Capítulo 31: Rastreio na Escuridão
Os passos de Gu Zhixing pararam a cinco metros da cabine telefônica.
Lu Chenzhou desligou o receptor. A base metálica bateu no aparelho com um *clique* breve e nítido. Ele empurrou a porta para sair, e o vento frio do fim da tarde invadiu sua gola. Gu Zhixing estava parado ao lado de uma grade enferrujada, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, olhando para a silhueta das chaminés da fábrica ao longe. Ao ouvir o eixo da porta girar, ele virou a cabeça. Seu olhar por trás dos óculos de aros dourados percorreu calmamente o rosto de Lu Chenzhou.
"Conseguiu esclarecer?" perguntou Gu Zhixing.
"Um informante periférico do caso Zhao Mingcheng, forneceu algumas informações vagas algumas vezes." Lu Chenzhou caminhou em sua direção, os passos firmes. "Acabo de receber a notícia de que essa pessoa se mudou no mês passado para a área do antigo sanatório na zona oeste da cidade. Pode saber algo sobre as pessoas com quem Shen Yan teve contato em vida."
"Sanatório da zona oeste." Gu Zhixing repetiu, sem emoção aparente no tom. "Aquele lugar está abandonado há quase dez anos."
"Por isso mesmo é adequado para esconder alguém."
Gu Zhixing olhou para ele por dois segundos, depois se virou e caminhou em direção ao carro preto estacionado à beira da estrada. "Vamos. Ainda podemos chegar antes de escurecer."
Quando a porta do carro fechou, o canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se levemente. Ele virou o rosto para a paisagem urbana que recuava rapidamente pela janela. A ponta de seus dedos desenhou inconscientemente padrões no joelho, como se estivesse desmontando a tampa de uma caneta inexistente — uma, duas, três vezes. Gu Zhixing ligou o motor, e o painel acendeu-se com uma luz azulada e sombria.
Dentro do carro, apenas o ronco baixo do motor.
"Como estão os progressos do lado da Vice-Chefe de Esquadrão Qin?" Gu Zhixing perguntou de repente, a voz estável como se estivesse discutindo o tempo.
Os dedos de Lu Chenzhou pararam no ar.
"Ela é responsável pela verificação da cadeia de evidências materiais," disse ele, o ritmo da fala uniforme. "Meu foco principal aqui são os contatos sociais."
"É verdade." Gu Zhixing girou o volante meio círculo, e o carro entrou em uma rua antiga e silenciosa. "Coisas especializadas devem ser deixadas para pessoas especializadas. Mas..." Ele fez uma pausa. "Ouvi dizer que a Vice-Chefe de Esquadrão Qin está investigando recentemente um caso antigo, um pouco relacionado com aquele incidente seu do passado."
As luzes das ruas lá fora começaram a rarear.
Lu Chenzhou sentiu sua respiração ficar mais leve. Algo em seu peito apertava-se lentamente, como uma mão invisível torcendo uma corda de relógio. Ele virou a cabeça e olhou para o perfil de Gu Zhixing, delineado pela luz fraca do painel.
"O Advogado Gu está bem informado."
"Na nossa profissão, temos que saber o que preocupa nossos clientes." Gu Zhixing sorriu, o sorriso indistinto na penumbra. "O Sr. Shen Yan se importava muito com seu estado, Sr. Lu. Afinal, você está trabalhando para ele agora."
"Meu estado é muito estável."
"Que bom."
A conversa cessou. O carro saiu da área urbana, as luzes de ambos os lados ficando cada vez mais esparsas, até que restou apenas a pequena fatia de escuridão cortada pelos faróis do veículo. A estrada começou a ficar irregular, os pneus passando sobre cascalho com um ruído fino e estalado. Lu Chenzhou olhou pela janela. No morro ao longe, apareceu o contorno negro de um conjunto de edifícios, como um grupo de feras agachadas.
O sanatório havia chegado.
O portão de ferro estava entreaberto, as dobradiças enferrujadas gemendo ao vento. Gu Zhixing parou o carro, mas não desligou o motor imediatamente. Sentado no banco do motorista, seu olhar passou por cima do volante, fixando-se naquele conjunto de construções. Alguns segundos depois, ele finalmente retirou a chave.
"Vamos," disse ele.
Os dois saíram do carro. Lu Chenzhou pisou no chão de cascalho, a sola de seus s
Os corredores laterais tinham todas as portas fechadas, apenas a do final estava entreaberta, deixando escapar um fio de luz. Lu Chenzhou caminhou em sua direção, cada passo deliberadamente lento, deixando seu olhar percorrer as paredes, o chão, o teto. A tinta das paredes estava descascada em grandes áreas, revelando o cimento por baixo, mas em certas partes, o formato do descascamento era demasiado regular — como se tivesse sido arrancado de propósito.
Ele parou diante da porta.
Era uma porta de madeira comum, com a pintura descascada, mas a maçaneta estava polida e brilhante, sem sinal de ferrugem. Lu Chenzhou estendeu a mão, parando os dedos a um centímetro da maçaneta. Ele olhou para trás, para Gu Zhixing.
Gu Zhixing estava parado no meio do corredor, as mãos de volta aos bolsos, acenando levemente com a cabeça.
Lu Chenzhou empurrou a porta.
O som da dobradiça girando era abafado e suave, como se tivesse sido recentemente lubrificada. O interior do quarto se revelou diante dele — da entrada, a vista era desimpedida. Era um quarto de hospital, cerca de vinte metros quadrados, com uma cama de ferro encostada na parede, o lençol velho mas estendido de forma plana. Em frente à cama havia uma mesa de madeira, faltando um canto da perna, sustentada por um tijolo. Uma janela alta ficava diretamente acima da mesa, o vidro sujo, mas neste momento um feixe de luz amarelada entrava obliquamente, cortando as partículas de poeira suspensas no ar.
O ângulo daquele feixe de luz era demasiado preciso.
Os passos de Lu Chenzhou hesitaram por um segundo no limiar. Seu olhar percorreu rapidamente todo o quarto: a posição da cama de ferro, a inclinação da mesa, a forma da luz projetada no chão, os objetos amontoados no canto... Todos os detalhes se gravaram em sua mente como uma marca a ferro quente. Então ele entrou no quarto, com uma postura tão calma como se estivesse entrando em qualquer cena de crime.
Gu Zhixing seguiu-o, mas não foi para o fundo. Parou perto da porta, encostado na moldura, de lado — uma posição que permitia ver todo o quarto e observar cada movimento de Lu Chenzhou.
"Aqui..." Lu Chenzhou começou, sua voz soando estranhamente clara no quarto vazio. "Está bastante preservado."
"Sim." A voz de Gu Zhixing veio da porta, com um toque de investigação. "O Sr. Lu acha que essa 'preservação' se formou naturalmente, ou foi mantida deliberadamente por alguém?"
Lu Chenzhou não respondeu imediatamente. Ele caminhou até o centro do quarto, a sola de seus sapatos pisando no chão de cimento, cada passo levantando uma fina poeira. Seu olhar pousou na cama de ferro — o lençol era de algodão grosso, lavado até ficar branco, mas as bordas tinham vincos nítidos. Ele se agachou, alinhando sua visão com o colchão.
Havia uma mancha escura ao redor da borda do colchão, formato irregular, como se tivesse sido repetidamente encharcada.
"Alguém deitou aqui," disse Lu Chenzhou, o tom neutro. "Por um bom tempo."
"Um paciente?"
"Ou um prisioneiro."
Ele se levantou e virou-se para a mesa de madeira. A superfície da mesa estava vazia, mas perto da borda havia uma área onde a poeira era mais fina, em formato retangular — como se algum objeto tivesse ficado ali por muito tempo. Lu Chenzhou estendeu a mão, os dedos pairando dois centímetros acima daquela área, sentindo a diferença de temperatura do ar.
Então ele viu a marmita.
No canto entre a mesa e a parede, uma velha marmita de alumínio estava meio aberta, caída de lado no chão. A borda da marmita estava cheia de amassados e marcas, o interior com resíduos secos e escuros, como se fossem restos de comida mofados. A respiração de Lu Chenzhou parou por um instante.
Esse detalhe era demasiado específico.
Ele se agachou, sem tocar com as mãos, apenas examinando cuidadosamente. A marmita era do estilo comum nos anos 90, com um padrão desbotado de peônias estampado na lateral. O desgaste estava concentrado no canto inferior direito, a posição onde o polegar mais esfregaria ao segurá-la com a mão direita. A distribuição das manchas internas também tinha um padrão — concentradas no fundo e em uma das paredes internas, indicando
“Portanto, a aparição da marmita indica que quem montou isso ou não compreendia o funcionamento real do sanatório, ou...” Lu Chenzhou fez uma pausa, “...ou foi um ponto de âncora psicológico deixado de propósito.”
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos.
Apenas o som do vento vindo vagamente da janela alta e o ruído sutil da poeira flutuando lentamente no feixe de luz. Lu Chenzhou permaneceu agachado, conseguindo sentir o olhar de Gu Zhixing pousado na sua nuca, como uma sonda fria.
Então, Gu Zhixing riu, um riso muito suave.
“Ponto de âncora psicológico.” Ele repetiu a palavra, como se a estivesse saboreando. “Uma expressão interessante. O Sr. Lu acredita que quem montou este quarto queria ancorar o quê?”
Lu Chenzhou finalmente se levantou. Uma leve sensação de cansaço veio dos joelhos. Ele se virou para enfrentar Gu Zhixing. Havia uma distância de três metros entre os dois, a luz fraca refletindo duas manchas borradas nas lentes de Gu Zhixing.
“Queria ancorar a atenção do observador,” disse Lu Chenzhou, com velocidade constante. “Fazer o observador notar este detalhe anômalo, levando então a associações — associando às informações marginais não aceitas no processo, aos hábitos da vítima em vida, associando... a que este quarto pode não ser apenas um quarto de hospital abandonado.”
“Então, o que ele é?”
“Um campo de testes.”
Assim que as palavras caíram, o ar no quarto pareceu congelar. Gu Zhixing não se moveu, ainda de pé ali com as mãos nos bolsos, mas Lu Chenzhou viu seu pomo de Adão rolar levemente — um movimento de engolir.
“Testando quem?” perguntou Gu Zhixing.
Lu Chenzhou enfrentou seu olhar. “Supondo que quem montou isso seja um inimigo de Shen Yan, querendo testar a reação de Shen Moqing aos detalhes do caso antigo. Então tudo aqui—” Ele ergueu a mão, varrendo o quarto, “—este feixe de luz com ângulo ajustado propositalmente, esta cama com manchas em posições suspeitas, e esta marmita, tudo foi para desencadear memórias específicas de Shen Moqing. Para ver se ele reconheceria estes detalhes, se exporia mais informações por causa disso.”
“Uma dedução muito razoável,” Gu Zhixing assentiu. “Mas há um problema.”
“Qual problema?”
“Se fosse realmente para testar Shen Moqing, por que escolher aqui?” Gu Zhixing deu um passo à frente, a sola do sapato rangendo suavemente no chão. “Este lugar é remoto, escondido, mas também significa que a probabilidade de Shen Moqing vir pessoalmente é extremamente baixa. Uma abordagem mais razoável seria montar o campo de testes perto da residência de Shen Moqing, ou em um local que ele frequenta.”
Lu Chenzhou sentiu o canto esquerdo do olho começar a se contrair novamente. Ele forçou aquele músculo a relaxar, mas não ousou desviar o olhar do rosto de Gu Zhixing.
“Talvez quem montou isso não se importe se Shen Moqing viria pessoalmente,” disse ele. “Talvez o alvo do teste seja qualquer pessoa que entre neste quarto e tenha conhecimento suficiente sobre o caso antigo.”
“Como você?”
No instante em que a pergunta foi lançada, Lu Chenzhou ouviu seu próprio coração martelar nos tímpanos. Ele encarou Gu Zhixing, tentando capturar qualquer traço de emoção por trás daqueles óculos de aros dourados — zombaria, provocação, ou algo mais perigoso.
Mas ele não viu nada. A expressão de Gu Zhixing era calma como um lago profundo.
“Eu realmente tenho conhecimento sobre o caso antigo,” Lu Chenzhou finalmente falou, sua voz mais firme do que esperava. “Mas quem montou isso não poderia prever que eu viria. A menos que...”
“A menos que o quê?”
“A menos que a pessoa que me guiou até aqui seja o próprio montador.”
Essas palavras foram como uma pedra lançada em águas paradas. A calma no rosto de Gu Zhixing finalmente rachou — não era choque, nem raiva, mas uma expressão sutil quase de admiração. Ele ergueu a mão direita, ajustou os óculos, um gesto que já fizera três vezes esta noite.
“Uma dedução brilhante, Sr. Lu,” disse ele, seu tom neutro, sem elogios nem crítica. “Mas há uma explicação mais simples: eu apenas segui as instruções do Sr. Shen para trazê-lo e investigar possíveis pistas. Quanto a por que
"Velho K." Lu Chenzhou cuspiu o nome, enquanto observava a reação de Gu Zhixing com o canto do olho. "Apenas quem projetou pessoalmente aquele interrogatório na época saberia como aplicar especificamente essas técnicas de pressão psicológica. A marmita, a luz, as manchas na cama... todos esses são 'pontos de pressão' no interrogatório, usados para gradualmente desintegrar as defesas psicológicas do interrogado."
Gu Zhixing ficou em silêncio por alguns segundos.
"Se for realmente o Velho K," ele começou lentamente, "por que ele recriaria essas técnicas aqui? Para relembrar? Ou para... testar um novo objeto?"
As últimas palavras foram ditas tão baixo que quase foram engolidas pelo som do vento lá fora. Mas Lu Chenzhou ouviu. Ele sentiu um calafrio subindo da base da coluna, rastejando lentamente em direção à nuca.
Testar um novo objeto.
Este quarto, desde a melhor posição de observação ao entrar, até cada detalhe cuidadosamente disposto, passando pelas perguntas sugestivas de Gu Zhixing — tudo estava empurrando-o para uma conclusão: isso não era para testar Shen Yanqing. Era para testá-lo, Lu Chenzhou. Testar sua reação ao confrontar o ambiente psicológico do antigo caso, testar se ele conseguiria identificar essas técnicas, testar por qual caminho seu pensamento seguiria.
E Gu Zhixing, este assistente que "acompanhou" o tempo todo, era o condutor do teste.
Lu Chenzhou se virou, de costas para Gu Zhixing, encarando a janela alta. O feixe de luz amarelada ardia em seus olhos. Ele respirou fundo, deixando o cheiro de mofo e poeira encher seus pulmões, forçando-se a se acalmar.
Não podia revelar as cartas. Revelar agora equivaleria a dizer ao outro que ele já havia descoberto o teste. Então a próxima rodada do teste se tornaria mais sutil, mais fatal. Ele tinha que atuar, interpretar um especialista desviado, mas ainda perspicaz, dando a reação que Gu Zhixing esperava.
"Quem quer que tenha preparado isso," Lu Chenzhou começou, sua voz recuperando a estabilidade, "o valor investigativo deste quarto é muito limitado. É muito forçado, como um cenário de palco. Uma verdadeira cena de crime não teria uma pilha tão meticulosa de símbolos psicológicos."
Ele ouviu o som de tecido se atritando atrás dele — Gu Zhixing se movendo.
"Então sua conclusão é?"
"A conclusão é que este lugar pode ser um campo de prática para algum entusiasta de psicologia ou imitador de crimes. Mas quanto à conexão direta com o Velho K... as evidências são insuficientes." Lu Chenzhou se virou para encarar Gu Zhixing. "Sugiro fotografar para arquivo e depois sair. O foco ainda deve estar na linha das relações sociais de Shen Yan antes de sua morte."
Gu Zhixing olhou para ele, os olhos atrás das lentes dos óculos levemente estreitados. Aquele olhar avaliador voltou, como se estivesse avaliando a autenticidade de uma obra de arte. Alguns segundos depois, ele acenou com a cabeça.
"Faz sentido." Ele disse, seu tom retomando a frieza profissional. "Então vamos sair primeiro. Está escurecendo, aqui não é muito seguro."
Ele foi em direção à porta primeiro, seus passos nem rápidos nem lentos. Lu Chenzhou seguiu atrás, e antes de cruzar a soleira, ele olhou pela última vez para o quarto.
A marmita ainda estava deitada no canto, brilhando com um brilho metálico frio na luz fraca.
Lu Chenzhou agachou-se ao lado do pé da cama, seu olhar pousando naquela velha marmita de alumínio.
A luz da janela alta incidiu obliquamente, cortando exatamente a borda da marmita, projetando uma clara linha divisória de luz e sombra na superfície das manchas secas. As manchas eram de um marrom escuro, com padrões de difusão irregulares nas bordas — eram vestígios formados pela secagem natural de algum alimento semi-líquido deixado em repouso por muito tempo. No canto inferior direito da marmita havia três amassados paralelos, cuja profundidade, espaçamento e grau de desgaste correspondiam perfeitamente ao close-up localizado e desfocado na foto do dossiê.
Aquele close-up havia aparecido apenas uma vez na coleção interna de fotos de evidências do grupo de investigação especial da época. A foto não tinha número, estava enfiada entre um monte de fotos irrelevantes do ambiente da cena, nem sequer constava no índice do dossiê.
"A marmita..." A voz de Lu Chenzhou ecoou na enfermaria v
Gu Zhixing estava parado a dois passos de distância, com as mãos penduradas naturalmente ao lado do corpo, seu olhar atrás dos óculos de aros dourados pousando calmamente no rosto dele. Naquele rosto não havia nenhuma expressão desnecessária, apenas uma paciência concentrada, aguardando uma resposta. Mas Lu Chenzhou notou que o dedo indicador direito de Gu Zhixing estava inconscientemente esfregando levemente a costura da calça — um movimento extremamente sutil, com frequência estável, como se estivesse contando.
"A memória do Sr. Lu realmente é impressionante", disse Gu Zhixing, um leve sorriso pairando nos cantos de sua boca. "Até uma marmita de sete anos atrás na lista de provas materiais ele lembra."
"Apenas uma impressão vaga." Lu Chenzhou balançou a cabeça, seu olhar varrendo novamente o quarto. "Mas este quarto... é muito forçado. Começando pela 'melhor posição de observação' na porta, passando pelo ângulo de colocação desta cama, até a posição desta marmita — tudo parece como uma exibição cuidadosamente montada, esperando que alguém entre para visitar."
Ele fez uma pausa, deliberadamente acrescentando um tom de julgamento profissional à sua voz: "Se foi para testar Shen Yanqing, o arranjador realmente se esforçou. Recriou o ambiente de pressão psicológica do antigo caso, até esses detalhes foram restaurados. Mas o problema está exatamente aí — é perfeito demais, perdendo o senso de realidade. Uma verdadeira cena de crime não seria tão... arrumada."
Gu Zhixing não respondeu imediatamente.
Ele deu dois passos à frente, parando ao lado da cama de armação de ferro, estendeu a mão e tocou na beirada da cama. Seu movimento foi leve, os dedos pousaram no tubo de ferro enferrujado por dois segundos antes de recuar. Lu Chenzhou viu que suas pontas dos dedos estavam manchadas com um pó de ferrugem vermelho-escuro.
"O Sr. Lu está certo", disse Gu Zhixing, sua voz sem emoção alguma. "O arranjador realmente buscou a perfeição. Mas o que o senhor acha que é o propósito dessa 'perfeição'? É para fazer o sujeito do teste acreditar na autenticidade da cena, ou... para testar se o sujeito consegue perceber essa perfeição?"
A pergunta chegou.
O coração de Lu Chenzhou bateu forte no peito. Ele sentiu o canto do olho esquerdo começar a tremer levemente — aquela maldita reação fisiológica sob pressão. Ele forçou-se a relaxar os músculos faciais, mantendo a expressão em um estado de análise calma.
"Ambos", disse ele, seu olhar encontrando o de Gu Zhixing. "Se o sujeito do teste fosse Shen Yanqing, o arranjador esperaria que, ao ver este quarto, ele desencadeasse suas memórias e reações emocionais ao antigo caso. Mas ao mesmo tempo, o arranjador também está observando — observando se o sujeito do teste seria desviado por esses 'detalhes perfeitos', se focaria excessivamente em algum aspecto local, negligenciando a intenção do layout geral."
Enquanto falava, seu cérebro trabalhava freneticamente.
A pergunta de Gu Zhixing estava guiando-o a pensar no padrão de resposta do "sujeito do teste". Não "como Shen Yanqing pensaria", mas "como o sujeito do teste pensaria". Essa sutil mudança de frase já havia aparecido três vezes na conversa anterior.
A primeira vez foi sobre a luz: "Se uma pessoa fosse trancada aqui sozinha..."
A segunda vez foi sobre o espaço: "O que o senhor acha que o tamanho deste quarto causaria psicologicamente a uma pessoa?"
Agora era a terceira vez: "O sujeito do teste consegue perceber essa perfeição?"
Cada vez, Gu Zhixing empurrava o pensamento de Lu Chenzhou na mesma direção — fazendo-o assumir o papel de "sujeito do teste", analisar a psicologia do "sujeito do teste", avaliar a reação do "sujeito do teste".
E o próprio Gu Zhixing permanecia sempre na posição de observador.
As pontas dos dedos de Lu Chenzhou começaram a esfriar. Não por causa da temperatura do quarto, mas porque ele de repente compreendeu uma coisa — este teste, do início ao fim, nunca foi preparado para Shen Yanqing.
Aquela "Chenxi Correção Comportamental e Consultoria em Gestão de Imagem Ltda.", aquela equipe de especialistas especializada em estudar microexpressões e imitação de linguagem corporal, aquela subsidiária secreta que foi repentinamente dissolvida há
“Aquela pessoa…” Lu Chenzhou começou a falar lentamente, cada palavra parecendo caminhar sobre a lâmina de uma faca, “deve ter um entendimento profundo do antigo caso, de preferência alguém que tenha vivenciado ou investigado na época. Ele precisa ter qualificações profissionais suficientes para identificar as técnicas de pressão psicológica usadas na sala. Ao mesmo tempo, ele deve ter uma certa… opinião pré-concebida sobre Shen Moqing, para acreditar facilmente que a sala foi preparada para ele.”
Ele fez uma pausa, deixando seu olhar percorrer a sala uma vez antes de finalmente se fixar no rosto de Gu Zhixing.
“O mais importante é que essa pessoa deve ter sua própria fraqueza,” ele disse, seu tom tão plano quanto ao declarar um fato objetivo. “Uma fraqueza que o planejador possa explorar com precisão. Por exemplo, uma obsessão por um certo detalhe, uma sensibilidade a uma certa emoção, ou… um desejo excessivo pela verdade.”
Gu Zhixing sorriu.
Não era um sorriso de alegria, nem de escárnio. Era um sorriso… de confirmação. Como um matemático finalmente deduzindo o último passo de uma fórmula, ou um jogador de xadrez vendo o movimento fatal do oponente.
Ele ergueu a mão e ajustou os óculos de aro dourado na ponte do nariz. Por um instante, o olhar atrás das lentes ficou excepcionalmente claro — tão claro que Lu Chenzhou podia ver seu próprio reflexo naqueles olhos, como uma amostra experimental em meio a ruínas, sendo observada minuciosamente.
“Faz sentido,” disse Gu Zhixing, sua voz carregada de uma certa satisfação relaxada. “Parece que, embora o planejador tenha sido meticuloso, ainda deixou marcas de artifício. Tentou demais exibir sua ‘profissionalidade’, e acabou expondo suas intenções.”
Ele caminhou até a porta e parou no “ponto de observação ideal”, virando-se para olhar para dentro da sala. Desse ângulo, o layout completo da sala ficava visível — a cama, a marmita, a janela alta, as manchas propositalmente envelhecidas na parede, e Lu Chenzhou parado no centro do aposento.
“Sr. Lu,” disse Gu Zhixing, seu tom aparentemente casual, mas carregado de significado. “Após esta inspeção, o que o senhor acha… de quem exatamente eles queriam testar a reação?”
Aí estava.
A última pergunta, e também a mais letal.
Lu Chenzhou sentiu um suor frio escorrer pelas costas. A camisa grudava na pele, trazendo uma sensação gelada. Sua mente gritava, alertava, instigava-o a fugir — mas ele não podia. Ele tinha que ficar ali, tinha que dar uma resposta, tinha que completar aquela performance.
Ele respirou fundo, enchendo os pulmões de ar, e então o expirou lentamente.
Então, ele encontrou o olhar de Gu Zhixing, seu tom tão banal quanto ao discutir o clima:
“Naturalmente, de Shen Moqing,” ele disse, chegando a inclinar levemente a cabeça, mostrando uma dose perfeita de perplexidade. “Se não fosse ele, então quem?”
Silêncio.
Um silêncio que durou cinco longos segundos.
Gu Zhixing permaneceu parado no limiar entre luz e sombra na porta, sua expressão indistinta na penumbra. Lu Chenzhou só conseguia ver o leve brilho refletido em suas lentes, só conseguia ouvir sua respiração estável, só conseguia sentir aqueles olhos analisando cada mínima reação sua, centímetro por centímetro, como um scanner.
Então, Gu Zhixing sorriu.
Dessa vez foi um sorriso genuíno — os cantos da boca se ergueram, pequenas rugas apareceram nos cantos dos olhos, e toda sua postura se relaxou. Ele estendeu a mão e empurrou a velha porta de madeira, que gemeu baixamente em seus gonzos. O ar frio do corredor entrou, diluindo o cheiro mofado misturado com desinfetante que impregnava a sala.
“Hora de voltar,” disse Gu Zhixing, cedendo passagem. “Shen Yansheng ainda está aguardando seu relatório de inspeção.”
Lu Chenzhou acenou com a cabeça e deu um passo em direção à porta.
Seus passos eram firmes, cada um pisando no concreto sólido do chão. Ao passar por Gu Zhixing, ele sentiu um leve aroma de colônia — cedro misturado com âmbar, sólido e caro. Era a fragrância que Gu Zhixing sempre usava, mas naquele momento, aquele cheiro fez o estômago de Lu Chenzhou revirar.
Ele saiu da sala e entrou no corredor escuro.
Gu Zhixing o seguiu, seus passos em um ritmo constante
Gu Zhixing entrou no banco do motorista e fechou a porta.
O som do motor ligando foi especialmente abrupto no silêncio da noite. Os faróis acenderam, dois feixes de luz branca cortaram a escuridão, iluminando a estrada de concreto esburacada à frente. Gu Zhixing engatou a marcha, soltou o freio de mão, e o carro lentamente se afastou daquela área de ruínas.
Dentro do carro, reinava um silêncio.
Apenas o baixo ronco do motor, o som sutil dos pneus passando sobre cascalho e o ar quente soprando pelas saídas de ar condicionado. Lu Chenzhou observava a paisagem noturna recuando rapidamente pela janela — árvores secas, fábricas abandonadas, luzes esparsas na borda distante da cidade. Tudo parecia um filme desbotado, esticado em faixas de cores borradas na janela do carro.
Então, Gu Zhixing ligou o sistema de som.
O que fluía para fora era um solo de piano.
A respiração de Lu Chenzhou parou por um instante.
Era o "Nocturne" Op.9 No.2 de Chopin, mas a interpretação era muito especial — o ritmo era quinze por cento mais lento do que a versão comum, o volume do acompanhamento da mão esquerda era mantido extremamente baixo, enquanto a linha melódica da mão direita era anormalmente clara, cada nota parecendo sondar algo com extremo cuidado.
Esta versão era a favorita de Lu Chenzhou antes de ser preso.
Ele só tinha ouvido essa versão em discos de sua coleção particular, uma gravação ao vivo de um pianista já falecido, nunca lançada oficialmente. No mundo todo, não mais do que três pessoas sabiam disso.
Uma delas era o "Velho K" responsável por seu interrogatório naquela época.
As pontas dos dedos de Lu Chenzhou começaram a esfriar.
Ele sentiu o sangue recuando das extremidades dos dedos, deixando para trás um frio entorpecido. Ele se forçou a manter a calma, forçou seu olhar a continuar observando pela janela, forçou sua respiração a manter um ritmo estável.
Mas ele sabia que Gu Zhixing estava observando-o.
Pelo espelho retrovisor, pelo canto do olho, por cada ângulo possível dentro do carro. Essa música não estava sendo tocada aleatoriamente; era a continuação do teste — testando sua reação ao ouvir essa música, testando se ele mostraria algo anormal, testando se ele ainda se lembrava do significado por trás dessa versão.
O som do piano fluía dentro do carro.
Lento, melancólico, carregando um certo desespero contido. Cada nota era como uma agulha fina, penetrando profundamente nas memórias de Lu Chenzhou, agitando a lama que há muito havia assentado.
Ele se lembrava da última vez que ouvira essa música, três dias antes de ser preso. Naquela noite, ele sentara no sofá de seu apartamento e tocara esse disco repetidas vezes. Sua irmã, Lu Chenxing, dormia no quarto, a data da cirurgia cardíaca já estava marcada, e o dinheiro já estava reunido. Ele sabia o que faria no dia seguinte — assinar aquela confissão forjada, trocar dez anos de liberdade pela chance de sua irmã sobreviver.
Naquela noite, essa música o acompanhara a noite toda.
E agora, essa música fluía do sistema de som do carro de Gu Zhixing, neste espaço confinado, nesta noite que acabara de testemunhar um teste psicológico.
Lu Chenzhou fechou os olhos.
Não porque estivesse cansado, mas porque precisava se esconder — esconder as emoções que poderiam vazar pelos olhos, esconder a possível contração das pupilas, esconder qualquer reação fisiológica que Gu Zhixing pudesse captar.
Ele recostou-se no banco, relaxou o corpo, estabilizou a respiração.
O som do piano continuou fluindo.
Então, Gu Zhixing falou. Sua voz era baixa, quase abafada pela música, mas cada palavra chegou claramente aos ouvidos de Lu Chenzhou:
"A perícia do Sr. Lu realmente vive à altura de sua reputação," disse ele, olhando para a frente, as mãos firmemente segurando o volante. "Shen Yansheng certamente ficará muito satisfeito com o 'relatório de inspeção' de hoje."
Lu Chenzhou não abriu os olhos.
Ele apenas emitiu um leve "hum", como se estivesse sendo evasivo, cansado, indicando que ouvira mas não queria responder.
Mas em seu coração, ele sabia — essas palavras não eram um elogio, não eram um res
Ele sabia que acabara de passar por um teste psicológico projetado e supervisionado pelo verdadeiro culpado.
Sabia que, ao representar ter sido "enganado", temporariamente anestesiara o adversário.
Mas também sabia — esse efeito anestésico não duraria muito. Gu Zhixing (Old K) era um manipulador psicológico de alto nível, e certamente em algum momento reavaliaria a situação, estabeleceria mais testes, usaria métodos ainda mais refinados para verificar se a reação de Lu Chenzhou era genuína.
E Lu Chenzhou precisava se preparar antes disso.
Ele precisava encontrar uma maneira de contra-atacar, precisava encontrar provas, precisava desmascarar esse demônio escondido por trás da máscara de consultor jurídico.
Mas, antes de tudo, ele precisava sobreviver.
Precisava sobreviver neste jogo de gato e rato, até o dia em que a verdade fosse revelada.
O carro parou em um sinal vermelho.
Os dedos de Gu Zhixing batucavam suavemente no volante, o ritmo perfeitamente sincronizado com o som do piano que vinha do sistema de som. Ele virou a cabeça e olhou para Lu Chenzhou, seus olhos parecendo impenetráveis no interior escuro do veículo.
"Sr. Lu", disse ele, o tom casual como se estivesse apenas conversando. "O senhor acha... se aquele caso de anos atrás fosse reaberto, ainda seria possível encontrar novas evidências agora?"
Lu Chenzhou virou-se e encontrou seu olhar.
Olhos se encontraram.
Naquele instante, Lu Chenzhou viu algo nos olhos de Gu Zhixing — não era uma sondagem, não era uma avaliação, não era um disfarce. Era uma espécie de... interesse. O interesse de um pesquisador por seu objeto de estudo, o interesse de um jogador de xadrez por um oponente intrigante, o interesse de um caçador por uma presa astuta.
"Talvez sim", disse Lu Chenzhou, a voz calma. "Talvez não. Mas, de qualquer forma, a verdade sempre esteve lá."
Gu Zhixing sorriu.
A luz ficou verde.
Ele pisou no acelerador, e o carro voltou a se mover na noite. O som do piano continuava a fluir, a "Nocturne" de Chopin já se aproximava do fim, a última nota tremendo no ar, dissipando-se, deixando uma longa reverberação.
Lu Chenzhou olhou pela janela.
Ele sabia que o próximo round de testes talvez já estivesse a caminho.
E desta vez, ele precisava vencer.