Capítulo 19: Lâmina Sombria na Viela
Lu Chenzhou pisoteou o reflexo na poça d'água. O som de seus passos ecoava pela rua vazia, úmido, uma vez, e outra vez.
O vento cortava seu rosto, trazendo a seca e afiada friagem do fim do outono. Ele dobrou a esquina para o beco atrás do Arquivo — um atalho mais escuro e estreito que a rua principal. As paredes de concreto de ambos os lados estavam manchadas, e junto às suas bases amontoavam-se folhas caídas de anos passados, que estalavam sob seus pés com um ruído fino, quase como ossos secos quebrando. O ar carregava um leve cheiro de mofo, misturado com uma acidez sutil e putrefata que vinha de longe, de uma estação de lixo. O céu acima era cortado pelos edifícios em uma estreita faixa de tinta, sem estrelas visíveis.
Ele não caminhava rápido. A ferida em seu braço esquerdo latejava com uma dor ardente, cada movimento do braço puxando aquela sensação de calor. A mão no bolso do casaco desmontava inconscientemente o anel de metal de um velho chaveiro. Desmontava, remontava. Desmontava de novo. As arestas frias do metal pressionavam a polpa dos dedos.
Na sombra junto à parede esquerda, uma mancha de escuridão mais densa irrompeu subitamente.
O movimento foi rápido como o de uma coruja noturna atacando, silencioso, mortal. Mirando diretamente a garganta.
O corpo de Lu Chenzhou reagiu mais rápido que sua mente. Dez anos na prisão haviam gravado certos reflexos em seus ossos. Ele se jogou violentamente para o lado, o braço direito instintivamente erguendo-se para bloquear. No instante em que seu braço colidiu com o antebraço do atacante, a sensação foi estranha — não era músculo, era algum tipo de proteção rígida, fria, lisa.
A dor não foi imediata. Primeiro, uma aguda sensação de frio, como se tivesse sido perfurado por um picador de gelo. Em seguida, um líquido morno jorrou, encharcando a manga da camisa, grudando-se na pele. O cheiro de sangue explodiu subitamente, misturando-se ao fedor mofado original do beco.
A figura se impulsionou para trás com a força do impacto, fundindo-se a uma sombra ainda mais profunda. Todo o processo não levou mais que dois segundos. Rápido como uma alucinação.
Uma voz extremamente baixa e rouca, como lixa raspando metal. Cada palavra foi pronunciada com uma clareza anormal, carregando um ritmo estranho, deliberadamente controlado:
*"O arquivo antigo. Queime-o."*
Antes mesmo que as palavras terminassem de ecoar, a figura já havia desaparecido na curva no final do beco. Passos? Quase nenhum. Apenas o som extremamente sutil de tecido roçando na parede, e... um curto ruído metálico de "clique", como de um objeto metálico se chocando levemente.
Ele parou no lugar, as costas pressionadas contra a parede fria e áspera. A respiração foi contida à força, mas seu peito parecia ter sido golpeado por um malho pesado, uma dor surda se espalhando ao longo das costelas. A ferida no braço esquerdo começou a doer de verdade, latejante, queimando os nervos com uma sensação ardente. O sangue escorria pela ponta dos dedos, manchando as folhas caídas a seus pés com pontos escuros.
Altura da figura — um pouco mais baixa que ele, cerca de um metro e setenta e cinco. Método de ataque — não era o golpe desordenado de um marginal de rua, era a postura inicial padrão de combate militar, limpa, eficiente, sem movimentos supérfluos. Sensação da proteção — possivelmente fibra de carbono ou plástico especial, não algo que capangas comuns usariam. Qualidade da voz — rouca, mas com um sopro forte, provavelmente não muito velho, entre quarenta e cinquenta anos? Aquele aviso...
Arquivo antigo. Qual arquivo antigo? O caso de Shen Yan? Ou... o dele próprio?
Queime-o e desaparecerá. Era uma ameaça, ou um aviso?
Lu Chenzhou fechou a mão esquerda com força. As unhas afundaram profundamente na palma, suprimindo o tremor da ferida. O canto
Ele sempre pensou que seu inimigo era Shen Yan, a rede de poder que o incriminou na época. O objetivo de reabrir o caso era encontrar as evidências de Shen Yanqing falsificando a "confissão falsa" e expor o pano de fundo sombrio. Todos os cálculos e contenção giravam em torno desse núcleo.
E se, além do infeliz que foi condenado, houvesse realmente outra pessoa que executou aquele "assassinato político" na época? Alguém mais profissional, mais oculto, que sempre se escondeu nas sombras, e que talvez... já estivesse "morto"?
E esse "morto", porque ele reiniciou a investigação, sentiu o perigo e apareceu ativamente, alertando-o da maneira mais direta: não continue cavando mais fundo. Os arquivos antigos queimaram e acabou — o que foi queimado pode não ser apenas pistas do caso de Shen Yan, mas também "outra" evidência física que essa própria pessoa deixou na cena na época, não descoberta, aquela evidência crucial que poderia expô-lo completamente.
O suor frio escorreu pelas costas de Lu Chenzhou, instantaneamente sugado pelo calor das paredes geladas. Uma tontura o atingiu, não apenas pela perda de sangue, mas pela convulsão da percepção sendo violentamente dilacerada. O chão sob seus pés parecia rachar em um abismo invisível, a escuridão subindo pelas fendas, gelada e cortante.
Ignorando o ferimento, ele se apoiou na parede, tirando o telefone do bolso interno com a mão direita trêmula. A tela acendeu, a luz azul gelada o fez apertar os olhos. Os dedos tremiam levemente pela perda de sangue e tensão, deslizar pela pasta criptografada era mais lento que o normal.
Ele abriu o dossiê eletrônico do caso antigo armazenado — aquele caso de assassinato político dez anos atrás que mudou tudo para ele, todos os registros públicos e não públicos, já digitalizados palavra por palavra e salvos nesse espaço offline. Deslizando rapidamente a tela, seu olhar era incisivo, filtrando os perfis das pessoas com conclusões oficiais claras e identidades definidas. O alvo eram as "observações sobre pessoas relacionadas" nas páginas finais do dossiê, aquelas figuras insignificantes.
As "testemunhas oculares suspeitas" mencionadas no comunicado de assistência à investigação, posteriormente excluídas por falta de evidências.
As "pessoas ociosas da sociedade" com atividades anômalas na área próxima antes e depois do crime, registros vagos.
Alguns informantes que forneceram pistas à polícia, mas depois "perderam contato".
E... aqueles papéis marginais "já mortos" ou "desaparecidos" mencionados de passagem no relatório final do caso.
A tela parou em um documento digitalizado amarelado. Era uma "declaração de situação" emitida por uma delegacia há dez anos, sobre um informante codinome "Pombo Cinza". A declaração era curta, apenas algumas linhas:
"... Este indivíduo entrou em contato ativamente com os investigadores três meses antes do crime, alegando possuir informações sobre 'transações financeiras anômalas' relacionadas à pessoa-alvo. Após dois contatos, o indivíduo repentinamente interrompeu a comunicação. Após busca, seu endereço registrado estava vazio, vizinhos relataram que ele havia 'voltado para sua cidade natal'. Em verificação subsequente, a delegacia local de sua cidade natal informou que não havia tal pessoa. A identidade do indivíduo é questionável, o valor da pista aguarda avaliação. Observação: Durante o contato, o indivíduo gostava de usar provérbios populares como senhas de encontro ou alertas, como 'O fogo precisa de espaço, o homem precisa de lealdade', 'Bilhetes de barco velhos não embarcam em novos passageiros', etc., características marcantes."
"Pombo Cinza".
Identidade questionável.
Gosta de usar provérbios como alerta.
"Não há tal pessoa".
Lu Chenzhou fixou aquelas poucas linhas, suas pupilas se contraindo. O vento no beco levantou novamente, arrastando folhas secas em redemoinhos, emitindo um som como um lamento. Ao longe, parecia haver sirenes de polícia se aproximando, muito fracas, mas ficando mais claras.
O polegar esfregou inconscientemente a borda do telefone. A mente comparava rapidamente.
"Arquivos antigos queimaram e acabou."
Não era a ameaça refinada de Shen Yanqing, nem a insinuação possivelmente literária de Shen Yanhuan. Era uma metáfora carregada de sabor popular, com uma franqueza cruel da sabedoria de sobrevivência das classes baixas — uma coisa perd
A sirena estava mais próxima. As luzes alternadas vermelhas e azuis já começavam a saltar na parede do prédio distante na entrada do beco, como um ritmo cardíaco inquieto.
Partir imediatamente, tratar o ferimento sozinho, continuar investigando secretamente esse "Pombo Cinza" que ressuscitou de repente? Ou ficar aqui, esperar pela polícia — provavelmente Qin Wangshu — chegar, usar os recursos oficiais, mas ao mesmo tempo enfrentar interrogatórios mais complexos e uma verdade mais difícil de esconder?
A luz da tela do celular refletia em seu rosto pálido. Suor frio e fino escorria de sua têmpora. Seu olhar pousou nas duas palavras "Pombo Cinza", então se ergueu, mirando a extremidade do beco, aquela escuridão densa e impenetrável que engoliu o agressor.
Aquele fantasma deixou um aviso.
E também deixou vestígios.
Lu Chenzhou soltou lentamente um suspiro pesado com cheiro de sangue. Desligou a tela do celular, pressionou com força a manga ensanguentada contra o ferimento, aplicando pressão. Então, apoiado na parede, sentou-se lentamente. Sentou-se no chão frio e úmido, ao lado da poça de seu próprio sangue.
Esperando pelo carro de polícia que inevitavelmente viria, esperando pela pessoa que inevitavelmente apareceria. Precisava de curativos, de atendimento médico. Também precisava... talvez através de canais oficiais, conseguir arrombar mais fragmentos selados sobre o "Pombo Cinza".
O preço era ter que tecer uma mentira mais sofisticada. Uma história meio verdadeira, meio falsa, que pudesse direcionar o ataque para Shen Yan, ao mesmo tempo abrindo brechas para sua própria investigação posterior sobre o "Pombo Cinza".
Passos vieram da entrada do beco. Apressados, vigorosos, com um ritmo familiar.
A figura de Qin Wangshu apareceu na entrada do beco, delineada pelas luzes giratórias vermelhas e azuis do carro-patrulha atrás dela, formando uma silhueta nítida. Seu movimento ao entrar foi um pouco precipitado, os saltos altos batendo no pavimento irregular, produzindo sons claros e desordenados. Seu olhar instantaneamente se fixou em Lu Chenzhou sentado no chão e naquela mancha profunda e marcante em seu braço esquerdo.
Seu rosto mudou instantaneamente sob a luz intermitente.
"Lu Chenzhou!" A voz cortou o ar estagnado, carregada de uma raiva e um susto incontroláveis, e um leve... tremor quase imperceptível. "O que aconteceu?!"
Lu Chenzhou, apoiado na parede, ergueu a cabeça para olhar para ela. O cheiro úmido de mofo do beco, o cheiro de sangue, agora se misturavam ao aroma limpo e levemente de sabugueiro que ela trazia. As luzes vermelhas e azuis alternadas iluminavam seu rosto tenso, também iluminavam sua manga ensanguentada, tingindo tudo com uma cor irreal, dramática.
Ele inspirou profundamente, o movimento puxou o ferimento, suas sobrancelhas se franziram apertadas. Mas ao falar, sua voz já havia recuperado a calma habitual, até mesmo deliberadamente assumindo um tom fraco e rouco.
"Profissional." Ele disse, apontando com a mão direita não ferida na direção onde o agressor desapareceu. "Não vi o rosto."
Pausou por um momento, seu olhar pousou na mão de Qin Wangshu sobre a arma, então ergueu-se novamente, encontrando seus olhos afiados e examinadores.
"Mencionou arquivos antigos." Acrescentou, com um tom neutro, como se estivesse declarando um fato que não lhe dizia respeito. "Arquivos antigos do caso Shen Yan? Ou... alguma outra coisa?"
Deliberadamente lançou a palavra "arquivos antigos" como uma isca de teste, observando a reação mais sutil de Qin Wangshu. Ao mesmo tempo, outra parte de sua mente operava fria e rapidamente, tecendo as próximas palavras, calculando as reações em cadeia que cada frase poderia desencadear.
O fantasma nas sombras já havia batido as asas.
E seu campo de batalha, agora, apenas começava a se desdobrar.
Um som agudo de freios bruscos veio da entrada do beco, o ruído cortante dos pneus contra o asfalto rasgou o silêncio da noite. A luz alternada vermelha e az
“Faca. Lâmina curta, afiada de um lado só, comprimento não superior a quinze centímetros.” A voz de Lu Chenzhou não era rápida, cada palavra parecia espremida entre os dentes, precisa e gelada. “Veio de baixo, em diagonal, o alvo eram as costelas. Eu bloqueei, cortou o braço.”
Ela finalmente olhou para o ferimento dele. A jaqueta escura tinha um corte limpo, as fibras das bordas levemente enroladas, revelando a manga da camisa ensanguentada por baixo. O sangue ainda escorria, o tecido já grudado na pele, formando uma área escura e pegajosa.
“Não precisa.” Lu Chenzhou disse. “Ferimento superficial.”
“Ferimento superficial sangra tanto assim?” A voz de Qin Wangshu carregava uma fúria reprimida. “Lu Chenzhou, você não está investigando sozinho agora. O ataque aconteceu em área pública, é um caso criminal, eu tenho o direito—”
Lu Chenzhou a interrompeu. O olhar pousou no rosto de Qin Wangshu, capturando cada mínima mudança em sua expressão.
“‘Arquivos velhos, queimados, acabaram’.” Lu Chenzhou repetiu, palavra por palavra, sem erro. O canto esquerdo do olho estremeceu levemente, um movimento sutil que durou menos de meio segundo, mas Qin Wangshu viu.
As luzes vermelha e azul ainda giravam, iluminando alternadamente seu perfil. Os lábios apertados em uma linha reta, a mão direita se afastou da arma e, em vez disso, pegou o celular, pressionando rapidamente algumas teclas.
“Já chamei a equipe técnica.” Ela disse, a voz recuperando aquela frieza profissional. “A cena precisa ser isolada, evidências coletadas. Você ainda consegue andar?”
Ele tentou se endireitar, a pontada no braço esquerdo cortou sua respiração. Qin Wangshu estendeu a mão para segurar seu cotovelo direito, o movimento suave, mas com uma firmeza que não admitia recusa. Os dedos transmitiam calor através do tecido da jaqueta, limpo, seco, em nítido contraste com a umidade e o frio úmido do beco.
“O carro está na entrada do beco.” Ela disse. “Primeiro ao hospital para tratar o ferimento. Conversamos no caminho.”
Ela não perguntou mais detalhes sobre o agressor, nem insistiu no significado daquela frase. Essa contenção em si já pressionava Lu Chenzhou — Qin Wangshu estava esperando, por um momento mais apropriado, que ele mesmo falasse, ou que as evidências da cena lhe dessem uma direção mais clara.
Os passos de Lu Chenzhou estavam um pouco arrastados, cada movimento da perna esquerda puxava o ferimento no braço. Qin Wangshu caminhava ao seu lado, meio passo atrás, não muito perto, mas mantendo uma distância de onde podia estender a mão para apoiá-lo a qualquer momento. O olhar ainda varria os arredores, como um scanner funcionando com precisão.
Qin Wangshu abriu a porta do passageiro, Lu Chenzhou entrou. O assento de couro estava frio, o interior do carro impregnado com um leve cheiro de desinfetante e o aroma cítrico de um purificador de ar. Qin Wangshu contornou o carro para o lado do motorista, fechou a porta, ligou o motor.
As luzes da rua passavam uma após a outra pela janela, desenhando faixas de luz fluídas no vidro. Lu Chenzhou recostou-se no assento, fechou os olhos. A dor no braço esquerdo era como um arame incandescente, perfurando do ferimento até a escápula. Forçou-se a respirar, profunda e lentamente, usando a força de vontade para suprimir o tremor fisiológico.
Qin Wangshu falou de repente. A voz soava especialmente clara no interior fechado do carro.
“O agressor disse ‘arquivos velhos’.” Qin Wangshu olhava para a estrada à frente, as mãos firmes no volante. “Não ‘os arquivos de Shen Yan’, não ‘os arquivos do caso Shen Yan’, apenas ‘arquivos velhos’. Essa palavra é vaga, pode apontar para muitas coisas.”
Lu Chenzhou entendeu. Qin Wangshu estava usando uma abordagem que parecia apenas relatar fatos, para guiá-lo a uma certa explicação. Ela lhe dava espaço, mas o espaço era limitado, os limites claros.
“O caso Shen Yan arrastou muitos assuntos antigos.” Lu Chenzhou disse, a voz carregando um cansaço na medida certa. “Shen Yanqing não quer que eu investigue muito fundo, isso é normal.”
Ele olhou para fora da janela. A maioria das lojas ao longo da rua já havia fechado, apenas as luzes da conveniência e da farmácia 24 horas ainda brilhavam, abrindo algumas manchas solitárias de luz na escuridão da noite. O carro fez uma curva e, à frente, apareceu a cruz vermelha do Hospital Municipal.
Parou, desligou o motor. Ela soltou o cinto de segurança, virou-se para o lado e olhou para Lu Chenzhou.
"Ouça," disse ela, o tom mais sério do que antes. "Não importa quem seja o agressor, este caso já entrou no processo policial. Vou verificar todas as câmeras de vigilância ao redor do arquivo, vou investigar rostos desconhecidos que apareceram recentemente naquela área. Se você tem algum palpite — qualquer palpite — me diga agora, é melhor do que esperar eu descobrir e depois explicar."
Lu Chenzhou entendeu. Qin Wangshu estava protegendo-o à sua maneira, ou melhor, protegendo essa relação já cheia de fissuras. Ela não queria esperar até que as evidências fossem apresentadas e os dois rompessem completamente.
"Meu palpite é o mesmo que o seu," disse Lu Chenzhou, a voz calma como um lago estagnado. "Alguém dentro de Shen Yan não quer que eu continue investigando. Pode ser Shen Yanqing, pode ser Shen Yanhuan, pode ser outra pessoa. Quanto ao motivo de usar um método tão violento..."
"Talvez eu esteja muito perto de alguma verdade," ele disse. "Tão perto que alguém sentiu que apenas advertências não são mais suficientes."
O cheiro de desinfetante era tão forte que quase se materializava, como uma película transparente colada nas narinas. A enfermeira limpou o ferimento de Lu Chenzhou, aplicou medicamento e fez o curativo, seus movimentos hábeis e mecânicos. Qin Wangshu ficou na porta do consultório, encostada no batente, os braços cruzados, o olhar fixo nas figuras que iam e vinham no corredor.
Ela pegou o telefone para olhar, respondeu rapidamente, as sobrancelhas nunca se relaxaram.
O ferimento de Lu Chenzhou era mais profundo do que o esperado. A lâmina cortou a epiderme e parte do tecido subcutâneo, mas não atingiu os principais vasos sanguíneos ou nervos. A enfermeira disse que precisava de três pontos, mas Lu Chenzhou recusou, permitindo apenas um curativo compressivo.
Após o curativo, a enfermeira deu algumas instruções e receitou medicamentos anti-inflamatórios. Lu Chenzhou pegou a receita e foi até a farmácia buscar os remédios, Qin Wangshu seguindo a meio passo atrás dele, como uma sombra silenciosa.
Depois de pegar os remédios, os dois encontraram um banco na área de observação da emergência e se sentaram.
Já era quase meia-noite. Ainda havia alguns pacientes na área de observação, alguns recebendo soro, outros esperando resultados de exames, o ar impregnado de cansaço e ansiedade. A lâmpada fluorescente acima emitia um zumbido suave, entrelaçando-se com o toque ocasional do sino de chamada no posto de enfermagem ao longe, formando um som de fundo peculiar e hospitalar.
Ela voltou, colocando um dos copos na cadeira ao lado da mão de Lu Chenzhou. O copo descartável de papel era fino, o calor da água passava através da parede do copo, provocando uma leve picada nos dedos gelados.
Qin Wangshu não respondeu. Sentou-se na cadeira ao lado, inclinou-se levemente para trás, fechou os olhos e soltou um longo suspiro. Esse gesto a fez parecer mais suave do que o habitual, despida da casca afiada da policial, revelando a verdadeira exaustão por baixo.
O vapor branco da água quente atingiu seu rosto, carregando um leve cheiro lenhoso típico de copos de papel. Ele deu um pequeno gole, a temperatura estava perfeita, escorrendo pelo esôfago e dissipando temporariamente o frio nas profundezas do corpo.
"As câmeras de vigilância perto do arquivo," Qin Wangshu disse de repente, os olhos ainda fechados, "já mandei alguém buscar. Mas naqueles becos antigos, a cobertura de câmeras não é alta, há muitos pontos cegos. O agressor, tendo escolhido aquele local para atacar, certamente estudou o terreno antes."
"Você realmente acha que foi alguém de Shen Yanqing?" Qin Wangshu abriu os olhos e virou
Lu Chenzhou sentiu sua respiração parar. O sangue subiu aos tímpanos, produzindo um zumbido ensurdecedor. Forçou-se a continuar a passar os dedos pela lateral da xícara, o ritmo do movimento inalterado.
"É mesmo?", disse ele, a voz surpreendentemente estável até para si mesmo. "Que provérbio?"
"Não me lembro bem", disse Qin Wangshu, seu olhar se desviando para o fim do corredor distante. "Naquela época, eu ainda era apenas uma estagiária, não tinha acesso a muitos detalhes. Só me lembro que o velho Zhou — Zhou Zhengping — mencionou uma vez que aquele informante era muito cauteloso, sempre usava um código de contato, e o código era uma velha expressão."
"Depois, aquele informante supostamente morreu. Acidente de carro, ou uma doença súbita? Enfim, no arquivo estava escrito como 'morte acidental'."
Ele colocou o copo de água na mesa e entrelaçou as mãos sobre os joelhos. Essa postura conseguia disfarçar o tremor dos dedos. Seu cérebro trabalhava em alta velocidade, desmontando, reorganizando e comparando as palavras de Qin Wangshu com os fragmentos de sua memória.
Provérbio específico. Informante cauteloso. Morte acidental.
E a frase do atacante — 'os velhos arquivos, quando queimados, se perdem para sempre' — a construção dessa frase, aquela maneira de falar com um tom de linguagem antiquada, realmente não parecia uma ameaça que alguém dos tempos modernos usaria. Era mais como uma espécie de... gíria clandestina. Um código secreto, com significado simbólico, circulando entre um grupo específico de pessoas.
"Aquele informante", perguntou Lu Chenzhou, tentando ao máximo soar descontraído, "tinha um codinome?"
"Parece que sim", disse ela. "Chamava-se... 'Pomba Cinza'. Isso mesmo, 'Pomba Cinza'. O velho Zhou disse que a pessoa sempre usava uma jaqueta velha e acinzentada, e andava com um leve mancar, como se tivesse se machucado."
Lu Chenzhou gravou esse nome nas profundezas de sua memória. O canto esquerdo do olho começou a tremer novamente, desta vez por um segundo inteiro. Levantou a mão e esfregou o canto do olho, usando o gesto para disfarçar.
"Não sei", disse ela, seu tom retornando àquele profissionalismo neutro. "Talvez tenha me lembrado de repente. Afinal, você foi atacado esta noite, e o atacante mencionou 'velhos arquivos', o que me fez associar a coisas do passado."
Lu Chenzhou estava quase certo. Qin Wangshu não era do tipo que se 'lembrava de repente' de detalhes irrelevantes. Ela mencionou 'Pomba Cinza', mencionou os hábitos e o destino daquele informante, de propósito. Ela estava testando-o, observando se ele teria alguma reação a esse nome, se mostraria alguma falha.
Apenas, por enquanto, ela ainda não conseguia confirmar o que essa falha significava.
"As imagens de vigilância do arquivo sairão amanhã", Qin Wangshu se levantou, alongando os ombros rígidos. "Você deve ir descansar esta noite. Tome cuidado para não molhar o ferimento, tome os remédios na hora. Se sentir qualquer coisa estranha — quero dizer, qualquer coisa — me ligue imediatamente."
Ele também se levantou, a dor no braço esquerdo tornando seus movimentos um pouco lentos. Qin Wangshu olhou para ele, seus lábios se moveram levemente, como se quisesse dizer algo, mas no fim não disse. Apenas acenou com a cabeça, virou-se e começou a caminhar em direção à saída da emergência.
"Lu Chenzhou." Ela não se virou, sua voz parecia um pouco etérea no corredor vazio. "Não importa o que você esteja investigando, tome cuidado. Algumas pessoas... algumas coisas, podem ser mais complexas do que você imagina."
O som de seus passos ecoou no