Capítulo 24: Sombra Furtiva
A realidade gelada do final do capítulo anterior estava como uma corda esticada, pressionada contra a garganta de Lu Chenzhou.
O calor daquela lembrança do pãozinho já havia se dissipado há muito. O frio da chapa de ferro sob seu corpo, o cheiro acre de ferrugem e poeira no ar, e os pesados passos das duas forças de busca que, após um breve confronto diante das máquinas de tear, haviam recomeçado seu avanço meticuloso — isso era a totalidade real do momento.
Seu coração batia pesadamente sob suas costelas. A mão esquerda, por instinto, apertou a fotografia retirada da pequena caixa de metal, os dedos sentindo a nitidez da borda do papel fotográfico e o relevo da linha de letras desbotadas no verso. 17 de agosto de 2005. Cais de Linjiang. Shen Yanqing. Um homem de meia-idade desconhecido. E aquela silhueta suspeita de ser "Lao K", que quase congelou seu sangue.
Ele soltou a mão, enfiando a fotografia de volta na caixinha de metal, junto com aquela chave enferrujada de número "047". A caixinha se fechou novamente, a trava emitindo um leve clique. Quase simultaneamente, um feixe de lanterna varreu a borda do chassi da máquina de tear onde ele se escondia, iluminando uma poça escura de óleo no chão à frente.
"Já olharam aqui?" uma voz masculina rouca.
"Não tem cheiro de gente viva." Outra voz, mais abafada, com uma concisão treinada. "Mas os rastros são recentes. Dividimos em dois grupos, você pela esquerda, eu pela direita, flanqueamos. Cuidado com os canos no chão."
Lu Chenzhou prendeu a respiração. Seus pulmões pareciam ter esquecido como funcionar, contraídos, cada pequena expansão trazendo uma pontada. Seu olhar varreu rapidamente os arredores: além da direção de onde vieram, à esquerda havia um corredor estreito cheio de fusos abandonados, à direita uma fileira de caixas de distribuição enferrujadas, e atrás... atrás era uma parede.
O feixe da lanterna balançou novamente, sondando o corredor à sua esquerda. A chance era de um instante — o momento em que a luz se desviasse e a atenção dos perseguidores fosse atraída pelo corredor esquerdo.
O corpo de Lu Chenzhou se soltou como uma mola comprimida, rolando rente ao chão para fora do chassi do tear. Ele não se levantou, mas usando a força do abdômen, lançou-se direto para a sombra atrás da fileira de caixas de distribuição à direita. O movimento foi extremamente rápido, o som do ar deslocado quase abafado pelos passos de outro grupo de perseguidores à distância. Mas sua manga ainda roçou em um fio pendurado, e o conector de metal suspenso bateu na caixa, emitindo um leve *tlim*.
Lu Chenzhou não parou. Ele se agachou e passou por uma fenda de menos de meio metro de largura entre as caixas de distribuição, a palma da mão enchendo-se de uma graxa preta grudenta e de composição desconhecida ao se apoiar no chão. À frente, surgiu uma porta de ferro entreaberta, atrás da qual uma escada de concreto descia, a escuridão densa, exalando um cheiro mais penetrante de mofo e urina.
Ele entrou rapidamente, puxando a porta de ferro para fechá-la suavemente com a mão de trás, não totalmente, deixando uma fenda de dois dedos de largura. Apoiado contra a parede fria e úmida, seu coração batia como um tambor em seus tímpanos. Debaixo da escada, vinha o som fraco de gotas d'água, *toc, toc, toc*, tão regulares que davam aflição.
Alguns fios de luz da lanterna vazaram pela fresta da porta, desenhando manchas oscilantes no chão.
"Essa porta estava aberta antes?" A voz rouca estava bem do lado de fora.
"Pode ter ficado aberta o tempo todo." A voz abafada respondeu, mas havia uma pausa quase imperceptível em seu tom. "O que tem lá embaixo?"
"Velhos dutos de ventilação, levam para a área externa da fábrica
Embora a parte inferior da escada pudesse estar bloqueada, era pelo menos um espaço temporário fora do alcance da busca. Ele tirou o celular do bolso — a tela já estava ajustada para o brilho mínimo desde que se escondera — e olhou rapidamente a hora. 4h17 da madrugada. Já haviam se passado onze horas desde que recebeu de Zhou Zhengping aquela mensagem criptografada sobre "o Velho K possivelmente ter deixado um filho órfão".
A mensagem de Zhou Zhengping foi transmitida através de uma gravação deixada em uma cabine telefônica pública abandonada, criptografada com um código de data que apenas os dois conheciam, apontando para um endereço na antiga zona norte da cidade: "Número 74 da Rua Hongqi, terceiro andar, apartamento leste". No final da gravação, a voz de Zhou Zhengping soava cansada e apressada, com um leve som de cerâmica batendo ao fundo — era seu hábito de girar uma velha xícara de esmalte quando estava nervoso.
"Jingyuan," Zhou Zhengping usou seu nome de cortesia na gravação, uma forma rara de tratamento, quase como um encargo, "a linha está quente... talvez tenham notado algo aqui também. Se for, vá rápido. E tem que ir 'de forma regular'."
"De forma regular". Lu Chenzhou entendia o significado dessa palavra. Ele tinha agora Gu Zhixing ao seu lado, este "assistente" enviado por Shen Moqing, uma sombra constante, vinte e quatro horas por dia. Qualquer ação privada precisava ser disfarçada sob o pretexto legítimo de investigar o caso de Zhao Mingcheng para Shen Mo.
Portanto, ele precisava de uma performance. Um jogo de gato e rato, diante dos olhos dos observadores, tentando escapar mas sendo firmemente mantido sob controle. Isso em si era um teste — testar os limites da vigilância de Gu Zhixing, testar até onde Shen Mo toleraria sua investigação particular sobre casos antigos, e também testar se aquela pista já não estava marcada por forças ainda mais perigosas.
A escada era íngreme, as bordas dos degraus de concreto estavam muito danificadas, em alguns lugares expondo a ferragem enferrujada. O ar ficava cada vez mais denso, um cheiro de mofo misturado com uma acidez de algum reagente químico, que se intensificava à medida que descia. Realmente não havia saída abaixo; no final da escada havia uma abertura arqueada de porta selada por tijolos e cimento, com marcas que indicavam ser uma obra de muitos anos atrás.
Mas na parede à esquerda da abertura, havia uma área quadrada de cor ligeiramente mais clara, com cerca de meio metro de lado.
Lu Chenzhou se aproximou e tocou aquela área com os dedos. A superfície da parede era áspera, mas as bordas eram regulares, como se algum equipamento tivesse sido instalado ali e depois removido. Ele se agachou, tirou de um compartimento oculto no calcanhar do sapato uma fina e longa lâmina de aço especial — uma das pequenas ferramentas que ele mesmo havia polido antes de ser preso — e a inseriu lentamente na fenda ao redor da borda da área quadrada.
Houve uma leve resistência, então a lâmina deslizou para dentro, encontrando algum componente metálico.
Com um movimento extremamente suave do pulso, ele torceu e depois empurrou para o lado.
Um som baixo veio de dentro da parede. A área quadrada afundou cerca de dois centímetros para dentro e então deslizou para o lado, revelando uma abertura estreita e escura de um duto, larga o suficiente apenas para uma pessoa rastejar. Uma corrente de ar mais forte, com cheiro de ferrugem e poeira, saiu do duto e soprou em seu rosto.
Era parte do antigo sistema de passagens de manutenção de emergência da fábrica, que não constaria nos projetos, apenas os velhos operários sabiam. Ao dar o endereço, Zhou Zhengping também mencionou sutilmente esta "possível saída da antiga passagem", localizada fora do muro oeste da área da fábrica, perto de um conjunto de casas baixas aguardando demolição.
Sem hesitar, Lu Chenzhou guardou a lâmina de aço e se abaixou para entrar no duto.
A superfície interna do duto era de chapas de ferro geladas, alguns pontos já estavam corroídos, ao toque cheios de partículas ásperas. Ele só podia avançar usando alternadamente os cotovelos e os joelhos, rastejando na escuridão absoluta. A noção de tempo desapareceu, restando apenas o som de atrito entre seu corpo e o metal, sua respiração pesada e
Uma das laterais da grade se soltou completamente do quadro de fixação, abrindo-se para fora. Ele rapidamente se esgueirou pela abertura, seu corpo pousando levemente sobre uma pilha fofa de espuma plástica descartada, que emitia um odor estranhamente adocicado, amortecendo o impacto da queda. Imediatamente, ele rolou para trás de uma velha pia de cimento para lavar roupa, agachando-se parcialmente, seu olhar aguçado varrendo todo o quintal e a entrada do beco.
Ele se levantou, sacudindo os fragmentos de espuma e ferrugem que haviam grudado em sua roupa. Seus movimentos eram rápidos, mas cada detalhe transmitia um certo caráter meticuloso, profissional de arrumação — era sua forma de dizer a qualquer observador em potencial: *Eu escapei do perigo, mas ainda estou no controle*.
O beco era estreito, o chão encharcado. Choveu na noite anterior, e poças de água turva se acumulavam nas depressões. O ar estava impregnado com o odor complexo característico do bairro antigo: terra úmida, folhas de vegetais apodrecendo, o cheiro de enxofre do carvão não queimado e, vindo de algum lugar, o aroma gorduroso, quase imperceptível, de comida frita.
Ele precisava de um carro, ou pelo menos de um telefone funcional. Mas antes disso, tinha que se livrar da evidência mais óbvia em sua pessoa — a pequena caixa de metal.
No final do beco havia uma lixeira verde, com a tinta descascada, entupida com sacolas plásticas de todas as cores. Lu Chenzhou se aproximou. Em vez de jogar a caixinha diretamente dentro, ele arrancou da borda da lixeira uma sacola preta ainda relativamente intacta. Colocou a caixinha dentro, pegou alguns pedaços de papel amassado e garrafas vazias de bebida ao redor para disfarçar. Então, fez um nó complexo e difícil de se soltar na sacola, antes de jogá-la no fundo da lixeira.
Isso não era descartar. Era marcar. Se precisasse, poderia voltar para recuperá-la.
Feito isso, ele se virou e começou a caminhar na direção da luz no beco. Seus passos eram nem apressados nem lentos, suas costas eretas, como se fosse apenas um morador comum levantando cedo para se deslocar. Mas o canto de seus olhos continuava varrendo as janelas de ambos os lados, as sombras nos telhados e qualquer movimento na saída do beco à frente.
Após caminhar cerca de cinquenta metros, a saída do beco à frente se conectava a uma rua um pouco mais larga. À beira da rua havia uma pequena mercearia com luz acesa, atrás do balcão de vidro, um velho cochilava. Ao lado do balcão, um telefone público vermelho estava pendurado na parede.
"Fazer uma ligação," disse Lu Chenzhou, sua voz estável, com um toque de cansaço perfeitamente adequado.
O velho não disse nada, apenas apontou para a tabela de tarifas colada ao lado do telefone.
Lu Chenzhou tirou algumas notas miúdas do bolso da calça — era todo o dinheiro em espécie que tinha, deixado no casaco velho antes de ser preso, e que ele guardara com cuidado — contou a quantia devida e a colocou no balcão. Então pegou o fone e discou um número.
O som de espera ecoou no fone. Um toque, dois, três.
No momento em que o quarto toque estava prestes a soar, a ligação foi atendida.
"Alô." A voz de Gu Zhixing veio pelo fone, clara, estável, sem nenhum traço de sonolência por ter sido acordado, nem qualquer surpresa. Como se ele estivesse esperando por essa ligação o tempo todo.
"Assistente Gu," disse Lu Chenzhou, seu ritmo de fala constante, suas palavras precisas. "Estou no norte da cidade, perto da Rua Hongqi. Enfrentei uma situação, preciso que você venha aqui."
Ele não explicou o que era a "situação", nem disse por que estava no bairro antigo, a mais de dez quilômetros da residência temporária que Shen Yan havia providenciado para ele, às quatro da madrugada.
Do outro lado da linha houve dois segundos de silêncio. Nesses dois segundos, Lu Chenzhou conseguia ouvir um ruído de estática extremamente tênue no fundo, e... um som regular, semelhante ao toque de teclas? Muito baixo, quase mascarado pelo ruído.
"Localização específica," perguntou Gu Zhixing, sem palavras desnecessárias.
"Cruzamento da Rua Hongqi com a Rua Jianshe,
Lu Chenzhou não ergueu a cabeça, não mudou de postura. Continuou fumando, chegando a levantar levemente o rosto e soprar uma baforada de fumaça em direção ao céu cinza-azulado, como se estivesse apenas relaxando nervos cansados. Mas o dedo indicador da mão esquerda que segurava o cigarro curvou-se quase imperceptivelmente, batendo duas vezes levemente na costura da calça.
Era um hábito seu ao pensar. O ritmo das batidas correspondia ao "R" e "U" do código Morse — "recebido, não compreendido".
A observação atrás da janela durou cerca de dez segundos, depois a fenda da cortina se fechou e tudo voltou ao normal.
Coincidência? Um morador acordado cedo nas proximidades? Ou... outro par de olhos?
Os "vinte minutos" mencionados por Gu Zhixing foram assustadoramente precisos. No décimo nono minuto, um carro preto, de modelo discreto, deslizou silenciosamente até a beira da rua, parando em frente à vendinha. A janela desceu, revelando o rosto de Gu Zhixing com seus óculos de aros dourados. Ele vestia uma camisa bem passada, a gola impecável, sem nenhum sinal de pressa por ter sido acordado no meio da noite.
"Senhor Lu." Gu Zhixing acenou com a cabeça em saudação, o tom educado e distante. "Por favor, entre no carro."
Lu Chenzhou apagou a ponta do cigarro, abriu a porta e sentou-se no banco do passageiro. O interior do carro estava limpo, com um leve cheiro de limpador de couro e filtro de ar-condicionado. A luz fluorescente do painel iluminava o perfil de Gu Zhixing, seus dedos longos e articulações bem definidas segurando o volante, sem nenhum movimento desnecessário.
O carro partiu suavemente, entrando na rua ainda escura.
"O endereço é número 74 da Rua Hongqi, terceiro andar, apartamento leste." Lu Chenzhou informou o endereço dado por Zhou Zhengping, o olhar fixo à frente. "Ontem, ao organizar os arquivos do caso Zhao Mingcheng, descobri em um depoimento inicial que mencionava essa pessoa, que talvez tenha testemunhado as atividades de Zhao Mingcheng na área na semana antes de sua morte. Quero ir perguntar."
"Tão cedo?" perguntou Gu Zhixing, sem tom de questionamento, apenas uma confirmação tranquila.
"Se a pessoa ainda estiver lá, é melhor ir cedo para não dar com os burros n'água." Lu Chenzhou respondeu. "Se tiver se mudado, também podemos perguntar aos vizinhos para onde foi."
Gu Zhixing não disse mais nada, apenas ajustou levemente a posição dos óculos de aros dourados, seu olhar atrás das lentes focado na estrada.
O carro percorreu as ruas estreitas do bairro antigo. O céu gradualmente começou a clarear com a cor do ventre de peixe, mas a luz ainda era escassa. Os edifícios de ambos os lados da rua pareciam pilhas de gigantes silenciosos, com contornos indistintos. Lixeiras, varais de roupa, toldos construídos ilegalmente passavam alternadamente pela janela do carro.
Lu Chenzhou olhava pela janela, aparentemente despreocupado. Mas sua mente funcionava em alta velocidade, memorizando cada cruzamento, cada possível ponto de bloqueio visual, cada área onde o fluxo de pessoas poderia aumentar subitamente.
Cerca de cinco minutos depois, o carro entrou em um beco ainda mais estreito. De ambos os lados, havia paredes antigas de seis ou sete metros de altura, com a tinta descascada, revelando tijolos vermelho-escuros por dentro. O beco mal permitia a passagem de um carro, o chão era uma estrada de paralelepípedos irregular, e o carro balançava ao avançar.
Foi então que Lu Chenzhou falou subitamente: "Vire à direita à frente, há um pequeno espaço aberto onde podemos estacionar. O carro não consegue entrar mais adiante."
Gu Zhixing obedeceu e virou à direita. À frente, de fato, havia uma pequena área triangular aberta, com alguns entulhos de construção, deserta. Ele estacionou o carro e desligou o motor.
"São cerca de trezentos metros a pé." Lu Chenzhou abriu a porta do carro e desceu. O ar da madrugada era frio e úmido, trazendo um cheiro terroso aos pulmões. Ele alongou os ombros um pouco rígidos, o olhar varrendo rapidamente o ambiente ao redor: à esquerda do espaço aberto, havia uma travessa ainda mais
Na barraca de café da manhã, Lu Chenzhou tirou algumas moedas do bolso e disse algo ao vendedor. O vendedor assentiu com a cabeça, levantou a cesta de vapor, e uma nuvem branca de vapor irrompeu, envolvendo instantaneamente a figura de Lu Chenzhou. O vapor era denso e durou três ou quatro segundos.
Ele não esperou pelos pãezinhos. Em vez disso, aproveitando a cobertura do vapor, ele recuou rapidamente dois passos para trás e para o lado, girou sobre os calcanhares e desapareceu na estreita e escura fresta, cheia de entulho, ao lado da barraca, que tinha apenas a largura dos ombros! Do outro lado da fresta, conectava-se a outro beco paralelo!
Seus movimentos foram extremamente rápidos, quase sem fazer barulho. Dentro da fresta, ele não saiu correndo imediatamente. Em vez disso, encostou-se à parede, prendeu a respiração e escutou.
Do lado da barraca de Fang Mu, o vapor estava se dissipando. O vendedor pareceu resmungar algo, seguido pelo som suave da tampa da cesta de vapor sendo recolocada.
Nenhum passo apressado de Gu Zhixing. Nenhum chamado.
O coração de Lu Chenzhou afundou. Essa reação não estava certa. Se Gu Zhixing tivesse perdido o alvo, haveria pelo menos um momento de hesitação ou uma ação de busca. Mas lá fora estava tudo calmo.
Ele não esperou mais. Começou a se mover rapidamente pela fresta escura e estreita. Dentro dela, havia vasos de flores quebrados, tábuas podres, baldes de ferro enferrujados. Ele teve que se virar de lado, dar passos largos, abaixar a cabeça, mas seus movimentos eram fluidos, como se tivesse praticado inúmeras vezes. A fresta de trinta metros de comprimento foi atravessada em menos de dez segundos.
A saída dava para um beco ainda mais isolado, o chão encharcado de água suja, as paredes laterais cobertas de musgo. Ao fundo do beco, dava para ouvir vagamente o barulho crescente do mercado matinal.
Lu Chenzhou não foi em direção ao barulho. Em vez disso, virou-se e entrou por uma porta de madeira, com a tinta descascada, entreaberta no meio do beco. Atrás da porta havia uma loja de antiguidades mal iluminada, abarrotada de móveis velhos, eletrodomésticos antigos, pilhas de livros e frascos, o ar impregnado com um cheiro mofado e poeirento. Um velho cochilava atrás do balcão, sem reagir à entrada de alguém.
Lu Chenzhou atravessou rapidamente a desordem de mercadorias e chegou ao fundo da loja. Lá havia uma porta de madeira decadente que dava para um pequeno pátio nos fundos. A porta tinha um cadeado enferrujado, mas o eixo da porta obviamente era usado com frequência, as bordas da moldura estavam lisas pelo atrito.
Ele segurou a maçaneta, girou-a com extrema suavidade e empurrou para dentro —
Ele entrou rapidamente no pátio. O pátio era pequeno, com mais sucata empilhada. Junto à parede havia uma escada de ferro enferrujada que levava a uma janela aberta, sem vidro, no segundo andar. Ele não subiu a escada. Em vez disso, caminhou rapidamente para o outro lado do pátio, onde havia um muro baixo de tijolos. Do outro lado do muro havia outro beco, mais largo.
Ele precisava confirmar se Gu Zhixing o havia seguido e a que velocidade.
Então, agachou-se, escondendo-se atrás de uma pilha de almofadas de sofá velhas, e olhou através de uma fenda no muro de tijolos para a entrada do beco por onde havia entrado.
Nenhum movimento dentro da loja de antiguidades. A entrada do beco também estava vazia.
Até que, cerca de dois minutos depois — a figura de Gu Zhixing apareceu na entrada do beco.
Ele não estava correndo, nem mesmo acelerando o passo. Apenas caminhava com a mesma velocidade constante de antes, sem pressa. Seu olhar varreu os dois lados. Ao passar pela porta entreaberta da loja de antiguidades, seus passos não hesitaram nem um pouco, como se fosse apenas uma parede comum. Mas quando chegou ao meio do beco, parou.
Gu Zhixing ergueu a cabeça, ajustou os óculos de aro dourado, e seu olhar
Não era o cheiro comum de mofo dos prédios antigos, nem o odor de decomposição de lixo doméstico. Era o resquício de algum solvente químico evaporado, misturado com a sensação quase enjoativa e picante peculiar da tinta látex fresca. Lu Chenzhou parou no lance de escadas, sua mão esquerda pressionando instintivamente o bolso — ali estava o bilhete criptografado obtido de Zhou Zhengping, com apenas um endereço rabiscado: 47 Xiangyang Road, Zona Antiga do Norte, Terceiro Andar, Apartamento Oeste.
"Problema?" A voz de Gu Zhixing veio de meio passo atrás, tão estável que não transmitia emoção alguma.
Lu Chenzhou não se virou. Seu olhar percorreu os degraus — nas bordas dos degraus de concreto havia marcas sutis de arrasto, não de móveis, mas mais parecidas com impressões rasas deixadas pelo atrito de algum recipiente macio. As marcas eram recentes; a cor do concreto exposta após a poeira ter sido empurrada era um tom mais claro que o ao redor.
"A distribuição da poeira está errada", disse ele, o ritmo da fala tão lento quanto se estivesse comentando sobre o clima. "Este prédio tem pelo menos seis andares, quatro apartamentos por andar. Mas nos degraus a partir do terceiro andar, a espessura da poeira aumenta visivelmente."
Gu Zhixing ficou em silêncio por dois segundos. "Quer dizer que recentemente, apenas o terceiro andar teve movimento frequente de pessoas?"
"Não apenas frequente." Lu Chenzhou subiu o último degrau e parou na entrada do corredor do terceiro andar. As portas dos apartamentos em ambos os lados do corredor estavam fechadas, os vidros das janelas cobertos por uma espessa camada de poeira. Apenas a maçaneta da porta do apartamento oeste brilhava com um brilho metálico anormal. "Foi uma movimentação concentrada. E além disso—"
A fechadura da porta oeste era do tipo antigo de cilindro, o miolo bastante desgastado. Lu Chenzhou tirou um clipe de papel do bolso, endireitou-o, e com a ponta dos dedos sentiu a posição dos pinos na borda do buraco da fechadura. O canto esquerdo de seu olho começou a contrair levemente, uma vez, duas vezes. O clipe entrou, girou, um leve clique.
Uma onda intensa de odor químico atingiu seu rosto como uma parede invisível. A respiração de Lu Chenzhou parou por um instante.
Não era o vazio deixado após a mudança dos móveis; era o vazio de ter sido completamente despojado de quaisquer vestígios de vida. As paredes eram brancas e ofuscantes, a tinta látex recém-aplicada emitindo um brilho fosco uniforme sob a luz da manhã. O piso era de pedra antiga, mas limpo o suficiente para refletir a imagem das janelas — sem poeira, sem manchas de água, até mesmo as marcas deixadas por anos de móveis pressionados haviam sido polidas. A janela estava entreaberta, o vento entrava, agitando as minúsculas partículas de tinta suspensas no ar, quase invisíveis a olho nu.
A luz do sol entrava obliquamente pela janela leste, desenhando uma coluna de luz reta na sala vazia. Dentro da coluna de luz, a poeira dançava freneticamente como plâncton assustado.
"Parece que a pessoa que você procura se mudou de forma bastante completa?" Gu Zhixing entrou atrás, seus sapatos de couro fazendo um som claro ao tocar o piso de pedra. Ele parou na entrada, não avançando, seu olhar atrás dos óculos de aro dourado percorrendo lentamente cada canto da sala.
Lu Chenzhou agachou-se, a polpa do dedo indicador passando suavemente pelo canto da parede.
A superfície da parede era anormalmente lisa. Uma pintura comum deixaria texturas sutis do rolo ou pincel, mas aqui a parede era plana como uma aplicação industrial por spray. Ele aproximou o nariz e cheirou — formaldeído, compostos aromáticos, e um traço... acetona? O cheiro de solvente profissional. Não era a tinta comum usada por equipes de reforma.
"O possível testemunha do caso Zhao Mingcheng", ele se levantou, sua voz sem nenhuma oscilação, "segundo informações, alugou este lugar por três meses. Agora parece que, ou a informação estava errada, ou—"
"—esta testemunha era muito preocup
“Primeiro, o Eliminador não quer que ninguém encontre essa pessoa. Segundo, o Eliminador quer testar se alguém consegue perceber algo a partir desse 'quarto vazio'.”
Gu Zhixing sorriu. O sorriso era superficial, movendo apenas os músculos mais sutis dos cantos da boca. “A imaginação do Sr. Lu é muito fértil. Mas pelo que sei, em áreas antigas da cidade, é comum alugar casas com alta rotatividade, esvaziá-las e dar uma pintura simples. Os proprietários querem alugar para o próximo inquilino o mais rápido possível.”
“Comum,” Lu Chenzhou concordou com a cabeça. “Mas após a pintura, é necessário ventilar por pelo menos três dias para que a concentração de formaldeído caia para valores seguros. Neste quarto, a tinta foi aplicada ontem à noite.”
Ele caminhou até a parede, apoiando a palma da mão contra ela. A superfície da parede estava gelada.
“A tinta látex precisa de duas horas para secar superficialmente e vinte e quatro horas para secar completamente. Agora a parede já está totalmente seca, mas o cheiro de solvente no ar ainda está tão forte, o que indica que as janelas estavam fechadas durante a pintura e só foram abertas para ventilação depois. O tempo…” ele estimou a temperatura e umidade do ambiente, “não passa de doze horas.”
Gu Zhixing não respondeu. Ele caminhou até outra parede e também estendeu a mão para tocá-la. O movimento era lento, como se estivesse sentindo algo.
“A conclusão é,” Lu Chenzhou retirou a mão, tirando um lenço de papel do bolso e limpando cuidadosamente a poeira inexistente nas pontas dos dedos, “alguém chegou antes de nós. Não foi o proprietário, nem uma faxineira comum. Foi uma equipe profissional, com equipamento profissional, trabalhando no meio da noite. Eles sabiam que viríamos.”
“Ou, sabiam que ‘alguém’ viria.”
Lu Chenzhou recostou-se no banco do passageiro, olhando a paisagem urbana que passava rapidamente pela janela. A desordem da área antiga da cidade foi gradualmente substituída por lojas alinhadas, depois por prédios residenciais novos, com fachadas de vidro refletindo a luz do sol das nove da manhã. O mundo parecia perfeitamente ordenado, como se fosse um tempo e espaço paralelos ao quarto completamente apagado que ele acabara de deixar.
Gu Zhixing dirigia com estabilidade, as mãos sempre nas posições dez e duas no volante. Ao parar no sinal vermelho, ele batia levemente na borda do volante, com um ritmo fixo, como se estivesse contando algo em silêncio.
“Nos casos que você lidou, já encontrou algum ‘serviço profissional de recuperação de local’?”
Os dedos de Gu Zhixing fizeram uma pausa. “Legalmente, não existe essa classificação. Limpeza é limpeza.”
“Mas algumas limpezas,” Lu Chenzhou continuou, num tom de conversa casual, “usam solventes especiais, capazes de decompor proteínas no sangue. Algumas trazem luz ultravioleta para verificar se há resíduos de reação fluorescente. E outras… até raspam uma camada da tinta da parede.”
“O Sr. Lu conhece bem essas coisas,” disse Gu Zhixing.
“Matéria obrigatória em investigação criminal.” O olhar de Lu Chenzhou caiu no espelho retrovisor, que refletia parte do perfil de Gu Zhixing. “O primeiro princípio da perícia local é identificar se o local foi ‘tratado’ ou não. Quanto mais profissional o tratamento, mais a pessoa por trás não quer que você saiba o que aconteceu ali.”
“Então, o local de hoje,” Gu Zhixing acionou a seta, o carro entrando numa avenida arborizada, “o Sr. Lu acredita que foi um ‘tratamento profissional’?”
“Sim,” Lu Chenzhou respondeu sem hesitar. “E o tempo do tratamento foi calculado com precisão. O professor Zhou me deu a pista às três da tarde de ontem. Decidi vir investigar logo cedo hoje, com apenas uma noite no meio. A outra parte completou todo o processo de esvaziar, pintar e limpar durante essa noite. A eficiência é alta demais para ser algo improvisado.”
Gu Zhixing não respondeu imediatamente. O carro entrou num estacionamento subterrâneo, luzes fracas passando uma a uma pelas janelas. Os pneus passaram por quebra-molas, emitindo sons surdos de *thump thump*.
Parou, motor desligado. O calor residual do motor dissipou-se lentamente no sil
Lu Chenzhou fechou os olhos, deixando a água bater no pescoço. A pele ficou gradualmente avermelhada, os músculos relaxando um pouco sob o calor. Este era o único momento dele hoje - a porta do banheiro fechada, o som da água abafando tudo, ninguém vigiando, nenhuma expressão para disfarçar. Ele respirou fundo, o vapor penetrando nas narinas, carregando o aroma barato de lavanda do sabonete líquido.
Enxugou-se, vestindo um pijama limpo de algodão. O espelho estava embaçado, refletindo apenas um contorno humano indistinto. Ele limpou uma área clara com a toalha e viu o próprio rosto: sombras azuladas leves sob os olhos, as maçãs do rosto ligeiramente proeminentes devido à recente perda de peso. O canto esquerdo do olho ainda tremia levemente, a frequência mais rápida que o normal.
Ele encarou o espelho por alguns segundos, então empurrou a porta do banheiro.
A sala de estar estava iluminada por um abajur de pé. Gu Zhixing estava sentado no sofá, folheando uma revista de finanças. Ouvindo o barulho, ele ergueu a cabeça, seu olhar atrás dos óculos de aro dourado pousando em Lu Chenzhou por um instante antes de retornar à revista.
"Ainda não foi?" Lu Chenzhou enxugava o cabelo com a toalha, caminhando em direção à cozinha.
"O senhor Shen Yan ordenou que eu ficasse aqui por um tempo." Gu Zhixing fechou a revista. "O sofá da sala pode ser aberto como cama. Não atrapalharei o descanso do senhor Lu."
Lu Chenzhou pegou duas garrafas de água mineral da geladeira e voltou para a sala. Ele colocou uma na mesa de centro em frente a Gu Zhixing, o fundo de vidro tocando o tampo de vidro com um tilintar nítido. Então sentou-se no sofá de solteiro oposto, abriu a outra garrafa e tomou um grande gole.
A água estava gelada, deslizando pelo esôfago, fazendo o estômago contrair-se levemente.
"A segurança no bairro antigo não é muito boa." Lu Chenzhou começou, sua voz um tanto relaxada pelo banho quente. "Especialmente naqueles prédios velhos, as câmeras são só enfeite."
"Então, conseguir realizar uma operação de limpeza tão profissional da noite para o dia naquele lugar," Lu Chenzhou tomou outro gole de água, "exige não apenas dinheiro e mão de obra. Exige informação - saber quem mora lá, saber quem iria investigar, saber quando investigar. Também exige..." ele fez uma pausa, "autorização de passagem."
"Transporte noturno, lixadeira pesada, spray de tinta. Tudo isso gera barulho, cheiro. Mas nenhum morador daquele prédio saiu para ver, os vizinhos da manhã seguinte nos encontraram com olhares evasivos, não esclarecendo nada quando questionados." Lu Chenzhou colocou a garrafa de água de lado. "Ou estão com medo de se envolver, ou foram avisados de antemão. Prefiro acreditar na última."
Gu Zhixing finalmente pegou aquela garrafa de água. Mas não a abriu, apenas esfregou o polegar no rótulo da garrafa. O plástico fino emitiu um leve som de farfalhar sob a ponta do dedo.
"O que quero dizer," Lu Chenzhou inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, "é que a força de limpeza não era do Shen Yan."
A sala ficou quieta. O halo de luz do abajur de pé projetava um círculo amarelo quente na mesa de centro entre os dois; fora do halo, os cantos da sala mergulhavam na penumbra. Ao longe, o som de um carro voltando tarde passava, os pneus roçando no asfalto, vindo de longe, aproximando-se, e depois se afastando.
"Porque se fosse do Shen Yan," disse Lu Chenzhou, "você simplesmente não me deixaria chegar perto daquele prédio. Você usaria todo tipo de desculpa para atrasar, enganar, ou simplesmente me diria que a pista tinha se perdido. Mas hoje, você cooperou o tempo todo, e até quando tentei despistá-lo, você demonstrou habilidades profissionais de perseguição, não impedimento."
"Shen Yanqing mandou você me seguir, nominalmente para assistir, na verdade para monitorar. Mas há dois tipos de monitoramento: um é prevenir que eu entre em contato com o que não devo, o outro é...
“Eu te dei água, você aceitou e bebeu.” Lu Chenzhou se virou. “Na psicologia investigativa, isso significa que, pelo menos neste momento, seu subconsciente não me considera um inimigo. Ou então, você não acha que preciso ser prevenido a ponto de nem mesmo poder beber um gole de água.”
Gu Zhixing endireitou o corpo e olhou para ele. A luz refletiu em suas lentes, formando dois pequenos pontos brilhantes.
“Isso indica,” Lu Chenzhou voltou até a mesa de centro, pegou sua própria garrafa de água ainda pela metade, “que sobre aquela ‘limpeza’ de hoje, Shen Yan pode estar ciente, mas talvez não seja o executor. E você… você estava observando, avaliando, mas não me impediu de investigar. Por quê?”
Os dois se encararam. O ar parecia ter solidificado, apenas o zumbido quase inaudível da corrente elétrica emanando da lâmpada de pé.
“Sr. Lu,” ele disse, “algumas perguntas, saber a resposta não é necessariamente uma coisa boa. Assim como algumas águas, você só precisa saber que são profundas, não precisa medir a profundidade pessoalmente. Shen Yansheng o contratou para esclarecer a causa da morte do Sr. Zhao Mingcheng. Contanto que você se concentre nisso, outras coisas… naturalmente serão tratadas por quem deve tratá-las.”
“Quem deve tratar.” Lu Chenzhou repetiu. “Como a equipe de limpeza profissional de hoje?”
Gu Zhixing não negou. Ele caminhou até a lâmpada de pé e desligou o interruptor.
A sala mergulhou na escuridão, apenas um pouco da luz da rua que vazava pela janela delineava fracamente os contornos dos móveis.
“Boa noite, Sr. Lu.” A voz de Gu Zhixing veio da escuridão, calma, distante, com uma cortesia profissional.
Lu Chenzhou permaneceu parado no lugar, segurando aquela garrafa de água meio cheia. A água já não estava tão gelada, o corpo da garrafa estava coberto por uma fina camada de gotículas, úmidas e pegajosas na palma da mão.
Ele se lembrou daquele quarto vazio. Paredes brancas de neve, chão limpo, poeira dançando na luz do sol.
Lembrou-se do que Gu Zhixing dissera no carro: algumas águas são muito mais profundas do que parecem.
Lembrou-se de dez anos atrás, quando assinou a confissão, a sensação da ponta da caneta rasgando o papel.
Então ele levantou a mão e bebeu o restante da água de uma só vez.
Não foi um pesadelo, nem houve qualquer som. Apenas um tipo de alerta profundamente enraizado na medula óssea, como uma mola enferrujada que de repente se tensiona. Ele abriu os olhos, fitando o teto. As cortinas não estavam bem fechadas, uma faixa estreita de luar cortava obliquamente, projetando uma faixa de luz branca e fria no chão.
Da sala vinha um som de respiração extremamente sutil — Gu Zhixing dormia no sofá, a respiração era estável e longa, o ritmo característico de alguém treinado, mantendo contenção mesmo durante o sono.