Capítulo 95: Marco de Luz e Sombra
A luz que escapava pela fresta da porta cortava o chão a meia polegada dos pés de Lu Chenzhou, como uma linha divisória pálida.
Ele encostou os ombros e as costas na parede, baixando a respiração ao mínimo. O coração batia lento e pesado em seu peito, cada batida carregando uma intenção. O som da chave girando na fechadura parou, mas a porta não continuou a se abrir. A pessoa do lado de fora também esperava.
O olhar de Lu Chenzhou varreu a fresta da porta — não se via ninguém, apenas uma sombra longa e inclinada projetada sobre o pó de mármore sujo do corredor. A sombra permanecia imóvel, quase se fundindo com a tinta descascada da parede ao fundo. Uma pessoa treinada não invadiria precipitadamente um espaço que poderia estar armado. Eles estavam avaliando, ouvindo.
Ele soltou o cabo da mala que vinha segurando. A mala era leve, leve como uma casca vazia. Lentamente, sem fazer ruído, ele levantou a mão direita, juntou o dedo indicador e o médio e bateu suavemente duas vezes na parede gelada.
*Toc, toc.*
Duas batidas, espaçadas uniformemente, com força moderada. Não era um pedido de socorro, nem um aviso; era um sinal mais vago — havia alguém dentro, acordado, ciente da sua presença lá fora.
A sombra do lado de fora se moveu.
A porta foi aberta lentamente, apenas o suficiente para uma pessoa entrar de lado. Primeiro, um pé calçando uma bota tática preta adentrou, seguido por meio ombro envolto em uma jaqueta escura. Um homem, por volta dos trinta anos, cabelo raspado, rosto quadrado. Seu olhar varreu imediatamente os possíveis pontos de cobertura no interior — atrás do sofá, ao lado da porta do quarto, na entrada da cozinha. Só então seus olhos se fixaram em Lu Chenzhou, colado à parede.
Eles se encararam por um segundo.
O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se ligeiramente. Ele reconheceu aquele uniforme — não era policial, era o traje padronizado de alguma empresa de segurança, mas o tecido e o corte transmitiam uma sensação desconfortável de requinte. Pessoas de Shen Yan. Chegando mais rápido do que ele esperava, mas Fang Mu estava sendo mais... contido do que ele antecipara.
O homem de cabelo raspado não sacou nenhuma arma, apenas levantou a mão direita, palma para fora, fazendo um gesto de "pare". Sua voz era baixa, com um tom impessoal e plano: "Senhor Lu. O senhor Shen Yan gostaria de convidá-lo para uma visita."
"Agora?" A voz de Lu Chenzhou era igualmente estável, até mesmo carregando um cansaço perfeitamente adequado. Seu punho se fechou silenciosamente ao lado do corpo, as unhas cravando-se na palma da mão. O pavio queimava, encurtando a cada segundo.
"Agora." O homem de cabelo raspado repetiu, virando-se para abrir espaço na fresta da porta. "O carro está embaixo."
Lu Chenzhou não se moveu. Seu olhar passou pelo homem, indo em direção ao corredor escuro lá fora. Pelo menos mais uma pessoa guardava a curva da escada, sua sombra alongada. Ele recolheu o olhar, fixando-o no rosto do homem de cabelo raspado: "E se eu disser que tenho um compromisso?"
"O senhor Shen Yan disse," o homem fez uma pausa, sua voz sem emoção discernível, "que o lugar que o senhor deseja visitar, ele pode levá-lo. Mais rápido e mais seguro do que procurar por conta própria."
O ar flutuava com poeira e o cheiro mofado característico de prédios antigos, uma mistura de umidade e inúmeros odores de jantares. Lu Chenzhou o sentiu, e também um leve aroma de fragrância para carro que vinha do homem, notas cítricas, caras e deliberadas. Shen Yan havia calculado até esses detalhes, usando "levá-lo" em vez de "impedi-lo", "seguro" em vez de "ameaça".
Mas seus músculos gritavam. O ponteiro do painel já havia deslizado para a zona vermelha.
"Me dê dois minutos," disse Lu Chenzhou, seu tom adquirindo uma determinação que não admitia discussão. "Para pegar um casaco."
O homem de cabelo raspado o observou em silêncio, parecendo pesar a situação. Dois segundos depois, ele inclinou levemente a cabeça, recuou meio passo,
Feito tudo isso, ele pegou a mala, arrancou uma fina jaqueta cinza do cabide improvisado atrás da porta e a pendurou sobre o braço. Virou-se e caminhou em direção à luz pálida que vinha da entrada.
O homem de cabelo raspado observou-o sair, o olhar pousando por um instante na jaqueta sobre o braço de Lu Chenzhou e na mala de viagem. Nada disse. Na curva da escada, outro homem, vestido da mesma forma, apareceu. Os dois, um à frente e outro atrás, flanquearam Lu Chenzhou e desceram as escadas em silêncio.
O eco dos passos ressoava no corredor vazio. O punho de Lu Chenzhou ainda estava cerrado, mas o propósito agora era outro. As raízes estavam se aprofundando, cavando em direção a um solo mais escuro e mais duro. Um soldado prestes a avançar precisa saber onde fica o campo de batalha.
Estacionado do lado de fora do prédio não estava o carro preto que Shen Yanqing costumava usar, como ele esperava, mas sim uma van executiva cinza-escura, com vidros muito escurecidos. Nenhuma identificação no corpo do veículo, limpa como se tivesse acabado de sair da linha de montagem.
O homem de cabelo raspado abriu a porta corrediça do banco do meio. Lu Chenzhou curvou-se e entrou.
O interior do veículo era espaçoso. Os assentos de couro exalavam o cheiro característico de carro novo, misturado com a fragrância cítrica. Além do motorista, havia outra pessoa sentada na parte de trás.
O homem usava um terno escuro bem cortado, com um laptop fino e leve sobre os joelhos. A luz da tela iluminava a parte inferior de seu rosto, os lábios apertados em uma linha rigorosa. Ao ouvir o movimento, ele ergueu a cabeça e ajustou os óculos de armação dourada sobre o nariz. Por trás das lentes, o olhar pousou com precisão no rosto de Lu Chenzhou.
Era Gu Zhixing.
“Sr. Lu.” Gu Zhixing falou, tom estável, dicção precisa, como se estivesse presidindo uma reunião de parecer jurídico. “Perturbar à noite é uma necessidade infeliz. O Sr. Shen Yan deseja que eu o acompanhe na próxima… visita. Algumas questões de procedimento, posso ajudar na comunicação, para evitar mal-entendidos desnecessários.”
Lu Chenzhou sentou-se na poltrona oposta a ele, colocando a mala de viagem ao lado dos pés. A porta do veículo deslizou lentamente para fechar, isolando os últimos sons e a última luz do mundo exterior. O motor ligou, quase sem ruído.
“Procedimento?” Lu Chenzhou repetiu a palavra, a voz soando um pouco grave no interior fechado do veículo. “Que procedimento é necessário para visitar a viúva de um colega falecido?”
Os dedos de Gu Zhixing deslizaram levemente sobre o touchpad enquanto ele ajustava a posição dos óculos. “O estado mental da Sra. Li Suzhen sempre foi um tanto instável. O complexo residencial de funcionários de empresa estatal onde ela mora também tem uma situação de segurança relativamente complexa. O Sr. Shen Yan está agindo por consideração à sua segurança e por respeito aos familiares sobreviventes do camarada Zhou Zhengping.” Ele fez uma pausa, o olhar erguendo-se por trás das lentes para encarar Lu Chenzhou diretamente. “Claro, se o senhor insistir em fazer perguntas sobre… questões históricas não resolvidas, ter uma terceira parte presente talvez também possa evitar estimular a Sra. Li, garantindo que a conversa ocorra dentro de limites controláveis.”
O carro deixou o antigo complexo residencial e entrou no fluxo esparso de tráfego da meia-noite. A luz dos postes de iluminação riscava as janelas, projetando listras claras e escuras sobre o rosto de Gu Zhixing.
Lu Chenzhou recostou-se no assento, o olhar voltado para a paisagem noturna da cidade que recuava rapidamente pela janela. O canto esquerdo de seu olho contraiu-se novamente. Shen Yanqing não estava tentando impedi-lo; estava tentando controlar o processo e o conteúdo das informações que ele obteria. Gu Zhixing era aquele controlador, o fusível que garantia que a “conversa ocorresse dentro de limites controláveis”.
“O Sr. Shen Yan se preocupou demais,” disse Lu Chenzhou, nenhuma emoção perceptível em seu tom. “Então… conto com o advogado Gu.”
Gu Zhixing inclinou levemente a cabeça, redirecionando sua atenção para a tela do computador. Os dedos começaram a bater no tecl
Uma mão entrou, tateando pelo interruptor na parede. Os dedos eram grossos e curtos, com nós salientes, pele áspera. Não eram as mãos de alguém mimado como Gu Zhixing, nem as mãos de um policial, marcadas pelo treinamento. Eram mãos acostumadas ao trabalho pesado.
A luz se acendeu.
Uma luz amarelada inundou o quarto, fazendo Lu Chenzhou piscar. Dois homens estavam à porta. O da frente era baixo e atarracado, com cabelo curto, usando uma jaqueta de trabalho azul-marinho desbotada, seu rosto sem expressão. O de trás era alto e magro, usando um boné aba baixa, o rosto oculto pela sombra da viseira.
O olhar do homem baixo varreu o quarto e pousou em Lu Chenzhou. Ele o examinou por dois segundos antes de falar, sua voz rouca carregada de um forte sotaque regional.
"Lu Chenzhou?"
Lu Chenzhou não respondeu. Ele afastou o ombro da parede, endireitou-se, e encarou o homem com uma calma plena.
"Quem são vocês."
Não era uma pergunta. Era uma afirmação.
O homem baixo esticou os lábios, revelando dentes amarelados pelo fumo. "Alguém quer vê-lo. Venha conosco."
"Quem."
"Você saberá quando vir."
Lu Chenzhou não se moveu. Seu olhar passou por cima do ombro do homem baixo, para o corredor vazio lá fora. Ninguém mais. Mas havia um cheiro no ar, um leve odor de óleo de motor misturado ao cheiro de tabaco barato. Proveniente dos dois homens.
"E se eu me recusar?"
O homem baixo não disse nada. O magro atrás dele deu um meio passo à frente, a mão direita enfiada no bolso da jaqueta, que parecia cheio. O homem baixo levantou a mão, fez um gesto para baixo, e o magro parou.
"Sr. Lu," disse o homem baixo, seu tom inalterado, ainda plano e monótono, "não estamos aqui para convidá-lo para um chá. Não nos complique a vida."
Lu Chenzhou olhou para ele.
Alguns segundos de silêncio. No quarto, apenas o zumbido constante do reator da lâmpada fluorescente antiga. O som penetrava nos ouvidos, como pequenos insetos rastejando dentro.
De repente, Lu Chenzhou sorriu. Um sorriso leve, apenas um puxão no canto da boca, sem calor nos olhos.
"Certo," ele disse. "Vou com vocês."
O homem baixo pareceu um tanto surpreso, mas logo recuperou sua expressão impassível. Ele fez um lado, abrindo espaço na porta. "Por favor."
Lu Chenzhou curvou-se, pegando a mala ao seu lado. A mala era leve, leve demais, de uma forma que lhe parecia irreal. Ele caminhou até a porta. O homem baixo e o magro o flanquearam, um à frente, outro atrás, dirigindo-se para a escada.
Os passos ecoaram no corredor vazio. Desceram, viraram na esquina, e a porta do prédio estava logo à frente. Lá fora, já estava completamente escuro. A luz amarelada de um poste entrava, projetando manchas difusas de luz no chão.
Lu Chenzhou parou na porta do prédio.
"Onde está o carro?"
O homem baixo apontou para a calçada. Uma van prata, muito velha, o corpo salpicado de lama, os vidros com película escura. O motor estava ligado, o cano de escape soltando uma fina fumaça branca que se dissipava rapidamente no ar frio.
"Entre," disse o homem baixo.
Lu Chenzhou não se moveu. Ele virou a cabeça, olhando para o homem baixo. "Vocês são homens de Shen Yanqing, ou de Zhao Tieshan?"
Pela primeira vez, uma expressão surgiu no rosto do homem baixo — um leve lampejo de surpresa, quase imperceptível. Mas ele a suprimiu rapidamente, sua voz ficando fria.
"Entre."
Lu Chenzhou acenou com a cabeça. Ele não perguntou mais. Carregando a mala, dirigiu-se à van. O homem magro adiantou-se e abriu a porta. Lá dentro estava escuro como breu, nada era visível. Lu Chenzhou curvou-se e entrou. O homem baixo seguiu, sentando-se no banco do passageiro. O magro fechou a porta, contornou o veículo e subiu ao banco do motorista.
No instante em que a porta se fechou, um forte cheiro de fumo e suor atingiu as narinas de
Fora da janela do carro havia um terreno baldio, ao longe, o contorno de algumas fábricas baixas, escuras e sem luz. No terreno, pilhas de vergalhões enferrujados e painéis pré-moldados de concreto, ervas daninhas brotando das fendas, balançando na brisa noturna. Aquilo devia ser uma área fabril abandonada.
O homem alto e magro desceu primeiro, contornou o veículo e abriu a porta lateral. Uma corrente de ar frio entrou, trazendo o cheiro de ferrugem e poeira. Lu Chenzhou desceu segurando a mala, os pés pisando no chão de cascalho, produzindo ruídos finos e fragmentados.
O homem baixo e forte apontou para uma das fábricas ao longe. "Por ali."
Os três caminharam em direção à fábrica. O som de seus passos ecoou de forma especialmente clara no terreno vazio. A porta da fábrica era um par de portas de metal que se abriam para dentro, uma delas entreaberta, uma fresta de luz fraca escapando pela abertura.
O homem baixo e forte empurrou a porta.
O espaço interno era grande, com pé-direito alto, a estrutura de aço do teto visível no escuro. O piso era de concreto, coberto por uma espessa camada de poeira. Junto às paredes, algumas máquinas e equipamentos abandonados, cobertos com lonas à prova d'água. No centro da fábrica, uma mesa velha, duas cadeiras, sobre a mesa, uma lanterna de emergência recarregável, seu círculo de luz pálida iluminando uma pequena área.
Atrás da mesa, sentava-se uma pessoa.
Vestindo um casaco escuro, postura ereta, mãos entrelaçadas sobre a mesa. A luz vinha de baixo para cima, projetando sombras densas em seu rosto, tornando os traços faciais indistintos. Mas Lu Chenzhou reconheceu aquele contorno, aquela postura.
Gu Zhixing.
Ele ergueu o olhar, mirando Lu Chenzhou. O rosto não mostrava expressão alguma, as lentes dos óculos de armação dourada refletindo a luz, escondendo os olhos.
"Senhor Lu," Gu Zhixing falou, voz estável, sem emoção perceptível, "por favor, sente-se."
Lu Chenzhou não se moveu. Ele permanecia na entrada, a cerca de cinco metros da mesa, o olhar varrendo Gu Zhixing, a mesa, os cantos escuros da fábrica. O homem baixo e forte e o alto e magro ficaram atrás dele, um à esquerda, outro à direita, bloqueando a retirada.
"Advogado Gu," disse Lu Chenzhou, "tão tarde, num lugar tão remoto, para discutir assuntos?"
Os cantos da boca de Gu Zhixing se curvaram levemente, um sorriso muito sutil, quase cortês. "Algumas palavras não são adequadas para serem ditas em lugares muito iluminados." Ele apontou para a cadeira oposta. "Sente-se. Vamos conversar."
Lu Chenzhou caminhou até lá e sentou-se na cadeira. A cadeira era de ferro, gelada, uma friagem penetrante atravessando as calças. Ele colocou a mala ao lado dos pés, as mãos sobre os joelhos, olhando para Gu Zhixing.
Gu Zhixing também olhava para ele. Entre eles, uma velha mesa de madeira, a superfície marcada por arranhões profundos e manchas. A luz da lanterna de emergência dançava em seus rostos, clareando e escurecendo.
"Li Suzhen," Gu Zhixing começou de repente, o tom plano como se estivesse comentando sobre o clima, "a viúva de Zhou Zhengping. Você foi vê-la esta tarde."
Lu Chenzhou não disse nada.
"Você levou flores para ela," Gu Zhixing continuou, "crisântemos brancos. Você sentou-se no banco de pedra embaixo do prédio dela por um tempo, limpou a poeira, encontrou um botão." Ele fez uma pausa, os olhos atrás das lentes se estreitando levemente. "Depois você foi embora."
Lu Chenzhou permaneceu em silêncio.
"Por que foi procurá-la?" perguntou Gu Zhixing.
"Para prestar condolências," disse Lu Chenzhou.
"Apenas para prestar condolências?"
"O que mais seria?"
Gu Zhixing inclinou o corpo para frente, as mãos apoiadas na mesa, as pontas dos dedos batendo levemente na madeira. "Senhor Lu, nenhum de nós é uma criança..."
O som da chave girando na fechadura parou.
Lu Chenzhou estava de costas contra a parede, a respiração comprimida numa linha fina. A pessoa do lado de fora não
"Sr. Lu." Gu Zhixing falou, a voz estável, carregando a cortesia precisa e habitual. "Perturbar a esta hora da noite, realmente peço desculpas. Mas há algumas coisas que preciso confirmar pessoalmente com você."
Lu Chenzhou não se moveu, nem falou. Seu olhar passou por cima de Gu Zhixing, pousando na fenda da porta. Havia mais alguém lá fora, talvez mais de um. A única mala que ele tinha estava ao lado dos pés, leve, leve como uma armadilha.
"Li Suzhen." Ao pronunciar este nome, o tom de Gu Zhixing não mudou em nada, como se estivesse lendo o número de um documento. "A viúva de Zhou Zhengping. Você acabou de visitá-la."
Não era uma pergunta.
O ritmo da respiração de Lu Chenzhou não mudou, mas algo em seu peito afundou. Ele se lembrou do aparelho de monitoramento preto na sala de estar da casa de Li Suzhen, a luz vermelha piscando regularmente, como um olho que não pisca. Afinal, não era um brinquedo que Shen Yanqing usava para assustar a idosa – era transmissão em tempo real. No momento em que ele pressionou a campainha, a imagem já havia sido enviada para alguma tela.
"Eu apenas fui visitá-la." Lu Chenzhou disse, a voz mais calma do que ele esperava. "O professor Zhou me ajudou em vida."
"Visitar." Gu Zhixing repetiu a palavra, o canto da boca parecendo curvar-se um pouco, mas o arco era tão pequeno que era quase invisível. "Trouxe um buquê de crisântemos brancos, ficou dez minutos no banco de pedra ao lado do canteiro de flores no térreo, limpando a poeira, arrumando as flores, em silêncio. Um ritual de luto muito padrão. Se fosse só isso, claro que não haveria problema."
Ele deu meio passo à frente.
O sapato de couro rangiu levemente contra o piso. O piso de madeira da casa velha já estava deformado em alguns lugares.
"Mas você encontrou um botão na fenda do banco de pedra." Gu Zhixing continuou, o ritmo não era rápido, cada palavra parecia uma peça cuidadosamente polida. "Um botão antigo, enferrujado, com os caracteres 'Segurança na Produção' gravados. Você o limpou, colocou no centro do banco de pedra, junto com as flores. Então, você olhou para cima, para a janela da casa de Li Suzhen – segundo andar, a da esquerda, a cortina estava fechada. Você parou lá por cerca de três segundos, depois se virou e foi embora."
Gu Zhixing fez uma pausa.
"Pode me dizer, Sr. Lu?" Ele ajustou os óculos, os olhos atrás das lentes fixos em Lu Chenzhou. "O que você estava pensando naqueles três segundos?"
O quarto estava muito quieto. Ao longe, o som de um veículo noturno passando, vago, como se estivesse atrás de uma camada d'água. Lu Chenzhou conseguia sentir o leve cheiro da colônia de Gu Zhixing, misturado com o aroma de papel e tinta – o cheiro de um advogado. Mas por baixo havia algo mais, algo mais frio, como o cheiro metálico que o metal exala em baixas temperaturas.
"Eu estava pensando," Lu Chenzhou começou, a voz baixa, "se o professor Zhou costumava sentar naquele banco de pedra para fumar, observando as crianças brincarem lá embaixo. Aquele botão poderia ter caído dele, ou de algum outro trabalhador. Não importa. O importante é que alguém se lembra que ali já foi uma fábrica estatal, que alguém se lembra que aqueles quatro caracteres, 'Segurança na Produção', já não eram apenas um slogan."
Ele fez outra pausa.
"Quanto à janela da casa de Li Suzhen—" Lu Chenzhou ergueu os olhos, encarando Gu Zhixing diretamente. "Eu só estava verificando se havia alguém atrás da cortina. Não queria que minha visita lhe trouxesse problemas. Agora parece que minha preocupação foi desnecessária."
Gu Zhixing sorriu. Desta vez foi um sorriso real, embora não alcançasse os olhos.
"Você é muito cauteloso." Ele disse. "Mas a cautela às vezes faz as pessoas perderem informações cruciais. Por exemplo, Li Suzhen realmente queria muito falar com você. Quando ela olhou para você pelo olho mágico, seus dedos estavam tremendo – não de medo, mas de agitação. Ela o reconheceu. Sabia quem você era, e sabia por que você veio."
O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se novamente.
"Mas ela não ousou abrir a porta." Gu Zh
“Li Suzhen desceu até o banco de pedra cinco minutos depois que você saiu.” Gu Zhixing disse, erguendo a bolsa de evidências entre os dois. “Ela queria retirar este item e entregá-lo a você. Mas assim que se curvou, viu meu carro estacionado na esquina da rua. Ela ficou apavorada, enfiou o papel de volta na fenda do tijolo, virou-se e correu escada acima. Infelizmente, seus movimentos foram muito lentos.”
Ele balançou suavemente a bolsa de evidências.
“Meus homens recuperaram este item depois que ela voltou para casa. Por questões de conformidade processual, não o abrimos, apenas fizemos uma inspeção externa. O material do papel é uma carta comum dos anos 90, marcas de queimadura concentradas no canto inferior direito, possivelmente alguém tentou queimá-lo, mas desistiu depois de queimar apenas uma pequena parte. A caligrafia em tinta de caneta é azul-preta, a tinta já borrou, mas ainda é possível identificar algumas palavras-chave.”
Gu Zhixing fez uma pausa, olhando para Lu Chenzhou.
“‘Comitê de Investigação’.” Ele disse. “‘Gu Zhixing’. E ‘apagar’. Só isso.”
A respiração de Lu Chenzhou travou por um instante.
Apagar. Era essa a palavra que Li Suzhen gritou antes de entrar em colapso atrás da porta. *Eles* sabiam que era para investigar, para apagar. E agora, essa palavra aparecia em um fragmento de papel salvo do fogo, lado a lado com o nome de Gu Zhixing.
“O fragmento de papel foi deixado por Zhou Zhengping.” Gu Zhixing continuou, seu tom retomando aquela objetividade gelada. “De acordo com o depoimento posterior de Li Suzhen — claro, depois que a ‘ajudamos’ a se lembrar — Zhou Zhengping escondeu isso sob o banco de pedra uma semana antes de morrer. Ele disse a Li Suzhen que, se um dia uma pessoa chamada Lu Chenzhou viesse procurá-lo, deveria entregar isso. Se Lu Chenzhou não viesse, ou se fosse outra pessoa, ela deveria queimá-lo.”
“Por que ela não queimou?” Lu Chenzhou perguntou.
“Porque ela estava com medo.” Gu Zhixing disse. “Queimar algo produz fumaça, deixa cheiro. Ela temia ser detectada pela vigilância. Ela também guardava um fio de esperança, esperando que você realmente viesse, que este item pudesse ser útil. A mente de uma mulher sempre tem uma camada a mais de suavidade que a de um homem. Essa suavidade, em momentos cruciais, costuma ser fatal.”
Ele guardou a bolsa de evidências, colocando-a de volta no bolso interno.
“Agora, este item está em minhas mãos.” Gu Zhixing disse. “E Li Suzhen, por tentar entregar a um suspeito material que pode envolver segredos de Estado, já está sob nossa ‘proteção’. Seu estado emocional é um pouco instável, pode precisar de um período de repouso. Claro, tudo isso faz parte de procedimentos legais e conforme.”
Lu Chenzhou o encarou, sem dizer uma palavra.
Os punhos se cerraram com propósito. As raízes afundaram mais fundo. Ele sabia o que Gu Zhixing estava dizendo — Li Suzhen foi...
***
A porta se fechou atrás dele com um baque surdo.
Lu Chenzhou ficou de pé no corredor escuro, a luz acionada por som já havia se apagado há muito. Ele encostou-se na parede fria, sua respiração afundando lentamente no peito, como uma pedra caindo em um lago profundo. O canto esquerdo do olho começou a se contrair, um tremor sutil, incontrolável. Ele ergueu a mão, pressionando com força com a junta dos dedos, a pele sob a ponta dos dedos estava gelada.
As últimas palavras de Li Suzhen ainda ecoavam em seus ouvidos, cada uma delas serrilhada.
“*Eles* sabem que é para investigar…”
“… é para apagar.”
Apagar.
Essa palavra era como uma chave enferrujada, inserida em uma porta em sua memória que nunca havia sido aberta. A foto do grupo de 1996, o engenheiro-chefe Lin Shouye, apagado tecnicamente. A morte de Zhou Zhengping. O aviso no verso da foto de Gu Zhixing. Agora, mais um “Comitê”. O ponto final de todas as pistas apontava para a mesma ação — apagar. Não era encobrir, nem falsificar, era um apagamento completo, limpo, sem deixar vestígios.
Ele virou-se e desceu as escadas.
A respiração parou. Os dedos escavaram com cuidado, a terra caindo em sussurros. A coisa estava presa profundamente, quase embutida no fundo da fenda. Ele usou um pouco de força, a unha arranhou a superfície metálica, produzindo um leve som de "zzzz".
Um botão.
Quase completamente corroído, manchas de ferrugem verde-cobre cobriam sua cor original, mas nas bordas ainda era possível discernir um padrão em relevo borrado — "Segurança na Produção". Era aquele tipo de botão metálico pesado e simples de uniformes de trabalho antigos, pertencente a uma era há muito desaparecida.
Lu Chenzhou o colocou na palma da mão.
A ferrugem cobriu suas impressões digitais. O botão era leve, e ao mesmo tempo pesado. Ele podia quase ver, muitos anos atrás, Zhou Zhengping sentado aqui, talvez logo após o trabalho, talvez apenas perturbado, acendendo um cigarro barato, na fumaça que se enrolava, inconscientemente esfregando o botão do uniforme. E então, um dia, o botão caiu, rolou para uma fenda de pedra, foi soterrado pela terra e pelo tempo. E seu dono, muito tempo depois, de outra forma, também foi "apagado".
Ele tirou o ramo de crisântemos brancos.
As pétalas já estavam um pouco murchas, as bordas enroladas, mas aquele leve aroma adocicado e amargo ainda persistia. Ele colocou as flores no centro do banco de pedra, e colocou suavemente o botão corroído ao lado do buquê.
Sem incenso, sem vinho, sem palavras.
Apenas um botão, um buquê de flores, uma pessoa viva e uma pessoa morta, neste canto esquecido, completando um diálogo silencioso. A luz do sol incidiu obliquamente, refletindo pontos de luz fracos na ferrugem do botão, como um olho finalmente fechado.
Lu Chenzhou sentou-se no banco de pedra.
O frio do concreto penetrou através da calça. Ele entrelaçou as mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar fixo no botão. Aqueles fios de pista confusos em sua mente — Gu Zhixing, Shen Yanqing, o Comitê, o apagamento — agora estavam todos silenciosos. Substituídos por um vazio mais vasto, mais sufocante.
Ele viera aqui originalmente para se despedir, e também para buscar. Consolar os mortos, buscar pistas. Mas agora, sentado ao lado deste botão, ele de repente percebeu que talvez nunca pudesse completar uma verdadeira despedida. Porque cada "despedida" era raspar outra cicatriz, era confirmar a completude e a crueldade do "apagamento". Zhou Zhengping foi apagado. Lin Shouye foi apagado. Li Suzhen vivia sob a luz vermelha da vigilância, de certa forma, ela também estava sendo lentamente apagada.
E ele?
Estes sete anos dele, não eram de certa forma outro tipo de "apagamento"? O nome pregado na lista de criminosos, o passado alterado, o futuro roubado. Ele lutou para sair, pensando que estava em busca da verdade, mas na realidade, estava apenas cavando inutilmente em um campo de ruínas que havia sido repetidamente arado e semeado com mentiras.
As raízes se aprofundaram ainda mais.
Este pensamento surgiu sem aviso prévio. Não era raiva, nem tristeza, era uma confirmação quase cruel. Suas raízes já haviam penetrado profundamente neste solo podre, entrelaçando-se com todas as pessoas apagadas, a história adulterada, o medo da vigilância. Ele não podia arrancá-las, arrancá-las seria morrer. Ele só podia aprofundá-las, mais fundo, mais escuras, até tocar aquele pântano fétido e ensanguentado no mais profundo.
E então?
Ele não sabia.
Ele só sabia que, sentado aqui agora, segurando este botão corroído, ele via sua própria situação — e o preço — com mais clareza do que nunca. O medo de Li Suzhen, a morte de Zhou Zhengping, o desaparecimento de Lin Shouye, todos eram parte do preço. E se ele continuasse investigando, só faria a lista desse preço crescer cada vez mais.
Mas ele não conseguia parar.
O punho se fechou com propósito. As unhas cravando-se na palma, uma dor surda surgiu. Ele soltou a m
Mas cada músculo de seu corpo se tensionou instantaneamente, ajustando-se a um estado de prontidão para ação. Ele não desviou o olhar imediatamente; ao contrário, observou com ainda mais atenção. A frente do carro estava virada para cá. Havia alguém no banco do motorista, a silhueta era borrada, mas dava para ver que era um homem, usando chapéu. O banco do passageiro… vazio. E o banco de trás? O filme escuro bloqueava completamente a visão.
Era uma coincidência?
Um visitante, estacionado temporariamente.
Ele se levantou lentamente, com um movimento natural, como se apenas estivesse com as pernas dormentes de ficar sentado por muito tempo. Inclinou-se, pegou o botão no banco de pedra, limpou a poeira fresca que havia nele e o colocou no bolso. Então, pegou o buquê de crisântemos brancos.
Virou-se e caminhou em direção à porta do prédio.
Seus passos eram estáveis, nem rápidos nem lentos. Mas o canto de seus olhos estava fixado firmemente naquele carro preto. Cinco passos. Dez passos. No momento exato em que ele estava prestes a entrar na sombra da porta do prédio —
A janela do banco do passageiro do carro desceu silenciosamente uma polegada.
Apenas uma polegada.
Mas era o suficiente. Suficiente para que um reflexo de luz passasse por uma superfície de lente — não do vidro da janela, mas de uma lente menor, mais concentrada. Lente teleobjetiva. A lente ajustou o ângulo, mirando nele, ou melhor, na porta do prédio pela qual ele estava prestes a entrar.
A pressão se materializou.
Não era mais uma suposição, não era mais uma preocupação. Era uma presença concreta, fria, carregada de vigilância. Pessoas de Shen Yanqing. Ou pessoas de Gu Zhixing. Em suma, pessoas "deles". Eles sabiam que ele havia vindo, sabiam que ele estava procurando por Li Suzhen. Agora, estavam esperando ele sair, ou avaliando se precisavam entrar.
Os passos de Lu Chenzhou não vacilaram.
Ele entrou pela porta do prédio, e a penumbra o engoliu instantaneamente. Mas ele não subiu as escadas. Encostou as costas na parede fria de azulejos, permanecendo na sombra dentro da porta, prendendo a respiração. Seus ouvidos capturavam os sons do lado de fora. O motor não ligou. As portas do carro não se abriram. Apenas o ruído distante da cidade e o zumbido próximo do próprio sangue fluindo em suas veias.
Os segundos passavam, um a um, lentamente.
Sua mente trabalhava em alta velocidade. O objetivo do outro lado? Vigiar, confirmar, ou preparar-se para intervir? O colapso de Li Suzhen momentos atrás já havia acionado algum tipo de alerta? Sair agora era a escolha mais segura. O carro preto o seguiria, mas pelo menos Li Suzhen estaria temporariamente a salvo. Ele poderia despistar a cauda, como fizera muitas vezes antes.
Mas…
Ele tocou o botão no bolso. A borda enferrujada pressionava a ponta dos dedos.
Se ele fosse embora agora, as palavras de Li Suzhen — "eles vêm para inspecionar, para apagar" — poderiam se tornar as últimas palavras que ela diria. E aquele fragmento sobre "Gu… aquele homem, quando assinou, sua mão nem tremeu" permaneceria para sempre apenas um fragmento, afundando na consciência dela que estava prestes a ser completamente destruída pelo medo.
Algumas oportunidades só surgem uma vez.
Perdidas, são para sempre.
Lu Chenzhou ergueu o olhar, mirando as escadas que levavam ao segundo andar. Penumbra, íngremes, como um túnel que leva ao abismo. Ele conhecia os riscos de voltar. A luz vermelha de monitoramento atrás da porta. A lente na esquina da rua lá fora. O estado mental de Li Suzhen à beira do colapso. Qualquer