Capítulo 58: Fios de Teia e Correntes Ocultas
Lu Chenzhou desceu as escadas.
O tecido áspero do macacão esfregava contra a pele. A cada passo, um leve ruído de fricção se produzia entre o pano e a pele, como se algum inseto estivesse rastejando. O patamar estava entulhado com materiais de construção descartados, e os fragmentos de gesso rangiam sob seus pés. O ar estava impregnado de poeira, mofo e o cheiro distante de óleo de cozinha barato.
Gu Zhixing estava encostado ao carro, seu olhar atrás dos óculos de armação dourada encontrando o dele com calma.
"Sr. Lu." Gu Zhixing falou, sua voz soando excepcionalmente clara na ruína vazia e na viela. "O Sr. Shen gostaria de convidá-lo a voltar."
Lu Chenzhou parou nos últimos dois degraus. Cerca de cinco metros os separavam. O vento que entrava pela boca do beco levantava uma fina camada de poeira do chão. A pintura do carro preto, sob a luz amarelada do crepúsculo, parecia uma poça de água escura e insondável.
"Voltar." Lu Chenzhou repetiu a palavra, o tom plano. "Voltar para onde?"
"Shen Yan." Gu Zhixing ajustou levemente a postura, as mãos ainda enfiadas nos bolsos da calça. "O jovem mestre Shen Yan tem algumas questões sobre o progresso do caso e gostaria de discutir pessoalmente com o senhor."
O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se ligeiramente.
Ele fitou Gu Zhixing. O terno do advogado estava impecável, sem um único vinco, o nó da gravata perfeito e contido. Mas Lu Chenzhou notou que o dedo indicador da mão direita de Gu Zhixing, dentro do bolso da calça, batia inconscientemente contra o tecido — era um hábito dele quando estava nervoso. Lu Chenzhou tinha visto o mesmo gesto da última vez, fora da saída de emergência de Shen Yan, quando ele sugerira uma rota de fuga.
"O capitão Zhao Tieshan acabou de cercar o local com seus homens." Lu Chenzhou disse. "Meu celular foi apreendido temporariamente, todos os materiais de investigação foram solicitados. E agora Shen Yan quer 'discutir o caso'."
Ele fez uma pausa.
"Advogado Gu, como você acha que devo interpretar o momento escolhido?"
Gu Zhixing ajustou os óculos. As lentes refletiram a luz por um instante.
"Falando do ponto de vista do procedimento legal, a exigência da polícia para que o senhor coopere com a investigação não entra em conflito com o pedido da família Shen para que o senhor continue investigando o caso." Suas palavras eram precisas, como se estivesse lendo um texto jurídico. "Claro, desde que o senhor realmente ainda tenha... algum progresso que valha a pena discutir."
O punho de Lu Chenzhou apertou-se dentro do bolso do macacão.
As unhas enterraram-se na palma da mão. A dor era clara e concreta.
Ele soltou a mão lentamente.
"O carro pode entrar diretamente na mansão?" ele perguntou.
"Podemos usar a passagem dos serviçais no lado oeste." Gu Zhixing abriu a porta do carro. "Por favor."
***
O interior do veículo estava impregnado do cheiro de limpador de couro e de uma fragrância de cedro tão suave que mal se podia sentir. Gu Zhixing sentou-se no banco do passageiro, sem se virar uma única vez durante todo o percurso. O motorista era um homem de meia-idade silencioso; no espelho retrovisor, só se via metade de seu rosto sem expressão.
Lu Chenzhou recostou-se no banco, observando a paisagem urbana que passava rapidamente pela janela.
A cidade transitava gradualmente da área de ruínas decadentes para o bairro antigo ainda relativamente limpo, e depois para a periferia da área de vilas com paisagismo refinado. A última luz do crepúsculo era cortada pelos edifícios altos em fragmentos, que deslizavam pela janela do carro. Seus dedos batiam inconscientemente sobre o joelho, o ritmo das juntas batendo estável e regular — era o ritmo de "espera" no código Morse.
O que ele estava esperando?
Por uma oportunidade. Por uma fissura. Por aquela linha que Shen Yan, movido pelo medo, revelaria, uma linha que se conectava a uma escuridão ainda mais profunda.
Quando o carro entrou pelo discreto portão de ferro no lado oeste da propriedade de Shen Yan, já estava completamente escuro. As luzes de solo do jardim acender
Ele vestia uma roupa de casa cinza-escura, com um cardigã de caxemira cinza-fumo por cima, parecendo casual e relaxado. Mas Lu Chenzhou notou que Shen Yan estava sentado muito ereto, os ombros tensos, a mão esquerda apoiada no braço da cadeira, o dedo indicador e o dedo médio batendo alternadamente, de forma extremamente sutil, no apoio de madeira.
"Sr. Lu." Shen Yan falou, sua voz carregando um tom de cansaço deliberadamente cultivado. "Sente-se, por favor. Pedi para você vir tão tarde porque... alguns problemas, quanto mais penso, mais sinto que algo não está certo."
Lu Chenzhou sentou-se na cadeira em frente à mesa. A cadeira também era de madeira maciça, o assento muito duro.
"Por favor, fale, Senhor Shen Yan."
Shen Yan não respondeu imediatamente. Ele esticou a mão, pegou o peso de papel de latão sobre a mesa e começou a girá-lo lentamente nas mãos. O peso de papel tinha um estilo antigo, com intrincados padrões de nuvens esculpidos, refletindo um brilho suave sob a luz do teto do escritório.
"Você assistiu à entrevista de meu pai na TV esta tarde?" Shen Yan perguntou.
"Assisti."
"Então você deve entender minha situação atual." Shen Yan colocou o peso de papel de volta e ergueu os olhos. Seu olhar era calmo, mas no fundo de suas pupilas havia algo tenso. "Ele insinuou diante das câmeras que você é mentalmente instável e forja evidências. No plano de fundo... minha sala de estudo apareceu."
Shen Yan fez uma pausa.
"Ele está pavimentando um caminho para mim. Um caminho... para nos descartar juntos, você e eu."
Lu Chenzhou não disse nada.
O escritório estava muito silencioso. Um incenso caro de madeira de agar queimava suavemente em um queimador de cobre no canto, exalando uma fumaça levemente enjoativa. Aquele aroma se misturava ao cheiro de cânfora liberado pela estante de livros antiga, formando um perfume quente, pesado e sonolento. Mas o olfato de Lu Chenzhou captou outra camada de cheiro — a colônia extremamente suave de Shen Yan, e o odor ligeiramente ácido do verniz residual da superfície de mogno polida.
"Então, o que você quer discutir comigo?" Lu Chenzhou perguntou.
"Discutir como sobreviver." Shen Yan inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa, os dedos entrelaçados. "Sr. Lu, você agora é o 'suspeito relacionado' sob investigação da polícia, seu telefone foi apreendido, os materiais precisam ser entregues. E eu... meu pai já me colocou no centro do alvo. Nós dois, de certo modo, estamos no mesmo barco."
O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se novamente.
Ele controlou a respiração. Inspiração, expiração. O peito subia e desvia com estabilidade.
"Senhor Shen Yan", ele começou, o ritmo da fala constante, "você me chamou de volta não foi para dizer isso."
O olhar de Shen Yan cintilou levemente.
"Então você diz, para que foi?"
"Para confirmar." Lu Chenzhou disse. "Confirmar se eu realmente ainda tenho algo em minhas mãos que possa ameaçá-lo. Confirmar se, sob o cerco da polícia, entreguei ou não as evidências cruciais. Confirmar se eu... realmente estou sem saída, só posso 'remar no mesmo barco' com você."
Shen Yan sorriu. O sorriso era raso, apenas um pequeno arco nos cantos da boca, mas não havia alegria em seus olhos.
"O Sr. Lu é realmente direto." Ele disse. "Então serei direto também — você ainda tem? Essas chamadas 'evidências'?"
Lu Chenzhou tirou do bolso interno de seu casaco de trabalho uma bolsa preta, plana e à prova d'água. A bolsa estava muito velha, as bordas desgastadas e esbranquiçadas. Ele abriu o zíper, tirou de dentro um pacote de fotos em um saco plástico transparente e algumas folhas de papel impressas, colocando-os suavemente sobre a mesa de mogno.
O saco plástico tocou a superfície da mesa, emitindo um leve som de 'tac'.
O olhar de Shen Yan pousou sobre aquelas coisas. Seus dedos pararam de bater.
"O que é isso?" Ele perguntou, a camada de cansaço deliberado em sua voz havia desaparecido.
"Registros complementares da cena da morte de Zhao Mingcheng." Lu Chen
“Seda de amoreira azul-escura entrelaçada com metal raro.” Ele leu a conclusão do relatório. “Proporção do entrelaçamento: 82% de seda de amoreira de 22 momme, 18% de fio de liga com memória de forma de platina. Este último é um processo especial, utilizado para manter a forma do tecido e gerar microajustes em temperatura corporal – normalmente usado em acessórios de alta costura, como botões de punho, gravatas.”
Ele fez uma pausa.
“Este processo e proporção de entrelaçamento, apenas uma loja tradicional na cidade chamada ‘Pavilhão das Nuvens Brocadas’ fez sob encomenda para um número extremamente limitado de clientes, há cinco anos. Seu mestre artesão chefe, Mestre Wang, sofreu um AVC há cinco anos e desde então não aceita mais pedidos.”
Shen Yan permaneceu em silêncio.
Ele pegou aquele relatório de análise do material, seu olhar percorrendo os dados ali. Seus movimentos eram lentos, cuidadosos, mas Lu Chenzhou notou que as pontas dos dedos dele, segurando a borda do papel, estavam levemente brancas.
“A lista de clientes do Pavilhão das Nuvens Brocadas não é curta.” Shen Yan finalmente falou, a voz um pouco mais baixa do que antes. “O Sr. Lu já me prendeu como alvo?”
“Não prendi ninguém como alvo.” Disse Lu Chenzhou, tirando a última foto da pasta de documentos.
Era uma captura de tela de câmera de vigilância. A imagem estava um pouco embaçada, mas dava para ver que era uma ocasião de banquete. Um homem de terno escuro estava de perfil para a câmera, brindando com alguém. Seu pulso esquerdo emergia da manga do paletó, e na extremidade da manga, um botão de punho azul-escuro refletia um brilho metálico sutil sob a luz.
No canto inferior direito da captura, havia um carimbo de data e hora: 27 de outubro de 2023, 20:14.
“Esta é a vigilância do corredor leste do salão de banquetes, na noite do septuagésimo aniversário do seu pai.” Disse Lu Chenzhou. “A pessoa na imagem é você. O botão de punho que você usava—”
Ele pegou aquela foto microscópica da fibra e a colocou ao lado da captura de tela.
“—corresponde exatamente ao material desta fibra.”
O estudo ficou em silêncio mortal.
O aroma doce e enjoativo do incenso de sândalo de repente se tornou espesso, quase condensando em algo sólido, pesado no ar. De fora da janela, vinham os chamados distantes de pássaros noturnos, um, dois, e então desapareciam.
Shen Yan encarava as duas fotos lado a lado. Sua expressão não mudara, mas todo o seu rosto parecia tensionado por uma força invisível, a pele tão esticada que parecia prestes a rachar no próximo instante. Seu pomo de adão subiu e desceu uma vez, lentamente.
Lu Chenzhou esperou.
Seus dedos pararam de tamborilar sobre os joelhos. Todo o seu corpo parecia uma estátua de pedra, apenas os olhos se moviam – ele observava cada centímetro da reação de Shen Yan: a contração das pupilas, a parada da respiração, o tremor quase imperceptível do dedo anelar da mão direita.
“Mesmo que seja como você diz,” Shen Yan finalmente falou, a voz seca, “a fibra existe, o material corresponde. O que isso prova? A cena não estava completamente selada, pode ter sido uma armação. Pode ser que eu tenha perdido o botão de punho em outro lugar, alguém o encontrou e o deixou lá de propósito.”
“Pode ser.” Lu Chenzhou assentiu. “Mas, Sr. Shen, você conhece o conceito de ‘associação de singularidade’ na investigação criminal?”
Shen Yan ergueu o olhar.
“Quando as características de uma evidência física são únicas o suficiente para apontar para uma fonte extremamente limitada, ou mesmo única, e essa fonte tem uma ligação direta com uma figura central do caso,” Lu Chenzhou disse lentamente, “mesmo sem testemunhas oculares, sem filmagens diretas, esta corrente de evidências por si só... já é suficiente para criar pressão.”
Ele inclinou-se ligeiramente para frente, apoiando os cotovelos na mesa. Este movimento reduziu abruptamente a distância entre ele e Shen Yan, o ar entre os dois parecendo carregado de eletricidade.
“Além disso,” Lu Chenzhou continuou, baixando ainda mais a voz,
“A capacidade profissional do Sr. Lu é realmente admirável,” disse Shen Yan, sua voz recuperando aquela elegância cansada. “Conseguir encontrar evidências físicas tão minuciosas e ainda rastrear sua origem… Não é à toa que meu pai se esforçou tanto na época para colocá-lo lá dentro.”
O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se violentamente.
Ele controlou a expressão. Os músculos tensionaram, depois relaxaram.
“Então,” Shen Yan continuou, “como você pretende lidar com esta… ‘evidência de fibra’?”
“Isso depende de como o Sr. Shen Yan pretende lidar com nossa situação atual,” disse Lu Chenzhou.
Shen Yan sorriu. Desta vez, o sorriso foi um pouco mais profundo, mas os olhos permaneceram sem calor.
“Preciso de um tempo,” ele disse, levantando-se. “Consultar alguns pertences antigos, confirmar algumas coisas. Por hoje, vamos parar por aqui. O Sr. Lu também deve estar cansado. O quarto de hóspedes já está preparado, é o mesmo onde você ficou antes.”
Ele contornou a escrivaninha, caminhou até a porta e abriu a porta do escritório.
A luz amarela quente do corredor do lado de fora invadiu, cortando a escuridão opressiva do escritório.
“O Advogado Gu o levará até lá,” Shen Yan virou-se de lado, assumindo uma postura de despedida. “Descanse bem. Nós… conversamos amanhã.”
Lu Chenzhou levantou-se.
Ele recolheu as fotografias e o relatório da mesa, colocou-os de volta no saco à prova d’água e fechou o zíper. Seus movimentos eram calmos e deliberados, cada etapa tão precisa quanto se estivesse realizando um ritual. Então, ele caminhou até a porta. Ao cruzar a soleira, parou.
“Sr. Shen Yan,” ele disse, sem se virar. “Aquele par de abotoaduras de punho, você ainda o guarda?”
O corpo de Shen Yan enrijecera-se levemente.
“O quê?”
“Aquele par de abotoaduras de punho azul-marinho, sob medida,” disse Lu Chenzhou. “O que você usou na noite do banquete de aniversário. Se ainda as tiver, é melhor guardá-las bem. Afinal… coisas como a singularidade de evidências materiais, às vezes, se falta um elo, toda a corrente se rompe.”
Ele saiu do escritório.
A porta fechou-se suavemente atrás dele.
A luz no final do corredor esticou sua sombra, projetando-a no tapete persa espesso, suas bordas desfocadas. Lu Chenzhou não olhou para trás, mas conseguia sentir aquele olhar – vazando pela fresta entreaberta da porta do escritório, um olhar com peso e temperatura. Shen Yan estava observando sua partida.
Ele caminhava com firmeza.
O tecido áspero do macacão roçava sua pele, a cada passo emitindo um leve ruído de areia, como se algum inseto estivesse rastejando. Ele ergueu a mão esquerda, girando inconscientemente a tampa metálica da caneta que acabara de tirar do bolso. A tampa estava fria, sua superfície tinha texturas antiderrapantes finas. Girou. Parou. Girou novamente.
No canto esquerdo do olho, uma contração extremamente leve.
Ele parou na sombra da curva do corredor. Havia um vaso de porcelana verde com meio metro de altura, o corpo pintado com padrões de ramos entrelaçados e flores de lótus, o esmalte emitindo um brilho verde sombrio sob a luz fraca. Lu Chenzhou virou-se de lado, deixando seu contorno fundir-se à sombra do vaso. Inclinou levemente a cabeça, seu olhar atravessando a fenda estreita e cortada pela luz entre o corredor e a porta do escritório.
A luz que escapava por baixo da fresta da porta do escritório estava mudando.
Clareava. Escurecia. Os intervalos eram curtos, sem padrão.
Alguém estava caminhando rapidamente lá dentro. Os passos eram leves, mas por mais espesso que fosse o tapete, ele não conseguia absorver totalmente aquele arrastar pesado, sem ritmo, causado pela ansiedade. A luz era repetidamente cortada pelo corpo.
A respiração de Lu Chenzhou tornou-se ainda mais lenta. Ele soltou a tampa da caneta, deixando-a deslizar de volta para o fundo do bolso. O dedo indicador da mão direita pressionou suavemente o lado interno do pulso esquerdo, sentindo o pulso. Estável, forte, mas de três a quatro batidas mais rápido que o normal. A sensação do sangue correndo sob a pele era clara como o som de tambores
Comunicador criptografado. Não inteligente, design antiquado, projetado especificamente para comunicações curtas, seguras e difíceis de rastrear.
O canto da boca de Lu Chenzhou apertou imperceptivelmente para baixo. Um arco extremamente sutil, quase cruel. A presa mordeu a isca. A primeira reação ao pânico não foi destruir, não foi confrontar, mas pedir socorro externo. A pessoa a quem pediu socorro, certamente era alguém que ele acreditava poder lidar com o problema das "fibras".
Shen Yan não foi para o telefone fixo, não usou o celular. Ele usou isso.
A luz e a sombra na fresta da porta balançaram novamente, a mão e a silhueta do comunicador se moveram para o outro lado da escrivaninha, talvez para encontrar um ponto de sinal melhor, ou para evitar algo. Lu Chenzhou não podia mais permanecer. Do outro lado do corredor vieram passos extremamente leves, o ritmo da inspeção de rotina de um empregado, a sola do sapato esfregando contra o carpete grosso, emitindo um som regular e inquietante de farfalhar.
Ele retirou o olhar, virou-se e, com passos silenciosos, mergulhou nas sombras mais profundas do corredor, dirigindo-se à direção do quarto de hóspedes que lhe fora designado. O padrão frio do papel de parede do corredor, através do tecido da camisa, pressionava levemente suas omoplatas.
***
A porta do quarto de hóspedes fechou-se suavemente atrás dele, a lingueta da fechadura caiu, emitindo um surdo "clique".
Lu Chenzhou ficou de pé por dois segundos, encostado na placa fria da porta. O quarto estava sem luz, apenas a luz esparsa e pálida das lâmpadas de jardim do lado de fora da janela delineava vagamente os móveis. Uma cama, uma escrivaninha, uma cadeira, um guarda-roupa. Simples quase como uma cela. O ar tinha um leve cheiro de naftalina e poeira de carpete velho, misturado com um tênue odor úmido de terra vindo das plantas do jardim, que ao ser inalado trazia o frescor do orvalho noturno.
Ele foi até a janela e ergueu um canto da cortina pesada. A borda áspera do veludo arranhou o dorso de sua mão.
Lá embaixo, o carro preto ainda estava estacionado na entrada do beco. Gu Zhixing ainda estava encostado no carro, sua postura quase inalterada, apenas que agora ele estava ligeiramente inclinado para baixo, parecendo verificar a tela do celular. A luz fria da tela iluminava metade de seu rosto, nos vidros dos óculos de aro dourado, dois pontos de luz cintilavam de forma instável, como pupilas de uma fera à espreita na escuridão.
Que paciência.
Lu Chenzhou abaixou a cortina, deixando o quarto novamente na escuridão. O veludo caiu, trazendo consigo uma pequena corrente de ar que acariciou seu rosto. Ele foi até a escrivaninha, puxou a cadeira e sentou-se. O movimento foi suave, mas entre o pé de madeira da cadeira e o chão, ainda assim emitiu um leve e desagradável som de atrito, especialmente agudo no silêncio.
Do fundo da bolsa de ferramentas de lona comum que carregava consigo, ele pegou um cubo de plástico preto. O tamanho e a espessura não eram diferentes de um power bank comum, com uma porta USB na lateral e até mesmo um indicador de bateria — que agora mostrava uma luz verde cheia. Mas no outro lado, havia uma minúscula tampa de slot que era quase invisível e precisava ser aberta com a unha. A carcaça de plástico era fria e lisa ao toque.
Lu Chenzhou abriu o slot com a unha, sentindo uma leve resistência na ponta do dedo. Do compartimento interno da bolsa de ferramentas, ele tirou uma película transparente de reforço de sinal, mais fina que a asa de uma cigarra e menor que uma unha. A borda da película era afiada, quase cortante. Ele alinhou a película com os
Os fones de ouvido foram instantaneamente inundados por um ruído branco torrencial. Um sibilar interminável, como a tela de neve de uma televisão antiga sem sinal amplificada dez mil vezes, injetado diretamente no fundo dos tímpanos. Lu Chenzhou fechou os olhos por um momento. Quando os abriu novamente, restava apenas um foco frio e absoluto em seu olhar. Ele se adaptou ao ruído, começando a sentir uma leve dor e expansão no interior dos canais auditivos. Seus dedos batiam rapidamente na superfície lisa do "carregador portátil" em um ritmo específico — um comando para iniciar uma varredura em uma faixa de frequência específica. As unhas batendo na carcaça de plástico produziam um leve som *toc-toc*.
Dentro do ruído branco, começaram a surgir outras "coisas".
Ruídos de interferência de corrente extremamente fracos e intermitentes, como o zumbido de insetos distantes. Talvez um eletrodoméstico tivesse sido ligado em algum cômodo. Mais ao longe, parecia haver o som surdo e borbulhante de água fluindo por canos. Ocasionalmente, um som extremamente breve, como uma gota d'água caindo em um lago profundo — *tic-tac* — poderia ser algum dispositivo eletrônico da mansão em modo de espera ou realizando uma autoverificação.
Lu Chenzhou estava paralisado como uma estátua de pedra, imerso na escuridão e no mar de sons. Apenas o ocasional piscar de olhos provava que ele ainda estava vivo. O tempo perdeu o significado. O ruído nos fones era o único mar, e ele flutuava nele, pescando os "peixes" anômalos que não pertenciam àquelas águas. Os músculos da nuca começaram a ficar rígidos e doloridos por manter a mesma posição por tanto tempo.
Lá fora, o vento noturno parecia ter aumentado. Soprando pelos arbustos e árvores meticulosamente podados do jardim, as folhas e galhos se esfregavam, produzindo um som sussurrante, como cochichos, que atravessavam as frestas do vidro e se transformavam em um lamento intermitente. Na borda do céu noturno distante, à beira da cidade, surgiu um fraquíssimo e quase imperceptível tom de alvorecer. O momento mais escuro da noite estava passando lentamente. A temperatura dentro do quarto também parecia ter caído alguns graus, e seus pulsos expostos sentiram o frio.
A ponta dos dedos de Lu Chenzhou começou a bater inconscientemente na mesa. O ritmo era lento, um toque, depois outro. As unhas colidindo com a superfície de madeira da mesa produziam um leve som: *tac, tac*. Esse som e o ruído em seus fones formavam uma estranha dupla. A polpa dos dedos conseguia sentir as sutis ondulações da textura da madeira.
De repente.
Os toques pararam.
No fundo do ruído branco nos fones, apareceu um "pulso" extremamente abrupto. Não era um som, mas mais como uma sensação — uma onda de rádio de frequência específica, com intensidade extremamente alta e duração extremamente curta, que repentinamente "perfurou" a faixa de monitoramento que ele havia configurado. Como um flashbang que acende e se apaga subitamente no escuro, deixando uma marca ardente no nervo auditivo.
Estava aqui.
O corpo de Lu Chenzhou instantaneamente ficou tenso. Não foi um movimento amplo, mas uma contração para dentro de cada músculo, acumulando força. Sua mão direita, que estava sobre a mesa, abriu os dedos levemente e depois os fechou lentamente. As articulações dos dedos ficaram brancas de esforço, e a palma da mão ficou úmida com uma leve camada de suor.
O pulso durou menos de meio segundo.
Mas imediatamente após, veio um fluxo de dados compactado e criptografado, com duração de cerca de três a quatro segundos. Era como um peixe escorregadio e rápido, que passava como um flash no mar de ruído branco, disparando em direção a um ponto de recepção externo pré-configurado. A força do sinal não era alta, até mesmo um tanto fraca, mas o método de codificação era muito
Nos fones, aquele fluxo de dados já havia desaparecido sem deixar rastro. O ruído branco retomou o domínio de tudo, um sibilo preenchendo todo o mundo auditivo. Mas Lu Chenzhou sabia que aquele "peixe" já havia nadado para fora, levando o pânico de Shen Yan, nadando em direção a alguma zona de águas profundas e escuras. O que ele precisava fazer agora era identificar o "ninho" para onde ele nadava e, se possível, decifrar alguns fragmentos da "informação" que ele carregava. O pomo de Adão subiu e desceu uma vez, engolindo o leve sabor metálico que surgia na boca — resultado da tensão.
Quando a barra de progresso chegou a cinquenta por cento, parou por um instante.
A respiração de Lu Chenzhou congelou. Ele fixou a tela, sem piscar. O canto esquerdo do olho começou a contrair novamente, desta vez mais perceptivelmente, fazendo com que metade da sobrancelha tremesse levemente, os músculos sob a pele pulsando descontroladamente. O dedo indicador da mão esquerda, que repousava sobre o touchpad, esfregava inconsciente e repetidamente a superfície lisa de vidro, até que a ponta do dedo esquentasse.
Lá fora, uma ave noturna, perturbada por algo, emitiu um chamado curto e agudo.
"Gá—"
O som atravessou o vidro, penetrou no quarto, afiado como vidro quebrando.
Quase ao mesmo tempo, a barra de progresso estagnada deu um salto brusco para frente, atingindo sessenta por cento, então acelerou: setenta, oitenta... Os números saltavam com uma determinação resoluta.
A mão direita de Lu Chenzhou afastou-se do teclado. Ele recuou lentamente contra o encosto da cadeira, movimento que o fez parecer um pouco mais relaxado, mas só ele sabia que os músculos das costas permaneciam tensos como ferro, pressionando contra o encosto rígido. Ele observou a barra de progresso atingir cem por cento.
Na janela de linha de comando, a rolagem do código parou.
Em seu lugar, apareceu uma sequência de caracteres parecidos com lixo, entremeados com números e símbolos, intermitentes e incompletos. Era como um pedaço de papel violentamente rasgado e depois remendado às pressas, com bordas irregulares.
Os cantos da boca de Lu Chenzhou se contraíram para baixo, quase imperceptivelmente. Um arco extremamente sutil, quase cruel. A isca foi engolida. A primeira reação do pânico não foi destruir, não foi confrontar, mas sim pedir socorro para fora. O alvo do pedido de socorro, inevitavelmente, seria quem ele considerava capaz de lidar com o problema das “fibras”.
Lixo sem sentido.
Mas o olhar de Lu Chenzhou cravou-se como um prego naquelas combinações de letras que poderiam representar abreviações de palavras em inglês. A luz fria da tela fazia seus globos oculares arderem de secura.
`Tgt Cnf` — Target Confirmed? Alvo confirmado?
`Fbr As` — Fiber Association? Associação de fibras?
`Prfn` — Este... Purification? Purificação?
`ldwy` — Método antigo? Old Way?
Seu cérebro funcionava freneticamente na escuridão, como uma máquina sobrecarregada, cada engrenagem superaquecida, as têmporas latejando com uma dor surda. Ele comparou esses caracteres mutilados com os fragmentos sobre Zhou Zhengping no banco de dados de Qin Wangshu, conectou-os com os registros obscuros nos antigos dossiês de casos que Zhou Zhengping havia manuseado em sua memória, e os confrontou com a reação instantânea de Shen Yan ao ouvir a palavra "fibra" esta noite. Inúmeros fragmentos colidiam e giravam em sua mente.
Os fragmentos começaram a se encaixar.
Não era um quebra-cabeça perfeito, mas o contorno já emergia, sinistro.
Alvo confirmado (Caso Zhao Mingcheng? Suspeita sobre Shen Yan?). Associação de fibras (aquele maldito fio do botão de punho, tornando-se uma sentença de morte, mas também um fio condutor). Purificação... protocolo? Ativação? Processar pelo método antigo.
"Purificação".
Essa palavra, como uma agulha gelada, espetou subitamente a têmpora de Lu Chenzhou, trazendo uma dor fantasma aguda.
Não era encobrir. Não era um simples assassinato ou destruição de evidências. Era "purificação". Carregando um sentido distorcido, ritualístico, presunçoso de "limpeza". Zhou Zhengping era famoso no sistema, ainda em
Era uma cirurgia. Preciso, impiedoso, uma cirurgia realizada sob o nome de "remover o foco da doença", "preservar a saúde do sistema". Remover aqueles "tecidos doentes" que poderiam causar problemas maiores, como testemunhas desobedientes, investigadores excessivamente persistentes, ou... como ele, Lu Chenzhou, um "erro de procedimento" que tentava reabrir um caso e poderia expor mais feridas purulentas.
Zhao Mingcheng era uma "mancha". Shen Yan era uma "ferramenta" contaminada por essa mancha e que poderia expor o processo da "cirurgia". E ele, Lu Chenzhou, dez anos atrás, era o alvo de uma "purificação" inacabada, ou que não havia sido executada de forma suficientemente completa. A localização da antiga ferida no peito transmitia uma dor surda e familiar.
No fone de ouvido, sem qualquer aviso, soou um leve "bip", indicando que a recepção completa de dados externos havia terminado.
O som era nítido, excepcionalmente claro e frio contra o fundo do ruído branco contínuo, como o som de um bisturi caindo sobre uma bandeja de metal.
Lu Chenzhou ergueu lentamente a mão e retirou o fone de ouvido. Os protetores de silicone saindo do canal auditivo produziram um leve som de estalo, trazendo um breve zumbido nos ouvidos.
O ruído branco, como uma maré, recuou instantaneamente, e o mundo retornou ao silêncio. Um silêncio quase de vácuo, que pressionava os tímpanos. Na sala, restava apenas o zumbido baixo e contínuo do ventilador de resfriamento do laptop, como a respiração ofegante de uma fera encurralada, e sua própria respiração que gradualmente se tornava mais profunda, lenta, mas carregada de um certo peso frio. A cada inspiração, ele podia sentir o cheiro de poeira e mobília antiga no ar.
Ele sentava na escuridão, olhando para a sequência de caracteres incompletos na tela.
A luz azul da tela refletia em seu rosto, meio iluminado, meio sombrio, recortando um contorno duro e frio. Nas profundezas de seus olhos, algo estava se depositando, se solidificando. Não era mais apenas raiva ou ódio puros, mas algo mais complexo, mais duro — uma espécie de... compreensão, que percebera a essência do inimigo e começava a medir a distância entre suas gargantas com a mesma precisão impiedosa. As pontas dos dedos estavam frias.
As cartas na mesa, mudaram.
Não eram mais apenas as evidências de DNA de Shen Yan que ele mantinha em mãos.