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Capítulo 2: O Caminho do Sacrifício da Ânfora de Ferro

No instante em que a corrente de ferro se fechou em seu pulso, os dedos de Lin Yi congelaram. Não era a corda de cânhamo usada para punições, como esperava. Era uma corrente dura, impregnada com óleo de tungue e cheirando a ferro. O círculo gelado do metal se cravou no osso do pulso, e o clique do mecanismo de travamento soou nítido como um galho sendo quebrado. Ele ergueu os olhos. Os dois discípulos encarregados da execução estavam com expressões impassíveis, seus movimentos tão padronizados quanto se estivessem carregando um feixe de lenha. “Vamos.” O discípulo à esquerda falou. A voz era plana, sem emoção. Lin Yi não se moveu. A ponta de seus dedos batia inconscientemente nas juntas da outra mão – *tac, tac, tac*. O ritmo era lento. Ele estava esperando uma explicação, ou pelo menos, uma acusação decente. O discípulo à direita franziu a testa e puxou a corrente bruscamente. Ele cambaleou um passo, o tornozelo batendo na soleira da porta. O ar frio da manhã invadiu pelo portão do pátio aberto, misturado com o cheiro doce e enjoativo, quase pútrido, de incenso e velas que vinha da praça do salão ancestral ao longe. O cheiro revirou seu estômago. “Eu vou sozinho,” Lin Yi disse. De propósito, falou devagar, deixando espaços entre cada palavra. Ninguém lhe deu atenção. A corrente apertou novamente, e ele foi arrastado para fora do pequeno pátio. A estrada de lajes de pedra azul estava molhada. Chovera na noite anterior. O som da corrente sendo arrastada era estridente, abafando sua própria respiração. As janelas das casas dos servos ao longo da estrada estavam fechadas, mas atrás de algumas frestas, vultos se moviam indistintamente. Não havia som. Apenas o ruído áspero da corrente raspando contra a pedra, repetindo-se monotonamente. O contorno da praça do salão ancestral emergiu na neblina matinal. Uma multidão escura. No palanque alto, as cadeiras dos anciãos do clã estavam alinhadas. A do meio estava vazia – seu pai ainda não chegara. Os dois lados já estavam cheios. O Terceiro Ancião, Lin Zhenhai, sentava-se no primeiro assento à esquerda, segurando um rolo de papel amarelado, lendo-o com a cabeça baixa. Seu perfil, sob a luz da manhã, parecia um pedaço de madeira seca ao vento, sem veios. A frequência cardíaca de Lin Yi desacelerou para um estado de prontidão para a batalha. O ruído da corrente sendo arrastada parou subitamente. Um dos discípulos que o escoltava, aquele que não falara até então, aproximou-se de seu ouvido. “Não lute contra isso,” sussurrou, a voz muito baixa, com um tom vago característico da gíria das ruas. “Aceite seu destino. O clã o criou todos esses anos. Já é hora de você retribuir.” A ponta dos dedos de Lin Yi parou. Retribuir? Ele ergueu os olhos, varrendo a praça com o olhar. A multidão se abriu automaticamente, formando um caminho que se estendia até o altar de pedra azul no centro da praça. Sobre o altar, havia uma ânfora de barro, de cuja boca subia uma fumaça azulada pálida – era dela que vinha aquele cheiro doce e pútrido. Havia outras coisas ao lado do altar: uma bacia de carvão em brasa, com uma haste de ferro cravada nas chamas, sua ponta incandescente de tão quente. E uma placa de ferro negra, do tamanho de uma palma, virada para baixo, impossível de ver o que estava gravado. Seu olhar fixou-se na haste de ferro incandescente. Sua respiração parou por um instante. A corrente moveu-se novamente. Ele foi empurrado para frente, ficando cada vez mais perto do altar. Os olhares da multidão grudavam nele como uma camada de musgo úmido e frio. Ele viu primos familiares virarem o rosto, viu o instrutor que uma vez lhe ensinou os fundamentos do punho baixar as pálpebras, viu algumas crianças quase crescidas imitando os adultos, cuspindo na direção dele, para então serem puxadas às pressas de volta por suas mães. Nenhuma compaixão. Pouca até mesmo curiosidade. Só porque eu... estou vivo? No centro do estrado, ao lado da cadeira vazia, a porta lateral se abriu. O patriarca Lin Zhenyue saiu. Ele não vestia sua habitual túnica verde-escura, mas sim uma roupa de sacrifício preta, com as mangas e a gola bordadas com o emblema da família em dourado escuro. Ele caminhou com firmeza, olhando fixamente à frente, indo diretamente para o assento principal central e se sentando. Durante todo o processo, seu olhar não se dirigiu ao altar, nem à Lin Zhen ajoelhado ali, mas sim para o céu no final da praça, aquele abóbada que gradualmente clareava, assumindo uma cor pálida de barriga de peixe. Como se tudo o que estava acontecendo na praça não tivesse nada a ver com ele. Lin Zhen olhou naquela direção, para o perfil nítido do rosto de seu pai. A luz da manhã o contornou com uma borda dourada clara, mas fez seu rosto parecer ainda mais distante, como a estátua de jade do ancestral venerada no templo ancestral. O último fio tênue de expectativa, que ele próprio nem queria admitir, apagou-se naquele olhar. "Hoje, conforme a revelação do Caminho Celestial, realizamos o ritual de sacrifício." A voz de Lin Zhenhai soou novamente, abafando o zumbido na mente de Lin Zhen. "Raspa-se o sobrenome 'Lin', corta-se os laços familiares. Marca-se como escravo, oferece-se o amuleto em sacrifício ao céu, para aplacar a ira celestial." Raspar o sobrenome. Cortar os laços. Marcar. Oferecer o amuleto. Quatro palavras, como quatro pregos, pregando-o firmemente na fria laje de pedra. Os discípulos que o seguravam se moveram. O da esquerda estendeu a mão em direção ao seu pescoço — para puxar o cordão vermelho que segurava o amuleto hereditário da família. O discípulo da direita tirou do peito uma chave longa e fina, para abrir o cadeado de ferro em seu pulso. A respiração de Lin Zhen ficou subitamente ofegante. Ele se debateu violentamente, o ombro afastando a mão do discípulo da esquerda, os joelhos rangendo estridentemente contra a pedra. O discípulo da direita praguejou baixinho, aumentando a força, quase se jogando sobre suas costas. "Segurem-no firme!" No estrado, algum dos anciãos do clã gritou. Mais passos. Outros dois discípulos da lei saíram da multidão, um de cada lado, agarraram seus braços e os torceram para trás. Os ossos estalaram sob a tensão. O cordão vermelho se partiu. No momento em que o amuleto deixou sua pele, uma sensação aguda e gelada de vazio explodiu em seu peito, perfurando diretamente seu dantian. Em seguida, veio a dor aguda — não a dor de um ferimento na pele, mas algo mais profundo, como se algo dentro dele tivesse despertado, rompido a última corrente de restrição e começado a colidir loucamente. "Argh—!" Um gemido curto e quebrado escapou de sua garganta. A visão começou a ficar turva. O altar, a multidão, os rostos indistintos no estrado, tudo balançava e se distorcia. O cheiro doce e metálico dos incensos e velas se tornou intenso, misturado ao odor fraco e específico de proteína queimando, característico da carne antes de carbonizar. A bacia de carvão em brasa foi trazida. A haste de ferro incandescente foi retirada da fogueira, sua ponta emitindo ondas de calor distorcidas no ar, com um caractere vagamente gravado na extremidade — estava longe demais para ver claramente, mas Lin Zhen sabia o que era. Vergonha. O discípulo segurou firmemente o cabo da haste e se virou para ele. A fonte de calor vermelha incandescente se aproximou, o ar chiando ao ser queimado. As pupilas de Lin Zhen se contraíram. Sua última força irrompeu naquele momento, seu corpo se contorcendo violentamente como um peixe fora d'água, tentando escapar das quatro mãos que o prendiam. Os pulsos se esfolaram na pedra áspera, sangue misturado com suor frio escorrendo, viscoso, fazendo as correntes de ferro morderem ainda mais fundo na carne. "Chii—" O metal escaldante marcou a pele na parte interna do pulso esquerdo. O som foi baixo, como ferro quente mergul Um estalo leve e frágil, como se jade estivesse rachando. A dor lancinante que chocava dentro dele atingiu seu ápice naquele momento. Lin Yi se contorceu, seus órgãos internos tremiam, como se inúmeras agulhas geladas estivessem perfurando suas vísceras. Ao mesmo tempo, fragmentos de imagens confusas, carregadas de um cheiro metálico de sangue, forçaram sua entrada em sua mente vazia — Correntes quebradas. Sangue negro. Um par de olhos injetados de sangue, abertos nas profundezas de um abismo. E uma voz. Distorcida, sobreposta, como se muitas pessoas sussurrassem simultaneamente, com uma vibração faminta: "...O selo... enfraqueceu..." "...Comida..." A voz desapareceu. A dor lancinante também recuou lentamente, deixando para trás uma sensação de vazio gelado, como se tivesse sido esvaziado por dentro. Ele ficou deitado ali, a marca no pulso queimando, cada respiração puxando aquele lugar vazio e dolorido em seu peito. A visão gradualmente se esclareceu. Ele viu que no altar, a chama azul dentro do vaso de cerâmica já havia se apagado, restando apenas um fio de fumaça residual, subindo em espirais e desaparecindo no céu que ficava cada vez mais claro. O pingente de jade se foi. O sobrenome se foi. Até mesmo sua identidade como "pessoa" também se foi. No palanque alto, os anciãos do clã começaram a se levantar, um após o outro. Lin Zhenyue foi o primeiro a partir, a barra de seu manto cerimonial preto escuro varrendo os degraus, sem hesitação. Os outros o seguiram, conversando baixo sobre algo, suas vozes indistintas, como se viessem do outro lado de uma camada d'água. A multidão começou a se dispersar. Passos desordenados, o zumbido das conversas surgiu, trazendo uma sensação de relaxamento após o fim do ritual. Ninguém mais olhou para a direção do altar. Os quatro discípulos da lei que o haviam escoltado ainda estavam de pé. Um deles, aquele que havia sussurrado em seu ouvido mais cedo, se curvou, agarrou seu braço e o puxou para cima. "Consegue andar?" O discípulo perguntou, seu tom ainda plano. Lin Yi não respondeu. Ele tentou ficar em pé, seus joelhos fraquejaram, a dor aguda no pulso fez sua visão escurecer novamente. Um discípulo segurou um de seus braços, outro segurou o outro. "Joguem-no de volta no alojamento dos servos." A voz do Terceiro Ancião, Lin Zhenhai, chegou flutuando da direção do palanque alto. Ele já estava na metade dos degraus e se virou para dar a ordem. "Vigiem de perto. Não deixem que ele morra." Ele fez uma pausa, acrescentando a segunda parte da frase. A voz não era alta, mas era clara o suficiente: "A oferta ainda não foi completamente 'usada'." O discípulo respondeu afirmativamente, segurando Lin Yi, e se virou para sair da praça. As correntes ainda arrastavam-se ao lado de seus pés, mas as fechaduras já estavam abertas, apenas penduradas frouxamente em seus pulsos. A cada passo, os elos de ferro se chocavam, emitindo um som surdo e metálico. Lin Yi baixou a cabeça, olhando para o caractere preto e queimado "Vergonha" em seu pulso esquerdo. A pele ao redor da marca estava inchada e vermelha, brilhando levemente, como uma ferida que nunca cicatrizaria. Ele ergueu os olhos, olhando pela última vez para a praça do templo ancestral. A luz da manhã iluminava completamente as lajes de pedra azul, as marcas d'água deixadas pela chuva da noite anterior estavam evaporando, formando uma fina camada de neblina. O palanque alto estava vazio, as cadeiras desordenadas. A bacia de carvão no altar já havia sido removida, deixando apenas um círculo de marcas queimadas. O vaso de cerâmica ainda estava lá, sua boca enegrecida, vazio por dentro. O vento levantou algumas notas de papel amarelo de joss que não haviam sido completamente queimadas, fazendo-as girar e passar rent O pai, Lin Zhenyue, estava sentado ali. Seu manto de clã era preto, com fios de ouro bordados formando padrões de bestas majestosas. Seu olhar pousava em uma nuvem distante no céu, como se tudo o que acontecia na praça — a pessoa que estava sendo julgada — não tivesse a menor relação com ele. Seus dedos repousavam nos braços da cadeira, as articulações levemente pálidas. Além disso, não havia expressão alguma em seu rosto. Lin Yi sentiu algo gelado subir da sola dos pés, congelando instantaneamente suas vísceras. A areia movediça o puxava para baixo. "Não..." Um som rouco escapou de sua garganta, um som que ele mesmo não reconheceu. As mãos dos dois discípulos da Lei eram como tenazes de ferro, imóveis. O da esquerda até aumentou um pouco a pressão. Os ossos do pulso de Lin Yi esfregavam contra a borda áspera da laje de pedra, uma dor ardente, mas que não chegava nem perto do vazio sufocante em seu peito. "Execução." O Terceiro Ancião fechou o pergaminho. Um homem forte, com o torso nu, saiu do lado do altar. Ele segurava uma bacia de bronze, dentro da qual o carvão brilhava vermelho. Na outra mão, segurava uma pinça longa, cujas pontas seguravam um bloco de ferro quadrado. O bloco de ferro estava incandescente, e era possível ver vagamente um caractere invertido gravado nele — um "Vergonha" distorcido. O ar tremelia levemente, distorcido pelo calor intenso. A bacia de bronze foi colocada diante do altar. O homem forte ajoelhou-se em um joelho, mergulhando novamente a ponta do ferro de marcar nas brasas, girando-o suavemente. Faíscas crepitavam, trazendo um cheiro primitivo e aterrorizante, uma mistura de ferro e carvão queimado. O corpo de Lin Yi começou a tremer incontrolavelmente. Não era medo. Era algo mais profundo se rebelando. Cada célula gritava, queria fugir, despedaçar, destruir tudo à sua frente. Sons estranhos saíam de sua garganta, seu corpo pressionado contra o chão se contorcia como um peixe fora d'água. "Segurem." A voz do Terceiro Ancião não tinha temperatura. Mais força foi aplicada. Joelhos pressionaram sua coluna, cotovelos travaram seus ombros. Seu rosto foi esmagado contra a laje de pedra fria, a superfície áspera arranhando seus ossos da face. Sua visão foi comprimida em uma fenda, só conseguia ver aquela bacia de brasas que se aproximava, cada vez mais ofuscante. O ferro de marcar incandescente foi erguido novamente. Um brilho vermelho-escuro fluía na luz fraca da manhã, como uma carne viva e maliciosa. O caractere "Vergonha" tremia levemente no calor intenso, como se estivesse ansioso para morder a pele. "Não—!" O grito de Lin Yi finalmente rompeu sua garganta. Ele liberou sua última força, arqueando violentamente as costas, tentando arremessar os que o prendiam. Seus músculos se tensionaram ao limite, seus ossos rangendo sob o esforço. O discípulo da Lei que o segurava gemeu, quase perdendo o controle. "Lixo, ainda quer resistir?" O discípulo da direita cuspiu, jogando o joelho para baixo com força. Dor excruciante explodiu de sua vértebra lombar. A visão de Lin Yi escureceu, seu corpo arqueado foi violentamente esmagado de volta ao chão. O ar foi expulso de seus pulmões, ele abriu a boca, mas não conseguia puxar nem um fio de ar. Na breve asfixia, ele viu o ferro de marcar incandescente se aproximando de forma estável, imparável, do lado interno de seu pulso esquerdo. Dez polegadas. Cinco polegadas. Três polegadas. Sua pele já conseguia sentir aquele calor destrutivo. Os pelos se encolhiam, queimando. Ele torceu seu pulso freneticamente, suas unhas arranhando a laje de pedra com um som estridente, deixando alguns sulcos rasos e ensanguentados. Inútil. As mãos como tenazes de ferro permaneciam imóveis. O ferro de marcar pairou a uma polegada acima de seu pulso. A onda de calor queimava sua pele, a dor aguda ainda não havia realmente chegado, mas o medo já corróia cada nervo como ácido sulfúrico. As pupil O mundo tornou-se um branco puro. Uma dor pura, devoradora. Ele caía naquela luz branca e incandescente, sem fim. Tempo, espaço, quem ele era, o que estava vivendo... tudo ficou nebuloso, derreteu, restando apenas a dor em si. Não se sabia quanto tempo havia passado — talvez apenas um instante, talvez dez mil anos — quando aquele clarão branco começou a esmaecer. Os sentidos lentamente retornavam como a maré. Primeiro o olfato. Aquele cheiro de queimado nauseante. Depois a audição. O som de sua própria respiração pesada e trêmula, e os murmúrios reprimidos e sussurrantes da multidão ao redor. Por fim, o tato. A parte interna do pulso esquerdo. Ali não havia mais pele. Havia uma marca em brasa, gritando loucamente. A dor já não era uma explosão, mas sim uma queimadura constante e pulsante, latejante, como se um segundo coração tivesse ali criado raízes, cada batida bombeando nova agonia. Ele conseguia sentir a picada sutil da carne queimada exposta ao ar, sentir o inchaço ardente e ardido nas bordas da marca. Ele abriu os olhos. A visão estava turva, cheia de lágrimas fisiológicas. Com esforço, ele focalizou, olhando para seu próprio pulso. Um caractere "verg" em tons escuros de vermelho e preto, com bordas carbonizadas, estava profundamente incrustado na carne. O traço era distorcido, como uma cobra enrolada. A pele ao redor da marca estava vermelha, inchada e ulcerada, exsudando líquido tissular translúcido, misturado com fios de sangue, coagulando-se em uma mistura nojenta de amarelo e vermelho nas bordas carbonizadas. Marca de Escravo. Essas duas palavras perfuraram sua consciência, recém-queimada pela dor, como um picador de gelo. A partir de agora, onde quer que fosse, esse caractere o seguiria. Dizendo a todos que ele era a vergonha abandonada por sua família, um servo que nem mesmo merecia manter seu sobrenome. "Yi." A voz do Terceiro Ancião soou novamente, serena a ponto de ser aterradora. "Entregue o amuleto." Lin Yi ainda não havia processado. Uma mão áspera já se estendera em direção ao seu pescoço, agarrando o cordão vermelho que segurava o amuleto de jade hereditário. Era o homem robusto que carregara a bacia de carvão. Seu rosto era inexpressivo, os dedos como ganchos de ferro, cravando-se na fenda entre o nó do cordão e a pele. "Não..." Lin Yi sussurrou roucamente a palavra, erguendo o braço com uma força súbita e inexplicável para proteger-se. Muito lento. O homem robusto sacudiu o pulso e puxou. "Snap." O som do cordão vermelho arrebentando foi suave. Mas nos ouvidos de Lin Yi, foi como um trovão. O amuleto de jade deixou seu peito. Naquele instante, um equilíbrio sutil e mantido por tantos anos... quebrou-se. Não era uma metáfora. Quebrou-se de verdade. Como se alguma corda tensa e frágil dentro dele, com a partida do amuleto, tivesse se rompido com um estalo. Uma sensação de vazio explodiu instantaneamente de seu dantian — não era dor, era algo pior que a dor: o nada. Como se algo tivesse sido arrancado à força de seu corpo, deixando um vazio gelado e sem fundo. Só então a dor verdadeira desceu. Não era a dor externa e ardente da marca no pulso. Era uma sensação violenta de dilaceração, surgindo das profundezas de seu corpo, da medula óssea, das fendas de cada célula. Como se inúmeras mãos estivessem rasgando loucamente seu interior, tentando arrancar suas vísceras. Seu estômago contraiu-se violentamente, um sabor doce subiu à garganta, e ele vomitou um jato de sangue coagulado com fios negros. Ao mesmo tempo, inúmeros fragmentos caóticos invadiram sua mente. Sangue. Sangue por toda parte. Membros mutilados. Rostos distorcidos. Gritos lancinantes. E fogo, fogo negro, devorando tudo. Os fragmentos não tinham lógica, piscavam loucamente, carregando um ódio e uma fome tão densos que pareciam sufocar, como uma maré prestes a afogar sua consciência. Alucinação? Memória? Ele não conseguia distinguir. Ele só podia se contorcer no chão, seu corpo tremendo incontrolavelmente era o único consolo que ele podia segurar nas mãos, a única fonte fraca de calor que podia extrair durante aqueles dias sombrios e sem sol em que esteve preso no lago frio da montanha traseira. Era a última prova miserável da identidade "Lin Yi", além de seu sangue. Agora, estava no fogo. A luz dourada ficava cada vez mais fraca. Os padrões de runas em forma de corrente escureciam e se desintegravam um a um. O pingente de jade... O eixo da porta rangia com um som seco, como o suspiro de um moribundo. Lin Yi estava deitado no colchão de palha, sem abrir os olhos. Os passos eram leves, arrastados, com a lentidão característica de um idoso, e traziam um cheiro misturado de ervas baratas e suor. A pessoa que chegou colocou algo no chão, o fundo de uma tigela de cerâmica raspou contra o solo áspero, emitindo um breve som de atrito. Então, uma mão agarrou seu pulso direito. Os músculos de Lin Yi se contraíram instantaneamente, mas ele imediatamente se forçou a relaxar. Resistir não tinha sentido. A mão era áspera, com nós dos dedos grossos, a pele como lixa, mas a força era controlada com firmeza. Ela examinou cuidadosamente seu pulso, os dedos pressionaram as bordas da marca, avaliando a profundidade da queimadura. Uma dor aguda chegou, e a respiração de Lin Yi parou por um instante. "Tsc." Uma voz rouca, como o vazamento de um fole estragado. Era Shi Meng. Aquele velho servo, que se tornou um trabalhador braçal devido a um ferimento, taciturno e de poucas palavras. Lin Yi se lembrava dele. Três anos atrás, quando ele ainda era um gênio, tinha visto esse homem treinando socos no campo de treino. Os movimentos eram simples, mas cada soco carregava uma força feroz, como se quisesse perfurar o ar. Mais tarde, soube que ele havia encontrado uma besta espiritual ao colher ervas na montanha, ficou com um braço inutilizado e foi enviado para a sala dos trabalhadores braçais para esperar a morte. Shi Meng soltou a mão e, com um som de farfalhar, tirou algo de dentro do casaco. Lin Yi entreabriu os olhos e, pela fraca luz do dia que entrava pela janela, viu um pote grosso de cerâmica do tamanho de uma mão. Shi Meng usou a mão esquerda — a que estava intacta — para abrir a tampa do pote, enfiou o dedo indicador e tirou uma pasta preta e grudenta. A pomada era viscosa, com um tom verde-escuro estranho, exalando um forte cheiro amargo e um odor mineral, algo como sangue. No momento em que a pomada foi aplicada na marca, Lin Yi cerrou os dentes. Não era um alívio, era outra queimadura. Como se inúmeras agulhas finas de gelo perfurassem profundamente a pele e a carne, lutando e neutralizando o calor residual da marca. A dor intensa subiu brevemente, para então começar a recuar lentamente. Suor frio escorreu de sua têmpora, caindo no colchão de palha. Os movimentos de Shi Meng eram ágeis. Aplicou a pomada, espalhou, enfaixou com uma tira de pano relativamente limpa. Ao passar a faixa ao redor do pulso, ele evitou deliberadamente o centro da marca, fixando apenas as bordas. Em seguida, levantou a camisa esfarrapada de Lin Yi e examinou a área abaixo das costelas. A pele ao redor do osso quebrado já estava inchada e roxa, com sangue estagnado escuro sob a pele. Quando os dedos de Shi Meng pressionaram ali, Lin Yi gemeu baixo. "Duas costelas", disse Shi Meng, a voz ainda rouca. "Não perfuraram o pulmão. Você tem sorte." Ele tirou do casaco algumas lascas finas de madeira e um rolo de faixas ainda mais sujas. As lascas de madeira foram colocadas ao lado das costelas, as faixas enroladas e fixadas. Durante todo o processo, Shi Meng usou apenas a mão esquerda e os dentes para ajudar. A mão direita — o braço inutilizado — pendia mole ao lado do corpo, balançando ocasionalmente conforme o centro de gravidade do corpo se movia. Após terminar a bandagem, Shi Meng agachou-se ali, respirando ofegante por alguns momentos. O suor escorria de suas têmbras grisalhas. Esses movimentos não eram fáceis para um velho com um braço inutilizado. Lin Yi abriu os olhos e olhou para ele. Shi Meng também olhava para ele. "Não era pena." A voz de Shi Meng ficou ainda mais rouca, como se tivesse areia rolando em sua garganta. "Era uma dívida." Ele fez uma pausa, a mão esquerda tocando inconscientemente seu ombro direito inutilizado. "Sua mãe... ela era uma tola." Ele disse, sem tom depreciativo, apenas uma declaração pesada, quase entorpecida. "Mesmo vivendo com dificuldade, sempre pensava em estender a mão para os outros. Ela dizia que, ao viver, não se pode olhar apenas para o caminho à frente; é preciso olhar para trás, ver se alguém caiu em um buraco." Ele puxou o canto da boca, como se tentasse sorrir, mas não conseguiu. "E o resultado? Ela mesma caiu no buraco, e ninguém a puxou para fora." Os dedos de Lin Yi afundaram em suas palmas. As unhas cravaram-se na carne, trazendo uma leve picada. "Como ela morreu?" ele perguntou. O olhar de Shi Meng vacilou por um instante, desviando-se. "Morreu de doença." Ele disse, rápido demais, rápido demais para parecer verdade. "É o que todos no clã dizem." "E você, o que acha?" Outro silêncio. Shi Meng baixou a cabeça, olhando para seus próprios pés sujos de lama, com unhas rachadas. As sandálias de palha estavam tão gastas que os dedos ficavam expostos, cobertos de cicatrizes roxas-escuras deixadas por frieiras. "Não posso ver." Ele disse por fim, a voz baixa como um sussurro. "Eu sou um inválido, como posso ver? Não consigo nem sair da porta deste quarto de servente." Ele levantou a cabeça, voltando a olhar para Lin Yi. Desta vez, aquele fagulha em seus olhos queimava um pouco mais forte. "Mas você é diferente." Ele disse. "Você ainda pode se mover, ainda pode pensar. O que sua mãe deixou para você... não é apenas aquela jade." O coração de Lin Yi deu um salto violento. "O que quer dizer?" Shi Meng não respondeu diretamente. Ele voltou para a mesa e, com dificuldade, usando a mão esquerda, tirou algo de dentro de suas vestes e o colocou sobre a mesa. Era um pacote plano, do tamanho de uma mão, envolto em tecido grosseiro, desbotado para um branco sujo, com as bordas desgastadas e esfiapadas. "Sua mãe deixou comigo." Disse Shi Meng. "Disse que se um dia você chegasse a um beco sem saída, então eu deveria entregar a você." Lin Yi se apoiou para levantar, as costelas protestando agudamente. Ele se arrastou até a mesa e estendeu a mão para pegar o pacote. Era muito leve, quase sem peso. Ele desamarrou o cordão de cânhamo e abriu o tecido. Dentro havia um caderninho fino. A capa do caderno era feita de algum tipo de couro curtido, já seco, duro e quebradiço, com as bordas encurvadas. Na capa não havia palavras, apenas um risco raso, como se feito com uma unha, de forma distorcida, impossível de decifrar. Lin Yi abriu a primeira página. O papel estava amarelado, de textura áspera, com algumas linhas escritas a carvão. A caligrafia era muito arrumada, até mesmo delicada, era a letra de sua mãe. Ele a reconheceu. «Yi'er, se você está lendo estas palavras, significa que sua mãe já se foi. Não fique triste, sua mãe apenas foi para onde deveria ir.» «Há algumas coisas que sua mãe nunca lhe contou. Não por não querer, mas por não poder. As águas do Clã Lin são muito profundas, quanto mais se sabe, mais rápido se morre. Sua mãe desejava que você fosse seguro, mesmo que medíocre.» «Mas se você já chegou a um beco sem saída, se eles já ergueram a faca contra você... então essas regras não precisam mais ser seguidas.» «Este caderno registra os fragmentos de pistas que sua mãe descobriu secretamente ao longo dos anos, sobre o Clã Lin, sobre o 'Castigo Celestial', sobre aquelas 'coisas estranhas' em seu corpo. Não está completo, muitos pontos são apenas suposições, mas talvez possam lhe mostrar uma direção.» «Lembre-se: não confie em ninguém, incluindo seu pai. No Clã Lin não há laços familiares, apenas interesses e medo.» «Sobreviva. De qualquer maneira, sobreviva.» A caligrafria terminava ali. Os dedos de “...O que é ‘recipiente’? As conversas secretas dos anciãos do clã mencionam algo, parece estar relacionado a ‘sacrifício’. Cada geração da família Lin deve produzir um ‘recipiente’, que carrega o ‘pecado’ da família, para aplacar a ‘Ira Celestial’...” “...Yì’er, mãe teme que você... seja o ‘recipiente’ desta geração.” A respiração de Lin Yi parou. Ele encarou a última linha, cada palavra como um prego incandescente, cravando-se em seus globos oculares. Recipiente. Sacrifício. Aplacar a Ira Celestial. Todos os fragmentos, neste momento, foram conectados por um fio gelado. A escuta escondida na Floresta das Estelas Antigas, o aviso do Terceiro Ancião, o comportamento estranho do pingente de jade, a exclusão pública de hoje, a marcação, a oferta do pingente... Não era por ele ser um inútil. Era porque ele era o “sacrifício” escolhido. A família o criou por tantos anos, não por laços familiares, mas para engordá-lo, esperar o momento certo, abatê-lo e oferecê-lo à chamada “Vontade Celestial”, em troca da continuação da estabilidade da família. A pele vazia em seu peito, de repente, queimou com dor. Não era a dor da marca, era mais profunda, como se algo estivesse se contorcendo sob a pele, querendo sair, uma coceira dolorosa. A sensação de vazio no dantian estava se intensificando, como se houvesse um buraco negro girando ali, devorando o pouco calor e força que restavam. Mas, ao mesmo tempo, uma percepção estranha, gelada, com um cheiro metálico de ferrugem, estava se infiltrando, fio a fio, da borda daquele buraco negro. Ele ergueu a cabeça e olhou para Shi Meng. O velho ainda estava de pé ao lado da mesa, a mão esquerda apoiada na beirada, o corpo levemente inclinado para frente, os olhos turvos fixos nele, como se observasse sua reação, ou como se estivesse esperando por algo. “Você sabia desde o começo.” Lin Yi disse, a voz terrivelmente calma. Shi Meng não negou. “Sabia um pouco.” Ele disse, “Quando sua mãe investigava essas coisas, ocasionalmente me perguntava sobre assuntos da montanha, hábitos de bestas místicas, quais lugares eram estranhos. Ela não dizia por quê, mas eu podia adivinhar mais ou menos.” Ele fez uma pausa. “Três dias antes de morrer, ela me entregou este pacote de pano. Disse ‘esconda bem, não deixe ninguém saber’. Naquela noite, ela tossiu sangue a noite toda. No dia seguinte, ela se foi. O clã disse que foi uma doença súbita, mas a empregada que levava a comida me contou em segredo: ao arrumar o quarto, viu que o cuspidor estava cheio de sangue negro, e... alguns pedaços não dissolvidos, como cinzas de papel de talismã.” As pontas dos dedos de Lin Yi afundaram na capa do caderno. O couro de besta era resistente, machucando os ossos dos dedos. “Por que não me deu antes?” “Sua mãe disse: dê apenas quando ele estiver encurralado, sem saída.” A voz de Shi Meng era dura, “Antes, você podia ser um inútil, mas ainda era um jovem mestre, trancado na montanha de trás, com comida entregue, não morreria. Agora...” Ele olhou para as ataduras no pulso de Lin Yi, onde o sangue estava lentamente vazando. “Agora, você nem nome tem mais. Marcado, ofertado o pingente. Eles espremeram seu último valor, jogaram você de volta aqui, não para que vivesse, mas para apodrecer lentamente, morrer limpo, sem sujar as mãos deles.” Ele se aproximou um pouco mais, baixando a voz, o cheiro de ervas medicinais e suor mais forte. “Garoto, ouça bem. Atr

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