Capítulo 20: Aroma de Chá na Sala Sombria
Sob o curativo em seu braço esquerdo, a pomada penetrava na pele. Aquela sensação levemente fria, com um leve ardor, era como uma agulha fina, constantemente relembrando Lu Chenzhou do emboscada de horas atrás. O eco das palavras de Qin Wangshu no corredor do hospital — "Tome cuidado" — ainda ecoava em seus tímpanos. Ele não foi para casa, sentando-se diretamente em um banco do lado de fora da sala de emergência até o amanhecer. Ao amanhecer, a tela do celular acendeu.
A mensagem de Gu Zhixing era breve, a redação tão educada quanto um documento impresso: «Sr. Lu, o Sr. Shen Yan convida-o para uma conversa em seu escritório às três da tarde, para degustar um novo chá e discutir o progresso da investigação.»
Nenhuma pergunta, nenhum espaço para negociação. Até a pontuação transparecia uma rigidez inquestionável.
Às duas e cinquenta da tarde, Lu Chenzhou parou diante da pesada porta de madeira laqueada de preto de Shen Yan. A aldrava era de latão, gravada com intricados padrões de nuvens, gelada e cortante ao toque. Ele tocou a campainha, e de dentro veio um leve som eletrônico de destravamento. A porta deslizou automaticamente para dentro, abrindo uma fenda que permitia a passagem de uma pessoa.
O vento no pátio parou. As folhas de bambu, imóveis, pendiam dos galhos como lâminas verdes solidificadas. No ar havia um aroma excessivamente limpo, uma mistura de terra e fragrâncias caras, sem nenhum traço do burburinho mundano. A estrada de lajes de pedra azul sob seus pés estava polida como um espelho, refletindo o céu sombrio. O céu tinha uma cor estranha, entre o cinza e o chumbo, pressionando baixo.
Ele atravessou o pátio. Cada passo caía exatamente no centro da junção das lajes, sem desvio.
A porta do escritório estava entreaberta. Um aroma mais complexo escapava pela fresta — o leve azedume peculiar do papel de livros antigos, o doce e enjoativo aroma oculto da madeira *Huanghuali* de Hainan de alta qualidade, e um fio muito tênue de sândalo, quase ofuscado pelos dois primeiros. Era o cheiro do poder, decantado pelo tempo, elegante, pesado, com uma exclusividade inquestionável.
Lu Chenzhou empurrou a porta e entrou.
Shen Yanqing estava de costas para a porta, diante de uma ampla mesa de trabalho de madeira de jacarandá, vertendo água de um pequeno bule de argila roxa em duas xícaras de porcelana branca. A água estava fervendo, emitindo um leve "sibilo" ao atingir o fundo das xícaras, imediatamente absorvido pelas paredes macias de porcelana, transformando-se em vapor branco ascendente. O líquido âmbar do chá jorrava do bico do bule, formando um redemoinho no fundo da xícara, sua cor indo do claro ao escuro, como a luz do crepúsculo que gradualmente se apaga.
"Chegou." Shen Yanqing não se virou, sua voz serena, até mesmo com um toque de calor caseiro. "Sente-se. É o Longjing pré-Qingming deste ano, um amigo acabou de trazer de Hangzhou. Prove."
Lu Chenzhou caminhou até a cadeira de madeira *Huanghuali* em frente à mesa de trabalho, mas não se sentou imediatamente. Seu olhar percorreu rapidamente todo o espaço.
No canto superior esquerdo da mesa, um peso de papel de nefrita de Hotan, do tamanho de meio palmo, pressionava algumas páginas amareladas de papel *xuan*. As bordas do papel estavam levemente enroladas, a tinta era antiga. À direita da mesa, encostada na parede, havia uma estante de antiguidades que ia do chão ao teto, exibindo de forma irregular porcelanas, bronzes e alguns pergaminhos isolados sob capas de vidro. Na terceira prateleira da estante, próximo ao canto interno, havia uma escultura de jade verde de um *Pixiu*. Os olhos do *Pixiu* estavam voltados exatamente para a posição onde ele estava agora.
Nos quatro cantos do teto havia holofotes embutidos. No momento, apenas o acima da mesa de trabalho estava aceso, a luz concentrada, iluminando cada detalhe do movimento de Shen Yanqing ao servir o chá, enquanto o resto da sala afundava em sombras mais profundas. O olhar de Lu Chenzhou pousou bre
O vapor quente sobre a superfície do chá turvou o ar entre os dois.
Lu Chenzhou não tocou na xícara. A ponta dos dedos bateu levemente, inconscientemente, no braço liso da poltrona, parando imediatamente depois. Seu olhar pousou sobre o polegar esquerdo de Shen Yanqing, que esfregava o anel. Aquele jade estava sendo girado lentamente, a um ritmo constante, nem rápido nem lento.
"Shen Xiansheng me chamou não apenas para tomar chá, certo?" Lu Chenzhou falou. A frase era curta, usava linguagem respeitosa, mas o tom final era seco, sem deixar espaço para ambiguidades.
Shen Yanqing tomou um gole de chá, seu pomo de adão moveu-se, e ele colocou a xícara de volta. "Naturalmente. É sobre o progresso do caso de Zhao Mingcheng." Enquanto falava, seu olhar não estava completamente focado no rosto de Lu Chenzhou, mas levemente desviado, observando o papel xuan aberto sobre a escrivaninha, como se admirasse a caligrafia nele. "Ouvi dizer que você correu para vários lugares nos últimos dias. O beco atrás do Arquivo... e a área perto da antiga fábrica de algodão no oeste da cidade?"
O quarto parecia encolher a cada respiração. As paredes pareciam se fechar silenciosamente, lentamente.
O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se extremamente sutilmente. Apenas ele próprio podia sentir aquele leve puxão muscular, como se tivesse sido picado por uma agulha invisível. O polegar e o indicador de sua mão direita, apoiada no braço da cadeira, esfregaram-se inconscientemente um contra o outro, simulando o movimento de desmontar uma caneta. Mas agora ele não tinha nada nas mãos.
"Para construir um quadro completo das relações sociais da vítima, é necessário verificar todos os locais possivelmente relacionados." Lu Chenzhou disse, a velocidade da fala ainda uniforme, cada palavra parecia ter sido pesada. "O Arquivo mantém alguns registros comerciais antigos, que podem estar relacionados aos negócios iniciais de Zhao Mingcheng. Perto do antigo local da fábrica de algodão, há um armazém que um de seus parceiros de negócios, já falido, costumava alugar. Todos esses são passos necessários."
"Passos necessários..." Shen Yanqing repetiu essas quatro palavras, o tom prolongado. A velocidade com que seu polegar esquerdo esfregava o anel não mudou. Mas Lu Chenzhou notou que a ponta do dedo indicador direito do outro homem bateu levemente no braço da cadeira de mogno. Muito leve, quase inaudível, mas era um ponto de ritmo claro. "Também ouvi dizer que você encontrou um pouco de 'problema' no beco atrás do Arquivo."
Não era uma pergunta. Era uma afirmação.
Lu Chenzhou ergueu os olhos, encontrando verdadeiramente o olhar de Shen Yanqing pela primeira vez. Aqueles olhos, nas sombras da luz da lâmpada, não revelavam muita emoção, apenas uma calma profunda como um lago. "Fui atacado." Ele admitiu, sem rodeios. "O oponente era habilidoso, profissional, o objetivo era claro: um aviso."
"Aviso sobre o quê?"
"Aviso de que arquivos antigos, uma vez queimados, desaparecem." Lu Chenzhou repetiu aquela frase palavra por palavra. Ela já havia rolado incontáveis vezes em sua mente, e agora, ao ser dita, sua voz ainda não mostrava ondulações, como se estivesse lendo um relato de cena entediante.
Shen Yanqing ficou em silêncio por alguns segundos. No escritório, restava apenas o som extremamente fraco do ar fluindo pelas narinas, e o tique-taque distante e indistinto de algum pêndulo de relógio. O som era regular, um tique, depois outro, como se medisse o comprimento daquele silêncio.
"Arquivos antigos..." Shen Yanqing finalmente falou, seu polegar parou de esfregar o anel, apenas repousando levemente sobre ele. "Você se refere aos arquivos antigos de Zhao Mingcheng, ou..." Ele fez uma pausa, seu olhar como uma sonda invisível percorrendo o rosto de Lu Chenzhou, "a outros arquivos antigos?"
A pressão mudou de forma. Não mais difusa no ar, condensou-se em uma agulha, suspensa entre as sobrancelhas de Lu Chenzhou.
A respiração de Lu Chenzhou não se desordenou. Mas no fundo de seu peito, aquela picada proveniente do ferimento, temporariamente suprimida pela pomada, de repente tornou-se clara. Espalhou-se pelos vasos sanguíneos como água escura, sub
Ele enfrentou o olhar de Shen Yanqing, sem se desviar. Nas profundezas de suas pupilas, sob a superfície gelada reprimida por tanto tempo, finalmente algo rachou lentamente, abrindo uma fenda. Não era raiva, nem medo, mas uma determinação quase gélida — um rio que atravessa uma pedra não precisa de ondas turbulentas, mas da força constante, dia após dia, direcionada com precisão ao mesmo ponto.
Gentileza era inútil. Então, era preciso enfrentar de frente.
Sua mão no apoio do braço fechou-se lentamente em punho. As unhas enterraram-se na palma, trazendo uma dor clara, que era sua. Essa dor suprimiu a queimação ilusória do ferimento, e também suprimiu o frio negro que subia em seu peito como água escura.
"Shen Yansheng," Lu Chenzhou falou, sua voz mais baixa e mais firme do que antes, "o senhor me chamou para investigar um caso. E investigar um caso tem sua própria lógica."
O ritmo com que Shen Yanqing acariciava o anel de jade mudou.
Aquele dedo envelhecido originalmente apenas desenhava círculos lentos, quase contemplativos, sobre a superfície da jade. Mas quando Lu Chenzhou pronunciou as palavras "mapa de relações sociais", o movimento circular parou.
Então, a articulação do dedo começou a bater levemente, uma vez, outra vez.
O som da batida era suave, abafado pelo espesso apoio de braço de mogno vermelho, como o tique-taque de um antigo cronômetro. Mas Lu Chenzhou o ouviu. O músculo no canto de seu olho esquerdo contraiu involuntariamente.
"Mapa de relações sociais." Shen Yanqing repetiu, sua voz ainda gentil, até com um toque de admiração. "Uma terminologia muito profissional. Lembro que você, naquela época... quando estava na delegacia, era bom em desenhar essas coisas."
Ele pegou a xícara de chá e deu um gole. O líquido âmbar rolou em sua garganta, produzindo um leve som de deglutição.
"No entanto," ele colocou a xícara de volta, o fundo tocando a mesa de jacarandá com um 'toc' nítido, "lembro que te chamei para investigar a causa da morte do meu filho, Zhao Mingcheng. Não para você desenhar qualquer... mapa."
O aroma de sândalo no ar parecia ter ficado mais intenso.
Ou talvez fosse outro odor que se sobrepôs — um cheiro mais antigo, uma mistura de papel e mofo, que emanava das estantes de livros que chegavam ao teto, nas quatro paredes do estudo. Aqueles livros antigos, aqueles livros-caixa encadernados com requinte, aqueles dossiês silenciosos. Eles testemunharam muitos negócios, muitos segredos, muitos ossos enterrados pelo tempo.
Agora, eles também testemunhavam este.
A xícara de chá de Lu Chenzhou já estava completamente fria. A temperatura transmitida pela porcelana era quase a mesma daquela de sua nova ferida no braço — ambas eram aquele frio persistente, grudado na pele. Ele colocou a xícara de volta, devagar, certificando-se de que o fundo não fizesse nenhum som.
"A causa da morte de Zhao Mingcheng," ele começou, sua voz estável como se estivesse lendo um laudo de necropsia, "não é isolada."
Shen Yanqing não respondeu. Apenas olhou para ele, o dedo ainda batendo.
Uma vez. Outra vez.
"Mas," a voz de Shen Yanqing ficou ainda mais baixa, quase sussurrada, "a partir de amanhã, Gu Zhixing irá acompanhá-lo. Ele esteve no local, conhece a situação, e pode lhe fornecer 'a assistência necessária'."
As articulações dos dedos de Lu Chenzhou ficaram tensas. Assistência. Vigilância.
O ritmo com que Shen Moqing batucava o braço da poltrona com o dedo indicador parou. "Ao mesmo tempo," Shen Yanqing endireitou-se, tirou uma pasta de arquivo de papel pardo da gaveta, mas não a entregou imediatamente, segurando-a sobre a mesa com a ponta dos dedos, "aqui está parte dos dados sobre as 'pessoas marginais' que você pediu." Ele pegou sua própria xícara de chá, há muito fria, deu um gole e só então falou lentamente, sua voz sem emoção aparente: "Sr. Lu, chamei-o aqui para investigar a causa da morte do meu neto, Zhao Mingcheng. Não para que você revire contas antigas, muito menos para lhe dar um cheque em branco para cavar a sepultura dos Shen."
"Para encontrar o verdadeiro culpado, é preciso esclarecer as contas antigas." A voz de Lu Chenzhou era estável, mas cada palavra soava como uma cunha, cravando-se na fenda cada vez mais estreita entre os dois. "A morte de Zhao Mingcheng não é um evento isolado. É o resultado, não a causa. O assassino está no centro de uma teia; cortar qualquer fio não o atinge. É preciso encontrar o ponto onde o nó foi feito pela primeira vez."
"Pela primeira vez?" Shen Moqing colocou a xícara de chá sobre a mesa, a porcelana tocando a madeira de jacarandá com um som leve e nítido. "Você se refere ao incêndio de dez anos atrás, ou ao acidente... ainda mais antigo, do meu filho Shen Yan?" O ar subitamente ficou tenso. Lu Chenzhou sentiu a borda da pasta de arquivo sob o braço, pressionando contra as costelas, transmitindo uma sensação clara de algo duro. Ele manteve a postura ereta, nem mesmo a frequência de sua respiração mudou. "Refiro-me a todos os eventos de fundo que possam estar associados a Zhao Mingcheng e constituir um motivo para o assassinato. Na lógica da investigação criminal, isso se chama verificação básica. Pular esta etapa torna qualquer conclusão um castelo no ar."
"Verificação básica." Shen Moqing repetiu as quatro palavras, como se mastigasse um fruto duro. "Então você insiste em investigar Wu Guodong — um inútil espancado até quase a morte por dívidas de jogo. Em investigar Li Weidong — um ex-guarda de segurança morto há três anos num acidente de carro. E ainda quer acessar todas as mudanças de pessoal e fluxos financeiros da Mingcheng International dos últimos cinco anos."
Ele ergueu os olhos, seu olhar como um bisturi. "Sr. Lu, sua 'base' não estaria com um escopo um pouco grande demais?"
"Não é grande." Lu Chenzhou enfrentou seu olhar. "Wu Guodong foi colega de Zhao Mingcheng no ensino médio. Há três anos, através da relação com Zhao Mingcheng, entrou no departamento de projetos da Mingcheng International. Há três meses foi demitido por desviar fundos de reserva do projeto. Quem o demitiu foi exatamente Zhao Mingcheng. Li Weidong foi um dos primeiros guardas de segurança quando a Mingcheng International foi construída. Ele estava de serviço na noite do incêndio, deixou o emprego menos de seis meses depois e morreu há três anos num acidente de carro com fuga do local, caso até hoje não solucionado." Ele fez uma pausa, deixando a informação assentar. "Duas pessoas marginais aparentemente desconectadas, ambas têm pontos de interseção com Zhao Mingcheng e ambas sofreram 'acidentes' após um determinado momento. Isso não é coincidência, é um padrão. E padrão é a impressão digital do assassino."
Shen Moqing ficou em silêncio. Recostou-se na cadeira, todo seu corpo mergulhado na sombra, apenas seus olhos ainda refletindo a fraca luz da lâmpada de mesa. O dedo indicador começou a bater no braço da poltrona novamente, desta vez num ritmo mais lento, mais pesado, cada batida como o tique-taque de um ponteiro de segundos
Outro longo silêncio pairou. Lá fora, o céu havia mergulhado completamente num azul-escuro quase negro. A única fonte de luz no estudo era a luminária de mesa, que esticava e distorcia as sombras dos dois homens, projetando-as sobre as lombadas dos livros que cobriam a parede, como duas silhuetas em confronto. O aroma residual das cinzas do incenso de sândalo, misturado com o ar pesado do papel velho e da madeira envelhecida, pressionava os pulmões. Shen Moqing de repente riu. A risada foi leve, curta, sem nenhum traço de alegria, mais parecendo uma confirmação.
"Você está me encurralando, Sr. Lu."
"Estou apenas apresentando um julgamento profissional", Lu Chenzhou corrigiu, mas não recuou. "O trabalho de investigação criminal é como desarmar minas terrestres. Você pode escolher desarmar apenas a que está visível, mas se não desenterrar o detonador enterrado, ela vai explodir mais cedo ou mais tarde. A única diferença é quem vai morrer na explosão: quem está desarmando a mina, ou quem está apenas observando ao lado."
"Você tem jeito com as palavras", disse Shen Moqing, seu olhar agora completamente gelado. "E também sabe muito bem como embrulhar seus interesses pessoais."
Finalmente chegou ao ponto. O coração de Lu Chenzhou apertou, mas seu rosto permaneceu impassível.
"Interesses pessoais?"
"Reabrir o caso." Shen Moqing cuspiu essas duas palavras como se fossem pedaços de gelo. "O incêndio de dez anos atrás matou três pessoas, uma delas seu pai, Lu Wenyuan. O caso foi encerrado na época, acidente, ninguém responsabilizado. Mas você nunca acreditou nisso, não é mesmo?" Ele encarou Lu Chenzhou, seu olhar parecendo querer rasgar a pele e ver diretamente os ossos. "Por isso você aceitou minha solicitação. Na superfície, é para investigar Zhao Mingcheng, mas na verdade você quer usar a influência da família Shen para forçar a reabertura daquela porta selada."
O ar no estudo congelou. Lu Chenzhou conseguia ouvir o som do próprio sangue fluindo, zumbindo em seus tímpanos. A pasta de arquivos debaixo do braço ficou escaldante, como se fosse queimar o tecido a qualquer momento. Ele manteve a postura inclinada para frente, sem nem mesmo piscar os cílios.
Cinco longos segundos se passaram.
Então, ele lentamente se recostou na cadeira. O movimento foi lento, deliberado, quase provocativamente descontraído.
"Sim", ele admitiu, sua voz calma como se estivesse discutindo o tempo. "Quero reabrir o caso. Esse é um dos meus motivos para aceitar sua solicitação." Ele ergueu os olhos, encarando Shen Moqing diretamente. "Mas motivação não afeta a profissionalidade. Pelo contrário, justamente porque quero reabrir o caso, vou investigar a morte de Zhao Mingcheng com mais empenho do que qualquer outra pessoa — porque as raízes desses dois eventos provavelmente estão entrelaçadas. Descobrir a verdade por trás da morte de Zhao Mingcheng pode levar à verdade sobre o incêndio. E encontrar a verdade sobre o incêndio é que pode explicar por que alguém precisava que Zhao Mingcheng morresse." Ele fez uma pausa, deixando a cadeia lógica se desdobrar completamente. "Portanto, Sr. Shen, não estamos em lados opostos. Pelo menos neste assunto, nossos objetivos são os mesmos: encontrar o verdadeiro culpado. A única diferença é que você pode querer encontrar apenas o assassino de Zhao Mingcheng, enquanto eu quero encontrar... a origem de todos os culpados." Sua voz desacelerou, mas cada palavra ficou mais pesada. "Mas a origem é apenas uma. Se a pegarmos, todos os nós podem ser desfeitos."
Shen Moqing não respondeu imediatamente. Ele girou o anel de polegar em seu dedo, a suave luz da jade fluindo entre seus dedos. A auréola da luminária
"Esse é o limite, não há espaço para negociação."
"Segundo," Shen Moqing inclinou-se para frente, a luz da luminária finalmente iluminando completamente seu rosto — uma face sem expressão alguma, apenas uma sensação absoluta e inquestionável de controle, "se durante a investigação você tocar em qualquer pista relacionada a Shen Yan, ou aos interesses centrais da família Shen, deve parar imediatamente e me reportar pessoalmente. Eu decidirei se continuamos, e como continuamos." Ele fez uma pausa e acrescentou: "A interpretação do que constitui 'interesses centrais' aqui, fica a meu critério."
As condições eram rigorosas como algemas. Mas Lu Chenzhou sabia que isso era a maior concessão que Shen Moqing poderia fazer — trocar um espaço limitado de investigação por uma vigilância transparente e um poder de veto final. Ele ficou em silêncio por dois segundos, então acenou com a cabeça.
"Pode ser."
"Muito bem." Shen Moqing endireitou-se, tirou do gavetão a pasta de papel pardo e, desta vez, em vez de atirá-la, empurrou-a suavemente para o centro da mesa. "As informações sobre Wu Guodong e Li Weidong estão todas aí. Incluindo alguns detalhes que não constam nos relatórios policiais." Ele ergueu os olhos. "Esta é minha demonstração de boa-fé, Sr. Lu. E também sua régua — meça com clareza o que deve tocar e o que não deve."
Lu Chenzhou estendeu a mão e pegou a pasta. A textura áspera do papel pardo arranhava suas pontas dos dedos; as bordas estavam um pouco gastas, a abertura amarrada com um cordão de algodão vermelho, feito um nó simples. A pasta era mais pesada do que ele esperava; claramente continha mais do que algumas folhas de papel. Ele apertou-a, sentindo a espessura do papel e algo duro dentro — talvez um pen drive, ou uma chave.
"Você pode levar os documentos," disse Shen Moqing, seu tom voltando à placidez inicial. "Gu Zhixing está esperando por você no pátio. Ele o levará para ver o local do incidente na Mingcheng International — embora já tenha sido limpo várias vezes, talvez você consiga descobrir algo." Ele pegou o chá já frio e ergueu-o levemente em direção a Lu Chenzhou, como num gesto ritual de despedida. "Lembre-se do que eu disse, Sr. Lu. Cada centímetro de progresso deve ser-me comunicado. Isto é uma transação, não um favor."
"Entendido." Lu Chenzhou prendeu a pasta sob o braço, levantou-se e inclinou levemente a cabeça. Virou-se e dirigiu-se à porta do estudo. Quando sua mão agarrou a maçaneta de latão, a sensação fria e dura na palma o manteve alerta.
"Sr. Lu." A voz de Shen Moqing veio de trás dele.
Lu Chenzhou parou, sem se virar.
"Você é um homem inteligente," disse Shen Moqing, seu tom uniforme, como se estivesse afirmando um fato objetivo. "Homens inteligentes deveriam saber que, ao puxar certos fios, pode-se acabar trazendo sangue à tona."
Lu Chenzhou apertou a maçaneta com mais força.
"Estou investigando um homicídio, Sr. Shen," disse ele, a voz baixa, mas cada palavra clara. "Em um homicídio, já há sangue."
Ele girou a maçaneta e saiu.
A luz no corredor era um pouco mais clara do que no estudo, mas o ar estava igualmente parado. Lu Chenzhou não desceu as escadas imediatamente; ficou parado na porta, respirando fundo. Seus pulmões se encheram do aroma característico da mansão antiga — uma mistura de poeira e cera de madeira. A pasta sob seu braço era pesada, como um bloco de gelo pressionando suas costelas.
Ele tinha vencido. Conquistara espaço para investigar, uma liberdade limitada. Mas o preço era a exposição completa à visão de Shen Moqing, cada passo monitorado, cada descoberta compartilhada. E Shen Moqing já deixara claro sua verdadeira intenção — reabrir o caso. A partir de agora, não poderia mais contar com a sorte. Cada um de seus movimentos seria examinado sob uma lupa, interpretado com duplo significado.
Ele ergueu a mão esquerda e olhou para a palma. As marcas em forma de meia-lua deixadas pelas unhas já estavam avermelhadas, levemente inchadas. A dor era clara. Isso era bom. A dor mantinha uma pessoa alerta.
Ele caminhou pelo
Lu Chenzhou olhou para ele, observou por vários segundos antes de estender a mão e pegar. A sacola de papel era leve, mas ao segurá-la, havia uma sensação densa e pesada. Como um pedaço de ferro incandescente, que queima a mão, mas não pode ser jogado fora.
"Shen Yansheng disse que o senhor poderia precisar." Gu Zhixing complementou, sem nenhuma explicação extra ou emoção em seu tom, "Dentro estão informações detalhadas sobre Wu Guodong, incluindo os lugares que ele frequenta recentemente e as pessoas com quem tem contato. E também algumas... informações de contexto que podem ser úteis para o senhor."
Lu Chenzhou apertou a pasta de arquivos.
A textura áspera do papel arranhou suas pontas dos dedos; dentro parecia haver mais do que apenas algumas folhas — algo duro, como fotos ou documentos.
Ele não abriu.
Apenas prendeu a pasta de arquivos sob o braço e continuou caminhando adiante. Atravessou o pátio, o caminho de paralelepípedos emitindo um leve ruído de atrito sob seus pés. As lanternas de pedra dos dois lados emitiam uma luz amarelada e fraca, projetando as sombras dos bambus no chão, oscilando instáveis, como inúmeros olhos bisbilhoteiros.
Ao chegar ao portão principal, Gu Zhixing falou novamente:
"Sr. Lu."
Lu Chenzhou parou, mas não se virou.
"Shen Yansheng também me pediu para transmitir uma mensagem ao senhor." A voz de Gu Zhixing no vento noturno parecia especialmente clara, "Ele disse... 'A linha pode ser esticada, mas o fio da pipa, no final das contas, está nas mãos de quem a solta.'"
Dito isso, ele inclinou levemente o corpo, fazendo um gesto de "por favor".
"Amanhã às oito da manhã, estarei esperando no térreo da sua residência."
Lu Chenzhou não respondeu.
Ele apenas empurrou o pesado portão de ferro e saiu. O portão se fechou lentamente atrás dele, as dobradiças de metal emitindo um prolongado e estridente "chiado", como o lamento de algum antigo instrumento de tortura.
A rua estava deserta.
Os postes de iluminação lançavam uma luz pálida e branca sobre o asfalto; ao longe, um carro noturno passava, o som dos pneus atritando o solo aproximando-se e depois distanciando-se, até finalmente desaparecer na profundidade da noite.
Lu Chenzhou ficou parado à beira da rua, por um longo tempo.
O vento noturno passou, levantando algumas folhas caídas do chão, que rodopiaram e voaram para longe. Ele baixou a cabeça, olhando para a pasta de arquivos de papel pardo sob seu braço. Sob a luz amarelada dos postes, as marcas de desgaste nas bordas da sacola estavam particularmente nítidas.
Como uma cicatriz.
Ele levantou a mão, tocou o ferimento recém-enfaixado em seu braço esquerdo. A dor sob a gaze ainda estava lá, latejando, lembrando-o da emboscada de algumas horas atrás, lembrando-o dos olhos invisíveis por trás dele, lembrando-o do que essa "sinceridade" que ele agora segurava nas mãos realmente significava.
A linha pode ser esticada.
Mas o fio da pipa, no final das contas, está nas mãos de quem a solta.
Ele puxou o canto da boca, formando uma curva que não continha nenhum sorriso. Então se virou e caminhou em direção ao outro lado da rua.
Seus passos eram firmes.
Um passo, outro passo.
Como se estivesse medindo essa fronteira invisível que acabara de ser traçada.
Lu Chenzhou atravessou o corredor externo ao estudo, as solas de seus sapatos emitindo um eco vazio "toc, toc" sobre as lajes de pedra azul. A ferida em seu braço esquerdo latejava discretamente sob a manga, como uma corda de instrumento musical enterrada na carne, vibrando suavemente com as pulsações. Ele não caminhava rápido, cada passo calçando precisamente na junta dos ladrilhos, como se estivesse medindo a distância entre ele e aquele estudo.
O crepúsculo já se condensara em escuridão impenetrável.
As lanternas de pedra no pátio ainda não estavam acesas, os contornos das rochas ornamentais e dos bambuzais fundiam-se em uma sombra densa e constantemente movediça. No ar havia a umidade da vegetação trazida pela brisa noturna, e também um leve e
O rosto de Lu Chenzhou não mostrava nenhuma expressão. Ele apenas ficou de pé, a mão direita no bolso da calça, a esquerda pendurada naturalmente ao lado do corpo — era o braço ferido, mas ele não fazia nenhum gesto de proteção, como se aquele braço não lhe pertencesse.
"Assistente?" Lu Chenzhou repetiu a palavra, o tom de voz absolutamente plano.
"Sim. Um investigador experiente, que se apresentará na sua residência amanhã às nove da manhã." Gu Zhixing sorriu, um sorriso sem qualquer calor. "Ele o acompanhará integralmente em seu trabalho, incluindo, mas não se limitando a, inspeção de cena, coleta de informações e, quando necessário, segurança. Afinal—"
Ele alongou ligeiramente a última sílaba.
"—o senhor parece ter enfrentado alguns 'incidentes' recentemente. Shen Yansheng está muito preocupado com sua segurança."
A brisa noturna atravessou o portal redondo da lua, levantando algumas folhas secas e amareladas de bambu, que rodopiaram no chão. O som das folhas raspando contra a pedra azul era fino e contínuo, como um sussurro.
O olhar de Lu Chenzhou pousou sobre a pasta de arquivo na mão de Gu Zhixing. A abertura estava lacrada com um botão de papel enrolado em linha de algodão, e na lateral, escrita com caneta preta, havia uma linha de letras miúdas, tão rabiscadas que eram quase ilegíveis.
"E a segunda coisa?" ele perguntou.
Gu Zhixing estendeu a pasta de arquivo.
"São os dados preliminares de fundo sobre a pessoa 'Ma San' que o senhor mencionou anteriormente," disse ele. "Shen Yansheng me pediu para entregar ao senhor. Ele disse, 'já que o Sr. Lu acredita que esse Fang Mu tem valor, então vá investigar'. Mas—"
A pasta de arquivo parou no ar.
Lu Chenzhou não a pegou imediatamente. Ele olhou para a pasta, o papel pardo exibia um amarelo envelhecido, quase marrom, no crepúsculo. Era fina, provavelmente com a espessura de apenas uma dúzia de páginas, mas as bordas estavam levemente arredondadas pelo conteúdo.
"Mas o quê?" disse Lu Chenzhou.
A mão de Gu Zhixing não recuou. Ele manteve a postura de oferecer, os olhos atrás das lentes fitando Lu Chenzhou diretamente.
"Mas Shen Yansheng também me pediu para lembrá-lo." Sua voz baixou um pouco, cada palavra pronunciada com clareza. "Investigar um caso é uma coisa, reabrir um caso é outra. Essas duas coisas podem parecer semelhantes, mas sua essência é completamente diferente. Ele espera que o senhor... não as confunda."
O pátio agora estava completamente escuro.
À distância, as luzes da casa principal acenderam-se uma a uma, auréolas alaranjadas atravessando as janelas entalhadas, projetando fragmentos de luz sobre o caminho de pedra. Mas o canto do portal redondo da lua ainda estava imerso em sombras azul-acinzentadas, o rosto de Gu Zhixing meio claro, meio escuro, o reflexo nas lentes ocultando seus olhos.
Lu Chenzhou finalmente estendeu a mão e pegou a pasta de arquivo.
A sensação do papel pardo era áspera, com a secura característica do papel. Ele pesou-a na mão — era leve, tão leve que mal se sentia o conteúdo. Mas era exatamente essa pasta leve que, como um ferro em brasa, queimava sua palma.
"Qual o nome do assistente?" ele perguntou.
"O senhor saberá amanhã." Gu Zhixing retirou a mão, ajustando a manga do paletó. "Ele trará uma carta escrita pessoalmente por Shen Yansheng e uma carta de designação formal. A partir de amanhã, ele ficará de plantão vinte e quatro horas por dia, para garantir a 'progressão tranquila' de sua investigação."
"Vigilância." disse Lu Chenzhou.
Não era uma pergunta, era uma afirmação.
Gu Zhixing sorriu. Desta vez, o sorriso continha algo a mais — não era sarcasmo, nem presunção, mas algo mais profissional, um alívio por "finalmente ter sido dito".
"Sr. Lu, não há necessidade de ser tão direto," disse ele gentilmente. "Estamos todos trabalhando para o mesmo objetivo: descobrir a verdade. Apenas no método e na abordagem, talvez seja necessário algum... ajuste."
Lu Chenzhou não disse mais nada.
Ele colocou a pasta de arquivo debaixo do braço e virou-se para sair do pátio. Seus passos continuavam sem pressa, o som das solas dos sapat
O clamor da rua invadiu instantaneamente seus tímpanos — a buzina de um carro ao longe, os pregões dos vendedores ambulantes na calçada, o tilintar dos sinos de bicicletas, e a música popular de qualidade sonora ruim tocando em alguma loja desconhecida. Esses sons se misturavam, formando uma agitação áspera e vívida, em nítido contraste com o silêncio refinado e sufocante do interior de Shen Yan.
Lu Chenzhou parou na calçada e respirou fundo.
No ar havia o odor picante da fumaça dos escapamentos, o cheiro de óleo fritante emanando das barracas de comida de rua, e o leve aroma de grama liberado pelas árvores ao longo da rua durante a noite. Esses odores se misturavam, não eram agradáveis, mas eram reais. Tão reais quanto um tapa no rosto.
Ele baixou o olhar para a pasta de arquivo debaixo do braço.
O papel kraft, sob a luz amarelada dos postes da rua, refletia um brilho barato e sem textura. Aquela linha de escrita cursiva agora podia ser lida claramente — “Ma San – Investigação Preliminar de Antecedentes – Anexo Itinerário”. A letra era feita com uma caneta esferográfica preta comum, pressionada com tanta força que a ponta havia deixado sulcos afundados no papel.
Itinerário.
Os dedos da mão esquerda de Lu Chenzhou se contraíram involuntariamente. A ferida em seu braço esquerdo começou a latejar novamente, desta vez de forma mais definida, como se minúsculas serras estivessem cortando para frente e para trás entre as fibras musculares.
Ele seguiu caminhando pela rua.
Não chamou um carro, não foi para o ponto de ônibus, apenas caminhou. Seus passos eram um pouco mais rápidos do que quando estava em Shen Yan, mas ainda mantinham um ritmo contido. As luzes da rua esticavam, encurtavam e esticavam novamente sua sombra. A sombra se distorcia no chão, às vezes caminhando ao seu lado, outras vezes arrastando-se bem atrás, como um companheiro silencioso e inescapável.
Após caminhar cerca de vinte minutos, ele parou em um quarteirão.
Era uma casa de macarrão, com uma fachada estreita. Alguns traços das luzes de néon da placa estavam queimados, transformando “Restaurante de Macarrão do Velho Liu” em “Restaurante de um do Velho Liu”. A porta de vidro estava coberta por uma camada de gordura; através do vidro embaçado, podiam-se ver três ou quatro mesas simples dentro. Nesse momento, apenas uma mesa estava ocupada — por um homem de meia-idade em uniforme de trabalho, com a cabeça baixa, comendo um prato de macarrão e fazendo barulhos altos ao sorver.
Lu Chenzhou empurrou a porta e entrou.
O sino da porta emitiu um agudo “ding-dong”. O dono atrás do balcão levantou a cabeça; era um homem magro e seco de mais de cinquenta anos, com farinha e manchas de óleo no avental. Ele viu Lu Chenzhou, não disse nada, apenas acenou com a cabeça, virou-se e levantou a tampa de uma grande panela.
Vapor subiu instantaneamente.
A névoa branca carregava o aroma fresco do caldo de macarrão, a riqueza da banha de porco e um leve toque picante de cebolinha, atingindo-lhe o rosto. Aquele vapor quente e úmido trazia uma vitalidade simples, quase brutal.
Lu Chenzhou sentou-se em um banco perto da parede.
A mesa era de compensado barato, sua superfície coberta de arranhões e pontos pretos e queimados. Ele pegou dois lenços de papel, limpou a mesa e colocou a pasta de arquivo ao seu lado. O papel kraft parecia ainda mais velho sob a luz amarelada do tubo fluorescente, suas bordas já um pouco desgastadas e esfiapadas.
O dono se aproximou com uma tigela de macarrão.
Era uma tigela grande de cerâmica grossa, com um caldo límpido. Sobre o macarrão havia um pequeno monte de carne desfiada com picles de mostarda, alguns pedaços de cebolinha e uma colherada de torresmos de banha de porco, brilhantes e translúcidos. O vapor subia em espirais, formando uma fina cortina de névoa diante dos olhos de Lu Chenzhou.
“Hoje está tarde”, disse o dono ao colocar o macarrão na mesa, sua voz rouca.
“Hm”, respondeu Lu Chenzhou.
O dono não disse mais nada, virou-se e
Ele pegou um lenço de papel para limpar a boca, então tirou a carteira do bolso, pegou duas notas de dez yuans e as colocou sob a tigela. O dono deu uma olhada, não disse nada, apenas continuou a limpar seus pratos.
Lu Chenzhou se levantou e pegou o envelope de arquivo.
Ao empurrar a porta para sair, o sino na porta tocou "ding-dong" novamente. O barulho da rua mais uma vez invadiu, mas desta vez ele sentiu que aqueles sons estavam muito distantes, como se estivessem separados por um vidro grosso.
Ele parou um táxi.
Entrou, deu o endereço de sua residência temporária e então recostou-se no banco de trás, fechando os olhos. O motorista olhou para ele pelo retrovisor, como se quisesse puxar conversa, mas no final não disse nada, apenas ligou o rádio. A estação estava transmitindo um programa noturno de conversas, o apresentador contava histórias urbanas sobrenaturais em voz deliberadamente baixa, com efeitos sonoros de fundo sendo ventos vazios e choro quase imperceptível.
Lu Chenzhou não ouviu.
Sua mão esquerda permaneceu sobre o envelope de arquivo, as pontas dos dedos conseguiam sentir a textura áspera do papel kraft, e aquela borda sutil e picante das folhas. O envelope era leve, mas naquele momento parecia pesado como uma lápide.
O carro parou na entrada do velho bairro residencial.
Ele pagou, desceu e entrou no prédio de seis andares. A luz acionada por som no corredor estava quebrada, a escuridão envolvia cada passo como um líquido espesso. Ele subiu até o terceiro andar no escuro, tirou a chave e abriu a porta.
O quarto era pequeno, um dormitório e uma sala, os móveis tão simples que beiravam a austeridade. Mas a janela dava para a rua, à noite dava para ouvir o fluxo de carros, durante o dia a luz do sol entrava — esses "ter" insignificantes eram as únicas coisas reais que ele conseguira agarrar desde que saíra da prisão.
Ele ligou a luminária de mesa.
A luz amarelo-quente instantaneamente preencheu aquele canto da escrivaninha. Ele colocou o envelope de arquivo sob a luz, o papel kraft sob a iluminação revelava detalhes ainda mais nítidos: aquela linha de texto pequena na lateral, os sinais de desgaste na abertura do envelope, e no canto inferior direito, um número discreto escrito a lápis — "SMSQ-2023-043".
As iniciais de Shen Yanqing, o ano, o número de série.
Lu Chenzhou olhou para aquele número por alguns segundos, então desfez o fecho de papel enrolado com linha de algodão. O movimento foi lento, seus dedos não tremiam, mas a pele nas pontas dos dedos ficou levemente pálida devido à força.
A abertura do envelope foi aberta.
Ele tirou os documentos de dentro. De fato, eram apenas uma dúzia de páginas, a primeira página eram informações básicas de Ma San: foto, registro de residência, antecedentes criminais, relações sociais. O homem na foto tinha mais de quarenta anos, rosto quadrado, sobrancelhas franzidas, seus olhos tinham uma letargia e desconfiança moldadas por repetidas pancadas da vida.
Lu Chenzhou virou as páginas uma a uma.
As informações estavam organizadas de forma muito profissional, até excessivamente profissional — os extratos bancários de Ma San dos últimos três anos, resumos de registros de chamadas, lista de locais que frequentava, até mesmo em qual escola primária seu filho estudava, o nome da professora responsável, tudo estava listado com clareza. Isso não era uma investigação de antecedentes comum, era uma compilação de informações quase ao nível de vigilância.
Quando ele chegou à última página, seus dedos pararam.
Não eram informações sobre Ma San.
Era uma agenda impressa, com o título "Trajetória de atividades de Ma San na última semana (rastreamento preliminar)". A tabela era organizada por data e hora, registrando detalhadamente para onde o homem ia todos os dias, quem encontrava, quanto tempo ficava.
E a última linha era a agenda para amanhã à tarde:
【15:00-17:00 | Distrito Oeste da Cidade, Rua Guangming, número 127 (antigo local da Fábrica de Impressão Xinhua) | Observação: Encontro fixo semanal, identidade da outra parte desconhecida, dura aproximadamente 2 horas】
Rua Guangming, número 127.
A respiração de Lu Chenzhou parou por um instante.
Ele se lembrava daquele endereço — dez anos atrás, quando ele investigava aquele caso de assassinato político, um depoimento crucial de
Ele apenas olhou para o endereço circulado em vermelho, para a abertura da pasta de arquivos, para a sombra imóvel que ele projetava sobre a mesa. As bordas da sombra eram indistintas, fundindo-se com a escuridão, impossív