Capítulo 30: Bordas Desfiadas da Memória
O som "shuā shuā" do passo dado por Gu Zhixing era especialmente claro no silêncio morto da fábrica.
Lu Chenzhou não se moveu. Seu olhar passou por cima do ombro de Gu Zhixing e pousou na pequena porta pela qual Qin Wangshu havia saído. A porta estava entreaberta, uma fenda que deixava passar uma escuridão ainda mais profunda por trás. Poeira rodopiava lentamente nos raios de luz oblíquos, como um líquido espesso. O canto esquerdo de seu olho contraiu-se levemente, voltando imediatamente ao normal.
"O que o advogado Gu gostaria de ver?" Lu Chenzhou falou, sua voz tão estável que nenhuma emoção era perceptível. Ele se virou, não mais olhando para a porta, e redirecionou seu olhar para aquela sala meticulosamente recriada. "Cada objeto aqui parece ter sido copiado diretamente da minha memória. Até a espessura da poeira foi calculada."
Ele caminhou até a mesa de ferro e passou os dedos sobre a superfície. A poeira foi afastada, deixando uma marca clara e revelando o verniz vermelho-escuro por baixo. "Mas a cópia é muito precisa", continuou ele. "Precisa demais para ser real."
Gu Zhixing ajustou os óculos, seu olhar atrás das lentes seguindo os dedos de Lu Chenzhou. "O que o senhor Lu quer dizer?"
"Quero dizer que a memória falha", disse Lu Chenzhou, endireitando-se e batendo a poeira das mãos. "O ângulo da luz, a intensidade do cheiro, até mesmo a umidade do ar naquele momento — esses detalhes se deformam, ficam turvos, se interpenetram com o tempo. Mas aqui..." Ele olhou em volta. "Tudo aqui é muito claro, muito completo. Como um arquivo organizado, e não os fragmentos desordenados na mente de um ser vivo."
Ele fez uma pausa, seu olhar pousando na lancheira de plástico azul no canto.
"A verdadeira memória", disse Lu Chenzhou, pronunciando cada palavra com leveza, "tem bordas desfiadas."
Gu Zhixing ficou em silêncio por alguns segundos. Ele esfregou o anel de jade no polegar esquerdo, o movimento lento, uma vez, e outra. "Shen Yansheng costuma dizer que os detalhes determinam o sucesso ou o fracasso", ele finalmente disse, seu tom recuperando aquela suavidade profissional. "Talvez a pessoa que preparou este lugar tenha simplesmente dado atenção extra aos detalhes."
"Talvez", disse Lu Chenzhou, sem se comprometer. Ele caminhou até a única janela — ou melhor, a parede que parecia uma janela. A "moldura" na parede era feita de ripas de madeira pregadas, atrás das quais tijolos selavam a abertura. Ele estendeu a mão e tocou o local do "vidro"; a ponta dos dedos encontrou a superfície lisa e gelada de uma placa de acrílico. Atrás da placa, os minúsculos LEDs já estavam apagados, deixando apenas um vazio escuro.
"Três da tarde", disse Gu Zhixing de repente, olhando para o relógio no pulso. "O horário combinado está se aproximando."
Lu Chenzhou retirou a mão. A palma ainda retinha aquela sensação artificial e inerte do frio do acrílico. Ele se virou para Gu Zhixing. "Onde?"
"Na oficina principal. Shen Yansheng disse que lá é mais... aberto."
Aberto. Lu Chenzhou repetiu a palavra mentalmente. Significava sem lugar para se esconder, significava que tudo estaria à vista.
Daquela sala de interrogatório falsificada até a oficina principal, era preciso atravessar um corredor cheio de rolos de papel abandonados. O cheiro de tinta no ar estava mais forte, misturado com o odor mofado característico do papel úmido. A luz vazava pelas claraboias danificadas no alto, cortando manchas claras e escuras no chão.
Gu Zhixing caminhava meio passo à frente, o som de seus sapatos de couro no piso de cimento regular e claro. Lu Chenzhou seguia ligeiramente atrás e ao lado, seu olhar percorrendo as pilhas de rolos de papel em ambos os lados. A maioria dos rolos estava deformada, o papel pardo da superfície rachado, revelando jornais velhos amarelados e enrolados por dentro. O título de uma edição municipal de 1987 era visível, as letras borradas pela umidade, como manchas difusas de sangue.
Não era medo. Era outra coisa — uma vigilância instintiva diante de um mecanismo preciso. Ele sabia que estava caminhando para um palco cuidadosamente preparado, e a pe
Não era limpeza, era arrumação. As bordas do tecido não tinham fios desgastados, os botões estavam abotoados com meticulosidade, até mesmo as marcas de desgaste nos cotovelos, comuns, pareciam... uniformes. Como alguém que acabou de receber um uniforme novo, intencionalmente envelhecido, mas que ignorou o desgaste natural irregular do uso real.
O Velho K era canhoto. Por carregar peso no ombro por muito tempo, seu ombro direito ficaria um pouco mais baixo que o esquerdo, e ao ficar em pé, seu centro de gravidade inconscientemente se deslocaria para o pé direito. Mas a pessoa diante dele estava em pé muito ereta, com o centro de gravidade distribuído uniformemente entre os dois pés. Como uma escultura cuidadosamente calibrada.
Lu Chenzhou parou a cerca de cinco passos da pessoa.
Gu Zhixing não seguiu. Ele parou na porta, o corpo meio inclinado contra o batente, as mãos enfiadas nos bolsos das calças de terno. Uma postura de observador.
"Velho K." Lu Chenzhou falou. A voz não era alta, mas no galpão vazio produziu um leve eco.
O rosto. Era aquele rosto. Rosto quadrado, sobrancelhas grossas, uma pequena cicatriz antiga no lado esquerdo da ponte nasal — ferida por um suspeito com uma chave muitos anos atrás, durante uma captura. As marcas nos cantos da boca, as finas rugas nos cantos dos olhos, até mesmo a pequena pinta quase imperceptível na extremidade esquerda da sobrancelha — tudo correspondia.
Os olhos do Velho K eram turvos, com veias sanguíneas deixadas por anos de noites em claro e ansiedade, sempre com um brilho vigilante e pronto para fugir quando olhava para alguém. Mas os olhos diante dele eram claros demais. Claros a ponto de serem vazios. No instante em que encontraram o olhar de Lu Chenzhou, houve uma pausa extremamente breve — não uma flutuação emocional, mas como se algum programa estivesse reconhecendo, buscando e então extraindo um modo de reação apropriado.
Então, os cantos da boca da pessoa se esticaram em um sorriso. A curva do sorriso, a quantidade de dentes expostos, até mesmo o padrão das rugas acumuladas nos cantos dos olhos, tudo replicava perfeitamente a imagem na memória de Lu Chenzhou.
"Capitão Lu." A pessoa falou, a voz rouca, com a aspereza característica do Velho K, de excesso de fumo e álcool. "Há muito tempo."
Aperto de mãos. No instante em que as palmas se tocaram, ele capturou a segunda falha: a temperatura. As mãos do Velho K eram perenemente frias, mesmo no verão pareciam uma pedra úmida. Mas a mão que ele apertava agora tinha a temperatura padrão de trinta e seis graus e cinco — a temperatura corporal média humana, nem fria nem quente, perfeita. E o grau de secura. Devido à dermatite nervosa, as palmas do Velho K sempre suavam levemente, dando uma sensação pegajosa ao toque. Mas esta mão estava seca, lisa, como se tivesse sido passada uma fina camada de creme para as mãos.
"Há muito tempo." Disse Lu Chenzhou, soltando a mão. Seu tom era plano, como se estivesse cumprimentando um velho conhecido comum. "Pensei que você estivesse morto."
"Quase." A pessoa — o imitador — esticou os lábios, revelando um sorriso amargo. Esta expressão também era padrão, a curva dos cantos da boca para baixo, o padrão das rugas na testa franzida, tudo parecia copiado de algum molde. "Depois daquele incidente naquela época... me escondi por muito tempo. Mais tarde foi Shen Yansheng quem me encontrou, me deu um caminho para sobreviver."
Enquanto falava, ele levantou a mão instintivamente e tocou a nuca. Este era um gesto habitual do Velho K quando nervoso.
Mas Lu Chenzhou notou que ele tocava o centro exato da nuca, enquanto o lugar que o Velho K realmente tocava era a posição da terceira vértebra cervical à esquerda — lá havia uma lesão antiga que latejava em dias úmidos.
"Shen Yansheng tem um bom coração." Disse Lu Chenzhou. Ele fez sua voz soar como
Porque naquela noite, o que o Old K tirou não era bebida. Era meia garrafa de chá de gengibre já frio, guardado numa garrafa térmica. O estômago do Old K estragou-se anos antes, o médico proibia-o estritamente de tocar em álcool. Lu Chenzhou lembrava-se disso porque, depois daquele dia, ele forçou o Old K a fazer uma endoscopia, e foi ele quem ajudou a buscar o relatório.
O arquivo não registraria esse tipo de trivialidade. Mesmo que Shen Yansheng investigasse o Old K até o fundo, ele não conseguiria desenterrar esses detalhes insignificantes da vida.
Mas a pessoa diante dele deu uma resposta "razoável" — uma resposta que se encaixava na persona do "Old K", que poderia ser inferida dos arquivos.
Ele era uma imitação. Uma imitação cuidadosamente treinada, alimentada com uma massa de dados, mas que carecia precisamente da carne e do sangue das memórias reais.
Lu Chenzhou sentiu um arrepio subir pela coluna. Não era raiva, nem desapontamento, mas algo mais profundo, quase uma repulsa fisiológica. Como se você estendesse a mão para tocar um rosto familiar e sentisse uma camada fria e lisa de silicone.
Ele não deixou transparecer nada no rosto. Em vez disso, acenou com a cabeça, como se tivesse sido levado a recordar. "Sim, aquele aguardente barato. Você sempre gostou daquilo."
O imitador soltou um suspiro de alívio — essa microexpressão também era padrão, ombros ligeiramente relaxados, a expiração um pouco mais audível.
"São coisas do passado", disse ele, misturando no tom um toque oportuno de desgaste. "Agora está tudo bem. Shen Yansheng trata-me bem, dá-me um trabalho estável."
"Que bom", disse Lu Chenzhou. Ele virou-se e olhou para Fang Mu à porta. Gu Zhixing ainda estava ali, sua silhueta transformada numa sombra contra a luz, expressão indistinguível. "Advogado Gu."
Gu Zhixing endireitou-se e aproximou-se. "O Sr. Lu terminou a conversa?"
"Basicamente", disse Lu Chenzhou, seu tom retomando aquele formalismo plano e profissional. "Com o Old K sob os cuidados do Sr. Shen, fico mais tranquilo. Os acontecimentos daquela época... cada um teve suas dificuldades."
Ele disse isso para Gu Zhixing ouvir, e também para o imitador. Ele estava atuando "aceitação", atuando "serenidade", atuando um ex-policial que, ao saber que um velho amigo não estava morto e vivia bem, escolhia não investigar mais.
Gu Zhixing ajustou os óculos. "O Sr. Shen sempre disse que o Sr. Lu é uma pessoa sensata."
"Não tanto", Lu Chenzhou acenou com a mão. "Só não quero mais me envolver. Estar vivo é mais importante que tudo."
Ele lançou um último olhar para aquele "Old K" parado na borda do feixe de luz. O rosto parecia irreal nas manchas de luz e sombra, como uma máscara cuidadosamente pintada, mas à qual faltava o toque final.
"Se no futuro precisar de ajuda..." o imitador interveio no momento certo, tom sincero, "o Comandante Lu pode contar comigo. Embora não tenha grandes habilidades, para correr uns recados ainda sirvo."
"Está bem", Lu Chenzhou assentiu. "Como posso contactá-lo?"
O imitador recitou uma sequência de números. Era um número de telemóvel local, soava comum.
Lu Chenzhou anotou. Sabia que aquele número provavelmente era de um cartão descartável, ou simplesmente uma linha de retransmissão. Mas mesmo assim repetiu-o cuidadosamente, confirmando.
"Então terminamos por hoje?" Gu Zhixing interveio oportunamente, fazendo um gesto de "por favor". "Sr. Lu, levo-o de volta."
Lu Chenzhou não disse mais nada. Virou-se e seguiu Gu Zhixing em direção à porta. Passos firmes, costas eretas, nada de anormal.
Só quando saíram da oficina e voltaram a entrar na luz cortante da tarde é que ele permitiu a si mesmo respirar fundo.
Havia ainda um arrepio mais profundo, mais frio, deslizando por seus vasos sanguíneos, espalhando-se lentamente pelos membros.
Gu Zhixing abriu a porta do carro, esperando que ele entrasse. O motor ligou, as saídas de ar condicionado sopravam uma brisa fria com cheiro de plástico. O carro afastou-se da área fabril abandonada, passou sobre a estrada de cimento esburacada, balançando até entrar na via principal dos subúrbios.
A cena de momentos antes repetia-se em sua
Lu Chenzhou abriu os olhos, cruzando o olhar de Gu Zhixing no retrovisor.
"Satisfeito," disse, sua voz sem qualquer emoção. "Agradeça ao Sr. Shen Yan por mim. Este 'presente', vou guardá-lo bem."
O carro continuou avançando. A paisagem fora da janela mudou gradualmente de uma área industrial desolada para casas populares baixas, e depois para prédios em construção, estruturas de concreto e aço apontando para o céu cinzento e sombrio.
Lu Chenzhou olhava pela janela, mas sua mente trabalhava a toda velocidade.
Não era apenas para ostentar, nem simplesmente para induzir ao erro. Exibir um "Lao K vivo" certamente poderia abalar a percepção de Lu Chenzhou, mas o risco era grande demais — uma vez descoberto, equivaleria a expor sua própria capacidade de "produzir falsificações". Shen Yanqing não era o tipo de pessoa que fazia negócios com prejuízo.
A menos que... essa falsificação em si fosse parte do teste.
Testar se o sentimento de Lu Chenzhou por Lao K ainda existia. Testar se ele ainda seria afetado por culpa, raiva ou qualquer confiança remanescente. Testar sua capacidade de observação, seu julgamento, que tipo de falha ele revelaria ao enfrentar algo "extremamente familiar, mas fundamentalmente falso".
E então, com base nessas reações, ajustar o próximo passo de manipulação.
Os dedos de Lu Chenzhou batiam levemente sobre o joelho. Uma vez, duas, três. O ritmo era estável, como se estivesse calculando algo.
Se sua especulação estivesse correta, então Shen Yanqing deveria estar observando, neste momento, através de algum meio — talvez um dispositivo de escuta em Gu Zhixing, talvez câmeras ocultas na fábrica — cada uma de suas expressões, cada diálogo, o ritmo de cada respiração.
Ele demonstrou um pouco de surpresa, um pouco de alívio, um pouco de cansaço em relação ao passado e, por fim, uma resignação de "aceitar a situação atual". Era uma reação razoável para alguém que descobriu que um velho amigo não estava morto e já havia se aliado ao inimigo. Não havia raiva excessiva, nenhuma investigação profunda, nenhuma demonstração de apego exagerado ao fato de que "Lao K ainda está vivo".
O que Shen Yanqing queria não era sua "qualificação", mas sua "veracidade". Suas reações mais instintivas e profundas, aquelas que ele não conseguia esconder completamente. Aqueles pequenos espasmos musculares, mudanças na pupila, tensão nas cordas vocais — esses eram os dados que Shen Yanqing realmente desejava coletar.
Lu Chenzhou lembrou-se subitamente daquela sala de interrogatório falsificada. Aqueles detalhes excessivamente precisos, aquela luz e aquele odor cuidadosamente calculados. Shen Yanqing estava reproduzindo sua memória, como se estivesse reproduzindo uma pintura famosa. E aquele "Lao K" de hoje era outra reprodução.
Aos olhos de Shen Yanqing, ele também era apenas uma "pintura" que poderia ser analisada, desmontada, prevista?
Ele forçou-se a trazer sua atenção de volta à realidade. O carro já havia entrado na área urbana; fora da janela, havia ruas familiares, pedestres, semáforos. Tão comuns que pareciam quase falsos.
"Na próxima esquina, vire à direita, para o bairro Youaili, no sul da cidade."
Gu Zhixing olhou para ele pelo retrovisor, um lampejo de questionamento em seus olhos.
"Lembrei-me de algo de repente," explicou Lu Chenzhou, seu tom de voz carregando a pressa do trabalho. "No dossiê do caso Zhao Mingcheng, mencionava-se que, uma semana antes de morrer, ele teve contato com um vendedor ambulante perto de Youaili. Esse vendedor desapareceu depois. Só me lembrei agora ao ver a placa de rua. A área vai ser demolida em breve; se não formos dar uma olhada agora, pode não restar nada."
Ele falou rapidamente, naturalmente, como um investigador repentinamente atingido por uma inspiração.
Gu Zhixing ficou em silêncio por dois segundos. "Precisa que eu vá com o senhor?"
"Não," Lu Chenzhou balançou a cabeça, tirando do bolso um mapa dobrável do bairro — que ele havia preparado com antecedência, com vários pontos circulados em caneta vermelha. "O lugar tem um terreno complicado, com muitos becos. Mais pessoas só chamariam atenção. Espere por mim na entrada principal, eu dou uma volta lá dentro, confirmo alguns pontos e já volto."
Gu Zhixing pegou o mapa
O carro virou à direita e entrou em uma rua relativamente estreita. De ambos os lados, havia prédios residenciais antigos construídos nas décadas de 1980 e 1990, com a tinta das paredes descascando e as varandas repletas de tralhas. A comunidade You’aili ficava logo adiante, uma área de favela prestes a ser demolida e reconstruída.
Gu Zhixing estacionou o carro à beira da estrada, perto do portão sul da comunidade. O local oferecia uma visão ampla, permitindo ver claramente as principais vias de entrada e saída.
Lu Chenzhou abriu a porta e desceu do carro. A luz do sol da tarde batia em suas costas, deixando uma sensação de queimadura. Ele olhou para trás, para Gu Zhixing dentro do carro, que estava de cabeça baixa, olhando o celular, aparentemente respondendo a uma mensagem.
Ele demonstrou um pouco de surpresa, um pouco de alívio, um pouco de cansaço em relação ao passado e, por fim, uma resignação de "aceitar a situação atual". Essa era uma reação plausível que alguém poderia ter ao descobrir que um velho amigo não estava morto e, além disso, já havia se aliado ao inimigo. Não houve raiva excessiva, não houve questionamentos profundos, nem demonstrações de apego exagerado ao fato de que "o Velho K ainda estava vivo".
Lu Chenzhou não parou. Seguindo o caminho que guardava na memória, virando à esquerda e à direita, ele atravessou duas vielas e chegou a uma cabine telefônica pública abandonada, no fundo da comunidade.
A cabine telefônica era do tipo antigo, com a tinta verde descascada em grande parte e alguns vidros quebrados. Mas o telefone ainda estava lá, com a ranhura para moedas coberta de ferrugem.
Ele entrou, tirou uma moeda do bolso. A sensação fria do metal o acalmou um pouco.
O fone transmitiu um longo sinal de ocupado. Um, dois, três toques.
"Alô?" Uma voz processada por um distorcedor, impossível de identificar o gênero.
Lu Chenzhou baixou a voz e falou rapidamente: "O espelho não reflete o homem, a velha sombra já se foi. Preciso de um encontro. Meia-noite, o local de sempre."
"Entendido." A voz respondeu e desligou.
Lu Chenzhou desligou o fone, com as palmas das mãos suadas. Ele respirou fundo, virou-se e saiu da cabine telefônica.
Tempo suficiente para contornar a comunidade até outra saída, e de lá caminhar lentamente de volta ao portão sul, fingindo ter acabado de concluir uma "inspeção repentina" do local.
Ele olhou para o céu. Cinzento e opaco, como um vidro sujo.
Atrás desse vidro, talvez houvesse inúmeros olhos observando-o.
Dentro do carro, de volta à cidade, o ar parecia uma goma endurecida.
Gu Zhixing sentava-se no banco do passageiro, o corpo ligeiramente inclinado, o braço direito apoiado no joelho — uma posição que parecia relaxada, mas pronta para reagir a qualquer momento. Seus óculos de armação dourada refletiam os prédios cinzentos que passavam rapidamente pela janela; por trás das lentes, seus olhos ocasionalmente varriam o retrovisor, pousando no rosto de Lu Chenzhou.
"Sr. Lu," Gu Zhixing começou, a voz estável como se estivesse relatando um trabalho, "o sujeito de antes... o que o senhor achou?"
O olhar de Lu Chenzhou caiu sobre sua própria mão aberta. Seus dedos pressionavam levemente, inconscientemente, a área entre o polegar e o indicador, uma vez, e outra. Era um hábito que ele aprendera na prisão, usado para conter o tremor no canto do olho esquerdo.
Gu Zhixing esperou um pouco, sem receber resposta, então ajustou suavemente a armação dos óculos no nariz. "Apenas muito parecido?"
"Parecido o suficiente para me dar vontade de matá-lo." Lu Chenzhou ergueu os olhos, seu olhar colidindo com os olhos inquisitivos no retrovisor. "E parecido o suficiente para me fazer saber que ele não é ele."
A saída de ar condicionado emitia um zumbido baixo, misturado ao som das rodas sobre o asfalto. A luz do sol entrava obliquamente pela janela lateral, cortando uma linha de luz e sombra no dorso da mão de Lu Chenzhou. Ele sentiu a mudança de temperatura na borda daquela luz — quente, e depois fria.
"O significado de Shen Yansheng é," Gu Zhixing virou a cabeça, seu tom assumindo um ar
"Está bem," ele disse, com um tom descontraído como se estivesse aceitando um simples jantar. "Você marca o horário."
Gu Zhixing acenou com a cabeça, tirou o celular do bolso interno do paletó e começou a digitar. Seus dedos se moviam rapidamente na tela, mas o movimento transmitia uma contenção bem treinada — cada tecla pressionada com força uniforme, sem vazar emoções desnecessárias.
A rua estreitou-se, ladeada por prédios residenciais de corredor construídos na década de 1990, com as paredes externas cobertas por canos de chuva enferrujados e fios elétricos desordenados. Alguns idosos sentavam-se em bancos de pedra embaixo dos prédios, olhando o carro passar com os olhos meio fechados. No ar flutuava o cheiro de fumaça de fogareiros de carvão ainda não completamente queimados, misturado ao odor gorduroso de barracas de rua fritando youtiao.
Seguindo a rota previamente planejada, o carro passaria pela antiga comunidade no sul da cidade, prestes a ser demolida. Duzentos metros a leste da entrada da comunidade, na segunda esquina do beco, deveria haver uma cabine telefônica pública antiga, com a tinta vermelha já descascada. Era um dos três "pontos seguros de comunicação" marcados no mapa que Fang Mu lhe dera — linha antiga, sem monitoramento e, por causa da demolição, até a manutenção regular havia parado.
"Vire à esquerda à frente, entre no Beco Yongsheng," disse Lu Chenzhou, seu tom ficando urgente, com uma concentração profissional. "Vá devagar."
O motorista olhou no retrovisor, Gu Zhixing acenou levemente. O carro reduziu a velocidade e entrou em um beco ainda mais estreito. As paredes dos dois lados quase raspavam nos retrovisores, com móveis abandonados e tijolos quebrados empilhados na base delas. Alguns gatos vadios atravessaram as sombras.
"O caso de Zhao Mingcheng," disse Lu Chenzhou, os olhos fixos na janela, "o arquivo menciona um vendedor ambulante desaparecido, que vendia bolinhos fritos. O último local onde ele apareceu foi exatamente nesta comunidade."
Ele fez uma pausa, os dedos batendo uma vez no joelho — um gesto inconsciente, para enfatizar o ponto.
"Acabei de me lembrar que o filho desse vendedor foi detido no ano passado por causa de uma briga. O registro de detenção tinha seu endereço temporário," Lu Chenzhou virou-se para olhar Gu Zhixing, "no terceiro andar do prédio à frente."
Foi um instante de avaliação, quase imperceptível. Ele estava julgando: era uma pista real, ou Lu Chenzhou estava procurando uma desculpa?
"Muita gente só assusta mais," Lu Chenzhou já estava abrindo a porta do carro. "A topografia da comunidade é complexa, com muitas saídas. Você fica de guarda na entrada principal, eu subo para confirmar. No máximo dez minutos."
Ele falou rapidamente, com uma determinação inquestionável, típica de um investigador criminal. Ao mesmo tempo, tirou de sua bolsa transversal um mapa dobrado da comunidade, abriu-o e apontou para algumas posições com o dedo.
"Esses três pontos têm a melhor visão. Se ele escapar por outra saída, você deve conseguir vê-lo nestas posições." Lu Chenzhou entregou o mapa a Gu Zhixing. "Se eu não sair em dez minutos, ou se você vir algo suspeito, telefone."
Seus dedos tocaram a borda do papel, parando por meio segundo. Então ele ergueu os olhos, seu olhar pousando no rosto de Lu Chenzhou por dois segundos — dois segundos que pareceram uma eternidade.
O ar do beco envolveu-o imediatamente — úmido, com cheiro de mofo e a acidez de lixo em decomposição. Ele caminhou rapidamente em direção ao prédio residencial de corredor cinza e empoeirado, seus passos ecoando levemente no chão de cimento irregular: "tá, tá".
Gu Zhixing ainda o observava. Através da janela do carro, através da luz fraca do beco, aquele olhar era como uma agulha gelada, pressionando sua nuca.
Ele entrou no hall do prédio. A escuridão o engoliu instantaneamente. A escadaria não tinha luz, apenas uma pequena janela no alto deixava entrar um pouco da luz pálida do céu. As paredes estavam cobertas de anúncios de desentupimento e falsificação de documentos, camadas sobre camadas de papel, com as bordas enroladas e
Ele estava parado na entrada do beco, a tinta descascada como uma doença de pele. A janela de vidro estava coberta por uma grossa camada de poeira, o interior escuro e indistinguível. A estrutura metálica no topo da cabine já estava corroída, alguns fios pendiam e balançavam suavemente ao vento.
Ele se agachou na sombra do beco e esperou dez segundos. Seus olhos percorreram ambos os lados da rua: em frente à mercearia do outro lado, uma senhora idosa escolhia vegetais; na barraca de conserto de bicicletas na diagonal, o dono estava agachado no chão remendando um pneu; mais adiante, na esquina, algumas crianças corriam atrás de uma bola de couro velha.
Ele se levantou e caminhou rapidamente até a cabine telefônica. A porta de ferro enferrujada emitiu um rangido agudo, e ao empurrá-la a resistência era grande, como se as dobradiças não tivessem sido lubrificadas há muito tempo. Ele se espremeu para dentro e fechou a porta atrás de si.
O espaço dentro da cabine era sufocantemente estreito. O ar estava abafado, misturado com um cheiro de ferrugem metálica e o resíduo adocicado de algum perfume barato — talvez deixado pelo último usuário. O telefone era do tipo antigo de disco, o corpo de plástico preto coberto de arranhões, o receptor manchado de graxa.
Ele inseriu uma moeda na ranhura, o metal colidindo com um leve *clique*. Então ergueu a mão, os dedos pairando acima do disco.
*Tum… tum… tum…* O coração batia forte, uma batida atrás da outra, como um tambor. Em seus ouvidos, ele conseguia ouvir o zumbido do sangue fluindo e o ritmo de sua própria respiração — inspirar, pausa, expirar. Ele fechou os olhos e, na escuridão, recitou mentalmente o número.
Apenas onze dígitos, mas ele os decorara por três dias. Rezava-os mentalmente todas as noites antes de dormir e novamente ao acordar. Tinha medo de esquecer, medo de que seus dedos tremessem e pressionassem a tecla errada no momento crucial. Ele não podia errar.
O disco girava, emitindo um som mecânico de *clac, clac*. A cada número girado, soava uma vez, o eco reverberando dentro da pequena cabine telefônica, nítido e agudo. Um giro, dois giros, três giros…
Quando o sétimo dígito foi discado, o canto do seu olho esquerdo começou a contrair.
Levemente, mas de forma constante. Aquele músculo parecia ter vida própria, pulsando repetidamente, puxando metade de seu rosto e deixando-a dormente. Ele ergueu a mão esquerda e pressionou o canto do olho com força usando o polegar, a pressão tão intensa que quase parecia afundar no osso.
O receptor transmitia um longo tom de espera — "*tu… tu… tu…*" — cada som arrastado, como se estivesse medindo a espessura do tempo. A palma da mão de Lu Chenzhou começou a suar. O suor era frio, grudando no receptor de plástico, escorregadio.
Mas do outro lado não havia som. Nenhum "alô", nenhuma respiração, apenas o ruído de fundo silencioso e morto da corrente elétrica.
"O espelho não reflete um homem", ele disse, a voz muito baixa, mas cada palavra pronunciada com clareza. "A sombra antiga já se foi."
Então, do outro lado, veio uma voz processada por um distorcedor, uma qualidade eletrônica sintética, impossível de distinguir se era masculina ou feminina, mas o tom era aquele característico de Qin Wangshu, direto: "Meia-noite. O lugar de sempre."
Um tom de ocupado, "*tu tu tu*", soou, apressado como algum tipo de alarme. Lu Chenzhou não desligou imediatamente. Ele segurou o receptor, ouviu mais três segundos do tom de ocupado, e então lentamente o recolocou no gancho.
O gancho de metal encaixou de volta com um leve *clique*.
Ele se apoiou na parede de vidro da cabine telefônica. O vidro estava morno, aquecido pelo sol da tarde, o calor perceptível mesmo através da roupa. Mas suas costas estavam frias, o suor frio encharcara a camisa, o tecido grudado na pele, úmido e gelado.
Do momento em que desceu do carro até agora, seis minutos se passaram. Ele ainda tinha quatro minutos.
Não,
“A pessoa se mudou.” Lu Chenzhou disse, com um tom de lamento profissional. “Pelo menos há três meses. A casa foi esvaziada, mas há marcas frescas de arrasto no batente da porta, talvez dos últimos móveis.”
Gu Zhixing acenou com a cabeça, sem fazer mais perguntas. Ele abriu a porta do carro e fez um gesto de “por favor”.
A porta fechou, isolando o mundo exterior. O vento frio do ar-condicionado envolveu-o novamente, trazendo o cheiro característico de couro do interior do carro e o aroma adocicado da pastilha perfumada. O motorista ligou o motor, e o carro saiu lentamente do beco.
Gu Zhixing guardou o mapa, tirou um lenço do bolso e limpou cuidadosamente os dedos — a poeira que pegara ao manusear o mapa.
“Que pena.” Ele disse, o tom tão plano quanto se estivesse comentando sobre o clima.
“A pista não se perdeu.” Lu Chenzhou recostou-se no assento e fechou os olhos. “A madeira quadrada das marcas de arrasto foi para baixo, não para cima. Isso indica que usaram carregadores profissionais para a mudança, e de uma empresa formal — uma mudança particular não seria tão meticulosa. Investigue os registros de mudança nesta área nos últimos três meses, talvez possamos encontrar algo.”
Então ele soltou uma risada leve — muito leve, quase inaudível.
“O Sr. Lu continua o mesmo.” Ele disse. “Não deixa escapar nem um grão de poeira.”
O canto esquerdo de seu olho ainda tremia. Uma vez, e outra, pulsando sob as pálpebras escuras. Ele apertou com força, as unhas quase penetrando na pele.
O carro saiu da zona antiga da cidade e fundiu-se novamente ao fluxo da avenida principal. Os prédios do lado de fora ficaram mais altos, as fachadas de vidro refletiam a luz da tarde, um branco ofuscante.
Sete horas. Ele precisava organizar os pensamentos, precisava se preparar para contar tudo a Qin Wangshu — sobre o “imitador”, sobre aqueles olhos excessivamente padrões, sobre o ritmo de metrônomo dos dedos batendo na costura da calça.
Sobre a sensação gelada e nauseante que subia do estômago quando percebeu que a culpa, a raiva, o instinto protetor que carregara por dez anos estavam todos construídos sobre uma sombra que já estava morta há muito tempo, cuja identidade havia sido roubada e usurpada.
O carro virou no próximo cruzamento, seguindo na direção do prédio do Grupo Shen. Lu Chenzhou abriu os olhos e olhou pela janela. O céu da cidade era cinza-azulado, algumas nuvens finas passavam, suas formas difusas.
Aquela voz processada por distorcedor de voz, eletrônica, indistinguível quanto ao gênero. Mas a entonação era dela. Direta, calma, sem hesitações desnecessárias.
Os dedos de Lu Chenzhou se contraíram sobre os joelhos, fechando-se em punho. As unhas afundaram nas palmas, deixando quatro marcas profundas em forma de meia-lua.
O carro reduziu a velocidade e entrou na rampa de acesso ao estacionamento subterrâneo. A escuridão novamente engoliu sua visão, apenas as luzes indicadoras amarelas nas laterais da pista deixando rastros fantasmas em sua retina.
* Lu Chenzhou conseguiu contatar Qin Wangshu com sucesso no orelhão combinado usando uma senha, marcando uma conversa detalhada para a meia-noite.
* Gu Zhixing esperou do outro lado da rua, sem suspeitas evidentes, mas seu pequeno hábito de limpar as mãos sugeria que sua vigilância não estava totalmente relaxada.
* Pressão do tempo: faltavam sete horas para a meia-noite, Lu Chenzhou precisava organizar sua descoberta revolucionária e se preparar para uma conversa crucial.
* Nova pressão: a crise de confiança de identidade trazida pelo imitador começava a se espalhar, a percepção de Lu Chenzhou sobre “Velho K” foi completamente transformada de “traidor vivo” para “informante morto — identidade roubada para criar uma falsificação”, forçando-o a reavaliar a autenticidade de todas as pessoas e eventos relacionados aos casos antigos.
**[Gancho para a próxima cena]**
A meia-noite se aproximava. Lu Chenzhou precisava conduzir uma conversa de alto risco com Qin Wangshu via comunicação criptografada no banheiro de sua própria residência (o único local possível para evitar escutas). Esta poderia ser sua única oportunidade recente para aliviar a pressão emocional e coordenar tatic
Lu Chenzhou fechou os olhos. As imagens da gráfica ressurgiram na escuridão, trazendo o cheiro de poeira e tinta. Ele começou a descrever, com um tom estável, quase frio, como se estivesse apresentando um relatório de autópsia.
"Rosto, físico, cicatrizes, tudo corresponde. Até a postura levemente inclinada para frente no ombro esquerdo devido a uma lesão antiga foi imitada em noventa por cento." Sua velocidade de fala era lenta, cada palavra parecia ter sido retirada de água gelada. "Mas houve um atraso de zero ponto três segundos no contato visual. Não era reflexão, era uma reação de reconhecimento programada — escanear características faciais, comparar com o banco de dados, recuperar o módulo emocional pré-definido, e então produzir a saída."
"Culpa." Lu Chenzhou abriu os olhos. No espelho, o canto do olho da pessoa estava tremendo levemente. "Ele me olhou, mostrando uma expressão de culpa perfeitamente adequada, misturada com um pouco de medo, um pouco de resignação. Proporções precisas, duração de três ponto sete segundos, e então uma transição natural para a sinceridade de 'buscar compreensão'. Como um livro didático."
Do outro lado, Qin Wangshu ficou em silêncio. Apenas o chiado da corrente continuava.
Lu Chenzhou prosseguiu, baixando ainda mais a voz, quase se fundindo com o som da água. "Ao apertar a mão, a temperatura da palma dele era de trinta e quatro ponto dois graus. Minha estimativa. Seca, sem suor, sem a umidade sutil causada por tensão nervosa prolongada. As calosidades nas articulações dos dedos estavam posicionadas de forma muito padronizada, concentradas nas áreas convencionais de segurar caneta e arma, mas o velho K tinha uma cicatriz antiga na parte carnuda entre o polegar e o indicador da mão esquerda, de um corte com uma lâmina de ferro na infância, o que afetava sua pegada; a distribuição das calosidades deveria ser assimétrica. Ele não tinha."
"Minha memória é muito boa." Disse Lu Chenzhou, o polegar da mão esquerda esfregando inconscientemente a borda gelada do comunicador. "Especialmente sobre pessoas que me traíram."
"Perguntei a ele se se lembrava do dia do nosso último encontro, quando ele reclamou que os sapatos novos estavam machucando e ficou agachado na entrada do beco por cinco minutos esfregando o pé." Lu Chenzhou fez uma pausa. "O arquivo provavelmente só diria 'céu nublado, chuva leve, entrega de informações no beco atrás do mercado de artigos usados a oeste da cidade às quinze e vinte'. Não mencionaria os sapatos machucando. Ele hesitou — muito sutilmente, mas as pupilas perderam o foco por um instante, como se estivesse pesquisando um banco de palavras-chave. Então ele deu a resposta do arquivo: 'Aquele dia estava nublado, um pouco abafado.'"
Qin Wangshu inspirou, suavemente, mas Lu Chenzhou captou.
"Ele batia os dedos." Lu Chenzhou acrescentou, um fio de frio finalmente transparecendo em sua voz, difícil de conter. "Ao responder sobre o tempo, o dedo indicador direito batia na costura da calça, tic, tic, tic, intervalos completamente uniformes, zero ponto oito segundos cada, como um metrônomo. O velho K, quando nervoso, balançava a perna ou roía as unhas, nunca batia os dedos assim."
O som da água ainda corria. O frio do azulejo penetrava sua coluna através da fina camiseta.
"Então não é o velho K." Disse Qin Wangshu, seu tom já mudado, de questionamento para confirmação.
"Não é." Disse Lu Chenzhou. Quando essa palavra saiu, algo em seu estômago afundou. Não era raiva, não era decepção, era algo mais profundo, mais vazio, como dar um passo no vazio. "É uma imitação. Um... imitador. Bem treinado, detalhes corretos, mas o núcleo é vazio."
A pessoa no espelho tremia ainda mais visivelmente no canto do olho.
"Lu Chenzhou." Qin Wangshu chamou seu nome completo. Não era "professor Lu", nem
“Para testar.” Qin Wangshu respondeu imediatamente, como se já tivesse pensado nessa questão. “Testar se seus sentimentos pelo Velho K — culpa, desejo de proteção, sede de vingança — ainda eram seus pontos fracos. Se você tivesse perdido o controle hoje, se tivesse se atirado para questioná-lo sobre a traição, ou tentado salvá-lo da desgraça, então Shen Yanqing teria vencido. Ele saberia que você ainda está preso ao passado, que suas emoções ainda são uma alavanca previsível e manipulável.”
Ela fez uma pausa, sua respiração era clara na linha.
“Mas você não perdeu o controle. Você descobriu. Então agora, cabe a ele não saber o quanto você sabe.”
Lu Chenzhou soltou o ar lentamente. A corda que estava tensionada em seu peito afrouxou um pouco. Não porque o medo tivesse diminuído, mas porque alguém tinha visto a forma daquele monstro junto com ele. A solidão foi rasgada por uma fenda, mesmo que do tamanho de uma ponta de agulha.
“Preciso investigar a origem deste imitador.” Ele disse, sua voz recuperando parte da calma. “Não pode ter sido criado do nada. Requer tempo, recursos, precisa de... um modelo.”
“Há cerca de quatro anos, eu ainda estava ajudando na investigação de um caso de lavagem de dinheiro no setor econômico, e nas periferias encontramos uma subsidiária extremamente sigilosa do Grupo Shen. O nome registrado era ‘Consultoria de Gerenciamento de Imagem e Correção Comportamental Chenxi’. O representante legal era uma figura de palha, e não conseguimos rastrear a camada de controle real. O escopo de negócios era escrito de forma muito vaga, coisas como ‘moldagem de imagem para pessoas de alto padrão’, ‘otimização de padrões comportamentais’, ‘treinamento para lidar com situações especiais’.” A fala de Qin Wangshu era rápida, como se estivesse recitando um arquivo das profundezas da memória. “Na época achei estranho, mas não aprofundei. O caso foi suspenso pela alta administração posteriormente.”
“A empresa foi repentinamente dissolvida dois anos e meio atrás. Todos os ativos foram liquidados de forma limpa, os funcionários receberam indenizações altas, mas algumas pessoas...” Ela fez uma pausa, “desapareceram. Não desapareceram, mas seus arquivos estavam limpos demais, limpos como se tivessem sido especificamente tratados. Um psiquiatra, um coach de atuação, e outro... um especialista em ergonomia, que estudava especificamente a imitação de microexpressões e linguagem corporal.”