Capítulo 34: Olhos na Escuridão Espiam a Brecha
A fechadura da porta se fechou com um clique.
Lu Chenzhou encostou as costas na placa de metal gelada da porta, seus olhos se ajustando à escuridão quase total do quarto. As cortinas já estavam fechadas quando ele entrou, o tecido de veludo pesado bloqueando o último brilho amarelado dos postes de rua. Ele permaneceu imóvel, suas orelhas ligeiramente trêmulas, captando quaisquer passos, respirações residuais no corredor do lado de fora da porta, ou o sutil chiado do atrito dos cabos nas profundezas do poço do elevador.
Apenas o zumbido grave e incansável da cidade distante se infiltrava pelas frestas das paredes e janelas.
Sem cauda.
Pelo menos, não uma cauda a três passos de distância. Ele usou três quarteirões, duas transferências de metrô, um desvio pelo acesso de incêndio de um shopping para sacudir aquele carro prateado do lado de fora da casa de chá. Mas sacudir não significava segurança. Shen Yanqing não precisava mandar alguém colado nele; nesta cidade, havia muitos olhos para alugar, muitas orelhas para comprar.
O canto esquerdo de seu olho começou a contrair levemente.
O quarto estava impregnado com um leve cheiro de mofo, misturado com o aroma químico residual de flores de um purificador de ar barato. Era este o ponto de apoio temporário que ele alugara três dias atrás, localizado no último andar de um prédio residencial antigo. As paredes tinham isolamento acústico ruim, mas a vista era aberta, e a escada, única. Agora, aquela escada única tornara-se um canal para armadilhas, e a vista aberta, uma janela para ser espiada.
Ele caminhou até a janela. Não abriu as cortinas, apenas afastou o veludo com o dedo, abrindo uma fenda de menos de meio centímetro.
Na esquina, aquela van cinza-escura ainda estava lá.
Os vidros tinham película escura, mas sob o piscar da placa de neon da loja de conveniência diagonalmente oposta, a lente de uma teleobjetiva ocasionalmente refletia um ponto de luz vermelha fria, como a ponta de uma agulha. Como o olho composto de um inseto à espreita na escuridão. Não eram os homens de Gu Zhixing — Gu Zhixing preferia usar carros mais discretos e não estacionaria em um local tão óbvio. Também não era a polícia; os subordinados de Zhao Tieshan seriam mais profissionais, não deixariam tal brecha de reflexo.
Então, era um terceiro.
Ou, a outra mão de Shen Yanqing.
Lu Chenzhou soltou o dedo. O veludo caiu de volta ao seu lugar, extinguindo completamente aquele sutil brilho vermelho. Ele se virou e caminhou em direção à antiga mesa de trabalho manca no centro do quarto. A superfície estava limpa, apenas um laptop em estado de hibernação e um pen drive azul-escuro, sem qualquer identificação.
O pen drive dado por Gu Zhixing.
Ele se sentou, sem acender a luz principal. Ao pressionar o botão de energia, no instante em que a tela acendeu, um brilho azul-esverdeado pintou seu rosto, delineando sua linha maxilar tensa e lábios sem expressão. A ventoinha começou a zumbir baixo, soando especialmente clara no quarto silencioso. Ele inseriu o pen drive.
O sistema reconheceu, exibindo um prompt para partição criptografada.
Precisava de uma senha.
Gu Zhixing não dera a senha. Naquele momento, no departamento jurídico, sob a vigilância do supervisor Li, Gu Zhixing apenas sorriu e empurrou o pen drive, dizendo: "Os materiais preliminares estão todos aí. O Sr. Lu pode dar uma olhada primeiro. Se houver alguma dúvida, podemos nos comunicar a qualquer momento." Aquele sorriso era gentil e apropriado, mas seus olhos tinham uma calma interessada, como a de um cientista observando um camundongo de laboratório.
Os dedos de Lu Chenzhou deslizaram sobre o *touchpad*, invocando o script que ele havia pré-programado. Ele criou um ambiente de *sandbox* virtual, importando uma imagem dos dados do pen drive. Isto não era uma análise de dados forense convencional; era mais um teste de penetração de *hacker* — ele precisava arrombar a fechadura desta caixa sem acionar quaisquer possíveis mecanismos de autodestruição ou alarme.
O script começou a rod
Ele escreveu um segundo script para extrair em massa os campos de contatos associados, os timestamps de entrada de dados e os registros de permissões de acesso de cada arquivo suspeito. Ele procurava pontos de contradição — aquelas cadeias lógicas excessivamente perfeitas, aquelas conexões na linha do tempo tão coincidentes que pareciam artificiais, aqueles vestígios de acesso, mais altos ou mais baixos, que não deveriam estar presentes em arquivos desse nível.
O zumbido do ventilador ficou mais alto, o gabinete emitia calor constante, aquecendo seus pulsos apoiados na borda do teclado.
O fluxo de código verde desacelerou, entrando numa varredura de estruturas mais profundas.
Um nome foi destacado em alta prioridade pelo script: Zhou Mingyuan.
Consultor técnico, quarenta e cinco anos, responsável pela manutenção do sistema de TI de uma subsidiária periférica do Grupo Shen. Antecedentes limpos como uma folha de papel recém-fotocopiada — registro de residência local, graduação em ciência da computação numa universidade comum, histórico de trabalho contínuo, sem vícios, círculo social restrito. No contexto do caso de vazamento, esse tipo de pessoa normalmente era sinônimo de "segurança", e também uma cortina de fumaça perfeita.
Mas Lu Chenzhou notou um campo de observação criptografado no arquivo de Zhou Mingyuan.
O método de criptografia desse campo era diferente daquele da partição principal do pendrive, mais simples, até um pouco… antiquado. Como um resquício de um sistema de anos atrás, acidentalmente embalado junto. Ele parou o script, chamou manualmente a codificação hexadecimal desse campo. Seu olhar percorreu os padrões familiares de arranjo de caracteres.
Um pensamento, frio e claro, surgiu das profundezas da memória.
A voz de Shen Yanhuan, trêmula na névoa do vapor do chá na casa de chá: “… O tio Sun, ele era secretário do meu pai antes de se aposentar, ficou com ele por muitos anos. Ele tinha uma habilidade, poucos sabiam — ele imitava caligrafias quase perfeitamente. Em algumas ocasiões do meu pai que não eram tão importantes, mas ainda exigiam assinatura autógrafa, às vezes ele deixava…”
Sun Henian.
O falecido secretário Sun.
Os dedos de Lu Chenzhou pararam por meio segundo. Então, na caixa de entrada da senha, ele digitou os últimos seis dígitos da senha inicial padrão do sistema interno que Shen Yanhuan mencionara sem querer, aquela que Sun Henian usava antes de se aposentar. Uma senha há muito obsoleta, teoricamente deveria estar inválida.
Enter.
O campo criptografado se expandiu.
Apenas uma linha de palavras, fria, repousava no centro da tela:
O ar no quarto pareceu ser sugado instantaneamente.
Lu Chenzhou encarou aquela linha, aquele nome — Li Mo. Loja de Encadernação Mo Yun. Encadernação. Discípulo de Sun Henian.
Todos os fragmentos foram puxados de repente, fechados, por uma corrente de lógica invisível, mas pesadíssima.
Zhou Mingyuan — o consultor técnico na lista de Gu Zhixing, uma cortina de fumaça segura.
Li Mo — o contato de emergência de Zhou Mingyuan, um encadernador.
Sun Henian — o mestre de Li Mo, o falecido ex-secretário, imitador de caligrafias.
E aquela caligrafia, aquela que apareceu há dez anos na falsa "carta de arrependimento", que o prendeu na prisão injusta; aquela que, alguns dias atrás, apareceu miraculosamente no formulário de investigação de antecedentes do chamado "caso de vazamento" tratado por Zhou Mingyuan…
Tão fluido.
Fluido como um caminho reto, cuidadosamente colocado, com iscas espalhadas, esperando apenas que a presa pisasse.
Sua respiração ficou anormalmente lenta, profunda, cada inspiração carregada de partículas de poeira e mofo do prédio antigo, arranhando sua traqueia. O coração batia pesadamente no peito, o ritmo já não era como o som de tambores de contagem regressiva, mas como o baque surdo de um balde batendo na parede de um poço profundo.
Shen Yanqing.
Foi você?
Você fez Gu Zhixing usar Zhou Mingyuan, fez Zhou Mingyuan contatar Li Mo. Você pode até ter… induzido Gu Zhixing a "incluir proativamente" Li Mo no campo de visão da investigação. Então, você esperou. Esperou que eu, a pessoa que
O ponto vermelho como a ponta de uma agulha na esquina da rua, através das grossas cortinas, parecia ainda capaz de queimar suas costas.
Ele se recostou lentamente para trás, afundando na cadeira que rangia. As peças desmontadas da caneta esferográfica eram apertadas em sua palma, as bordas duras cravando-se na carne.
A isca já havia sido engolida.
Agora, ele era a faca.
Uma faca que sabia por quem era segurada e para onde seria brandida.
Uma faca pode escolher cortar a mão que a empunha?
O diagrama de conexões na tela deixava uma sombra residual ardente em sua retina.
Lu Chenzhou fixou o olhar naquela linha — “Discípulo de Sun Henian (falecido)”. A sala agora só tinha o zumbido baixo do ventilador do computador, como se algum inseto estivesse fazendo um ninho dentro da parede. O canto esquerdo de seu olho começou a se contrair, um leve tremor muscular se espalhando ao longo do osso da bochecha.
Seus dedos desmontavam a tampa da caneta inconscientemente.
O encaixe de plástico fez um leve clique.
Zhou Mingyuan… consultor técnico… contato de emergência Li Mo… Li Mo é discípulo de Sun Henian… Sun Henian é o falecido Secretário Sun… a caligrafia apareceu nos formulários de verificação de antecedentes processados por Zhou Mingyuan.
A cadeia lógica se fechou perfeitamente.
Perfeitamente a ponto de dar náuseas.
Lu Chenzhou fechou os olhos. Na escuridão, aqueles nomes flutuavam, como órgãos em frascos de espécimes. Ele sentiu o cheiro de poeira no ar, misturado com o odor ácido característico de papel de livros velhos. Ocasionalmente, um veículo passava na rua lá fora, o som dos pneus sobre o asfalto filtrado pelas cortinas em um lamento indistinto.
O carro na esquina ainda estava lá.
O reflexo da lente teleobjetiva brilhava na fenda da cortina a cada poucos minutos, regular como um batimento cardíaco.
Ele abriu os olhos, o olhar caindo sobre o detector de sinal na ponta da mesa. Uma caixa de plástico preta do tamanho de uma mão, as luzes indicadoras em silêncio. Lu Chenzhou estendeu a mão e pressionou o interruptor.
A luz verde acendeu.
Então, no terceiro segundo, a luz indicadora vermelha mais à direita começou a piscar.
Fraca.
Mas contínua.
Havia uma fonte de sinal no quarto. Não era um dispositivo que ele trouxera.
A respiração de Lu Chenzhou desacelerou. Ele fixou o olhar naquela luz vermelha, vendo-a piscar a cada cinco segundos, como se alguma criatura estivesse respirando na escuridão. Seus dedos pararam na tampa da caneta desmontada pela metade, as bordas das unhas branqueando pela força aplicada.
Vigilância. Escuta. Ou ambos.
Ele se levantou lentamente, as articulações dos joelhos emitindo um leve estalo. A luz da tela do computador refletia em seu rosto, dividindo suas feições em claros e escuros. Ele caminhou até a janela, não abriu as cortinas, apenas aproximou a orelha do vidro gelado.
De longe, vinha o som do motor de um ônibus noturno.
E também… o chiado estático de um walkie-talkie.
Muito baixo. Mas presente.
Lu Chenzhou recuou dois passos, o olhar varrendo o quarto. Vinte metros quadrados de espaço, uma cama, uma mesa, um guarda-roupa simples. O banheiro ficava no canto, a porta entreaberta. Ele foi até o guarda-roupa, abriu a gaveta mais inferior.
Na camada oculta havia um celular pré-pago. E um kit simples de anti-escuta — lenços umedecidos, saco de bloqueio, isqueiro.
Ele pegou o celular. A bateria ainda tinha trinta e sete por cento.
Suficiente.
Lu Chenzhou caminhou em direção ao banheiro, pisando levemente. O piso era de compensado velho, afundando sutilmente ao ser pisado. Ele empurrou a porta do banheiro, abriu a torneira.
Água fria jorrou, o som do impacto na pia de cerâmica instantaneamente enchendo o pequeno espaço, como uma tempestade.
Ele fechou a porta.
Escuridão. Apenas um fio de luz azul da tela do computador entrava por baixo da porta. Lu Chenzhou agachou-se, encostando as costas na parede fria de azulejos
O silêncio desceu abruptamente, como um pano úmido tapando nariz e boca. Lu Chenzhou ficou em pé no escuro por um momento, deixando os olhos se reajustarem. Então ele empurrou a porta do banheiro e voltou para o quarto.
O computador ainda estava aceso. O mapa de conexões ainda estava na tela.
Lu Chenzhou caminhou até a janela, desta vez puxando um canto da cortina — apenas dez centímetros. O carro preto na esquina da rua estava parado silenciosamente, os vidros com película escura. Ele ergueu a mão, direcionando a tela do celular para fora da janela.
Acendeu. Apagou. Acendeu novamente.
A luz da tela piscou três vezes na fenda da cortina, como um código Morse. Então ele rapidamente fechou a cortina e recuou para o centro do quarto.
Esperou.
Dez segundos. Vinte segundos.
A janela do carro na esquina desceu pela metade. Uma figura indistinta se inclinou para fora, olhando na direção dele. Não desceu do carro, não se aproximou, apenas observou. Trinta segundos depois, a janela subiu novamente.
Lu Chenzhou soltou o punho cerrado. Havia quatro marcas semicirculares de unhas na palma da mão.
A vigilância, por enquanto, era principalmente observação e relato.
Ele voltou para a mesa e começou a arrumar. Desligou o computador, removeu o disco rígido e o colocou em uma bolsa de blindagem. Todos os papéis sobre a mesa — incluindo o rascunho com o mapa de conexões — foram dobrados. Ele entrou no banheiro, fechou a porta e acendeu o isqueiro.
A chama saltou. A luz alaranjada dançou sobre os azulejos, alongando sua sombra em um gigante distorcido. As bordas do papel se enrolaram, escureceram, viraram cinzas. Um cheiro de queimado se espalhou, misturando-se à umidade, tornando-se um odor denso e metálico.
Lu Chenzhou observou o último vestígio de brasa se apagar. Lavou as cinzas na privada, a água girando e engolindo-as. Então voltou para o quarto e limpou a mesa, o encosto da cadeira, a maçaneta da porta — todos os lugares que poderiam ter deixado impressões digitais — com um lenço umedecido. O cheiro do álcool evaporando era pungente, como desinfetante.
Pronto. Uma mochila, contendo o disco rígido, o celular, algumas roupas para trocar. O quarto estava de volta ao normal, limpo como se ninguém nunca tivesse morado ali. Lu Chenzhou parou na porta, dando uma última olhada para esse ninho temporário.
A tela já estava escura. As cortinas, fechadas. Apenas a luz de um poste na rua infiltrava-se por uma fenda, cortando uma linha pálida no chão.
Ele abriu a porta.
A luz do corredor, acionada por sensor de som, acendeu, derramando uma claridade amarelada sobre os degraus de concreto. Lu Chenzhou desceu as escadas, passos leves, mas cada pé plantado no centro do degrau, evitando ecos vazios. No saguão do térreo, as caixas de correio velhas exalavam cheiro de ferrugem.
Ele empurrou a porta do prédio.
O ar das quatro da madrugada invadiu, úmido, fresco, carregando o leve azedume distante de uma estação de transferência de lixo no profundo da cidade. Uma névoa fina pairava sobre as ruas como um véu, tornando os halos das luzes da rua em bolas difusas.
Lu Chenzhou entrou na névoa. Não olhou para trás.
Sua figura gradualmente se desfocou na névoa, como uma gota de tinta se dissolvendo na água. A janela do carro na esquina desceu novamente, uma lente teleobjetiva focando na direção em que ele desapareceu, o vidro da lente refletindo a luz fria do poste.
Mas não o seguiram. Apenas registraram.
Lu Chenzhou virou a esquina e entrou em um beco lateral. Lixeiras empilhadas contra a parede exalavam um fedor azedo. Um gato de rua escapou das sombras, os olhos brilhando verdes no escuro. Ele acelerou o passo, atravessou o beco e chegou a outra rua.
Aqui era mais quieto. Apenas uma loja de conveniência 24 horas ainda estava acesa, gotas de água condensadas na porta de vidro.
Lu Chenzhou parou diante
Lu Chenzhou abriu a tampa da garrafa e tomou um gole de água. A água fria deslizou pela garganta, trazendo um breve momento de lucidez. Ele colocou o telefone de volta no bolso, os dedos tocando a carcaça metálica gelada do disco rígido.
O diagrama de conexões reapareceu em sua mente.
Zhou Mingyuan — Li Mo — Sun Henian. Gu Zhixing — Shen Moqing. Pista da caligrafia — caso antigo — caso de vazamento de informações.
Um circuito perfeito.
E ele, Lu Chenzhou, foi projetado para ser a engrenagem mais crucial nesse circuito — descobrir a pista, expor Li Mo, completando o plano de Shen Moqing de eliminar o informante, atacar Gu Zhixing e testar a lealdade, tudo de uma vez só.
Do investigador. Tornou-se o carrasco manipulado.
A névoa ficou mais densa. O halo da luz da rua se espalhou no ar leitoso, como as últimas bolhas de um homem se afogando. Lu Chenzhou ficou parado na beira da rua, olhando para a estrada vazia. O horizonte ao longe começava a clarear, com o tom de barriga de peixe, mas a noite ainda estava densa, como tinta que não se dissolve.
Ele tinha que fazer uma escolha.
Agora.
Ficar quieto e observar, assistindo Li Mo ser eliminado por Gu Zhixing?
Ou intervir ativamente, perturbando essa "limpeza" dirigida por Shen Yanqing e executada por Gu Zhixing?
Ou talvez...
Encontrar um terceiro caminho.
Uma variável que pareça acidental, mas que possa perturbar o ritmo de todos.
Lu Chenzhou pegou a mochila e começou a caminhar em direção ao arquivo municipal. Seus passos eram firmes, cada um pisando na superfície úmida do concreto, emitindo um leve som de "shhh". A névoa envolvia suas calças, como inúmeras mãos geladas tentando retardar sua velocidade.
Mas ele não parou.
O dia estava amanhecendo.
E alguns jogos precisam ser concluídos na escuridão.
Lu Chenzhou ficou parado no centro do quarto.
As janelas estavam fechadas, as cortinas bem fechadas. No carro de vigilância na esquina, as lentes já haviam sido recolhidas. Mas ele sabia que algum tipo de escuta mais discreta ainda continuava — talvez um sensor de vibração na abertura do ar-condicionado, talvez uma película sensível à pressão no piso. Shen Yanqing não enviaria apenas olhos humanos para vigiar.
A mensagem criptografada de Qin Wangshu ainda brilhava na tela do telefone.
«Li Mo, quarenta e três anos, gerencia a loja de emolduramento 'Mo Yun Zhai'. Há três dias, foi intimado pela delegacia local por 'suspeita de obtenção ilegal de informações comerciais', atualmente liberado sob fiança aguardando julgamento. A parte que o intimou foi o 'Departamento Jurídico do Grupo Changfeng'. Gu Zhixing.»
Lu Chenzhou fechou os olhos.
Na escuridão, surgiram a fumaça do charuto no escritório de Shen Yanqing, o leve sorriso de Gu Zhixing, a linha de caligrafia azul no arquivo. E Li Mo — esse nome era como uma agulha gelada, penetrando na fissura de sua percepção.
Gu Zhixing já havia agido.
Intimação, liberação sob fiança aguardando julgamento. Esse era o procedimento padrão de eliminação: primeiro controlar a pessoa por meios legais, isolando-a do contato externo, depois extrair lentamente seu valor ou criar um "acidente". Li Mo agora era como um pássaro em uma gaiola, as asas já amarradas, apenas esperando o dono decidir se o mantém vivo ou o mata.
E Shen Yanqing... estava esperando que ele, essa "faca", caísse.
O punho de Lu Chenzhou se apertou, as unhas enterrando-se na palma da mão. Ele sentiu aquela picada, como se estivesse tentando empurrar de volta algo mais profundo.
Ele abriu os olhos novamente e foi até o computador.
O diagrama de conexões na tela ainda não estava fechado: Zhou Mingyuan → Li Mo → Sun Henian (falecido). Três linhas, três nomes, formando uma corrente que levava a dez anos atrás. Ele encarou o diagrama, sua mente começando a reconstruir a linha do tempo.
Shen Yanqing sabia a verdade sobre a caligrafia do caso antigo — porque ele mesmo a projetou.
Shen Yanqing plantou Li Mo como uma peça ao lado de Gu Zhixing — como um informante, ou como uma espécie de ferramenta de reserva.
Shen Yanqing induziu Gu Zhixing a iniciar a "investigação do vaz
Primeiro, calçou luvas — aquelas luvas de látex finíssimas, que quase escondiam as linhas da palma da mão. Em seguida, tirou do gavetão um celular pré-pago, removeu a bateria e extraiu o chip SIM. Com um isqueiro, aqueceu um canto do chip até amolecer, dobrou-o e jogou-o na privada, dando descarga.
E o corpo do celular?
Ele foi até o banheiro, abriu a torneira. A água correu ruidosamente. Colocou o celular na borda da pia, pegou do kit de ferramentas um martelo pequeno, tipo pé-de-cabra.
O martelo desceu.
A carcaça de plástico rachou, expondo a placa de circuito. Ele bateu mais algumas vezes, até os chips na placa-mãe ficarem completamente deformados. Os fragmentos foram varridos para dentro de um saco plástico, misturados às cinzas dos papéis queimados.
Os papéis...
Ele puxou de um bolso interno da mochila aquelas poucas páginas de notas de análise escritas à mão. Escritas a lápis, a letra leve. Ele as rasgou uma a uma, jogou na pia e ateou fogo com o isqueiro.
Chamas alaranjadas saltaram.
A queima do papel liberou um cheiro de queimado, misturado ao odor residual de sabonete barato que pairava no banheiro. As cinzas eram negras, bordas encurvadas, como borboletas mortas. Ele abriu a torneira, a água levou os últimos vestígios.
E a fumaça?
O banheiro tinha um exaustor. Ele o ligou, o motor velho emitiu um zumbido cansado. A fumaça foi sugada, dissolvendo-se no céu que clareava lá fora.
Então ele começou a limpar.
Lenços umedecidos especiais, com álcool. Ele limpou maçanetas, bordas da mesa, teclado, mouse, apoios de braço da cadeira. Qualquer superfície que pudesse reter impressões digitais ou óleos da pele. Os lenços exalavam um cheiro fraco e ácido de álcool, logo diluído pela umidade do banheiro.
O disco rígido do computador foi removido.
Com uma chave de fenda, ele desparafusou a tampa inferior do notebook e retirou o disco rígido mecânico de 2,5 polegadas. Na superfície do disco havia uma pequena etiqueta, com os dizeres "Backup-3" escritos a caneta permanente. Ele olhou para a etiqueta por dois segundos, depois a arrancou e queimou.
O disco rígido foi colocado em uma caixa portátil cinza-chumbo.
O forro interno da caixa era de folha metálica, com camada de blindagem. Ao fechar a tampa, houve um clique abafado. Ele enfiou a caixa no bolso mais interno da mochila, fechou o zíper.
A mochila ficou mais pesada.
Dentro ainda estavam aquela gravadora, alguns cartões de transporte não registrados, uma pilha de dinheiro vivo, uma faca multiuso. E o mais importante — a cópia física do pen drive que Gu Zhixing lhe dera. O pen drive original já fora destruído, mas ele fizera uma imagem antes.
Ele pôs a mochila nas costas e olhou em volta aquele alojamento temporário.
O quarto estava limpo como se ninguém jamais tivesse morado ali. Sem impressões digitais, sem fios de cabelo, sem nenhum objeto pessoal deixado para trás. Até a lixeira estava vazia, o saco plástico era novo.
A névoa lá fora estava mais densa.
As luzes da rua iam se apagando uma a uma. O carro de vigilância ainda estava parado no mesmo lugar, mas a sombra atrás da janela permanecia imóvel, como se estivesse dormindo, ou talvez em processo de troca de turno.
Lu Chenzhou foi até a porta.
Sua mão pousou na maçaneta, parou por três segundos. Nesses três segundos, ele confirmou pela última vez sua decisão.
Não podia seguir o roteiro de Shen Yanqing — isso significaria tornar-se completamente uma ferramenta, onde até a "descoberta de pistas" era uma autonomia concedida. Ele seria fixado para sempre na posição de "lâmina obediente", sem chance de escapar.
Não podia confrontar diretamente — proteger Li Mo imediatamente o tornaria inimigo tanto de Shen quanto de Gu. Shen Yanqing o veria como uma peça fora de controle, Gu Zhixing o consideraria um obstáculo à limpeza. Ele não sobreviveria três dias
Ele caminhou direto para o último orelhão público — um daqueles telefones antigos de moedas, com capa plástica vermelha, os botões numéricos já desgastados. Inseriu duas moedas e discou um número.
O número era a linha de consulta pública do Arquivo Municipal.
“Triiiim — triiiim —”
Ao quarto toque, alguém atendeu. Era a voz de uma mulher jovem, carregada de uma sonolência indistinta: “Arquivo Municipal, setor de consultas.”
“Olá,” disse Lu Chenzhou. Sua voz era estável, até um tanto educada. “Gostaria de consultar os números de arquivo de alguns antigos registros de obras municipais. São documentos relacionados à reforma do sistema de drenagem do centro antigo, entre 1987 e 1992.”
“Qual organização? Precisa de carta de apresentação.”
“Pesquisa pessoal. Não preciso dos originais, apenas dos números de arquivo e resumos do catálogo.”
Houve alguns segundos de silêncio do outro lado da linha. O som de papéis sendo revirados. “1987 a 1992… sistema de drenagem… o senhor está se referindo aos ‘Registros da Obra de Reforma da Rede de Tubulações ao Longo da Avenida Changfeng’?”
“Isso. E também aos ‘Registros de Desassoreamento da Área da Ponte Sunjia’ do mesmo período.”
“Um momento.” Som de teclas sendo pressionadas. “Registros da Avenida Changfeng, número de arquivo A-1987-043. Registros da Ponte Sunjia… B-1990-112. Só esses dois?”
“Só esses dois. Obrigado.”
Lu Chenzhou desligou o telefone.
Tirou do bolso um pequeno caderno e rapidamente anotou os dois números de arquivo com um lápis: A-1987-043. B-1990-112. A ponta do lápis riscou o papel, emitindo um leve som de “shhh-shhh”. Em seguida, arrancou aquela página, dobrou-a e enfiou-a no bolso lateral da mochila.
O próximo passo.
Ele saiu da loja de conveniência e entrou em um beco ainda mais estreito ao lado. No meio do beco havia um banheiro público, com uma placa de “Em Manutenção” pendurada na porta. Contornou a parte de trás do banheiro, onde havia uma caixa de distribuição de energia abandonada, a porta entreaberta.
Tirou da mochila outro celular.
Era um pré-pago novo, ainda não ligado. Agachou-se, usando o corpo para bloquear qualquer possível ângulo de visão, ligou-o rapidamente e conectou-se a um ponto de acesso Wi-Fi público — o sinal vazado de uma lan house próxima.
Abriu o navegador.
Acessou um serviço de e-mail temporário estrangeiro. A conta havia sido criada na noite anterior em outra lan house, senha gerada aleatoriamente. Endereço do destinatário… ele digitou uma sequência de caracteres.
Era o e-mail de trabalho público de um jornalista investigativo comercial local. Esse jornalista era famoso por desenterrar escândalos corporativos e recentemente estava escrevendo uma reportagem aprofundada sobre a “porta giratória entre governo e negócios”. Mais importante, esse jornalista tinha uma rixa com Gu Zhixing — uma reportagem três anos atrás quase fez um caso de fusão e aquisição sob responsabilidade de Gu Zhixing fracassar.
Lu Chenzhou começou a digitar.
Assunto: «Algumas Pistas Sobre a Ação Investigativa Anormal do Departamento Jurídico do Grupo Changfeng»
O texto era curto:
«Fui informado de que recentemente o Departamento Jurídico do Grupo Changfeng, sob a alegação de ‘suspeita de obtenção ilegal de informações comerciais’, intimou um restaurador de pinturas e caligrafia (Li Mo, proprietário da ‘Loja Mòyùn’). Este restaurador foi aprendiz do falecido ex-secretário do governo Sun Henian. Sun Henian atuou como coordenador do projeto de reforma do centro antigo e teve interseções com os projetos municipais do Grupo Changfeng em seus primeiros anos. Esta intimação estaria relacionada a disputas internas de pessoal dentro do grupo ou a problemas históricos pendentes? Merece atenção. Fonte da informação: um ex-participante do projeto que prefere não se identificar.»
Sem assinatura.
Sem rubrica.
Ele verificou se havia erros de digitação e clicou em “Enviar”. A barra de progresso girou duas vezes e mostrou “Enviado com sucesso”. Imediatamente saiu da conta de e-mail, limpou o cache do navegador e desligou o celular.
Removeu o chip SIM e o partiu ao meio.
O aparelho em si foi esmagado com um martelo — o mesmo procedimento, realizado na pia do banheiro. Os fragmentos foram
"Esperando alguém?" ela perguntou casualmente, ocupada em amassar a massa.
"Hum." Lu Chenzhou respondeu com um som.
"O Arquivo só abre às nove. Ainda é cedo."
"Sem pressa."
Ele terminou o último pedaço do yóutiáo, limpou as mãos com um lenço de papel. Então, tirou da mochila o pequeno caderno com os números dos arquivos anotados e deu mais uma olhada.
A-1987-043.
B-1990-112.
Esses números de arquivo deixariam um registro de consulta. O sistema de computador do Arquivo registraria automaticamente o IP de acesso, o horário e o conteúdo da consulta. Shen Yanqing poderia descobrir — se estivesse monitorando o sistema do Arquivo. Gu Zhixing também poderia descobrir — se tivesse energia para prestar atenção a esses detalhes.
Eles veriam: No momento crucial da investigação do "caso de vazamento", Lu Chenzhou, em vez de ir atrás do suspeito Li Mo, foi consultar as atas de obras municipais de trinta anos atrás.
Por quê?
Eles poderiam especular: Ele estava procurando por manchas no passado de Sun Henian? Ele estava desenterrando alavancas sobre os projetos antigos da família Shen? Ele estava preparando trunfos para algum tipo de negociação mais sutil?
Que especulem.
Lu Chenzhou guardou o caderno. Era exatamente esse tipo de especulação que ele precisava — essa ação que se desviava do roteiro, que não podia ser facilmente classificada. Essa "variável inesperada" que faria os jogadores de xadrez franzir a testa.
Ele olhou para o relógio.
Oito e quarenta e sete. Na porta do Arquivo, uma fila começava a se formar, composta principalmente por estudantes e pesquisadores. O portão de grade de ferro rangiu com um som de metal.