Capítulo 90: A Lâmina do Desespero
Lu Chenzhou encostou as costas no papelão áspero, a mão esquerda pressionando o lado externo da coxa esquerda — o local do ferimento de bala. O sangue que vazava sob a bandagem já grudara no tecido da calça. Cada respiração puxava aquela dor surda. A mão direita pendia ao lado do corpo, as pontas dos dedos tocando o fragmento de porcelana afiado que ele pegara do barraco de temperos, dentro do bolso da calça.
Respiração pesada. Som de tecido se arrastando. O homem não arrancou a cortina para entrar imediatamente, mas moveu-se lentamente do lado de fora, como um urso rondando a entrada de uma caverna. Lu Chenzhou o ouviu murmurar algo para a gola da roupa, a voz embolada, mas era possível distinguir as palavras "ainda está dentro", "bloquear".
Esperando que os outros dois cercassem pelo outro lado do mercado, ou que ele próprio não aguentasse e saísse correndo.
O olhar de Lu Chenzhou varreu a luz fraca que entrava pelas frestas das caixas de papelão. A luz cortava obliquamente, projetando uma faixa estreita e brilhante no chão. Na borda dessa faixa, várias garrafas de molho de soja estavam tombadas, o líquido escuro serpenteando pelo chão como um pequeno rio. O cheiro azedo e salgado misturava-se ao mofo das caixas úmidas, penetrando nas narinas.
A mão esquerda afastou-se do ferimento, deslizando lentamente para dentro do bolso interno do casaco. A ponta dos dedos tocou o chip SIM criptografado que Qin Wangshu dera, a capa de plástico gelada. Mais abaixo, estava o crachá de visitante temporário — preparado antecipadamente por Zhou Zhengping, com uma foto tirada de seu documento de identidade de sete anos atrás, uma juventude estranha. A borda metálica do clipe do crachá pressionava suas costelas.
Nove da manhã. Janela de manutenção do arquivo. Trinta minutos.
E ele ainda estava preso atrás deste barraco de temperos cheio de caixas de papelão velhas, a perna sangrando, e pelo menos três pessoas do lado de fora esperando que ele saísse.
Ele fechou os olhos, inspirou muito levemente, e quando os abriu novamente, a luz dispersa no fundo de seus olhos devido à dor havia se concentrado novamente, fria como a superfície gelada de um lago. A mão direita saiu do bolso da calça, a borda afiada do fragmento de porcelana pressionando a palma da mão. Ele virou o corpo, usando o ombro para empurrar a caixa de papelão mais externa, que estava meio vazia, sentindo o peso e o centro de gravidade do objeto.
Vindo do fundo do mercado, apressado, mas deliberadamente silencioso, movendo-se nessa direção. Não eram os passos de um cliente comum.
Seu ombro fez força, empurrando a caixa de papelão violentamente na direção da cortina. No instante em que a caixa tombou, ele agachou-se e rastejou na direção oposta — onde uma pilha mais alta de caixas se acumulava, quase tocando o telhado do barraco, mas havia uma fenda extremamente estreita entre a pilha e a parede, engolida pelas sombras.
O baque surdo da caixa de papelão caindo no chão, o som agudo de garrafas e potes quebrando, e o rugido baixo do homem grandalhão arrancando a cortina e entrando correndo explodiram quase simultaneamente.
A parede de concreto áspera arranhou suas omoplatas, a poeira caindo em sussurros. A fenda era ainda mais estreita do que ele estimara, seu peito sendo comprimido a ponto de faltar ar. Ele se moveu centímetro a centímetro, cada vez que a perna esquerda empurrava o chão era como uma barra de ferro incandescente sendo enfiada no músculo. O suor da têmpora escorria, entrando no canto do olho, ardendo.
Antes que as palavras terminassem, um assobio agudo e repentino ecoou do fundo do mercado.
Era aquele tipo de apito de metal usado pelos fiscais do mercado para dispersar os vendedores ambulantes, o som estridente carregando uma sensação de autoridade inquestionável, peculiar do sistema. Seguiram-se algumas reprimendas, em
Então ele retirou o olhar, baixou a cabeça para verificar o relógio e deu um passo adiante, entrando pela porta. A porta fechou-se lentamente atrás dele, mas parou quando ainda havia uma palma de largura de abertura. Foi Zhou Zhengping quem colocou uma pequena pedra sob a fresta com o pé.
Ele não caminhava rápido; a lesão na perna esquerda fazia com que cada passo tivesse um leve arrasto, mas ele controlou conscientemente a amplitude, fazendo com que aquela pequena irregularidade parecesse apenas cansaço. O crachá no pescoço balançava suavemente com o movimento, e a fotografia do rosto jovem formava um cruel contraste com o semblante pálido e magro sob a aba do boné naquele momento. Ele chegou à entrada controlada, não hesitou, e empurrou diretamente a porta que estava entreaberta.
Um odor misto de desinfetante, papel velho e o calor dissipado por algum equipamento eletrônico invadiu-o. Dentro da porta havia um corredor estreito, com lâmpadas fluorescentes emitindo um zumbido constante, a luz branca e ofuscante. Zhou Zhengping já esperava na curva do corredor, de costas para ele, segurando uma garrafa térmica preta enquanto destampava a tampa.
Os dois não trocaram palavras. Zhou Zhengping destampou a garrafa, tomou um gole, o pomo-de-adão movendo-se. Então, tampou a garrafa, virou-se naturalmente e seguiu em direção ao fundo do corredor. Lu Chenzhou seguiu a meia distância atrás dele, o olhar percorrendo as portas fechadas de ambos os lados — Departamento Técnico, Sala de Evidências, Consulta de Arquivos. Alguns dos caracteres nas placas das portas já estavam desbotados.
Ocasionalmente, pessoas vestindo uniformes policiais ou trajes civis passavam em direção oposta.
Zhou Zhengping acenava levemente com a cabeça ou emitia um vago "hm" como cumprimento. A maioria também respondia com um aceno, seus olhares pousando brevemente em Lu Chenzhou, mas ao verem o crachá de visitante em seu pescoço, desviavam o olhar. Neste sistema, pessoas com autorização trazendo visitantes para áreas não públicas, embora não fosse comum, também não era algo que exigisse questionamentos especiais.
Lu Chenzhou respirava suavemente. Ele conseguia sentir a dor rítmica e latejante da ferida na perna esquerda a cada passo, como um ponteiro de segundos enterrado na carne, fazendo uma contagem regressiva. Ele contava seus passos, contava os números das placas das portas que passava, contava as câmeras de vigilância no teto a cada cinco metros.
Aqueles domos negros pendiam em silêncio, o indicador vermelho piscando constantemente.
Mas a rota escolhida por Zhou Zhengping evitava astutamente a maioria das câmeras diretamente alinhadas com o corredor, sempre caminhando pelas bordas ou utilizando sombras de curvas, armários de incêndio ou vasos de plantas. O conhecimento que o velho tinha deste lugar era como conhecer as linhas da própria palma da mão.
Havia um elevador de carga antigo, as portas metálicas pintadas de verde escuro, as bordas já corroídas. Ao lado do elevador, uma placa dizia: "Piso de Equipamentos · Arquivo Permanente · Proibida a Entrada de Não Autorizados". Zhou Zhengping tirou um chaveiro do bolso do casaco, encontrou uma chave de cor cobre e inseriu-a em uma fechadura discreta ao lado do painel de chamada do elevador.
As luzes dos botões de andar, anteriormente apagadas, acenderam-se, de "1" a "B3". Zhou Zhengping pressionou "B3". As portas do elevador abriram-se lentamente; o espaço interno era amplo, mas vazio, as paredes eram de chapas metálicas rugosas, o chão marcado por arranhões de cargas pesadas sendo transportadas.
As portas fecharam-se. A leve sensação de queda livre do elevador descendo chegou, o som rangente dos cabos esfregando ecoando no espaço apertado. Zhou Zhengping finalmente falou, a voz muito baixa, com um tom rouco: "Como está a perna?"
"O tempo está apertado. A janela de manutenção é das nove às nove e meia, só temos trinta minutos. Depois das nove e meia, o administrador residente do arquivo voltará, e os logs do sistema começarão a registrar acessos anômalos." Zhou Zhengping fez uma pausa. "E Zhao Tieshan tem
Uma corrente de ar ainda mais fria soprou em seu rosto, misturada com um leve traço de cheiro de ferrugem. Atrás da porta havia um espaço enorme, com cerca de quatro metros de altura. Fileiras de armários de arquivos metálicos cinza-esverdeados, como gigantes silenciosos, estavam alinhados com perfeição, quase sem fim à vista. As aberturas de ventilação no topo dos armários emitiam um sussurro baixo e constante. Um higrômetro estava pendurado na parede na entrada, seu ponteiro apontando firmemente para "45%" e "18°C".
"Por aqui." Zhou Zhengping sussurrou, caminhando para o fundo dos armários de arquivo.
Lu Chenzhou seguiu-o e fechou a porta suavemente atrás de si. No momento em que a porta se encaixou, todos os sons do exterior pareceram ser isolados, restando apenas o sussurro do sistema de ventilação e o eco oco de seus passos no piso de grade metálica.
Os corredores entre os armários eram estreitos, permitindo a passagem de apenas uma pessoa por vez. Zhou Zhengping ia à frente, parando ocasionalmente para olhar para os rótulos colados nas laterais dos armários: "1995-1997 · Casos Criminais Graves · Arquivos Originais", "1998-2000 · Investigação Interna · Ultra-secreto". Os caracteres nos rótulos eram escritos à mão, a tinta já desbotada.
Após caminhar por cerca de dois minutos, o velho parou diante da fileira mais interna de armários.
Essa fileira parecia mais antiga, com a pintura descascada em alguns lugares. As portas dos armários tinham pesadas fechaduras mecânicas, não eletrônicas. O intervalo no rótulo na lateral do armário era: "1996-1997 · Disposição Especial · Selamento Permanente".
"Aqui." Disse Zhou Zhengping, sua voz soando excepcionalmente clara no depósito vazio. Ele apontou para a prateleira mais baixa, perto do canto da parede. "Número 97-Jue-003. A caixa mais abaixo, encostada na parede."
Uma dor aguda disparou em sua ferida na perna esquerda ao se agachar, e ele cerrou os dentes, sem emitir um som. Seu olhar pousou naquela caixa. Era uma caixa de arquivo metálica cinza padrão, com cerca de meio metro de comprimento e trinta centímetros de altura, com uma textura antiderrapante fina na superfície. Na frente da caixa havia um cadeado de combinação mecânico com um mostrador giratório. Acima do buraco da fechadura, havia uma pequena etiqueta branca com os caracteres impressos "97-Jue-003", e uma linha de caracteres ainda menores: "Gu Zhiyuan (carimbo) · 1997.04.11".
Ao passar a ponta dos dedos, ele podia sentir a textura única do metal, fina e dura, e uma leve umidade quase imperceptível — gotículas de condensação, minúsculas, quase invisíveis.
"A senha tem seis dígitos." Zhou Zhengping disse atrás dele, sua voz ainda mais baixa. "Eu não tinha autorização para saber antes de me aposentar. Só podemos tentar, ou..." Ele não terminou a frase, mas a implicação era clara: ou usar outro método.
Ele tirou do bolso interno do casaco o pequeno decodificador eletrônico — não muito maior que um isqueiro, com carcaça de plástico preta, e uma extremidade com uma pequena sonda e fios. Era uma das "ferramentas" que ele havia conseguido através dos canais de Fang Mu após escapar da casa antiga. Teoricamente, ele poderia decifrar os sinais eletrônicos simulados da maioria dos cadeados de combinação mecânicos antigos.
Ele arrancou o adesivo dupla-face na parte de trás do decodificador e o prendeu na lateral da caixa, ao lado do cadeado. Inseriu cuidadosamente a sonda em uma minúscula abertura de inspeção ao lado do buraco da fechadura — uma porta dos fundos deixada para a manutenção nesse tipo de fechadura, normalmente selada, mas obviamente a vedação desta caixa, devido à sua idade, havia se deteriorado.
A tela acendeu com uma luz azul fantasmagórica, linhas de código rolando rapidamente. Um bipe emitia um som extremamente fraco "bip... bip...", mas na quietude do arquivo, era claramente audível e penetrante.
Zhou Zhengping virou-se e caminhou em direção à entrada do corredor, de costas para Lu Chenzhou, olhando para Fang Mu na entrada do depósito. O velho estava parado ali, como uma sentinela silenciosa, ainda segurando a garrafa térmica, mas
Seus dedos percorreram os sacos de papel, as pontas sentindo a textura seca e quebradiça do material. Então, no fundo da caixa, no canto mais interno, ele tocou em um objeto mais espesso e mais duro.
Era um envelope de papel pardo, um círculo maior que os outros sacos de papel, a abertura selada com lacre vermelho, sobre o qual estava impresso o selo "ULTRA-SECRETO · ARQUIVAMENTO PERMANENTE". Abaixo do selo, estava a assinatura manuscrita: "Gu Zhiyuan", e a data: "11 de abril de 1997".
As bordas já estavam desgastadas, revelando as fibras irregulares do papel interno.
Ele rapidamente enfiou aquele envelope no porta-documentos à prova d'água que carregava consigo — material de nylon preto, com camada antiestática no interior. O zíper fechou, emitindo um leve som de "fsssh". Então, ele fechou a tampa da caixa e girou os discos do cadeado de combinação. "Clique", a lingueta voltou ao lugar.
A ferida em sua perna esquerda latejou com dor aguda devido ao esforço repentino, e sua visão escureceu por um instante. Ele se apoiou no arquivo ao lado para se estabilizar. Zhou Zhengping já voltava a passos rápidos, fazendo-lhe um sinal com os olhos para segui-lo.
Os dois percorreram o corredor de volta, caminhando rapidamente em direção à entrada do depósito.
O som de seus passos ecoou no piso de grade metálica, muito mais apressado do que na entrada. Lu Chenzhou conseguia sentir o envelope preto pressionado contra seu abdômen, transmitindo, através das roupas, uma sensação pesada e fria. Como um bloco de gelo, ou um ferro em brasa.
Zhou Zhengping encostou a orelha na porta por dois segundos, então a abriu suavemente.
Mas de longe, vinham sons vagos de rodas de carrinho rolando pelo chão, e fragmentos de conversa entre dois homens: "... este lote de arquivos vencidos deve ser destruído até o final do mês...", "... as cópias digitalizadas foram feitas?..."
Zhou Zhengping fez um gesto, indicando a Lu Chenzhou para seguir por outro lado — havia um corredor de emergência mais estreito ali, a luz indicadora piscando em verde. Os dois entraram rapidamente e fecharam a porta atrás de si. O corredor de emergência não tinha luz, apenas a iluminação esverdeada dos sinais de saída, clareando a íngreme escada de metal aos seus pés.
Cada vez que levantava a perna esquerda era como se ela estivesse cheia de chumbo, a dor irradiando da ferida por toda a perna, até a cintura. A respiração de Lu Chenzhou tornou-se pesada, o suor em suas têmporas voltou a escorrer, entrando pela gola da camisa. Mas ele não parou, a mão direita agarrada firmemente ao corrimão, os nós dos dedos brancos de tanto esforço.
Zhou Zhengping ia à sua frente, ocasionalmente olhando para trás, mas sem dizer nada.
As costas do velho pareciam excepcionalmente magras e até um pouco curvadas na penumbra. Mas sua velocidade ao subir as escadas não era lenta, cada passo firme, carregando um tipo de resistência forjada ao longo dos anos, peculiar de um policial veterano.
Empurraram a porta de emergência e voltaram ao corredor principal. Aqui havia vozes humanas, ao longe um telefone tocava em um escritório, alguém falava alto sobre algo. Zhou Zhengping ajustou a respiração, arrumou a gola do casaco e recuperou aquela expressão levemente cansada, mas perfeitamente normal.
Então, virou-se e seguiu em direção a uma saída diferente da que haviam usado para entrar.
Lu Chenzhou seguiu atrás dele, o olhar varrendo as janelas de ambos os lados do corredor. Do lado de fora estava o pátio do departamento municipal, a luz do sol já havia dissipado a névoa matinal, iluminando os arbustos de azevinho bem aparados e a bandeira nacional tremulando no mastro. Alguns jovens de uniforme policial passavam rindo, pastas de arquivos nas mãos.
Tudo parecia normal, ordenado, cheio de vitalidade sob a luz do sol.
E ele carregava no peito um segredo gelado, vindo das profundezas sombrias de sete anos atrás.
Lu Chenzhou encostou as costas no papel
Ele se virou de um salto, a mão direita cerrada em punho, as juntas proeminentes, desferindo um golpe brutal na depressão entre a nuca e o ombro do oponente. Era um ponto vulnerável de nervos no corpo humano, um impacto forte podia causar paralisia temporária. Quando o punho atingiu, ele sentiu a reverberação da carne e do osso, e o grunhido quase asfixiado que escapou da garganta do outro.
O corpo robusto amoleceu, caindo para frente e derrubando uma pilha de caixas de papelão vazias. No meio do estrondo, Lu Chenzhou já cambaleava em direção à cortina de tecido, levantando-a e se lançando no corredor ainda mais estreito atrás da barraca de temperos, entulhado de prateleiras de madeira abandonadas.
Ele correu desesperadamente pelo corredor, cada impulso da perna esquerda era como uma facada. As bordas de sua visão começaram a escurecer, a respiração queimava sua garganta. No fim do corredor havia uma porta de ferro entreaberta, atrás dela ficava a área de descarte de lixo dos fundos do mercado matinal. Um cheiro pútrido invadiu o espaço.
No instante em que seus dedos tocaram a maçaneta enferrujada da porta de ferro —
Não foi um toque, mas uma vibração curta em frequência específica, duas vezes, pausa, mais três vezes. O sinal codificado de Zhou Zhengping.
Lu Chenzhou puxou a porta com força, se jogando nas sombras da pilha de lixo, encostando as costas na parede de tijolos gelada, respirando ofegante. Ele tirou do bolso aquele velho celular Nokia básico, a tela acesa, uma mensagem não lida, sem número do remetente, apenas uma linha de texto:
«O que você procura, tenho uma pista. Mas não está no sistema regular, está no nível mais profundo do ‘Cemitério’. Amanhã às nove da manhã, janela de manutenção do arquivo, tenho apenas trinta minutos.»
Suor pingou sobre as teclas de plástico. Ele limpou o rosto, o dedo pairou sobre a tecla de resposta por um segundo, então pressionou deletar. A mensagem desapareceu, como se nunca tivesse existido. Ele enfiou o celular de volta no bolso, respirou fundo, o ar pútrido encheu seus pulmões, trazendo uma lucidez quase nauseante.
Fora da área de lixo, vozes e o fluxo de carros eram vagamente audíveis, o burburinho do mercado matinal gradualmente se acalmando. Os passos dos perseguidores não apareceram — ou tinham sido despistados, ou estavam reorganizando a vigilância. Ele não podia ficar.
Lu Chenzhou rasgou um pedaço do forro interno do casaco, enfaixando apressadamente acima do ferimento na perna esquerda, apertando com força. A dor surda se transformou em uma sensação aguda de dormência. Ele se apoiou na parede para se levantar, olhando ao redor. No lado leste da área de lixo havia um muro baixo de tijolos, do outro lado uma viela secundária.
Ao pular, a perna esquerda fraquejou, quase o fazendo cair de joelhos. Ele cerrou os dentes, se sustentou, arrastando a perna machucada, caminhando rapidamente pelas sombras da viela. No fim da viela havia uma rua mais larga, do outro lado a porta dos fundos da biblioteca municipal. Ele se misturou ao fluxo esparso de pessoas, abaixando a aba do boné, caminhando em direção ao ponto de ônibus ao lado da biblioteca.
Ele entrou no ônibus, depositou a moeda, foi até o último banco no canto e sentou. O veículo estava impregnado do cheiro de suor e poeira, o motor rugia, os vidros das janelas vibravam com os solavancos. Ele se recostou no banco, fechou os olhos, deixando a dor e o cansaço temporariamente inundarem seus sentidos.
Na manhã seguinte, uma névoa fina como um véu úmido e frio envolvia o pátio do Departamento Municipal.
Lu Chenzhou ficou de pé nas sombras da porta lateral do prédio principal. Ele havia trocado de roupa por um casaco cinza-escuro discreto, usando um boné, segurando um crachá de visitante temporário — a foto era de sua foto de identificação de sete anos atrás, um tanto juvenil, mas a frieza nos olhos ainda era discernível. O crachá havia sido preparado antecipadamente por Zhou Zheng
Uma rajada de vento frio invadiu o ambiente, trazendo consigo um cheiro de cânfora, papel velho e um leve odor de ferrugem. O corredor era estreito, ladeado por prateleiras de arquivo metálicas de cor cinza-escuro, que se estendiam até onde a vista alcançava. A iluminação do teto era composta por LEDs branco-frios, cuja luz era uniforme, mas completamente desprovida de calor, fazendo com que tudo ali parecesse um espécime preservado.
Zhou Zhengping foi o primeiro a sair, passando um cartão para abrir a primeira porta de grade metálica. As dobradiças emitiram um leve rangido. Lu Chenzhou o seguiu, seu olhar percorrendo os inúmeros rótulos numerados nas prateleiras: ano, nível de sigilo, motivo do caso, número da caixa. Era um cemitério vasto e silencioso, onde todos os segredos inconfessáveis desta cidade estavam enterrados.
Zhou Zhengping pressionou o polegar no leitor biométrico. Uma luz verde acendeu, ele passou o cartão e a fechadura da porta estalou, destravando-se. Os dois adentraram a área central. Aqui, as prateleiras de arquivo eram ainda mais densas, e as caixas, mais pesadas. Todas as superfícies metálicas cinzas estavam cobertas por finas gotículas de condensação — o sistema de controle de umidade estava funcionando.
Zhou Zhengping apontou para um canto no fundo do corredor: "Lá. Arquivos físicos ultrassecretos pós-97, seção independente."