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Capítulo 3: Imagens Antigas em uma Caixa Empoeirada

As dobradiças da porta guincharam, enferrujadas. Lin Yi empurrou a porta de madeira do depósito com o pulso envolto em trapos. A poeira agitou-se como um enxame de insetos assustados, rodopiando na luz fraca que entrava pela fresta. O caractere "vergonha" marcado sob sua pele queimava a cada batida do coração, uma dor lancinante e penetrante. Ele entrou. O cheiro de mofo, poeira e o odor ácido de madeira velha apodrecendo se misturavam em uma sensação espessa e sufocante, entalando na garganta. O depósito era profundo, abarrotado de tralhas — mesas e cadeiras quebradas, cortinas desbotadas, utensílios velhos cobertos de pó, como um cemitério esquecido. A luz entrava obliquamente pela janela alta, cortando faixas de claro e escuro, enquanto partículas de poeira flutuavam lentamente nos raios luminosos. "Escravo Culpado Yi!" A repreensão do capataz irrompeu do lado de fora da porta, ecoando. "Mais rápido! Se não terminar antes de escurecer, nem pense em jantar hoje!" A voz rastejou pelo chão, entrando em seus ouvidos. Lin Yi não se virou. Ele ergueu a mão esquerda, a que não estava machucada, agarrou o banco de madeira mais próximo, que estava sem uma perna, e o arrastou para o canto. A dor ardente em seu pulso disparou subitamente; seus nós dos dedos se tensionaram, as unhas cravando-se nas rachaduras da borda do banco. Arrastar. Colocar. Arrastar de novo. Colocar de novo. Os movimentos eram mecânicos, a respiração, estável. A dor havia se tornado um zumbido de fundo, como a roda d'água de um moinho distante, girando dia e noite sem parar. Ele se desmontou em peças — os braços responsáveis por carregar, os olhos por identificar, as pernas por se mover. Pensar era combustível supérfluo, um luxo numa situação desesperadora. O suor escorreu de sua têmpora, misturando-se com a poeira e deixando marcas lamacentas em seu rosto. Ele ergueu o braço e esfregou o rosto; o tecido passou pela borda da marca, causando outra onda de dor aguda. Ele inspirou, lentamente, deixando o ar permanecer no peito por dois instantes antes de expirar suavemente. O mundo havia se encolhido num beco estreito. No final do beco só existia sobrevivência — terminar de mover essas coisas, talvez ganhar um pouco de comida, talvez poder se deitar, talvez conseguir esquecer temporariamente essa marca vergonhosa no pulso, esquecer aqueles rostos gelados no salão ancestral, esquecer a fome alheia que fervilhou dentro dele quando o pendente de jade lhe foi arrancado. Ele ergueu uma pilha de livros de contas velhos. As páginas estavam tão frágeis quanto folhas secas, esfarelando-se ao toque. Fragmentos grudaram em seus dedos, trazendo o gosto amargo de tinta envelhecida. Ele caminhou para o fundo, seu pé chutou algo, produzindo um baque surdo. Era uma caixa. Uma caixa de madeira velha e discreta, com cerca de dois *chi* de comprimento e um *chi* de altura, coberta por uma espessa camada de poeira. A tampa não estava trancada, apenas mal fechada, e tinha sido empurrada para o lado pelo impacto de seu tornozelo. Lin Yi parou. Ele poderia ter contornado. Havia muitas tralhas; mover uma caixa a menos, o capataz talvez nem percebesse. Ele fitou a caixa por três instantes; a dor ardente da marca persistia, como uma espécie de pressa. Ele se curvou, a mão esquerda agarrando a borda da tampa, tentando endireitá-la e empurrá-la para o canto. A tampa era mais pesada do que ele imaginava. Seu pulso não tinha força; ela escorregou, a tampa inclinou-se para trás e caiu no chão com um "baque". A poeira explodiu violentamente. Lin Yi semicerrou os olhos, recuou meio passo e esperou a poeira assentar. Dentro da caixa, algumas peças de roupa velhas e dobradas eram visíveis; no topo estava uma túnica de gola reta, de cor branco-luar, com bordados de orquídeas muito desbotados nas mangas — os O suor escorria para os olhos, ardia e doía. Ele piscou, o olhar varrendo o canto até a caixa de madeira escondida. A tampa estava fechada, mas aquele leve aroma de remédio ainda parecia pairar no ar, entrelaçado aos grãos de poeira, teimando em não desaparecer. Ele terminou de mover a última pilha de livros contábeis; o céu já escurecera. A luz que entrava pela janela alta tornara-se um azul-acinzentado turvo, e as sombras no depósito começavam a inchar, devorando os cantos. O administrador voltara mais uma vez, resmungando e praguejando, pressionando-o para ir comer logo. Lin Yi não se mexeu. Ele esperou até que os passos desaparecessem completamente, até que o pátio fora do depósito ficasse em silêncio. Apenas o barulho distante dos servos chegava, e ainda mais longe, do pátio interno da família Lin, vinha um som sutil de cordas e flautas — parecia haver convidados esta noite. Ele voltou para o canto. A bagunça estava empilhada; com cuidado, afastou algumas cestas quebradas, revelando a caixa de madeira atrás delas. A poeira levantou-se novamente; ele desviou o rosto e agachou-se. A mão esquerda pressionou a tampa da caixa, parou por um momento. Então empurrou. A túnica branco-luar ainda estava lá. Ele estendeu a mão, as pontas dos dedos tocaram o tecido — áspero, frio, com a rigidez do tempo. Ele a pegou; embaixo estava uma saia plissada azul-escura, e mais embaixo, uma capa de veludo simples. Todas eram roupas velhas da mãe, estilo simples, tecido comum, lavadas até ficarem desbotadas. Ele as tirou uma por uma, dobrando e colocando ao lado no chão. Os movimentos eram lentos, como se estivesse abrindo uma carta que não deveria ser aberta. A cada peça retirada, aquele aroma frio de remédio ficava mais forte, misturando-se ao mofo do depósito, transformando-se em um cheiro estranho, vertiginoso. As pontas de seus dedos começaram a formigar; a dor ardente da marca subia em ondas, como línguas de fogo lambendo seu pulso. O fundo da caixa apareceu. Sobrou apenas uma fina camada de forro, a cor desbotada a ponto de não se reconhecer mais. Ele pegou uma ponta do forro, querendo tirá-lo também, mas os dedos pararam. Debaixo do forro, a madeira do fundo da caixa... não era plana. Uma ondulação muito sutil, bem na posição próxima ao canto da caixa. Se não fosse pelo dedo ter pressionado exatamente ali, seria imperceptível. A respiração de Lin Yi parou. Ele passou a unha ao longo da borda irregular, sentindo uma fissura extremamente fina — não era a textura natural da madeira, mas um corte feito. Um compartimento oculto. Sua garganta ficou seca. A unha do dedo indicador da mão esquerda enfiou-se na fissura, com força. A madeira estava muito apertada; o pulso direito ferido não tinha força, ele só podia usar a mão esquerda para forçar. A borda da unha doía com farpas de madeira penetrando na pele, finas, mas densas. Ele apertou os lábios e continuou a forçar. "Crac." Um leve som; a madeira sob a unha levantou uma ponta. Seu coração batia como tambores, as orelhas alertas para qualquer ruído do lado de fora. Apenas o som do vento, vozes distantes e indistintas. Ele agarrou a borda da madeira levantada e abriu-a devagar. Embaixo havia um espaço plano e oculto, com menos de uma polegada de profundidade. Dentro havia duas coisas. Um pedaço de papel. Do tamanho de uma palma, as bordas queimadas e enroladas, como se tivesse sido tocado pelo fogo, restando apenas um fragmento. A cor do papel estava amarelada, a tinta desbotada. E uma placa de comando. Cerca de dois dedos de largura, três polegadas de comprimento, toda de cor escura, nem metal nem madeira, fria e pesada ao toque. Na frente da placa estavam gravadas duas palavras, os traços profundos e severos, ainda claros sob a luz fraca: **Yun Zhi.** Lin Yi enc Seus dedos apertaram a borda do fragmento, lascas carbonizadas caindo em cascata. O coração batia descontroladamente em seu peito, martelando as costelas com dor. Aquela sensação gelada, afiada como uma broca, já se espalhara dos vasos sanguíneos por todo o corpo, congelando seus membros, mas deixando sua mente em chamas. Mentira. A versão pública da família era uma mentira. A mãe sabia. Ela investigou, descobriu algo, e por isso deixou um aviso — escondido no fundo falso da caixa, no depósito abandonado, no canto que todos esqueceriam. Ela até queimou a maior parte das cartas, deixando apenas este fragmento, como se temesse ser descoberta. De quem ela estava fugindo? Do pai? Dos anciãos? Ou... do "Caminho Celestial"? Lin Yi apertou o fragmento e o token com força na palma da mão. O frio do token penetrou sua carne, a borda queimada do fragmento arranhando sua pele. Ele baixou a cabeça, olhando para os dois objetos em sua mão — minúsculos, destruídos, mas pesados como duas montanhas. O mundo inclinou-se sob seus pés. O que ele pensava ser um beco sem saída era apenas a primeira camada de uma prisão tecida por mentiras. O "castigo celestial" que ele imaginava poderia ser outro sacrifício meticulosamente planejado. A mãe que ele pensava ter falecido por doença talvez estivesse, antes de morrer, lutando contra uma conspiração tão vasta que era sufocante. E ele era o núcleo da conspiração. "Recipiente". Shi Meng mencionou vagamente essa palavra na noite passada ao entregar o livro secreto. Na época, ele não entendeu, mas agora os fragmentos começavam a se encaixar — contrato, preço, recipiente. Sua garganta apertou. Ele engoliu, sentindo o gosto de poeira e sangue. A dor ardente da marca continuava, mas já não importava. Outra dor brotava de um lugar mais profundo, gelada, afiada, carregando o fedor da traição. Ele levantou-se lentamente. Suas pernas estavam um pouco dormentes. Ele cambaleou um passo, apoiando-se nas velhas contas empilhadas ao lado. Alguns livros caíram com um ruído, batendo no chão e levantando mais poeira. Ele ignorou, enfiando o fragmento e o token no bolso mais próximo ao peito dentro de suas roupas — o pequeno bolso costurado no forro da velha túnica de servo, originalmente vazio, agora abrigava esses dois objetos. O tecido esfregou sua pele, lembrando-o de sua presença. Ele se curvou, colocando uma a uma as roupas velhas da mãe de volta na caixa de madeira, dobrando-as, alisando-as. Seus movimentos eram leves, como se temesse acordar algo. Por fim, fechou a tampa, empurrou a caixa de volta para o canto e a bloqueou novamente com os objetos desordenados. Feito isso, ele ficou parado no depósito escuro, ouvindo sua própria respiração. Acelerada, mas controlada. O som da batida do sino veio de fora da porta — era a hora do *Xu*. Hora de ir para a sala dos servos para comer, e então se espremer no beliche, com dezenas de pessoas igualmente insensíveis, para sobreviver a mais uma noite. Ele virou-se e caminhou em direção à porta. Colocou a mão na moldura da porta e parou. Olhou para trás, para a pilha de objetos no canto. A caixa de madeira estava completamente escondida, como se nunca tivesse existido. Apenas o frio e a dureza em seu peito pressionavam real e firmemente. Ele empurrou a porta e entrou na noite. Algumas lanternas à prova de vento penduradas no pátio, suas auréolas amareladas tingindo uma pequena área da escuridão. O barulho vindo da sala dos servos à distância ficou mais claro, misturado com o som de tigelas e pauzinhos, murmúrios de xingamentos e tosses cansadas. O ar carregava o cheiro da comida — insípida, gordurosa, com um ranço. Ele caminhou naquela direção. Seus passos eram firmes, cada um plantado com solidez. A marca em seu pulso ainda ardia, mas ele já havia aprendido a tratar a dor como um ruído de fundo. Sua mente girava em torno Não foi uma pausa, mas uma paralisia total — como uma marionete congelada. As rugas de entorpecimento em seu rosto se tensionaram de repente, se distorcendo. Seus olhos turvos se ergueram abruptamente, fixando-se em Lin Yi, as pupilas se contraindo até o tamanho de agulhas, explodindo com um medo extremo, quase instintivo. Aquele medo era tão denso que quase adquiria forma física, arremessando-se contra o rosto de Lin Yi. Os lábios de Shi Meng tremularam, mas nenhum som saiu. Ele baixou a cabeça bruscamente, os ombros se encolhendo, suas mãos ásperas e calejadas agarrando com força as pontas de suas roupas velhas, os nós dos dedos ficando brancos de pressão. Seu corpo começou a tremer levemente, como o de alguém nu em uma noite gélida. O burburinho ao redor continuava, ninguém prestava atenção a este canto. A voz de Shi Meng escapou, comprimida, extremamente baixa, trêmula, como se tivesse sido moída entre os dentes. "Onde você ouviu isso?" Pausa. Sua garganta se moveu, engolindo saliva. "... Esqueça isso! Já!" Ele ergueu a cabeça de repente, baixando-a novamente com rapidez, seus olhos percorrendo o ambiente em pânico, confirmando que ninguém estava prestando atenção. Então, se aproximou um pouco mais, a voz ainda mais baixa, carregada de um certo ardor agonizante. "Alguns nomes... falar deles pode matar..." Ele fitou o mingau turvo em sua tigela, os dedos ainda tremendo. "Muito pior do que você está agora..." Dito isso, como se tivesse sido queimado, ele pegou a tigela de repente, despejando o mingau restante desordenadamente na boca, depois agarrou sua metade de pão, levantou-se cambaleante e, sem olhar para trás, arrastou-se para um canto mais distante, o mais sombrio, sentando-se de costas para todos. Não olhou mais para Lin Yi. Lin Yi permaneceu sentado no lugar, imóvel. Pegou sua própria tigela de mingau e tomou um gole. Caldo de arroz ralo, quase sem sabor. A garganta estava seca, doía um pouco ao engolir. Mastigou lentamente o picles, salgado ao ponto de amargar. A reação de Shi Meng confirmara. O nome "Yun Zhi" era real. E perigoso. Perigoso o suficiente para fazer um velho servo, que havia suportado décadas no alojamento de serventes, já entorpecido e esperando a morte, explodir instantaneamente com um medo tão instintivo. "Falar deles pode matar." Não era uma ameaça, era um aviso. Um aviso de alguém que havia visto morte demais, que já não se importava com sua própria vida ou morte. Lin Yi terminou o mingau, comeu o pão. Seus movimentos eram mecânicos, mas sua mente girava freneticamente. Sua mãe deixara aquele nome, junto com o aviso sobre o "Pacto do Caminho Celestial". Shi Meng, ao ouvir o nome, reagira como se tivesse visto um fantasma. Havia uma linha conectando os dois. O que havia do outro lado da linha? Ele colocou a tigela de lado, levantou-se, colocou a tigela e os pauzinhos no balde de coleta. Ao sair do alojamento de serventes, o vento noturno estava mais frio, soprando em seu rosto como uma lâmina. Ele ergueu os olhos e viu uma lua minguante pendurada na ponta curvada do beiral, brilhando com uma luz azulada e gelada. Quando voltou ao quarto dos beliches, a maioria já estava deitada. Roncos, ranger de dentes, murmúrios de sonho se misturavam em um ruído de fundo turvo. No ar, havia cheiro de suor, de pés, e o mofo do palheiro velho. Ele encontrou seu beliche — encostado na parede, o local mais úmido, o colchão de palha tão fino que os ossos doíam. Deitou-se. O palheiro sob ele sussurrou. A pessoa ao lado virou-se, murmurou algo em seu sonho e adormeceu profundamente novamente. A escuridão desceu como um cobertor pesado. A marca em seu pulso ainda ardia, em ondas, lembrando-o ritmicamente da existência de sua desgraça. Ele fechou os olhos. Mas não conseguiu dormir. O emblema e o fragmento em seu peito pressionavam contra o esterno, subindo e descendo com sua respiração. Frios, duros, Lembrou-se do manual secreto que Shí Měng lhe entregara na noite anterior, que mencionava uma possível "passagem secreta de fuga". A entrada da passagem secreta também parecia estar na direção da montanha dos fundos. Coincidência? O coração batia pesado em seu peito. Um, dois, golpes contra as costelas. Ele respirou fundo, e o ar impregnado de mofo e suor encheu seus pulmões. Vou. Amanhã mesmo. Mesmo que seja só para dar uma olhada. Mesmo que seja só para confirmar se a passagem realmente existe, se o Pavilhão da Chuva realmente esconde algo. Mesmo que o risco seja tão alto — como Shí Měng disse — que possa custar a vida de alguém. Ele não tinha mais nenhuma outra pista. A placa em seu peito afundou ainda mais. Ajustou a postura para que a borda dura não pressionasse diretamente o osso. Os dedos ainda batiam inconscientemente, o ritmo gradualmente desacelerando até parar completamente. Na escuridão, ele murmurou, muito baixo, quase inaudível, aquela melodia vaga. Sem letra. Apenas alguns tons simples, subindo e descendo, repetindo-se, como uma canção de ninar, ou como um canto fúnebre. Após emitir o último tom, ele fechou a boca. O silêncio inundou. Apenar roncos, ranger de dentes, o vento atravessando as fendas da janela quebrada. E aquelas duas coisas em seu peito, frias contra a pele, como duas bombas prestes a explodir. O cheiro de queimado do fragmento da carta ainda grudava em seus dedos. Lín Yì enfiou-o, junto daquela placa gelada, na abertura rasgada da camada mais interna de sua roupa. O tecido era áspero, esfregando dolorosamente a pele. A dor era viva, harmonizando-se com a ardência da marca em seu pulso, queimando duas linhas paralelas de fogo em seu corpo. Uma na carne, outra nas fendas dos ossos. A luz do lado de fora do depósito escurecera para um cinza metálico. A sombra do supervisor se alongou do lado de fora da porta, sua voz como uma faca cega raspando uma laje de pedra: "Limpe tudo! Tranque a porta!" Ele respondeu, a voz rouca. Abaixou-se, movendo os objetos velhos espalhados de volta ao canto, um por um. Os movimentos eram mecânicos, mas sua mente era como um bloco de gelo jogado em água fervente, superficialmente calma, mas interiormente rachando em inúmeras fissuras finas. Contrato do Caminho Celestial... preço... mãe, o que você estava tentando me dizer? A família... o que exatamente fizeram com você, comigo? A última caixa de madeira foi colocada no lugar. A poeira levantou, revirando-se no último raio de luz que entrava obliquamente. Ele saiu do depósito. O cadeado enferrujado fechou com um "clique", o eco ressoando pelo corredor vazio. No fundo do corredor, o contorno do alojamento dos servos agachava-se no crepúsculo, como uma besta cansada e silenciosa. *** Hora do jantar. O ar do refeitório era pesado, misturando suor, gordura de baixa qualidade e o cheiro azedo de pães velhos. A fila para pegar a comida se movia lentamente, ninguém falava. Todos olhavam para baixo, fitando suas tigelas grosseiras de cerâmica com bordas lascadas. Lín Yì estava no final da fila. À sua frente estava Shí Měng. As costas do velho estavam mais curvadas do que durante o dia; sua túnica curta e surrada de cinza, lavada até ficar esbranquiçada, tinha as mangas desgastadas nas bordas. Chegou sua vez. O servo que servia a comida olhou para o pano rasgado enrolado em seu pulso, manchado de sangue, e sua mão que segurava a concha tremeu. O mingau ralo de legumes cobriu apenas uma fina camada no fundo da tigela, sem nem um pedaço de verdura. O pão de farinha misturada que jogou para ele era duro como pedra, batendo na borda da tigela com um baque surdo. Lín Yì não levantou os olhos, pegou a tigela e foi sentar-se no canto, junto à parede. Shí Měng estava bem à sua frente, do outro lado de uma longa mesa de madeira gordurosa. O velho comia muito devagar, mastigando cada pedaço repetidamente por muito tempo antes de engolir com dificuldade. A luz amarelada do lampião O tempo congelou. A mão de Shi Meng, que segurava a tigela, estremeceu violentamente, e o resto do mingual dentro dela balançou, derramando-se sobre o dorso de sua mão rachada. Ele não limpou. Seu rosto, antes apenas entorpecido e exausto, parecia um pedaço de papel velho que de repente foi amassado e depois tentado ser alisado novamente, todas as rugas se comprimindo e torcendo instantaneamente. Ele ergueu a cabeça abruptamente para olhar para Lin Yi, seus olhos explodindo com algo — não era surpresa, nem confusão, era puro medo, temperado com gelo, como ver fogo-fátuo em um cemitério deserto no meio da noite, até suas pupilas se contraíram em pontas de agulha sob a luz do lampião a óleo. Aquele medo só apareceu por um instante. Mais curto que uma batida do coração. No momento seguinte, ele baixou a cabeça como se tivesse sido queimado, quase enterrando o rosto na tigela. Seu corpo curvado começou a tremer incontrolavelmente, um leve tremor, não de frio, mas de um arrepio que parecia emanar das fendas de seus ossos. Suas mãos ásperas e cheias de calos seguraram com força a barra de seu manto surrado, os nós dos dedos ficando brancos de tanta força, como se não fosse tecido, mas o último fio de palha que poderia salvá-lo, ou como se quisesse abafar um grito de choque prestes a escapar de sua garganta. O barulho do refeitório parecia ter sido isolado por uma barreira invisível naquele momento. Lin Yi conseguia ouvir o som de seu próprio sangue batendo em seus tímpanos, *tum-tum, tum-tum*, pesado e lento. Ele também conseguia ouvir a respiração reprimida e rouca de Shi Meng, como um fole furado sendo puxado. Alguns segundos, que pareciam tão longos quanto uma hora. Shi Meng finalmente se moveu. Ele não tocou no pedaço de comida seca ao lado da tigela, mas com aquelas mãos trêmulas, pegou a tigela e despejou o último resto de mingual em sua garganta. O ato de engolir foi difícil e apressado, seu pomo-de-adão subindo e descendo violentamente. Então, ele colocou a tigela de volta, o fundo batendo levemente na mesa de madeira. Sua cabeça ainda estava baixa, mas sua voz saiu daquela sombra curvada. Abafada, com uma rouquidão como a de uma lixa e um tremor incontrolável, cada palavra parecia exigir todo o esforço de seu corpo: "Você... de onde ouviu isso?" Lin Yi não respondeu. O movimento de seus dedos batendo no joelho parou, sua voz ainda calma, baixa o suficiente para que apenas os dois ouvissem: "De um lugar antigo. Gravado em madeira." Shi Meng inspirou bruscamente, o som como o de um odre vazando. "Madeira... um token?" ele perguntou, sua voz tremendo ainda mais. "Sim." "Jogue fora." Shi Meng respondeu quase imediatamente, a velocidade de suas palavras anormalmente rápida. "Jogue fora agora mesmo! Jogue o mais longe possível, jogue no lago frio da montanha dos fundos, deixe-o afundar no fundo!" "Por quê?" Lin Yi perguntou, deliberadamente desacelerando ainda mais sua fala, criando uma pressão fria. "É só um nome." "Nome?!" Shi Meng ergueu a cabeça abruptamente, desta vez, o medo misturado com um desespero quase raivoso, o branco de seus olhos cheio de veias vermelhas. "Isso não é um nome! É... é um talismã da morte! Uma vez que gruda, você não consegue se livrar, só ouvir já dá azar! Você não sabe—" Ele parou de repente, como se uma mão invisível tivesse agarrado sua garganta, olhando ao redor com pânico. Ao redor, ainda havia apenas o som de mastigação entorpecida. Ele baixou a cabeça novamente, seus ombros encolhendo ainda mais, sua voz quase se tornando um sussurro, mas cada palavra parecia sangrar: "Alguns nomes... mencioná-los pode matar uma pessoa... Não uma morte rápida por uma lâmina, mas devagar, pouco a pouco... Muito pior do que você está agora... cem vezes pior, mil vezes pior!" Lin Yi ficou em silêncio por um momento. A luz do lampião a ó "Não sei!" Shi Meng quase rugiu, antes de baixar a voz assustado. "Como ousaria perguntar? Naquela época... naquela época o sótão já estava selado, diziam que havia espíritos malignos, quem se aproximasse teria azar. Mas ela não tinha medo. Uma vez, a vi voltando de lá, o rosto pálido como papel, segurando um embrulho de pano com força. Ao me ver, escondeu o embrulho atrás das costas, toda assustada... aquele olhar, nunca esquecerei na vida. Era igual... exatamente igual ao seu quando me perguntou há pouco." Ele respirou fundo, seu peito envelhecido subindo e descendo violentamente. "Poucos dias depois, ela 'adoeceu'. Doença súbita, partida também rápida. O clã disse que foi um desvio na prática cultivacional, o demônio interior se rebelou... hã." Aquele último "hã" foi leve como um suspiro, mas carregado de um frio sarcasmo. Desvio na prática cultivacional. Demônio interior se rebelando. Exatamente a mesma explicação que o clã deu para Lin Yi "perder o controle e destruir sua própria fundação". Mentira. Tudo mentira. Uma fúria gelada, como uma cobra venenosa, subiu pela sua coluna e se enroscou no peito de Lin Yi. Mas seu rosto permaneceu impassível, apenas o ritmo de seus dedos batendo na mesa retornou, mais rápido, mais forte. "O que havia no embrulho?" ele perguntou. "Como eu saberia!" Shi Meng balançou a cabeça, seus cabelos grisalhos tremendo sob a luz do lampião. "Mas ela esconder algo... definitivamente não era algo bom. Depois que ela 'partiu', fui espiar seu quarto em segredo. Tão limpo... limpo demais, como se tivesse sido vasculhado cuidadosamente. Aquele baú velho, o que ela mais prezava, também havia sumido. Pensei que tivessem recolhido, nunca imaginei..." Nunca imaginou que, hoje, seria desenterrado por Lin Yi dessa forma, do meio de pilhas de tralhas abandonadas. "Eu encontrei o baú," disse Lin Yi, seu olhar fixo em Shi Meng. "Havia papéis queimados no forro, e um passe. Nos papéis estavam escritos 'Contrato do Caminho Celestial', 'Preço', 'Não acredite'." O rosto de Shi Meng perdeu toda a cor. Ele abriu a boca, mas nenhum som saiu, apenas abriu e fechou algumas vezes inutilmente, como um peixe fora d'água. Finalmente, balançou a cabeça de forma extremamente lenta e pesada, o gesto cheio de uma sensação de impotência. "Não investigue mais," disse ele, a voz cansada como se tivesse envelhecido dez anos num instante. "Garoto, me ouça, não investigue mais. O que sua mãe escondeu com a própria vida, se você for cavar com a sua, o resultado só será... enterrar você também. Você pode estar... mas pelo menos ainda está vivo. Algumas verdades, uma vez conhecidas, não se pode mais viver." "Como ela?" Lin Yi retrucou, o tom de voz terrivelmente calmo. Shi Meng engasgou. Ele olhou para Lin Yi, para aquela chama fria, teimosa, quase insana nos olhos do jovem, aquela chama queimando nas cinzas do desespero, brilhando de forma assustadora. Ele sabia, não conseguiria dissuadi-lo. Alguns caminhos, uma vez que se vê a entrada, não há como voltar atrás. Ele soltou um longo, profundo suspiro, aquele suspiro carregado da tristeza de um destino selado. "Amanhã," Lin Yi não insistiu mais, mudando de assunto, a voz clara, "vou dar uma olhada no 'Pavilhão da Chuva'." Shi Meng não pareceu surpreso, como se já esperasse. Ele apenas ficou em silêncio por muito tempo, tempo suficiente para os servos na mesa ao lado terminarem de comer e irem embora, o som de tigelas e talheres se afastando. Então, ele assentiu de forma extremamente sutil, quase imperceptível. Não era concordância. Era resignação. "Na base do muro oeste," sua voz tão baixa que quase se perdeu, "atrás da terceira telha de pedra solta, há uma chave velha. Muitos anos atrás... quando o sótão ainda não estava selado, o velho Wu, o guardião, a perdeu. Eu peguei, não devolvi." Ele fez uma pausa, acrescentando, mais como uma justificativa para seu A reação de Shi Meng, a existência da chave, delinearam um contorno mais convincente do que qualquer palavra — "Yun Zhi" estava conectada ao Pavilhão Chuva Sussurrante, a mãe "faleceu de doença" por investigar, a chave foi deliberadamente escondida, o nome tornou-se um tabu. A cortina tecida por mentiras foi rasgada por ele. Por trás da fenda, a escuridão fervilhava, exalando um cheiro de sangue e conspirações antigas. Ele lentamente se levantou, arrumou sua tigela e pauzinhos. Seus movimentos ainda eram estáveis, até mais lentos do que o normal. Só ele sabia que o bloco de gelo em seu peito estava absorvendo freneticamente todas as emoções — choque, raiva, tristeza — e então condensando-se em algo mais duro, mais afiado. Uma determinação. Ele saiu do refeitório. O vento noturno entrou, cortante como uma lâmina, dilacerando a pele. O frio do início do inverno infiltrou-se em seus ossos, mas não conseguia extinguir o fogo frio que queimava cada vez mais forte em seu coração. De volta ao dormitório coletivo dos servos. Dezenas de homens espremidos em um único *kang* grande, o cheiro de suor, pés, mofo antigo e desespero quase se solidificando. Ele encontrou seu lugar perto do canto, deitou-se com a roupa ainda vestida. O colchão de palha sob ele era fino e duro, roçando os ossos. A cama ao lado estava vazia — Shi Meng ainda não havia voltado. Na escuridão, todos os sons sutis eram amplificados. Mas seus ouvidos pareciam filtrá-los automaticamente, deixando apenas o rugido do próprio sangue fluindo, e a presença sentida através do tecido das duas coisas estranhas em seu peito — a aspereza do fragmento da carta, o frio da placa. Como duas sementes plantadas em seu corpo, absorvendo seu calor corporal e ódio, preparando-se para brotar. Não se sabia quanto tempo havia passado quando a cama ao lado se moveu. Shi Meng, tateando, deitou-se, trazendo consigo o frio do orvalho noturno. Ele não disse nada, nem olhou para Lin Yi. Mas em meio aos roncos reprimidos, Lin Yi sentiu algo áspero e quente sendo empurrado com extrema lentidão e cuidado sob o colchão de palha ao lado de sua mão. Ele tocou sorrateiramente. Meia fatia de pão de farelo, embrulhada em pano velho, já fria e dura. Nenhuma palavra. Apenas o som sutil do pano esfregando na palha, e o suspiro pesado e sufocado do velho ao se virar de costas para ele. Lin Yi segurou a meia fatia de pão. A textura áspera esfregava sua palma, um leve e insignificante calor infiltrava-se de seus dedos gelados, imediatamente engolido pelo frio em seu peito. Mas o toque em si era como uma agulha fina, perfurando um pequeno buraco em seu mundo congelado. A luz da lua vazava pelo papel de janela rasgado em um canto, projetando um pequeno ponto de luz pálida no chão, bordas desfocadas, tremendo levemente. Aquele ponto de luz moveu-se lentamente, subiu pela borda do *kang*, iluminou seu pulso caído. A borda do pano esfarrapado enrolado, manchas de sangue marrom-escuro já enegrecidas, como um selo feio. Ele fitou aquela luz, olhar vazio, mas profundamente insondável. O medo de Shi Meng era real. O aviso da mãe era real. A mentira do clã era real. O "corpo estranho" dentro dele era real. A chave para o "Pavilhão Chuva Sussurrante", agora escondida atrás de um tijolo solto na parede oeste, também era real. Todas as pistas fragmentadas, todos os vestígios encobertos, todos os gritos silenciosos e medos solidificados, apontavam na mesma direção — aquela torre abandonada, devorada por trepadeiras e rumores. O que havia lá? O que a mãe viu lá? Quem era "Yun Zhi"? E o que era o "Pacto do Caminho Celestial"? A questão não era mais "se é", mas "o que exatamente é". E a resposta, ele teria que cavar naquela escuridão proibida e revelar com

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