Capítulo 55: A Assinatura da Traição
Eles não partiram, apenas se deslocaram para um cruzamento mais distante, como três rochas silenciosas incrustadas nas sombras da estrada. Lu Chenzhou ficou de pé atrás da cortina, o tremor no canto do olho esquerdo já havia cessado. Ele segurava uma caneta esferográfica desmontada do criado-mudo, a carga e a mola repetidamente desmontadas e remontadas, as peças metálicas deixando marcas finas na palma da mão. Este movimento durou quarenta minutos — desde que viu as coordenadas, até que os veículos do lado de fora completaram a vigilância. Ele precisava deste movimento para manter a precisão do pensamento, assim como precisava respirar.
Intervalo de patrulha: quatorze minutos e trinta segundos. Brecha na troca: quatro minutos e cinquenta segundos.
Por volta das cinco da manhã, a van de entrega de flores chegaria pontualmente à pequena porta lateral leste da Mansão Shen. O motorista era um homem de cerca de cinquenta anos, que gostava de fumar um cigarro enquanto descarregava, e passava cinco minutos no celular. Os guarda-costas recuavam para dentro do portão durante esse período, para evitar o frio da madrugada.
Janela de sete a dez minutos.
Ele soltou a mão, as peças da caneta esferográfica se espalhando pelo lençol. Lá fora, o céu ainda estava densamente escuro, mas a linha do horizonte a leste começava a exibir uma faixa extremamente pálida de branco acinzentado, como o primeiro sulco feito ao afiar uma lâmina.
Hora de se mover.
***
O ar da manhã na Mansão Shen carregava o cheiro fresco de orvalho sobre a grama e as plantas, misturado com o leve aroma de óleo queimado do café da manhã vindo da cozinha ao longe. Os dois odores se misturavam no corredor, formando uma atmosfera cotidiana singular, peculiar àquela mansão.
Lu Chenzhou vestiu o macacão azul-escuro preparado com antecedência — tecido áspero, com manchas de lama nas mangas que não saíam na lavagem. Era "emprestado" da lavanderia, pertencia a um jardineiro de estatura semelhante. Ele ajustou o ângulo da aba do boné diante do espelho do banheiro, garantindo que a sombra cobrisse a metade superior de seu rosto. No espelho, seus olhos estavam calmos, até um tanto vazios, apenas o leve, incontrolável tremor no canto do olho esquerdo persistia.
Um. Dois.
Ele se virou e saiu do quarto.
O guarda-costas no final do corredor estava olhando para o celular, a luz azul da tela iluminando metade de seu rosto jovem. Os passos de Lu Chenzhou eram leves, mas suficientes para fazer o homem levantar a cabeça.
No instante em que seus olhos se encontraram, o guarda-costas hesitou, então franziu a testa: "Você…"
"O Sr. Li mandou ajudar no portão leste." Lu Chenzhou baixou a voz, falando em ritmo uniforme, com palavras precisas. "Disse que há muitas flores hoje de manhã, uma pessoa só não dá conta."
Ele não parou de caminhar enquanto falava, nem sequer olhou mais para o guarda-costas. Essa pressa natural era mais convincente do que qualquer explicação.
O guarda-costas abriu a boca, mas no final apenas fez um gesto com a mão: "Rápido, não atrase a patrulha."
"Entendido."
Lu Chenzhou entrou na escadaria. O coração batia forte em seu peito, o ritmo estável, mas cada batida carregava um peso denso. Ele contou os degraus: quatorze até o primeiro andar, atravessar o corredor de serviço de trinta metros, virar à esquerda e chegar à pequena porta lateral leste.
Um filete de luz entrava pela fresta da porta.
Ele parou na esquina, costas contra a parede. De fora vinha o leve som de um isqueiro sendo acionado, seguido pelo sutil assobio do tabaco queimando.
O motorista estava fumando.
Os passos de um guarda-costas ecoaram do outro lado da porta, gradualmente se afastando — era hora da troca.
Quatro minutos e cinquenta segundos.
Agora.
Lu Chenzhou pux
O motor ligou, o zumbido baixo vibrando os tímpanos. As rodas passaram sobre a estrada de pedra, os solavancos transmitidos por todo o corpo através do piso da carroceria. Lu Chenzhou abriu os olhos no escuro, suas pupilas gradualmente se adaptando. Ele tirou o celular do bolso — sem sinal, o bloqueio interno da Mansão Shen ainda estava ativo — mas o mapa offline já havia sido carregado antecipadamente. O ponto vermelho representava sua posição, movendo-se lentamente em direção aos limites da Mansão Shen.
Sete minutos. O caminhão passaria por dois postos de guarda e depois entraria na estrada principal. Ele precisava pular do veículo antes disso.
Os solavancos aumentaram. O caminhão desacelerou, parou.
Primeiro posto de guarda. O som da janela do carro sendo abaixada, o motorista e o guarda trocando breves palavras. Em seguida, o rangido metálico da cancela sendo levantada.
As rodas voltaram a girar.
Segundo posto de guarda. O mesmo procedimento.
A mão de Lu Chenzhou tateou no escuro, tocando a maçaneta de metal gelada no interior da porta traseira da carroceria. A fechadura era do tipo simples com trinco, podendo ser aberta por dentro. Ele esperou pelo momento em que o caminhão acelerasse — o rugido do motor, a velocidade subindo abruptamente — então, com a ponta dos dedos, aplicou força e deslizou suavemente o trinco.
Clique.
O vento frio invadiu violentamente, erguendo um canto da lona. Ele levantou a cobertura, vendo a estrada cinza-esbranquiçada recuando rapidamente abaixo. A velocidade era de cerca de trinta quilômetros por hora, não muito rápida, mas o impacto de pular seria suficiente para fazê-lo rolar. Ele precisava escolher o momento certo: a estrada tinha que ser plana, não podia haver câmeras de vigilância por perto, de preferência com canteiros de arbustos para amortecer.
Agora.
Lu Chenzhou virou-se e saltou. Seu corpo se encurvou no ar, ao aterrissar seus ombros e costas tocaram o chão primeiro, e ele rolou lateralmente para dentro de um denso arbusto de azevinho à beira da estrada. O estalido de galhos secos quebrando foi completamente abafado pelo som do motor do caminhão que se afastava.
Ele deitou na terra fria, imóvel, contando mentalmente até três.
Sem alarmes. Sem passos de perseguidores.
Ele se levantou, rapidamente sacudindo a terra e os fragmentos de folhas de suas roupas. A manga do macacão estava rasgada por um galho afiado, revelando a camisa escura por baixo, mas não importava. À distância, as luzes traseiras do caminhão fechado pareciam dois pontos vermelhos escarlates, desaparecendo rapidamente na névoa matinal ainda não dissipada.
E ele estava em pé na estrada auxiliar vazia, cercado por um bairro de vilas ainda não despertas, apenas pássaros madrugadores nos galhos emitindo cantos esparsos.
Livre. Temporariamente.
Lu Chenzhou olhou para a tela do celular: 05:07. Faltavam vinte e três minutos para o encontro com Qin Wangshu. Ele precisava atravessar três quarteirões e chegar àquela livraria independente no centro antigo que estava prestes a fechar.
Ele começou a correr. Seus passos caíam no asfalto, emitindo um som estável e urgente de tique-taque.
As fendas da estrada de pedra do centro antigo estavam cobertas de musgo, pisar nelas dava uma sensação úmida e escorregadia. A névoa matinal ainda não havia se dissipado, a luz solar tênue cortava obliquamente através das fendas dos edifícios antigos com arcadas de ambos os lados, iluminando a poeira dançando no ar. O cheiro aqui era complexo: o forte aroma oleoso das barracas de café da manhã fritando youtiao, o odor azedo do lixo da noite anterior, o cheiro de mofo exalado das paredes de tijolo úmidas, e um leve amargor de ervas medicinais flutuando de alguma casa, vago e indistinto. Lu Chenzhou diminuiu o passo, ajustando a respiração. Seu peito estava quente e latejante devido ao exercício intenso. Ele entrou em um beco estreito, a livraria ficava no final — a fachada era pequena, a tinta na placa de madeira já estava descascada e manchada, mal se pod
O interior estava escuro, o ar parado, impregnado do odor complexo e característico de livros antigos — uma mistura de tinta, poeira e um leve mofo. Era um depósito, prateleiras altas quase tocando o teto, empilhadas com pacotes de livros usados e revistas amareladas. A única janela era alta, a luz do sol entrava obliquamente, iluminando inúmeras partículas de poeira que dançavam lentamente no ar.
Qin Wangshu estava parada na passagem estreita entre duas fileiras de prateleiras, de costas para ele. Ela vestia um casaco escuro, o cabelo preso em uma coifa prática. Ao ouvir o movimento, virou-se.
"Entrou pela janela dos fundos?" perguntou, a voz muito baixa.
"Há olhos na porta da frente." Lu Chenzhou bateu o pó das mãos. "Carro preto, não é da família Shen."
A expressão de Qin Wangshu escureceu. "Há quanto tempo?"
"Já estava lá quando cheguei." Lu Chenzhou aproximou-se dela. "Seu ponto seguro foi marcado."
"Não necessariamente do meu lado." Qin Wangshu tirou do bolso um envelope achatado de papel pardo e entregou a ele. "Veja isto primeiro."
Lu Chenzhou pegou o envelope. A sensação ao toque era fina, mas o peso não era leve. Ele desfez o fio de algodão que lacrava a abertura e retirou os documentos de dentro. A primeira página era uma cópia de um relatório de análise de impressões digitais, o papel já amarelado, as bordas marcadas pelos vincos de múltiplas dobras.
O cabeçalho do relatório era do Centro de Identificação de Evidências Materiais do Departamento Municipal. A data: nove anos atrás.
Seu olhar caiu diretamente na coluna de conclusões. Havia duas linhas de anotações manuscritas, a caligrafia vigorosa, feitas com caneta vermelha. A primeira linha era a conclusão original em tipo impresso: "A correspondência dos pontos característicos é questionável, recomenda-se comparação adicional ou exclusão." Abaixo, uma linha adicionada à mão, a tinta mais escura, quase perfurando o papel: "Após reavaliação, confirmada como idêntica. Zhou Zhengping, X de X de 200X."
Após a assinatura, havia ainda um carimbo pessoal, a tinta vermelha viva especialmente marcante no papel amarelado.
Os dedos de Lu Chenzhou passaram sobre aquele nome. A textura áspera do papel transmitiu-se através das pontas dos dedos. Ele não disse nada, continuou a virar as páginas.
Em seguida, havia cópias de alguns resumos de atas de reuniões, a caligrafia cursiva, como se tivessem sido arrancadas de um arquivo maior ou fotografadas às escondidas. Os registros mostravam que, no terceiro dia após a "correção" do relatório de impressões digitais, Zhou Zhengping teve um "encontro informal" com o vice-diretor que supervisionava o caso na época, em uma sala de chá privada. O registro não continha detalhes específicos da conversa, apenas uma linha de observação: "Consenso alcançado sobre o 'tom' do 'Caso Lu', garantir o fechamento do procedimento, eliminar riscos futuros."
Mais adiante, havia uma cópia de um bilhete manuscrito, a caligrafia diferente da assinatura de Zhou Zhengping, mais arredondada. Havia apenas uma frase: "O custo é controlável, a estabilidade estrutural é primordial."
Lu Chenzhou virou as páginas uma a uma, o movimento lento, mas firme. O atrito do papel produzia um leve som de farfalhar, especialmente nítido no silêncio do depósito. A poeira girava lentamente no feixe de luz.
Ele chegou à última página e parou. Era uma cópia de uma fotografia, a imagem embaçada, mas ainda possível reconhecer o perfil de Zhou Zhengping, parado no saguão de um edifício de escritórios antigo, apertando a mão de outro homem de uniforme. No canto inferior direito da foto, havia uma data manuscrita, exatamente uma semana antes de sua prisão formal ser autorizada.
"Fonte?" Lu Chenzhou finalmente falou, a voz tão calma que não tinha uma única ondulação.
"Canal ultrassecreto." Qin Wangshu disse. "Usei minha última carta. A outra parte só forneceu isto uma vez, não dará mais assistência no futuro."
"Confiabilidade?"
"Noventa por cento. Os dez por cento restantes são porque todas
"Ou preservar aquela rede, fechando o caso dentro de limites 'razoáveis'. O preço é que alguém com peso suficiente, que não cause uma reação em cadeia, deve assumir toda a culpa." A voz de Qin Wangshu baixou ainda mais. "Você foi o 'custo estrutural' escolhido. Seu histórico, suas habilidades, até mesmo aquele outro caso sensível que você estava investigando na época — tudo fez de você a pessoa mais adequada. Sacrificar apenas você poderia proteger aquela cadeia, proteger a 'estabilidade'."
Lu Chenzhou ouviu, sem expressão alguma em seu rosto. Ele até mesmo acenou levemente com a cabeça, como se estivesse confirmando uma resposta que já havia deduzido há muito tempo.
"Então a impressão digital foi forjada?" ele perguntou.
"Não necessariamente forjada", disse Qin Wangshu. "Pode ter sido transferida de outro item que você tocou, ou talvez tenham usado um arquivo de alguma coleta de rotina. A chave não é a impressão digital em si, mas a conclusão da perícia ter sido alterada artificialmente — de 'duvidosa' para 'identificação positiva'. Essa alteração fecha a cadeia de evidências materiais. Somada ao fato de que você realmente estava investigando um caso relacionado na época, havia motivo e 'capacidade', tudo se encaixava perfeitamente."
Lu Chenzhou devolveu o envelope de papel pardo a ela. "Guarde o original. Vou tirar uma foto."
Qin Wangshu pegou o envelope e o viu tirar o telefone, ativando o modo câmera. A luz estava muito fraca, o quadrado de foco tremulava na tela. Lu Chenzhou caminhou até o feixe de luz sob a janela alta, espalhou as páginas-chave no chão e as fotografou, uma por uma. O som do obturador do telefone emitia leves cliques no silêncio.
Após a última foto, ele guardou o telefone e voltou para a sombra.
"E agora?" perguntou Qin Wangshu.
"Duas linhas", disse Lu Chenzhou, seu ritmo de fala calmo, suas palavras precisas. "Você continua investigando a rede de influência atual de Zhou Zhengping a partir da periferia, especialmente suas conexões com pessoas fora da família Shen. Foque em fundos, em suas viagens nos últimos três anos, nas mudanças nas pessoas ao seu redor. Preciso saber onde está seu ponto fraco, não apenas as evidências de seus crimes passados."
"E você?"
"Eu volto para a Mansão Shen", disse Lu Chenzhou. "As provas do crime de Shen Yan são agora minha cortina de fumaça e também minha moeda de barganha. Shen Moqing quer me usar, Zhou Zhengping quer me pressionar. Deve haver uma fissura entre eles. O que preciso fazer é encontrar essa fissura e então—"
Ele fez uma pausa.
"—coletar evidências que possam derrubar os dois lados simultaneamente. A alteração do relatório de perícia por Zhou Zhengping é um crime antigo; para prendê-lo de vez, ainda preciso de um novo crime que ele cometa agora. E deve ser um novo crime que possa desenterrar aquela cadeia de interesses de anos atrás."
Qin Wangshu o encarou. "Tem certeza de que quer voltar? Zhou Zhengping já se mostrou, isso significa que ele não se importa se você souber. Voltar é como cair direto na armadilha."
"A armadilha já foi armada", disse Lu Chenzhou. "Se eu ficar fora, eles vão apertá-la nas sombras. Se eu entrar, pelo menos poderei ver onde estão as malhas. A Mansão Shen agora é, na verdade, um lugar relativamente seguro — Shen Moqing precisa que eu esteja vivo para completar o que Shen Yan não terminou. No território da família Shen, Zhou Zhengping terá mais uma camada de hesitação para agir."
"Isso é uma aposta."
"Desde nove anos atrás, eu sempre estive apostando", disse Lu Chenzhou, virando-se e caminhando em direção à escada de incêndio. "Só que antes eu apostava na consciência dos outros; agora, aposto na ganância e no medo deles. As chances são maiores com estes últimos."
Ele agarrou a escada de ferro, pronto para descer.
Foi nesse momento que um som claro e ritmado de batidas na porta veio de baixo.
*Toc, toc, toc.*
Nem muito forte, nem muito fraco, mas cada batida atingia o centro exato da porta, com uma solidez burocrática. Não era a batida casual de um cliente, nem o bater apressado de um conhecido.
A expressão de Qin Wangshu mudou drasticamente. Ela ergueu um dedo contra os lábios, sinalizando com os olhos para Lu Chenzhou não se mover.
As batidas na porta soaram mais três vezes.
Então, a voz de um homem veio de fora da porta, um pouco ab
Passos soaram, mais de uma pessoa.
Lu Chenzhou pressionou o corpo ainda mais baixo, seu olhar atravessando as fendas da caixa de papelão para a pequena porta. A porta...
Lu Chenzhou não parou. Ele continuou a avançar, utilizando o terreno e os pontos cegos de visão, como uma gota d'água se fundindo a uma rede de tubulações intrincada. Dez minutos depois, ele emergiu por outra saída do bairro residencial, diante de uma rua barulhenta de lanches. Vozes humanas fervilhavam, fumaça de óleo pairava no ar, o cheiro acre de pimenta barata e gordura apertava a garganta.
Ele se misturou à multidão, deslizando entre as barracas, enquanto varria os arredores com olhos alertas. Não viu a van comercial prateada, nem rostos óbvios fazendo vigilância. Mas ele não ousou relaxar. As pessoas sob o comando de Zhou Zhengping não eram marginais de rua; eles sabiam como se manter ocultos enquanto seguiam um alvo.
Ele parou em frente a uma barraca vendendo *jianbing*, pediu um e pagou escaneando um código QR. Seu olhar, aproveitando o movimento do vendedor entregando o saco de papel, varreu novamente toda a rua. No segundo andar, diagonalmente oposto, a cortina de uma janela moveu-se levemente. Muito sutil, mas sob sua observação deliberada, suficientemente perceptível.
Lu Chenzhou pegou o *jianbing* e se virou para sair. Ele não olhou naquela direção, indo direto para o banheiro público no final da rua de lanches. Entrou, trancou a porta do cubículo.
O espaço estreito estava impregnado com o cheiro pungente de desinfetante, misturado com o odor ácido de urina antiga. Ele encostou-se na porta, ouvindo os sons do lado de fora. Alguém entrou para urinar, deu descarga, saiu. Os passos se afastaram.
Ele pegou o telefone, abriu o mapa, deslizou o dedo pela tela. Daqui até o cais de carga, a distância em linha reta era menos de cinco quilômetros, mas exigia atravessar uma área de fábricas aguardando demolição e dois canais fluviais. Caminhar seria lento demais, risco alto. Transporte público tinha câmeras. Táxi e carros de aplicativo eram mais fáceis de rastrear.
Só restava mover-se em etapas, aproveitando o terreno complexo.
Ele apagou todas as informações temporárias do telefone, removeu o chip SIM, segurando-o com o polegar e o indicador nas extremidades, e partiu-o com força. O plástico quebrou com um estalo. Ele levantou a tampa da caixa de descarga do vaso sanitário, jogou os fragmentos dentro e apertou o botão de descarga. A água girou, arrastando os destroços. Então, de um pequeno bolso escondido no forro do casaco, tirou outro chip de telefone pré-pago e o inseriu. A borda de plástico do chip raspou contra o slot, emitindo um leve ruído de atrito. Era uma das "heranças" deixadas por Shen Yan, nunca ativada.
Ligou. Sinal máximo.
Ele enviou uma mensagem em branco para um número memorizado. Era um sinal de emergência combinado entre ele e Qin Wangshu nos primeiros anos, significando "ative o canal reserva, limpe o caminho original".
Esperou. Do lado de fora do cubículo, alguém tentou girar a maçaneta, descobriu que estava trancada e saiu resmungando.
Um minuto depois, o telefone vibrou. A resposta também era uma mensagem em branco. Indicando recebimento.
Lu Chenzhou ajustou o telefone para o modo de economia de energia de mais alto nível, brilho da tela no mínimo. Ele rasgou o papel de embrulho do *jianbing* e deu uma grande mordida. A massa crocante e áspera e o molho grudaram nos dentes, seu esôfago recebendo o preenchimento real e ligeiramente ardente. A fome prejudicaria o julgamento, ele precisava manter a energia.
Terminando de comer, dobrou cuidadosamente o papel de embrulho e enfiou no bolso da calça de trabalho. Empurrou a porta do cubículo.
Havia um homem lavando as mãos na pia, olhando para ele através do espelho manchado de água. Rosto comum, vestindo macacão manchado de graxa. Lu Chenzhou baixou a cabeça, abriu outra torneira, a água gelada correndo sobre seus dedos, levando a sensação pegajosa. Fechou a torneira, pegou duas folhas ásperas
Ele se lembrou da última vez que Zhou Zhengping o visitou, antes de ser preso. Foi na sala de visitas do centro de detenção, separados por um vidro grosso. Zhou Zhengping estava usando uma jaqueta limpa, o cabelo perfeitamente penteado, com o sorriso gentil e paternal de sempre no rosto. Ele disse: “Chenzhou, você precisa confiar na organização, confiar... no tempo. A verdade sempre vem à tona.”
Na época, Lu Chenzhou acreditou.
Ele segurou o fone de plástico gelado, olhando para o mentor que respeitou por dez anos do outro lado do vidro, sentindo até uma triste gratidão no coração — pelo menos ainda havia alguém disposto a visitá-lo, disposto a dar-lhe uma palavra de conforto. A voz vinha através do alto-falante de baixa qualidade, com um zumbido tranquilizador.
Agora, ao se lembrar, cada palavra daquela frase se transformou na ironia mais afiada.
Confiar na organização? Aquela organização estava sistematicamente esmagando-o.
Confiar no tempo? O tempo apenas faria as mentiras se sedimentarem em “fatos”.
A verdade sempre vem à tona? Não, a verdade precisa ser escavada por alguém com as próprias mãos, mesmo que isso deixe as mãos ensanguentadas.
Lu Chenzhou fechou os olhos. Na escuridão, a retina ainda retinha a marca ardente dos três caracteres “Zhou Zhengping” na pasta de arquivo de papel pardo. Quando os abriu novamente, restava apenas um frio resoluto dentro deles. Aquele frio não era raiva, nem tristeza, mas algo mais radical — uma vontade nua e crua de sobreviver, exposta após o colapso de certa fé. Ele percebeu que, a partir deste momento, ele não estava mais lutando para “reverter o caso”.
Ele lutaria para “julgar”.
Do seu próprio jeito, julgar todos os traidores.
A luz fria da tela do celular iluminou metade de seu rosto. Ele começou a editar rapidamente um memorando criptografado, os dedos batendo no teclado virtual, os movimentos precisos como se estivesse desmontando uma bomba:
【1. Retornar em segurança à Mansão Shen. Fingir que nada aconteceu. Verificar se há novas câmeras no quarto.】
【2. Marcar ativamente um encontro com Shen Yan. Mostrar parte das evidências de DNA (não todas), observar a reação.】
【3. Forçar Shen Yan a entrar em contato com Zhou Zhengping. Monitorar os canais de comunicação (precisa da assistência de Fang Mu).】
【4. Simultaneamente, coletar evidências de violações disciplinares de Zhou Zhengping nos últimos anos (econômicas? de pessoal?). Foco: transferência de benefícios para a família Shen.】
【5. Objetivo final: estabelecer a cadeia de evidências da conivência Shen Yan-Zhou Zhengping, derrubando ambos os lados ao mesmo tempo.】
Ele terminou de digitar a última linha, fez uma pausa, a ponta dos dedos pairando sobre a tela gelada. Então, adicionou mais uma frase:
【6. Não buscar mais “inocência”. Buscar “condenação”.】
Pressionou salvar. Um ícone de cadeado girando apareceu na tela e desapareceu. O memorando foi criptografado.
Lu Chenzhou guardou o celular no bolso e olhou para fora através da janela quebrada da banca de jornais. Na rua, as pessoas iam e vinham, o vapor das barracas de café da manhã subia no ar frio, formando uma névoa branca e nebulosa. O mundo comum continuava funcionando, como se o colapso da fé que aconteceu no depósito da livraria fosse apenas uma alucinação sua.
Mas isso não era uma alucinação.
Era uma nova realidade. Uma realidade sem mentor, sem aliados, apenas inimigos e fichas de barganha. Ele precisava retornar em segurança à Mansão Shen o mais rápido possível, caso contrário, a prisão domiciliar se transformaria em uma busca completa. O tempo estava passando, cada segundo aumentando o risco de exposição.
Ele precisava voltar. Voltar para aquele antro de perigos.
Lu Chenzhou saiu da banca de jornais e caminhou pela calçada até uma cabine telefônica pública — o centro antigo ainda mantinha algumas dessas relíquias. A tinta verde estava descascando, e um adesivo amarelado de “desentupimento de esgoto” estava colado no vidro. Ele inseriu uma moeda, o som metálico foi claro. Discou um número para chamar um carro de um aplicativo de transporte. A voz era calma, até com um cansaço adequado de um trabalhador do turno da manhã: “Sim, para o MixC. Portão norte. Agora.”
Se tudo corresse bem, ele estaria de volta ao quarto antes das sete.
E então, quem o aguardaria seria Shen Yan.
O imitador, o potencial assassino, aquele elegante louco que neste momento aguardava pacientemente seu "retorno" na mansão Shen.
Um leve, gelado sorriso curvou os cantos da boca de Lu Chenzhou.
As regras do jogo haviam mudado.
Agora, a identidade de caçador e presa precisava ser redefinida.
O carro fundiu-se ao fluxo do tráfego da hora do rush matinal. Do lado de fora da janela, a cidade despertava, a luz do sol perfurava a névoa da manhã, iluminando incontáveis pontos brilhantes e cegantes nas cortinas de vidro dos arranha-céus. E nas sombras onde esses pontos de luz não alcançavam, algo ainda mais sombrio estava silenciosamente brotando.
Lu Chenzhou abriu os olhos e olhou para o espelho retrovisor.
No reflexo, seu olhar era plácido como águas mortas.
Mas nas profundezas dessas águas, algo estava despertando — era a lucidez de quem vai a fundo, a determinação de executar a lei com as próprias mãos, um veredicto frio, claro e irrevogável. Ele havia traçado os próximos passos com clareza: retornar em segurança, pressionar Shen Yan, estabelecer uma cadeia de evidências de conluio, enquanto coletava outras provas dos crimes de Zhou Zhengping. Ele se transformara num caçador mais perigoso, mais focado, e a mansão Shen estava prestes a se tornar seu primeiro tribunal.