ruído distante dos pinheiros desapareceu.
O som de passos explodiu na trilha da montanha.
Não era uma pessoa. Era um grupo. O baque surdo das solas de botas contra os degraus de pedra azul misturava-se com respirações pesadas, como uma maré subindo do sopé da montanha, fazendo o chão tremer levemente. A mão de Yue Tingzhou apertou o punho da espada, o ferimento no ombro fez seu movimento demorar meio passo, a bainha da espada roçou no fecho de cobre do cinto produzindo um leve som de *clique*, mas seu olhar já varria a direção do som — trezentos passos, no máximo trezentos passos, entre as frestas dos pinheiros já se podiam vislumbrar figuras humanas se aglomerando.
“Não se mexa.” Zhu Hanli sussurrou em voz baixa, seu ábaco de prata, sem que se soubesse quando, já estava invertido em sua mão esquerda, a moldura de sândalo gelada pressionando a palma da mão, a mão direita apertou a pistola curta atrás da cintura, o cabo envolto em pele de tubarão áspero contra a polpa dos dedos.
As sombras das árvores se agitaram.
Quem surgiu correndo foi Lu Jianwei. Ela corria com a caixa de remédios nas costas, os cabelos desgrenhados, alguns fios grudados no pescoço pelo suor, o rosto arranhado por galhos, pequenas gotas de sangue escorrendo, especialmente marcantes sobre a pele pálida. Mas o que segurava nas mãos estava apertado com força mortal — um fragmento de espelho espiritual do tamanho de uma palma, emitindo uma luz azulada ofuscante. A luz se contorcia como um ser vivo, iluminando seu rosto de um branco cadavérico, até mesmo suas pupilas tingidas de um azul sinistro.
“Corram—” Ela ofegava, quase incapaz de formar palavras completas, sua garganta emitia um som rouco como de um fole estragado, jogando o fragmento do espelho espiritual no colo de Yue Tingzhou, “Todo o mundo dos *jianghu*… está espalhando…”
Yue Tingzhou pegou o fragmento.
No instante em que a ponta dos dedos tocou a superfície do espelho, uma sensação familiar de frio subiu pelo braço, como se inúmeras agulhas minúsculas de gelo perfurassem a pele. Era a sensação única do espelho espiritual do Livro do Destino, como tocar o gelo de um rio no auge do inverno. A superfície do espelho não refletia seu rosto, apenas palavras rolando linha após linha — caracteres de luz azul clara saltitando sobre o fundo negro do espelho, cada traço afiado como se tivesse sido gravado a faca:
**[Anúncio do Clã Yue: O discípulo rebelde Yue Tingzhou (nome de cortesia Zhige) conspirou com a Lista de Casamentos, manipulou correspondências, buscou lucro ilícito, evidências concretas. A partir de hoje, expulso do clã, removido dos registros genealógicos, vida ou morte irrelevante.]**
**[Ordem de Captura do Departamento de Lei e Ordem: Suspeito Yue Tingzhou, acusado de falsificar contratos matrimoniais do Destino, aceitar subornos, perturbar a ordem do *jianghu*. Recompensa de cem mil *taels*, vivo ou morto. Quem fornecer pistas, recompensa de mil *taels*.]**
**[Registro de Transações da Lista de Casamentos (falsificado): Yue Tingzhou, no sétimo dia do terceiro mês, recebeu cinco mil *taels* de prata de um comerciante de seda de Jiangnan, correspondendo a filha do mesmo a uma família rica do norte; no segundo dia do quarto mês, recebeu um par de jades de um comerciante de
“A Espelho Espiritual do Livro do Destino... transmissão em toda a rede.” Lu Jianwei engoliu a saliva, a garganta seca emitiu um som de “gulp”. Ela apontou para o sopé da montanha, a ponta dos dedos tremendo levemente, “Desde meia hora atrás, todos os espelhos espirituais estão piscando luz azul, ao clicar são esses anúncios. Agora, todos os cultivadores independentes no mundo jianghu com um mínimo de cultivo têm um fragmento de espelho espiritual...”
Ela não continuou.
Porque o grito de batalha vindo do sopé já subia, como um gongo de bronze batendo violentamente no ouvido.
“Yue Tingzhou está ali—!”
“Cem mil taéis! Não deixem ele escapar!”
“E aquela mulher da escolta, peguem os dois juntos para receber a recompensa!”
Os vozes batiam na encosta como ondas, sacudindo os galhos das pereiras, pétalas caindo como uma tempestade, batendo nos ombros e nos cabelos. O cheiro de enxofre misturado com suor subia com o vento, picante e sufocante — alguém trouxera bombas de fogo. Yue Tingzhou enfiou o fragmento do espelho espiritual no peito, a superfície fria do espelho colada ao peito, a mão esquerda pressionando a bainha da espada. O ferimento no ombro fazia seu braço esquerdo ainda tremer, os músculos contraindo involuntariamente, mas a mão direita já estava firme, os cinco dedos cerrados, as juntas brancas.
Zhu Hanli de repente agarrou seu pulso.
Os dedos dela estavam quentes, tão quentes que Yue Tingzhou ficou surpreso, a temperatura queimando através da pele, formando um contraste nítido com sua própria temperatura corporal gelada.
“Consultório médico.” Ela disse apenas duas palavras, a voz muito baixa, o olhar varrendo Lu Jianwei, afiado como a ponta de um dardo, “Vila Qingzhu, seu lugar, tem passagens secretas?”
“Tem.” Lu Jianwei assentiu, a alça da caixa de remédios cortando seu ombro, o tecido de linho grosso doendo, “Mas a vila agora... está cheia de cultivadores independentes vendo os editais de recompensa.”
“Então vamos arrombar.”
Zhu Hanli soltou o pulso de Yue Tingzhou, tirando do peito aquele ábaco de prata que segurava invertido. Ela não mexeu nas contas, apenas colocou o ábaco horizontalmente na frente do peito, o dedo deslizando levemente sobre as contas — sete contas brilharam simultaneamente com uma luz prateada suave, luminosa mas com uma textura afiada. Era a “Formação de Divisão de Luz” usada pela Escolta Wan Jing apenas para cargas de grande valor, capaz de distorcer a luz por um curto período, criar ilusões, cada uso consumindo trinta por cento do qi interno.
Yue Tingzhou olhou para ela.
Ele queria dizer “você não precisa”, queria dizer “ainda dá tempo de se distanciar”, queria dizer “a família Zhu será punida coletivamente”. Mas as palavras ficaram presas na garganta, como um algodão molhado obstruindo, porque Zhu Hanli já se virou, de costas para ele, de frente para a multidão subindo do sopé, a barra da roupa estalando ao vento.
Suas costas eram muito retas, como um mastro de bandeira de escolta cravado no solo, o vento não conseguia movê-la.
“Vamos.” Ela disse.
Os três correram ladeira abaixo.
O bosque de pereiras era denso, galhos entrelaçados chicoteando o rosto com dor ardente, deixando pequenos arranhões sangrentos. Yue Tingzhou corria por último, o ferimento no ombro tornando sua velocidade lenta, cada passo no chão como uma agulha perfurando o osso, a dor fazendo seus dentes se cerrarem. Os gritos de batalha atrás estavam cada vez mais próximos, ele conseguia até ouvir o rangido de alguém puxando a corda do arco, aquele som de atrito peculiar quando a corda de tendão de boi é esticada —
As flechas vieram.
Não uma, três. As pontas das flechas traziam uma luz verde clara, traçando três trilhas verde-escuras na floresta sombria, eram
Ela pegou um punhado de pó cinza-esbranquiçado e o jogou no ar. O pó se dispersou ao vento, transformando-se em uma névoa branca e sufocante que invadiu narinas e gargantas, provocando acessos de tosse violenta. Era cinza de artemísia misturada com alecrim — a fumaça atordoante usada por médicos itinerantes do mundo dos rios e lagos para defesa pessoal, com seu sabor amargo de ervas e sensação áspera de poeira. A névoa branca envolveu metade da rua, tosse e pragas se misturando em confusão, figuras humanas cambaleando na neblina.
"Por aqui!" Lu Jianwei puxou os dois para uma viela estreita, com paredes altas e musgo escorregadio, fazendo os pés deslizarem.
No fim da viela havia uma porta de madeira discreta, com uma placa desbotada pregada nela: 【Clínica Médica Lu】. No canto inferior direito da placa havia uma marca minúscula — três folhas de artemísia sobrepostas, um sinal secreto entre médicos itinerantes, significando "refúgio disponível aqui", com poeira acumulada de anos na incisão.
Lu Jianwei empurrou a porta.
O cheiro de remédios atingiu-os de frente, tão forte que sufocava. Não era aquele aroma fresco de ervas, mas um odor pesado de remédios misturado com sangue, pus e o cheiro de doença prolongada, como um pano úmido pressionado sobre nariz e boca. A clínica era pequena, com apenas uma mesa de consulta, dois armários de remédios e ervas secas empilhadas no chão, que faziam um som "sussurrante" e quebradiço ao serem pisadas. A janela traseira estava pregada com tábuas, mas a luz que entrava pelas fendas mostrava outra viela lá fora, com iluminação fraca.
Ela trancou a porta por trás.
Mal a porta se fechou, passos do lado de fora já chegavam à entrada da viela, desordenados e pesados. Alguém bateu com força na porta — um baque surdo, a madeira gemendo sob o peso, poeira caindo em cascata do batente. Lu Jianwei puxou uma barra de ferro debaixo do armário de remédios, fria e pesada, e a atravessou na tranca, o metal rangendo contra a madeira com um som estridente.
"Não vai aguentar por muito tempo." Ofegando, ela deslizou para o chão, encostada no armário, sua roupa de algodão grosso raspando contra a madeira. "Todas as saídas da cidade estão bloqueadas pelos homens do Livro do Destino... Eles montaram barreiras, verificando cada fragmento do Espelho Espiritual."
Yue Tingzhou apoiou-se na mesa de consulta para se firmar.
A borda da mesa pressionava sua lombar, lascas ásperas de madeira penetrando o tecido. A dormência e coceira do ferimento no ombro já haviam se espalhado para o peito, como uma rede apertando seus órgãos internos, exigindo esforço total para manter a respiração estável, cada inspiração carregando um leve tremor. Ele tirou do peito os dois fragmentos do Espelho Espiritual e os colocou lado a lado sobre a mesa. A luz azul clara refletia na superfície como um pequeno lago frio, sombras dançando sobre as veias da madeira ainda úmidas.
"Os rumores são falsos." Sua voz saiu rouca devido à toxina, a garganta seca como lixa. "Mas a transmissão é real — uma transmissão em rede completa do Espelho Espiritual do Livro do Destino só pode ser feita pelo servidor principal do pergaminho-mãe do Palácio Celestial das Nuvens."
Zhu Hanli aproximou-se dele.
Ela não olhou para o espelho, mas para o rosto de Yue Tingzhou. Seu semblante estava assustadoramente pálido, suor frio escorrendo de suas têmporas, gotas finas deslizando pelas têmporas, mas seus olhos ainda mantinham a frieza de quando conduzia investigações, como se dissecasse um cadáver, as profundezas de suas pupilas refletindo a luz azul do espelho.
"Provas?" Ela perguntou, voz suave, mas perfurando o silêncio como uma agulha.
Yue Tingzhou pegou o fragmento do espelho que exibia os registros de transação falsificados, pressionando a pont
"Aqui." A voz de Yue Tingzhou soou ainda mais rouca, como um gongo quebrado. "Originalmente, deveria haver uma marca rúnica exclusiva aqui – o servidor do Espelho Espiritual imprime uma marca rúnica única no fluxo de dados de cada mensagem enviada, usada para rastrear a origem. Mas esta marca... foi apagada artificialmente, apagada de forma muito limpa, deixando apenas este sulco."
"Apagada?" Lu Jianwei levantou-se do chão, o joelho batendo no canto do armário de remédios, a dor a fez aspirar o ar com força. "Quem poderia apagar a marca do servidor do Livro do Destino?"
"Quem o opera."
Assim que Yue Tingzhou terminou a frase, outro fragmento do Espelho Espiritual sobre a mesa de exame começou a piscar violentamente. Não era uma luz azul clara, mas uma luz vermelha-sangue – o fragmento que exibia a Ordem de Revisão Inicial da Lista Inversa, na superfície do espelho, surgiu uma nova linha de caracteres.
O Jue do Lago Sereno circulava nos meridianos, como uma fonte gelada infiltrando-se em solo rachado, trazendo uma leve dor aguda e uma sensação refrescante. A energia espiritual subia do dantian, seguindo pelo meridiano Du. Ao passar pelo ponto Fengfu, encontrava uma obstrução – uma lesão oculta deixada pelo veneno da Garra do Falcão Gélido. Cada tentativa de superá-la era como uma lâmina cega raspando os ossos. Gotas de suor fino surgiam em suas têmporas, escorrendo pelas têmporas, caindo no colarinho da roupa na clavícula, formando uma pequena mancha úmida e escura. Mas sua respiração era estável como um riacho de montanha, o ritmo da elevação do peito não se alterava nem um pouco. "Zhi Ge." A voz de Zhu Hanli veio de trás dele, muito baixa, quase abafada pelo contínuo impacto vindo de fora da porta. Ela não o tocou, apenas ficou de pé ao lado da mesa de exame, a sola do sapato esmagando os resíduos de remédios espalhados pelo chão, emitindo um som sutil de areia. A Lâmina de Mil Espelhos e Luz Dividida estava colocada no pilão de bronze de remédios ao alcance da mão, a lâmina refletindo a luz azul que emanava dos fragmentos do Espelho Espiritual, como um arco de lua congelada, com um brilho frio fluindo. Ela olhou para a mão de Yue Tingzhou pressionada contra a superfície do espelho, viu os nós dos dedos dele branquearem com a força, as bordas das unhas sem nenhuma cor, e também viu aquela marca dourada escura no interior do pulso – o símbolo do espião do Departamento da Lei Imparcial, que agora estava levemente quente, emitindo uma temperatura ardente sob a pele. "Com base na evidência." Yue Tingzhou abriu os olhos, no fundo das pupilas havia padrões dourados claros fluindo, como inscrições ocultas no fundo da água. "O envio do Espelho Espiritual tem uma frequência fixa. Registros de transação falsificados... precisam acessar o núcleo de cálculo do volume principal do Livro do Destino para quebrar as restrições de frequência convencionais e alcançar a sincronização em toda a rede." A energia espiritual que ele injetava com a ponta do dedo de repente vibrou. A superfície do espelho explodiu em uma luz azul ofuscante, iluminando instantaneamente toda a sala de exame escura. As sombras dos armários de remédios na parede foram alongadas, distorcidas, como inúmeras mãos prestes a atacar. Incontáveis runas jorraram dos fragmentos, entrelaçando-se no ar como um rio fluido, emitindo um zumbido contínuo de baixa frequência. Era a trajetória de transmissão criptografada – fluxos de dados azul-claros caíam como cachoeiras, cada um marcado com carimbo de tempo, ponto de acesso,
“Yue Tingzhou! Sai fora e receba sua morte!” “A recompensa de cem mil taéis – eu vou pegar!” “Queimem esta clínica! Punam a cidade inteira! Ninguém vai escapar!”
Yue Tingzhou agiu como se não tivesse ouvido. Seu olhar estava fixo na trigésima sétima linha do fluxo de dados – ali havia uma anomalia na sequência de um código de verificação. A trajetória normal de transmissão seguia a estrutura aninhada de “Três Talentos e Quatro Símbolos”, elos interligados, mas essa sequência tinha uma camada de aninhamento a mais, como um ponto extra costurado numa roupa, uma sutura sutil que rompia a trama do tecido como um todo. “A falha está aqui.”
Sua voz era assustadoramente calma. A mão esquerda subiu de repente, o dedo indicador traçando linhas no ar, a ponta do dedo arrastando uma corrente de ar sutil. Um fio de energia espiritual dourado-claro disparou de sua ponta do dedo, fino como um fio de cabelo, mas afiado como uma agulha, perfurando com precisão aquele fluxo de dados anômalo.
Os talismãs começaram a se reorganizar violentamente. Aqueles pontos de luz azul, como se tocados por mãos invisíveis, tremiam, separando-se e aderindo uns aos outros, rearranjando-se em um novo padrão – era um modelo forjado de registro de transação. Nele constavam o número do registro matrimonial, o valor de compatibilidade, o montante do suborno em prata, cada entrada feita de forma impecável, suficiente para enganar. Exceto pela marca no canto.
Um caractere ‘Xuan’.
Não estava gravado, era uma redundância gerada naturalmente pela lógica de cálculo – como o traço final único, a pausa distinta que um calígrafo deixa ao terminar um caractere, impossível de imitar, impossível de apagar. O ângulo inicial desse ‘Xuan’ era de sete partes de inclinação, o fio da espada contido; ao finalizar, havia um gancho de retorno quase imperceptível, sutil como um fio de cabelo, mas carregando uma força inquestionável de pressão no pulso.
A respiração de Yue Tingzhou parou por um instante.
Ele conhecia essa caligrafia.
Três anos atrás, no arquivo central do Departamento de Lei e Medida Heng, uma sala de pedra úmida e fria impregnada com o mofo de antigos dossiês. Ele fora encarregado de consultar os documentos secretos de um caso antigo, e na barra de verificação vermelha na contracapa do dossiê, vira a mesma marca. Na época, o velho arquivista de cabelos brancos, com dedos finos e ossudos, apontara para o caractere e sussurrara, sua voz ecoando entre as paredes de pedra: “Esta é a marca de classificação secreta aprovada pessoalmente pelo Comandante-Chefe Xie. Ver o selo é como ver o homem.”
Xie Wuchen.
“Talismã exclusivo.” A voz de Zhu Hanli cortou a memória, como uma faca cortando um fio. Ela deu um passo à frente, a ponta da bota afastando alguns cacos de madeira. Seu dedo apontou para a marca do caractere ‘Xuan’, a ponta do dedo a apenas alguns centímetros dos dados fluindo. O fluxo de dados tremia levemente sob seu dedo, como uma criatura viva sentindo uma ameaça, a luz azul piscando inquieta. “Os boatos foram forjados por ele.” Ela virou-se para olhar Yue Tingzhou, seu olhar não tinha dúvida, apenas uma confirmação gelada, as profundezas de suas pupilas refletindo seu rosto pálido. “O ponto de origem está no Palácio Celestial do Topo das Nuvens – o servidor do volume-mestre deve estar conectado ao núcleo central do Livro do Destino para poder transmitir simultaneamente para todos os Espelhos Espirituais em todo o mundo.”
A voz de Huo Qingya perfurou a porta, fria como uma corrente submersa sob o gelo, cada palavra carregando uma geada: “Jovem Mestre do Clã Zhu, você pretende fazer toda a Agência de Escolta Dez Mil Espelhos perecer com ele?”
Zhu Hanli não se virou.
Ela ainda segurava Yue Tingzhou, uma mão pressionando sua nuca, protegendo todo o seu corpo em seu abraço. O calor de seu corpo atravessava o tecido de suas roupas, quente a ponto de queimar, aquele familiar aroma frio de flor de pereira envolvido em calor, dissipando
O chão de pedra rachou, abrindo uma fenda com a largura de dois dedos. Um cheiro úmido de mofo misturado ao amargor de artemísia envelhecida subiu, como sangue antigo. Ela se agachou, enfiou os dedos na fenda e puxou com força — a laje inteira se ergueu, revelando degraus íngremes de pedra que desciam. A escuridão era como uma boca, aberta em silêncio.
“Vamos!” Lu Jianwei foi a primeira a entrar, sua figura engolida pela escuridão. Antes de desaparecer, ela olhou para trás, a pérola noturna em sua mão emitindo um brilho fraco.
Zhu Hanli empurrou Yue Tingzhou. A força não foi leve; ele tropeçou no primeiro degrau, o musgo escorregadio fez sua bota deslizar, e a dor aguda no ferimento do ombro explodiu, escurecendo sua visão por um instante. Ele cerrou os dentes, agarrando-se firmemente à parede de pedra com a mão esquerda, os dedos sentindo o toque frio e áspero. Ela seguiu, a Lâmina dos Mil Espelhos e Raios de Luz girou em sua mão, sete sombras prateadas de lâminas cortando em direção aos cultivadores dispersos que os perseguiam — não para matar, mas para bloquear o caminho. A energia da lâmina cortou as vigas do telhado, madeira e pedra desabaram com estrondo, estilhaços e poeira caindo como uma tempestade, selando completamente a entrada do túnel secreto.
A escuridão total os engoliu.
Os degraus eram íngremes, cada um alto o suficiente para machucar os pés. As paredes de pedra estavam extremamente escorregadias, a água subterrânea que vazava pingava pelas fendas, emitindo um som monótono de “toc, toc” no silêncio. Yue Tingzhou desceu apoiando-se na parede, cada passo afundando na água que passava dos tornozelos. A água fria e suja encharcou suas botas e meias, um frio penetrante subindo pelas canelas. O som do desabamento atrás deles gradualmente se distanciou, restando apenas a respiração dos três e o som dos passos na água ecoando no corredor estreito, amplificado pelas paredes de pedra, parecendo especialmente pesados.
“O túnel secreto leva à Floresta do Vento Negro, fora da cidade.” A voz de Lu Jianwei soou à frente, com ecos ocos, a aura da pérola noturna balançando na escuridão. “Meu mestre cavou isso anos atrás, para se proteger de soldados rebeldes.”
“Huo Qingya vai nos perseguir,” disse Yue Tíngzhou. Sua voz soava especialmente calma na escuridão, como se estivesse relatando fatos de um caso, mas a coceira seca em sua garganta, causada pela propagação da toxina, o fez limpar a voz. “O olfato do Falcão Gélido pode rastrear por três *li*. Eles não vão esperar a fumaça dissipar.”
“Então não podemos parar,” a voz de Zhu Hanli veio de trás dele, muito perto, carregada de um hálito ofegante.
Eles caminharam por cerca do tempo de um incenso. O ar no túnel ficou cada vez mais abafado, com cheiro de terra e vegetação apodrecida. O túnel começou a inclinar para cima, a água sob os pés ficou mais rasa, virando lama escorregadia. No final, um fraco brilho do céu, misturado ao aroma amargo de agulhas de pinheiro e folhas podres, penetrou. Lu Jianwei parou, estendeu a mão e empurrou uma tábua coberta de trepadeiras acima de sua cabeça. Terra úmida e folhas quebradas caíram sussurrando.
Floresta do Vento Negro.
Fileiras de pinheiros negros como guardas silenciosos, suas copas bloqueando o céu, deixando passar apenas manchas esparsas de luz que projetavam sombras fragmentadas no chão da floresta. A floresta estava quieta, tão quieta que se podia ouvir o leve som das agulhas de pinheiro caindo e o batimento cardíaco como tambores em seus próprios peitos. Ao longe, vinham sons indistintos de gritos de batalha e o zumbido característico dos sinais do Espelho Espiritual — a direção da Vila do Bambu Verde.
Yue Tingzhou encostou-se ao tronco áspero de um pinheiro para recuperar o fôlego, a casca da árvore pressionando suas costas. A coceira entorpecedora
Yue Tingzhou pegou o cantil, mas não bebeu. A textura áspera da superfície de couro esfregava contra sua palma.
Ele fitou o cronômetro que flutuava acima do mapa estelar — números vermelho-claros suspensos sobre a sombra do Palácio Celestial do Cume das Nuvens, pulsando segundo a segundo, cada batida como uma agulha fincada em seus globos oculares.
【Contagem regressiva para a revisão inicial da Lista Inversa: 11 dias, 23 horas, 47 minutos】
"Doze dias," ele disse, a voz plana, sem emoção discernível. "Se não conseguirmos o Pergaminho Mestre, se não encontrarmos os registros originais do algoritmo do 'Vale da Vida Emprestada' em doze dias, as famílias Yue e Zhu serão formalmente listadas como seitas da Lista Inversa. As qualificações de cultivo dos discípulos serão todas revogadas, o legado secular... aniquilado."
A floresta ficou ainda mais quieta.
O vento passou pelos galhos dos pinheiros, produzindo um som sibilante, como ondas agitando-se à distância, trazendo um cheiro mais forte de resina e terra apodrecida. Um corvo levantou voo de dentro da copa das árvores, suas asas negras batendo no ar com um ruído de "frufru", desaparecendo nas profundezas do bosque denso.
De repente, Zhu Hanli estendeu a mão e agarrou o pulso de Yue Tingzhou.
Sua palma estava quente, com as calosidades finas deixadas por anos segurando uma lâmina, esfregando contra a pele de seu pulso. Ela não disse nada, apenas apertou com força, tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos, e então soltou. O gesto foi breve, tão breve que parecia uma ilusão, mas Yue Tingzhou sentiu — ela estava dizendo a ele que ainda estava ali. A sensação residual e o calor no osso do pulso eram mais tangíveis do que qualquer palavra.
Lu Jianwei caminhou até a borda do bosque, afastou um arbusto com espinhos, o estalo seco de galhos quebrando ecoando nitidamente no silêncio.
Pregado no tronco de uma árvore havia um bilhete.
O papel era de alta qualidade, um papel Xuelang, emitindo um branco frio sob a luz fraca, mas os caracteres estavam escritos com sangue, um vermelho-escuro quase negro, as bordas já secas e enrugadas. A caligrafia era tão meticulosa quanto uma gravura, cada traço carregando um frio desdém:
«Bem-vindos ao Palácio Celestial do Cume das Nuvens para morrer.»
Não havia nome na assinatura, apenas um padrão simplesmente esboçado do caractere "Xuan" — idêntico ao símbolo no fragmento do Espelho Espiritual, a severidade nas curvas e voltas dos traços transmitindo a certeza de seu autor.
Xie Wuchen.
Yue Tingzhou fitou o bilhete, suas pupilas se contraindo levemente. Ele estendeu a mão, a ponta dos dedos tocando o papel; sob a sensação fria e lisa, estava a textura áspera do tronco. Ele o arrancou, o papel emitindo um leve som de rasgo entre seus dedos, os caracteres de sangue borrando-se em manchas, esfregando-se na polpa dos dedos, com um cheiro metálico de ferrugem. Ele amassou o papel rasgado em uma bola, apertando-a firmemente na palma da mão, o embrulho pressionando contra a carne.
"Ele sabia que viríamos," disse Lu Jianwei, a voz tensa. "É uma armadilha, ativada no momento em que pegamos o fragmento."
"Sempre foi," Yue Tingzhou soltou a mão, a bola de papel caindo no chão, e ele a pisoteou com força na terra úmida, a sola de sua bota esmagando-a com um leve som de areia ao roçar. "Desde o início dos rumores, até o édito de recompensa, até a contagem regressiva da Lista Inversa — tudo para nos forçar a entrar no Palácio Celestial do Cume das Nuvens. Ele armou uma rede celestial lá, esperando que caíssemos nela por nossa própria vontade."
"E ainda vamos?" perguntou Lu Jianwei, os dedos esfregando inconscientemente a borda de sua caixa de remédios.
Yue Tingzhou se virou, olhando para Zhu Hanli.
Ela também estava olhando para ele. As manchas de luz que vazavam entre as árvores moviam-se sobre seu rosto, iluminando aquela camada de determinação em seus olhos — não era impulso, não era teimosia, era uma resolução calculada. Ela era a jovem herde
Yue Tingzhou pegou a pílula, inclinou a cabeça para trás e a engoliu. O comprimido se dissolveu em sua garganta, e um fluxo quente e picante irrompeu violentamente através de seus membros, temporariamente suprimindo a dor penetrante em seu ombro. Ele moveu a mão esquerda; o tom azulado-negro em suas pontas dos dedos havia recuado um pouco, mas a rigidez nas articulações permanecia.
"Por qual caminho vamos?" Zhu Hanli guardou o ábaco, a prata deslizando para dentro de suas vestes com um leve tilintar.
"Não pela estrada principal." Yue Tingzhou apontou para o nordeste, seu dedo traçando uma linha através da luz fraca da floresta. "Atravessamos o Pico do Vento Negro, passamos pelo Penhasco da Dor Partida e entramos furtivamente pela passarela abandonada atrás do Palácio Celestial do Topo das Nuvens. Aquele caminho foi aberto por coletores de ervas há cem anos, poucos o conhecem, nem está marcado nos mapas, mas..."
"Mas o quê?"
"Mas a passarela está em ruínas há muito tempo, a madeira apodreceu há muito. Abaixo, há um abismo de dez mil *zhang*, e os ventos são afiados como lâminas." Yue Tingzhou disse, seu olhar sereno. "E além disso, Xie Wuchen é meticuloso. Ele certamente também conhece aquele caminho. Mesmo que não conheça, o rastreamento pelo Espelho Espiritual de Huo Qingya nos forçará a ir para lá."
Zhu Hanli ficou em silêncio por um momento, seus dedos acariciando inconscientemente a corda fina e antiderrapante enrolada no cabo da faca.
Ela ergueu o olhar, mirando na direção do Palácio Celestial do Topo das Nuvens. Daqui, só se podia ver as sombras negras contínuas das montanhas e as nuvens pesadas como chumbo, mas todos sabiam — aquele palácio estava atrás das nuvens, como uma fera gigante adormecida, de boca aberta, esperando que eles mesmos entrassem em sua garganta.
"Então deixe que ele saiba." Ela disse, sua voz não era alta, mas carregava uma determinação que cortava qualquer retirada. "Nós seguimos nosso caminho, ele arma sua armadilha. Vamos ver quem calcula mal primeiro, vamos ver cuja lâmina se retorce primeiro."
Yue Tingzhou seguiu-a, seus passos pisando sobre a espessa camada de agulhas de pinheiro, macia e silenciosa. Lu Jianwei ficou para trás, por último, tirando um punhado de artemísia seca de sua caixa de remédios, acendendo-a com um isqueiro de fogo e jogando-a na interseção de estradas a três *zhang* atrás. Uma fumaça azulada subiu em espiral, carregando o cheiro picante que afasta insetos e miasmas, mas também parecendo uma marca conspícua. Ele bateu o pó das mãos,