Capítulo 26: O Amanhecer da Desesperança
A mão de Lin Yi mal tocou a borda da abertura de ventilação do porão quando uma onda de frio penetrante atingiu suas pontas dos dedos.
Não era o vento.
Era outra coisa.
Ele empurrou violentamente Su Wanqing, que já havia emergido metade do corpo, para baixo, e recuou junto. Os dois se apertaram no canal úmido de tijolos, sua respiração formando uma névoa branca na escuridão. As omoplatas de Su Wanqing pressionavam contra seu peito, e ele podia sentir o corpo dela se enrijecer instantaneamente.
"O que…" sua voz era um sussurro.
Lin Yi não respondeu. Ele bateu levemente na parede de pedra com a ponta dos dedos, duas vezes, suave, mas com um certo ritmo. Era um sinal que Mo Chen lhe ensinara — um sinal de perigo iminente. Então, ele virou a cabeça, encostando a orelha na fria junta dos tijolos.
Havia sons lá fora.
Não eram insetos, nem o vento. Era o farfalhar de tecido raspando contra telhas e tijolos, quase inaudível, mas em demasia. De todos os lados. E o som sutil de metal contra couro, o gemido de fibras sendo tensionadas quando a corda de um arco é puxada lentamente.
A roda começou a girar.
Ele fechou os olhos, reconstruindo mentalmente o layout do quintal da tinturaria: à esquerda, pilhas de tinas de tingir abandonadas; à direita, os estrados de madeira para secar os tecidos; à frente, a porta estreita que levava ao beco; atrás… atrás estava a abertura do porão de onde haviam acabado de sair. Havia sons vindos de todas as direções. Todas.
"Canto sudeste", seus lábios mal se moveram, o ar passando pelo ouvido de Su Wanqing, "aquele buraco na parede. Eu abro caminho, você corre."
Os dedos de Su Wanqing se fecharam na gola de sua roupa, depois se soltaram. Ela assentiu.
Lin Yi inspirou profundamente, canalizando os últimos vestígios de sua energia espiritual para seu braço esquerdo. A pele sob sua manga começou a esquentar, padrões dourado-escuros se espalhando do pulso para cima, como algo vivo se contorcendo sob a pele. Uma dor ardente. A familiar dor ardente. Ele cerrou os dentes, pressionou a testa contra os tijolos frios, deixando a dor queimar o último vestígio de hesitação.
Então, ele empurrou a tampa de madeira da abertura de ventilação.
***
A escuridão antes do amanhecer é a mais densa. O quintal da tinturaria parecia mergulhado em tinta, apenas um tom doentio de cinza pálido no horizonte distante. O ar carregava o cheiro acre de tecido mofado e corantes residuais, um doce metálico misturado com azedume.
Lin Yi se curvou para sair, aterrissando sem fazer som. Ele rolou para a sombra da tina de tingir mais próxima, suas costas encostando na parede áspera de cerâmica. O toque gelado o fez estremecer. Su Wanqing o seguiu, seus movimentos ainda mais leves, como uma folha caindo.
Ele ergueu os olhos, escaneando.
Telhados. Topos dos muros. Entrada do beco.
Em cada ponto elevado, agachavam-se silhuetas escuras, seus contornos indistintos, mas o brilho metálico das bestas em suas mãos pontilhavam a escuridão como agulhas. E mais. Havia talismãs — as bordas do papel amarelo tremulavam levemente na brisa noturna, os padrões de cinábrio desenhados neles brilhando lentamente, como se bestas adormecidas estivessem abrindo os olhos.
Pelo menos vinte. Talvez trinta.
O cerco era hermético.
A ponta dos dedos de Lin Yi bateu inconscientemente na superfície da tina, uma, duas vezes. Ele calculava: o abrigo mais próximo eram os estrados de secagem, a sete passos de distância. Tecidos grossos e encharcados pendurados nos estrados poderiam bloquear a visão, mas não o fogo dos talismãs. Havia de fato um buraco na parede do canto sudeste, mas a abertura era muito estreita, permitindo a passagem de apenas uma pessoa por vez. No caminho até lá, pelo menos cinco bestas teriam linha de tiro.
Não havia tempo suficiente.
Ele precisava de três respirações. Su Wanqing precisava de cinco.
"Fique perto de mim", sua voz era tão baixa que mal formava palavras, "n
"Lin Ziyuan", a voz do Verdadeiro Mestre Xuanyin soou novamente, desta vez com um tom de pena, como um professor repreendendo um aluno que seguiu o caminho errado. "Você nasceu com raízes espirituais concedidas pelo céu, recebeu a proteção do clã e o sustento da família. No entanto, você se entregou à depravação, conspirou com espíritos malignos, espiou os segredos do céu, violando os artigos 37, 59 e 104 do 'Pacto do Caminho Celestial'. Sua captura hoje é decretada pelo destino."
Ele fez uma pausa, e seu tom se tornou frio:
"Se você se render pacificamente, ainda poderemos preservar seu corpo intacto e não envolver inocentes."
Seu olhar varreu Su Wanqing atrás de Lin Yi, como se estivesse olhando para um objeto manchado de impurezas.
"Quanto a esta mulher", ele disse com indiferença, "por manter relações ilícitas com um rebelde contra o destino, de acordo com a lei, seus nove clãs devem ser exterminados. No entanto, como seus pais já morreram, apenas ela será executada."
A respiração de Su Wanqing parou por um instante.
Lin Yi sentiu a mão dela em sua cintura traseira tremer. Não era medo. Era raiva. Ele virou a mão e apertou a dela, segurando-a com força.
Então, ele ergueu a cabeça, encarando o olhar do Verdadeiro Mestre Xuanyin.
"Terminou?" ele perguntou.
Sua voz não era alta, mas no silêncio mortal do quintal traseiro, era clara e cortante. O ritmo era lento, cada palavra parecia ter sido forçada através dos dentes, carregando uma calma deliberada e quase provocativa.
O Verdadeiro Mestre Xuanyin estreitou levemente os olhos.
"Obstinado e teimoso." Ele balançou a cabeça, e a mão dentro de sua manga finalmente se ergueu – apenas uma polegada, o indicador e o dedo médio unidos, apontando levemente para o ar. "Então... matem-no, não importa o que aconteça."
No instante em que a última palavra foi proferida, o quintal traseiro explodiu.
Não uma explosão. Era o som de dezenas de projéteis rasgando o ar simultaneamente, um assobio agudo. Bestas disparadas, talismãs ativados, chamas, cones de gelo, lâminas de vento, relâmpagos – todos os ataques despejados de todos os lados, como uma enorme rede tecida pela morte, caindo violentamente sobre a sombra do tanque de tingimento.
Lin Yi se moveu.
Ele não recuou, não se esquivou. Ele avançou contra a chuva de flechas e o fogo dos talismãs, seu pé esquerdo empurrou o chão, seu corpo inteiro disparou como um projétil em direção ao canto sudeste. Os padrões dourados escuros em seu braço esquerdo brilharam completamente neste momento, como se lava fluísse sob sua pele, tingindo todo o braço em um vermelho dourado sinistro.
A dor ardente se transformou em combustão. Ele sentiu o cheiro de sua própria pele e carne queimando.
Mas ele não parou.
A primeira flecha de besta passou raspando por sua orelha, cravando-se no tanque de tingimento atrás dele com um baque surdo, rachando o vaso de cerâmica em padrões de teia de aranha. A segunda flecha mirou seu peito; ele se virou de lado, a ponta da flecha rasgou o tecido de seu ombro, levantando um borrifo de sangue. Morno. Doce e metálico.
O terceiro fogo de talismã veio de frente, as chamas laranja-avermelhadas se expandindo até o tamanho de uma bacia, a onda de calor queimando os cabelos de sua testa.
Lin Yi rugiu baixinho, seu punho esquerdo se erguendo.
Não para bloquear. Para esmagar.
O punho dourado escuro colidiu no centro do fogo do talismã, as chamas se desfizeram como se tivessem vida, guincharam e se espalharam em faíscas. Mas a força do punho não diminuiu, batendo com força na parede de tijolos no canto sudeste.
"BOOM—!"
O estrondo das pedras e tijolos quebrando abafou todos os outros sons.
O ponto
Atrás, passos apressados se multiplicavam. Não era apenas um grupo. Pelo menos três equipes se entrelaçavam e cercavam pelos becos, os passos ecoando no espaço estreito, impossível distinguir de qual direção vinham. E ainda havia o sibilo agudo de bestas cortando o ar — mal haviam dobrado uma esquina quando três flechas de ferro cravaram-se na parede do local onde estavam há instantes, as penas vibrando com um zumbido.
"Vire à esquerda!" Su Wanqing gritou de repente.
Lin Yi não perguntou o porquê. Ele se jogou bruscamente para a esquerda, entrando em uma viela ainda mais estreita, largura suficiente apenas para uma pessoa passar de lado. Su Wanqing se espremia atrás dele, suas costas coladas nas dele, e ele conseguia sentir a batida violenta de seu coração e sua respiração ofegante.
O fim da viela era um beco sem saída.
Um muro de tijolos, com altura de duas pessoas, bloqueava o caminho, o topo amontoado com telhas quebradas e grama seca. Lin Yi parou os passos, seu olhar varrendo rapidamente — não havia portas, não havia janelas, não havia bueiros.
Fim da linha.
Os passos vindos de trás se aproximavam cada vez mais, a luz de tochas oscilantes já era visível na entrada do beco.
Lin Yi se virou, protegendo Su Wanqing atrás de si. Ele ergueu a mão direita, que ainda podia se mover, e as pontas dos dedos começaram a condensar o último resquício de energia espiritual. Um brilho branco fraco saltitava em suas pontas, como uma vela prestes a se apagar ao vento.
Era hora de lutar.
No exato momento em que ele se preparava para enfrentar os perseguidores —
Da sombra na base do muro à esquerda, uma mão seca e esquelética estendeu-se de repente.
A mão era rápida como um fantasma, agarrando o tornozelo de Lin Yi e puxando com força. Lin Yi perdeu o equilíbrio, seu corpo inteiro caindo para frente, arrastando Su Wanqing junto para dentro da sombra.
Não houve colisão com a parede.
Dentro da sombra, havia na verdade um buraco de cachorro com meio metro de altura, disfarçado por uma pilha de cestos velhos e quebrados. No instante em que Lin Yi caiu dentro, a mão já havia soltado, enquanto uma força suave e gentil o empurrava para dentro.
Ele rolou duas vezes, parando ao colidir com a parede interna do buraco.
Olhou para cima.
Do outro lado do buraco, Mo Chen estava agachado.
O velho ainda vestia a mesma túnica de pano cinza desbotada, as rugas em seu rosto profundas como entalhes de faca. Ele não olhou para Lin Yi, seu olhar fixo na luz das tochas que se aproximava cada vez mais da entrada do beco, seus olhos terrivelmente calmos. A mão direita seca e esquelética pendia ao seu lado, um brilho pálido e acinzentado de energia espiritual, carregando um ar crepuscular, fluía em suas pontas dos dedos.
Ele ergueu a mão esquerda, traçando um gesto no ar.
Não era um sigilo. Era um gesto simples — o dedo indicador apontando para o leste, então um movimento brusco para o lado.
Significava: fujam para o leste.
Então ele retraiu a mão, levantou-se lentamente e virou-se para a entrada do beco. Sua silhueta parecia um galho seco prestes a se consumir no fogo, mas estava ereta e firme.
As pupilas de Lin Yi se contraíram.
Ele queria dizer algo, queria agarrar a barra da túnica do velho. Mas a mão de Su Wanqing cobriu sua boca por trás. Ela balançou a cabeça, lágrimas rolando silenciosamente, misturando-se ao sangue e sujeira em seu rosto, cintilando fracamente na escuridão.
Na entrada do beco, a primeira tocha adentrou.
A luz da chama saltitante iluminou o rosto impassível do Verdadeiro Mestre Xuan Yin. Ele estava parado na entrada, atrás dele, figuras vestidas de negro, densas e numerosas. Seu olhar passou por Mo Chen, fixando-se na direção do buraco de cachorro, um sorriso frio curvando os cantos de sua boca.
"Ancião Mo Chen," ele falou, seu tom carregado de uma reverência falsa, "o senhor está... protegendo seus protegidos?"
Um som rouco e sibilante rolou na garganta do velho, não eram palavras, mas uma forma de articulação mais antiga e laboriosa. O qi verdadeiro condensou-se diante dele em alguns caracteres antigos translúcidos, pairando por um momento antes de se desfazerem em pontos de luz.
Os caracteres diziam: "A semente do fogo precisa ser preservada."
Os olhos de Lin Yi ficaram vermelhos instantaneamente. "Que merda!" ele gritou, sua voz ecoando na viela estreita. "Que semente de fogo, que lenha! Se vamos morrer, morremos juntos!"
Ele tentou avançar. A mão gelada de Su Wanqing agarrou seu braço com força, as unhas quase cravando-se na carne.
"Lin Yi..." Ela balançou a cabeça, lágrimas misturando-se ao sangue em seu rosto enquanto escorriam, sua voz entrecortada pela dor. "Não... o Ancião Mo Chen... ele..."
Passos claros ecoaram do lado de fora do beco. Não eram passos desordenados, mas uma aproximação uniforme, pesada, com o som de placas de metal se atritando. E também o leve rangido de cordas de arco sendo tensionadas.
A voz do Verdadeiro Xuan Yin atravessou as paredes, fria como uma fonte de inverno: "Luta de animal encurralado, matem todos."
Mo Chen finalmente virou o rosto de lado. A luz da manhã iluminou metade de seu rosto emaciado, as rugas profundas como entalhes de faca. Seus lábios não se moveram, mas o qi verdadeiro condensou-se novamente em caracteres, desta vez mais rápido, mais rabiscado, como um escrito apressado antes da morte:
"Zi Yuan, você não está sozinho. Wanqing conhece o caminho. Este velho corpo decadente servirá de lenha."
"A causa e efeito já foram determinados."
Os punhos de Lin Yi se cerraram. Os padrões dourados escuros em seu braço esquerdo queimavam sob a pele, estendendo-se até o ombro, trazendo uma dor dilacerante e uma sensação... estranha, quase violenta, de poder. Ele queria esmagar aquela parede, esmagar o maldito beco, esmagar aquela calma resignada de Mo Chen.
"Por quê?" Sua voz estava muito baixa, cada palavra parecia ser espremida entre seus dentes. "Podemos lutar para sair juntos! Três pessoas são melhores que uma—"
Mo Chen balançou a cabeça. Lentamente. Firmemente.
Ele traçou mais alguns caracteres: "As regras já prenderam minha alma. Fugir, e os três morrerão."
Su Wanqing de repente tossiu, espirrando sangue na manga de Lin Yi. Seu corpo afrouxou, e Lin Yi rapidamente a segurou, sentindo sua temperatura corporal cair rapidamente. Seus lábios se moveram, um sopro de voz: "Ancião Mo Chen... use a arte proibida... detenha-os... você, rápido..."
A barreira cinza na entrada do beco de repente ondulou violentamente. Um raio de luz branca incandescente atingiu a restrição de fora, explodindo em manchas de luz ofuscantes. A superfície da barreira revelou rachaduras semelhantes a uma teia de aranha.
A voz do Verdadeiro Xuan Yin ficou mais próxima, carregada de uma solenidade ritualística: "Lin Yi, o Destinado à Rebeldia, a marca do contrato já se manifestou. A Lei Celestial é clara, não há para onde fugir."
Mo Chen virou-se, dando-lhes totalmente as costas. Suas mãos ossudas formaram um selo complexo e antigo diante do peito. Energia espiritual cinza-clara emanou de todos os poros de seu corpo, como brasas queimando, espiralando e condensando no ar, delineando gradualmente uma enorme, vaga e fechada forma etérea de uma besta.
A forma etérea exalava uma aura desolada, decadente, mas pesada como uma montanha.
O velho olhou para trás uma última vez. Sem caracteres. Sem som. Apenas um olhar profundo para Lin Yi, aquele olhar continha muitas coisas: remorso, determinação, confiança, e um fio... de alívio quase satisfeito.
Então ele empurrou o selo para frente com força.
A forma etérea da besta abriu os olhos. Duas chamas branco-acinzentadas acenderam-se nas órbitas vazias.
"Vão!" Mo Chen finalmente rugiu, a voz envelhecida, quebrada, mas como um trovão explodindo no beco. "Leste! Trinta *li*! Penhasco Sem Retorno!"
A barreira despedaçou-se completamente.
A luz branca incandescente dos raios, o assobio agudo das bestas, os gritos dos cultiv
O som durou três respirações.
E então cessou abruptamente.
Um rugido baixo, reprimido e bestial, escapou da garganta de Lin Yi. Seus olhos queimavam, mas não havia lágrimas. Ele cerrou os dentes, sua mandíbula desenhando linhas severas. Nas suas costas, a respiração de Su Wanqing era fraca como uma vela prestes a se apagar no vento; cada movimento puxava a ferida da flecha sob suas costelas, uma dor aguda e penetrante.
Mas ele não parou.
Não podia parar.
O telhado sob seus pés chegou ao fim. À frente, outra área de favelas, mais baixas e densas. A escuridão anterior ao amanhecer começava a se dissipar; nas ruas, alguns vendedores precoces começavam a aparecer, empurrando carrinhos rangentes, acendendo fogo para cozinhar.
Lin Yi saltou do telhado, caindo em um beco estreito cheio de folhas de vegetais podres e água suja. O fedor de decomposição atingiu seu rosto. Ele cambaleou por dois passos, o joelho esquerdo afundando na água suja, espirrando respingos imundos. Su Wanqing emitiu um gemido abafado em suas costas.
Ele se ergueu e continuou correndo.
No fim do beco, uma rua um pouco mais larga. Alguns idosos que haviam acordado cedo para esvaziar penicos olharam atônitos para ele, ensanguentado, carregando alguém nas costas, e saíram correndo. Assustados, largaram seus baldes de madeira, derramando o conteúdo imundo pelo chão.
Lin Yi não os olhou. Virou para o leste, correndo ao longo das sombras da rua. Na sua nuca, a cabeça de Su Wanqing pendeu sem força, sua respiração fraca soprando sobre sua pele, fria como a geada do fim do outono.
Ele lembrou-se do último olhar de Mo Chen.
Lembrou-se dos dedos finos e ossudos do velho traçando aqueles caracteres antigos no ar.
Lembrou-se daquela figura curvada, sempre silenciosa, sempre se comunicando com lousas e gestos, mas que, em seu momento mais desesperado, havia aberto a porta secreta do porão.
Seu estômago parecia ter caído em um abismo sem fundo.
Mas ele ainda corria. Seus passos ficavam cada vez mais pesados, sua respiração cada vez mais desordenada, os padrões metamorfoseados em seu braço esquerdo queimando até a dormência. As casas de ambos os lados da rua voavam para trás, a luz do amanhecer iluminando gradualmente esta cidade suja, caótica, mas ainda viva.
E ele carregava sua única companheira restante, fugindo da escuridão que acabara de engolir mais um aliado.
Correndo para aquele lugar desconhecido trinta *li* adiante, chamado "Penhasco Sem Retorno".
A roda começou a girar.
E não pararia mais.
Lin Yi carregou Su Wanqing nas costas, flutuando na escuridão viscosa do canal de esgoto por um tempo que não soube medir.
A correnteza era lenta, carregando um fedor misto de decomposição de cadáveres e resíduos industriais. As paredes do canal eram escorregadias; quando ele enfiava os dedos, as unhas imediatamente se enchiam de musgo verde-escuro e sujeira desconhecida. Ele não ousava usar força, com medo de alertar os sons ocasionais vindos de cima – botas pisando em calçadas de pedra.
O Verdadeiro Mestre Xuan Yin ainda não havia se afastado.
Lin Yi conseguia sentir aquela perseguição – não com os olhos, mas com algo mais frio, mais fundamental. Como uma teia de aranha invisível grudada na pele, não importando para onde fugisse, os fios do outro lado ainda estavam ligados àquela aranha paciente. Era uma marca no sangue, ou um eco residual de um contrato? Ele não tinha energia para pensar profundamente.
O braço esquerdo estava completamente dormente.
Os padrões dourado-escuros rastejaram sobre sua clavícula, espalhando-se pelo peito em desenhos sinistros. Sob a pele, não era mais uma dor ardente, mas uma sensação pesada e lenta, como se chumbo derretido fluísse em suas veias. Cada batimento cardíaco puxava aqueles padrões, trazendo um formigamento sutil e profundo, que chegava aos ossos.
Su Wanqing estava deitada sobre suas costas, sua respiração tão fraca quanto uma chama de vela prestes a se apagar ao vento.
Ele precisava sair.
O canal de esgoto fazia uma curva à frente
Lin Yi rasgou a outra manga de sua roupa que ainda estava relativamente limpa, mergulhando-a na água da chuva acumulada na entrada da caverna — a mais limpa que conseguiu encontrar — e começou a limpar desajeitadamente o ferimento nas costas de Su Wanqing. A carne estava exposta, as bordas carbonizadas, tão profundo que o osso era visível. Durante a limpeza, o corpo de Su Wanqing, ainda inconsciente, estremeceu, e um gemido de dor, muito leve, escapou de sua garganta.
A mão de Lin Yi tremia violentamente.
Ele se forçou a se acalmar e tirou do peito um pequeno pacote de pano — dentro estavam os pós básicos para estancar sangue que Su Wanqing havia preparado antes. Ao espalhar o pó, o sangue começou a fluir mais devagar, mas o ferimento era profundo demais; aquela quantidade de remédio era como tentar apagar um incêndio com um copo d'água.
"Aguenta firme..." ele sussurrou, a voz tão rouca que mal parecia sua. "Estamos quase lá... o Penhasco Sem Retorno... estamos quase chegando..."
Su Wanqing não reagiu.
Lin Yi reenfaixou o ferimento e a carregou nas costas novamente. Desta vez, ele arrancou a barra da parte de baixo de seu casaco externo — o único pedaço que ainda estava relativamente intacto — torcendo-a em uma corda de pano para amarrá-la firmemente às suas costas. A corda de pano cortou a pele de seus ombros, trazendo uma dor clara e nítida. Essa dor o manteve alerta.
Ele se orientou.
Norte. Su Wanqing havia dito que o Penhasco Sem Retorno ficava nas profundezas das montanhas ao norte da cidade. Ele ergueu a cabeça, olhando para as sombras distantes das montanhas ondulantes, de um verde-escuro profundo. As montanhas estavam longe, separadas por terrenos baldios, campos agrícolas e vilarejos esparsos.
Não podia pegar a estrada principal.
Lin Yi seguiu pela margem do rio e entrou em um canavial. Os juncos eram mais altos que um homem, suas folhas amareladas e secas tinham bordas afiadas que arranhavam seu rosto e braços, deixando marcas finas de sangue. Ele caminhava com dificuldade, um pé após o outro, o solo sob seus pés era um lodo macio que engolia metade de seu pé a cada passo.
Su Wanqing em suas costas parecia cada vez mais pesada.
Não que seu peso tivesse mudado, mas sua força estava se esvaindo rapidamente. A dormência em seu braço esquerdo começava a se espalhar para o lado direito do corpo, e os padrões dourado-escuros em seu peito estavam levemente quentes, como se inúmeros insetos minúsculos se contorcessem sob sua pele. Ele cerrou os dentes, forçando-se a continuar andando.
Ao sair do canavial, encontrou uma floresta esparsa.
Lin Yi se apoiou no tronco de uma árvore para recuperar o fôlego. Suor misturado com sangue escorria de sua testa para seus olhos, ardia. Ele limpou com a mão, sua visão ficou turva. A floresta estava quieta, apenas o som do vento nas copas das árvores e, à distância, o latido vago de um cão.
Muito quieta.
Algo errado.
Lin Yi tensionou o corpo subitamente. Quase ao mesmo tempo, uma corrente dourada-clara disparou silenciosamente de trás e ao lado, rápida como um raio de luz. Por instinto, ele se jogou para a esquerda; a corrente passou raspando seu ombro direito, perfurou o tronco de uma árvore, e estilhaços de madeira voaram.
O Verdadeiro Mestre Xuan Yin emergiu das sombras da floresta.
Suas vestes taoistas ainda estavam impecáveis, nem a barra da roupa estava manchada de poeira. Ele olhou para Lin Yi, desgrenhado e em frangalhos, sem raiva ou urgência em seu olhar, apenas uma calma fria e analítica.
"Resistir até este ponto, de fato, me surpreende um pouco", disse o Verdadeiro Mestre Xuan Yin, sua voz não era alta, mas atravessava a floresta com clareza. "Infelizmente, o Caminho do Céu é claro e brilhante. Como poderia permitir que rebeldes contra o destino como vocês se arrastassem por aí?"
Lin Yi não disse nada.
Apoiando-se na árvore, ele se levantou lentamente, protegendo Su Wanqing em suas costas ainda mais firmemente. Sua mão direita foi até a cintura — lá estava uma faca
O estômago parecia ter caído em um abismo sem fundo.
Medo. Um medo frio e viscoso, subindo das solas dos pés, inundando cada membro e osso de seu corpo. Ele queria tremer, desmoronar, cair de joelhos e implorar por misericórdia — talvez implorar funcionasse? Talvez o Verdadeiro Mestre Xuanyin considerasse... considerasse o quê?
Não.
Lin Yi apertou a faca curta em sua mão direita. O cabo enferrujado pressionou sua palma, trazendo uma sensação áspera e real. Ele inspirou profundamente, puxando para dentro o ar úmido e com cheiro de terra da floresta.
Então ele riu.
Uma risada muito leve, espremida da garganta, rouca, quebrada, mas carregando algo quase insano. As sobrancelhas do Verdadeiro Mestre Xuanyin se franziram imperceptivelmente.
"A Ordem Celestial?" Lin Yi...
Ele fechou os olhos, reconstruindo em sua mente o layout do quintal da tinturaria: à esquerda, pilhas de tinas de tingir abandonadas; à direita, estantes de madeira para secar tecidos; diretamente à frente, a porta estreita que levava ao beco; atrás —
"Canto sudeste, aquele buraco, eu abro caminho, você corre!"
A voz de Lin Yi era baixa, cada palavra como cascalho espremido entre seus dentes. A pele sob a manga de seu braço esquerdo já havia se transformado completamente em um dourado escuro, as marcas se espalhando pelo antebraço como seres vivos, trazendo uma dor excruciante que queimava até a medula. Su Wanqing estava atrás dele, respirando ofegante, seus dedos segurando firmemente a barra de sua roupa.
No telhado, a voz do Verdadeiro Mestre Xuanyin desceu novamente, fria, estável, como a leitura de uma sentença:
"Pecador, resistir teimosamente apenas aumenta seus crimes."
Antes que as palavras terminassem, o som de bestas rompendo o ar irrompeu!
Mais de uma dúzia de linhas pretas dispararam de diferentes ângulos, cravando-se nas tinas de tingir onde eles se escondiam. As vasilhas de barro estilhaçaram, tinta índigo fétida respingou por todo lado, misturando-se com o cheiro azedo de mofo e cobrindo metade do corpo de Lin Yi. Ele puxou Su Wanqing violentamente para a direita, rolando e derrubando uma fileira de estantes de secagem. Tecido grosso encharcado caiu como uma cortina, bloqueando temporariamente a visão.
"Vai!"
Lin Yi rosnou, apertando o punho esquerdo.
As marcas douradas escuras explodiram instantaneamente, seu braço inteiro inchou uma volta, os vasos sanguíneos salientes sob a pele como arames aquecidos. Ignorando a dor lancinante, ele mirou a parede lateral de tijolos azuis e desferiu um golpe violento.
No momento em que seu punho encontrou a superfície do tijolo, o tempo pareceu congelar.
Então —
*Boom!*
A parede de tijolos explodiu como se atingida por um aríete, abrindo um grande buraco irregular do centro para fora. Estilhaços de tijolo e poeira jorraram, levantando uma nuvem de fumaça amarelo-acinzentada na névoa matinal. A força de reação subiu pelo braço, e Lin Yi ouviu sua própria omoplata emitir um rangido de sobrecarga, um sabor doce subindo em sua garganta.
Mas ele não parou.
Ele agarrou o pulso de Su Wanqing e mergulhou na poeira. Estilhaços cortaram suas bochechas, sangue morno misturando-se com terra escorrendo para o canto de sua boca, o sabor salgado e metálico e o gosto de terra explodindo na base de sua língua. Mais sons densos de bestas rompendo o ar vieram de trás, várias passando raspando por sua nuca, cravando-se na porta de madeira do outro lado, as penas da cauda ainda tremulando.
Saindo da poeira, diante deles estava o beco atrás da tinturaria.
Estreito, úmido, paredes laterais cobertas de musgo escorregadio. O fim do beco estava bloqueado por entulhos, um beco sem saída.
O coração de Lin Yi afundou.
Passos vieram da entrada do beco, nem apressados nem lentos, como caçadores cercando a presa. Ele olhou para trás e viu o Verdadeiro Mestre Xuanyin já ter pulado do telhado, aterrissando na entrada do beco. O velho taoíst
Uma mão estendeu-se da escuridão, enrugada, coberta de manchas senis, e acenou freneticamente para Lin Yi.
Era Mo Chen.
As pupilas de Lin Yi se contraíram. Como ele estava aqui? Quando ele havia preparado essa passagem secreta?
Não havia tempo para pensar.
O Verdadeiro Mestre Xuanyin obviamente também percebeu a anomalia. As correntes cinzentas e brancas aceleraram abruptamente, como cobras venenosas, atacando Lin Yi e Su Wanqing! Antes mesmo que as correntes chegassem, a pressão congelante da energia espiritual já sufocava a respiração de Lin Yi.
"Vai!"
Lin Yi usou toda sua força restante para empurrar Su Wanqing para dentro da fenda. Ela tropeçou e caiu na escuridão. Ele próprio se espremeu para o lado, e mal sua parte traseira deixou a abertura quando a parede de tijolos se fechou com um estrondo.
As correntes colidiram contra a parede, emitindo um guincho metálico de metal raspando pedra.
Escuridão.
Escuridão absoluta, com cheiro de terra e mofo. Lin Yi não conseguia ver nada, só ouvia sua própria respiração ofegante e a tosse reprimida de Su Wanqing. Uma mão enrugada e ossuda agarrou seu pulso, com força considerável, arrastando-o para frente.
"Venerável..." Lin Yi sussurrou, a voz rouca.
A mão apertou a dele com força, sinalizando para ficar quieto.
Eles tropeçaram na escuridão. Sob seus pés, um caminho de terra irregular, ocasionalmente pisando em ossos quebrados ou fragmentos de cerâmica, que estalavam com um som nítido. O ar ficava cada vez mais pesado, com o frio e a umidade peculiares do subsolo. O braço esquerdo de Lin Yi ainda ardia, e os padrões dourados escuros emitiam um brilho fraco na escuridão, iluminando uma pequena área à frente — as costas curvadas de Mo Chen.
Após caminhar por cerca do tempo de meia vareta de incenso, uma luz fraca apareceu à frente.
Era uma saída, aberta na base da parede de outro beco, semi-escondida por uma pilha de cestos de bambu abandonados. Mo Chen saiu primeiro, olhando cautelosamente para os lados, e então acenou.
Lin Yi ajudou Su Wanqing a sair rastejando.
O céu já clareava. Este beco era ainda mais estreito, com paredes baixas de casas populares em ambos os lados, a base das paredes amontoada com lixo e penicos, exalando um fedor nauseante de comida azeda. Ao longe, chegava o barulho indistinto do mercado matinal, mas o beco estava vazio.
Temporariamente seguro.
Lin Yi sentou-se encostado na parede, seu peito subindo e descendo violentamente. Cada respiração puxava o ferimento sob suas costelas, doendo tanto que sua visão escurecia. Su Wanqing deslizou para o chão, seu rosto pálido de forma assustadora. Ela cobria a boca, sangue novamente escorrendo por entre seus dedos.
Mo Chen agachou-se, seus dedos ossudos traçando rapidamente caracteres na poeira do chão.
As palavras apareceram:
"Três li a leste, entrada do mercado de vegetais. Misturem-se à multidão do mercado matinal, podem evitar perseguição temporariamente."
Lin Yi encarou aquela linha de palavras, então ergueu os olhos para Mo Chen. O rosto do velho não mostrava expressão, mas seus olhos eram profundos, profundos como pedras no fundo de um lago.
"Vamos juntos," disse Lin Yi, a voz rouca. "Depois de sair da cidade, nos separamos."
Mo Chen balançou a cabeça.
Ele escreveu novamente:
"Eu fico para trás. As correntes de Xuanyin precisam ser contidas, senão vocês não passarão de três ruas."
"Não!" Lin Yi agarrou abruptamente o pulso de Mo Chen, com tanta força que o velho franziu a testa. "Se alguém fica, sou eu! Você leva Wanqing!"
Mo Chen olhou para ele, a expressão complexa. Havia compaixão ali, determinação, e uma espécie de calma quase mártir que Lin Yi não conseguia decifrar. O velho lentamente retirou a mão e continuou escrevendo:
"Ziyuan, você é a centelha."
Os traços eram fortes, arranhando a poeira.
"A centelha precisa ser preservada. Este velho corpo decadente servirá de lenha."
Os olhos de Lin Yi instantaneamente ficaram vermelhos. "
Ele olhou para as costas de Mo Chen, para aquela figura que parecia especialmente frágil sob a luz da madrugada, mas que, ao mesmo tempo, se erguia como uma montanha, bloqueando o caminho dos perseguidores. Uma imensa culpa e um sentimento de impotência o afogaram como uma maré. Algo ficou preso em sua garganta, quente e dolorido, quase fazendo-o vomitar.
Uma mão agarrou seu braço.
Era Su Wanqing. Ela havia se levantado sem que ele percebesse, seu rosto pálido como papel, sangue ainda manchando o canto de sua boca, mas seus olhos brilhavam com uma intensidade assustadora. Ela agarrou Lin Yi com força, as unhas quase cravando-se em sua carne, e sua voz, rouca, soou clara e nítida:
"Vá! Não deixe que o mestre... tenha desperdiçado seu sacrifício!"