Capítulo 51: Gelo Quebrando o Jogo, Névoa Esmeralda Selando a Garganta
O calor do rastreador ainda não havia se dissipado quando Lu Chenzhou o esmagou sob a sola de sua bota. Cerâmica se partiu, sinal enviado.
Ele se agachou no canal de drenagem no lado leste da propriedade dos Shen. A tempestade, chicotes de chuva, jorrava dentro de seu colarinho. O ferimento de bala atravessando seu braço direito espasmodava na água gelada, a dor entorpecida pelo frio. Terceiro plano — aquela frase de Shen Moqing era uma armadilha para Gu Zhixing. Os limpadores não perderiam essa janela de apagão.
A luz da casa principal estava completamente apagada. Não era um disjuntor, era um corte físico. Da direção da sala do quadro de força vinha o cheiro acre de resina queimada.
Ele tirou o cilindro de spray refrigerante de seu cinto, sacudiu duas vezes, o líquido formando uma fina camada de gelo em sua palma. A ruína de um visor térmico. A ala lateral. Shen Qinghuan estava na ala lateral secreta.
Lu Chenzhou rastejou rente à parede, trovões explodindo sobre sua cabeça, e aproveitou o estrondo para cruzar um espaço aberto de três metros. O cheiro de ozônio invadiu suas narinas, misturado a um doce metálico como ferrugem — alguém já havia agido. Cheiro de sangue. Fresco.
A porta à prova de explosões da ala lateral secreta estava entreaberta, apenas ferro morto após o corte de energia. Uma fraca luz vermelha vazava pela fresta, a luz de localização da coleira dos cães. Dois Dobermans atacaram em silêncio, músculos tensos sob a pelagem.
Lu Chenzhou, ao invés de recuar, avançou, girou o corpo, e pulverizou o líquido refrigerante no focinho do primeiro cão. O frio extremo queimou suas vias respiratórias; ele caiu com um grunhido abafado, convulsionando. O segundo mordeu seu braço direito, o ferimento antigo se rasgando instantaneamente, sangue se espalhando na chuva. Com a mão contrária, ele apertou a garganta do cão, o polegar pressionando com força o ponto da artéria carótida. A força da mandíbula do Doberman relaxou subitamente, os ossos da garganta deslocados.
Dentro da ala lateral, Shen Qinghuan estava encolhida sob a escrivaninha, mãos tapando a boca, cabelos longos espalhados entre fragmentos de porcelana. No escuro, suas pupilas estavam reduzidas à finura de agulhas.
"Deite-se."
A voz de Lu Chenzhou era extremamente baixa, uma ordem fria, como uma lâmina raspando no vidro.
Shen Qinghuan não se moveu. Suas mãos tremiam, mas não era medo comum — ela estava avaliando. Três segundos depois, ela se abaixou, puxando a caixa de sândalo de debaixo da mesa para seu colo.
O som abafado de um tiro. A bala se enterrou no batente da porta atrás deles, lascas de madeira voando, raspando sua orelha.
Visor térmico. O alvo estava nas sombras, varrendo a sala inteira com infravermelho.
Lu Chenzhou jogou o resto do líquido refrigerante no ar. Uma névoa densa de finos cristais de gelo se espalhou, o campo de visão infravermelho reduzido a ruído branco. Ele agarrou a gola de Shen Qinghuan e rolou com ela para o canto. Outro baque abafado, a escrivaninha foi arremessada, a luminária de mesa estilhaçada.
Outro trovão.
No som desse trovão, ele sacou a arma, mirou, puxou o gatilho. Um movimento fluido. Uma silhueta no fim do corredor gemeu abafadamente, caiu ao lado do corrimão. O visor térmico escorregou, rolou escada abaixo, plástico se partindo.
Posição exposta.
"Ala lateral selada. Inicie Plano B." Uma ordem fria veio do rádio, voz feminina, sem emoção.
Os dutos de ventilação emitiram um clique, como um osso deslocando. Depois, um sibilo de ar, com o amargor de cloro, infiltrando-se pelas grades de ferro acima.
Shen Qinghuan levantou a cabeça bruscamente, narinas dilatando, rosto pálido.
"Gás venenoso." O canto esquerdo do olho
Perna de mesa de ferro fundido, trinta quilos. Braço direito inutilizado, só podia usar o esquerdo. Ele agarrou a perna da mesa com uma mão e caminhou até o canto inferior esquerdo da parede de vidro. O cloro chegava ao peito, cada respiração era como engolir vidro estilhaçado. O sabor amargo penetrava entre os dentes, grudando na raiz da língua.
Primeiro golpe. O ferro fundido colidiu com o vidro, a onda de choque transmitiu-se da palma esquerda por todo o corpo. O vidro nem se moveu. A força de reação fez a base do polegar formigar.
Segundo golpe. A lesão antiga no ombro direito explodiu, um líquido morno deslizou pela parte interna do braço. O cheiro de sangue era tão intenso que sobrepujava o cloro.
Terceiro golpe. Uma marca branca apareceu na superfície do vidro, fina como um fio de cabelo, espalhando-se em todas as direções como um raio.
"Recue."
Shen Qinghuan recuou dois passos, as costas coladas à parede, a caixa apertada contra o peito.
Ele inspirou profundamente o último ar remanescente — todo amargo. Todo o peso concentrado no braço esquerdo, mirando na fissura, golpeou com toda a força.
O vidro estilhaçou-se, o lago gelado desabou.
Fragmentos voaram. Instintivamente, ele usou o braço direito para proteger o rosto — aquele braço sem sensibilidade, que recebeu por ele três estilhaços do tamanho de uma unha. Um embutiu-se na parte externa do antebraço, os outros dois cravaram-se em cicatrizes antigas na dobra do cotovelo, como pregos em madeira podre. A dor surda chegou meio segundo atrasada, e quando chegou, não saiu mais.
Anos atrás, na prisão, foi usando essa tática de autoflagelação que ele conseguiu ir à enfermaria. Ele não gritou.
A mão esquerda agarrou a borda do quadro de vidro, rasgando uma abertura. Vidros quebrados cortaram a palma da mão, sangue escorreu pelos dedos.
"Venha."
Shen Qinghuan passou de lado pela abertura, fragmentos rasgaram a manga da blusa, deixando um longo e fino corte no braço. Ela não hesitou, não gritou — o instinto de sobrevivência de alguém à margem da família era mais eficaz que qualquer treinamento.
Lu Chenzhou seguiu, passando pela abertura. O braço direito arrastado para trás, sulcando um rastro de sangue nos cacos de vidro.
O ar do túnel secreto era frio e úmido, com um cheiro ácido de madeira apodrecida. O cloro ainda não havia penetrado ali. Ele desabou contra a parede, respirando ofegante. Os pulmões pareciam cheios de lixa, cada inspiração raspava os brônquios.
Shen Qinghuan agachou-se ao lado dele, olhando para seu braço direito.
Uma luz amarelada infiltrava-se do fundo do túnel. Suficiente para ela ver —
Do pulso ao ombro, cicatrizes densamente sobrepostas. Algumas eram cortes cirúrgicos limpos, outras marcas de queimadura, e outras ainda... eram traumas feitos por mãos humanas, repetidos, sistemáticos. Como um prontuário de abuso, gravado na pele.
A mão que segurava os cabelos longos soltou-os, as madeixas caíram sobre os ombros.
"Quem é você, afinal?" A voz era muito baixa, leve como o último eco no túnel.
Lu Chenzhou olhou para o próprio braço. O canto esquerdo do olho contraiu-se levemente.
"Você não quer saber."
Ele apoiou-se na parede e levantou-se. Passos pesados vinham de cima — os perseguidores já haviam entrado na sala lateral.
Shen Qinghuan também se levantou. O olhar mudou — não mais medo, cautela, mas algo mais profundo. Como se tivesse visto seu próprio reflexo em um espelho quebrado.
Ela trocou a caixa de sândalo para a mão esquerda, a mão direita mergulhou no bolso secreto do vestido, tirando algo.
Uma velha gravador, capa desgastada, a tinta ao redor dos botões completamente sumida.
"Isto," ela ergueu a gravador sob a luz fraca, a voz calma, como se não tivesse acabado de escapar de um gás venenoso, "é o que você quer, não é?"
O cheiro ácido de madeira podre invadiu as narinas. Uma
"Depois que meu irmão Shen Yan morreu", sua voz de repente ficou extremamente baixa, como se temesse perturbar as pessoas acima, "encontrei este gravador no estudo dele. A data na etiqueta — era exatamente o dia em que você foi preso."
Um trovão rolou acima do solo, e poeira desabou das fendas dos tijolos no túnel secreto. Passos pararam bem acima deles.
Ambos prenderam a respiração ao mesmo tempo.
Dez segundos depois, os passos se afastaram. Lu Chenzhou fechou os olhos. Dez anos. Ele conseguia recitar de memória cada palavra daquela confissão.
"Minha irmã precisava de uma cirurgia na época", ele começou, o tom como se estivesse relatando o caso de outra pessoa, "eles trocaram a vida dela pela minha assinatura. Para a família Shen, uma negociação justa."
Shen Qinghuan ergueu a cabeça bruscamente. "Meu pai—"
"Seu pai foi uma das pessoas que assinou." Ele abriu os olhos, na escuridão restavam apenas duas respirações pesadas e cruzadas. "Mas a mão que apertou o botão de gravação no gravador não foi a dele."
Silêncio.
Então ele ouviu um som nítido de tecido rasgando. Shen Qinghuan arrancou a barra de sua saia e se aproximou tateando. Tiras ásperas de pano envolveram seu antebraço, que ainda sangrava. Suas mãos tremiam, mas ela apertou com força.
"Quando eu tinha seis anos, depois que minha mãe morreu, meu pai me mudou da residência principal para a ala lateral." Sua voz estava abafada no ar ácido e fétido. "Dizia que era proteção. Na verdade, era 'longe dos olhos, longe do coração'. Vivi vinte anos nesta mansão, nunca pertenci a ela."
Lu Chenzhou não falou. A pressão do curativo apertou o ferimento, mas também estancou o sangue. De repente, ele lembrou que Lu Chenxing também o havia enfaixado assim — com uma técnica mais gentil, mas igualmente firme.
"A pessoa no gravador", ele começou, a voz meio tom mais baixa do que antes, "você já ouviu a voz dela?"
Shen Qinghuan balançou a cabeça. "Está protegido por senha, não consigo abrir."
"Mas você sabe para quem aponta."
Na escuridão, seu olhar era como uma fraca fagulha de fósforo.
"Gu Zhixing."
Quando esse nome caiu, Lu Chenzhou sentiu a dor aguda em seu braço direito de repente se tornar suportável. Não que tivesse diminuído — havia algo mais claro do que a dor.
"Como você planeja usar este gravador?" ele perguntou.
Shen Qinghuan ficou em silêncio por três segundos. "Eu queria usá-lo para trocar por uma saída." Havia um amargor em sua voz. "Desta mansão, desta pessoa — das mãos de todos que me trataram como uma peça no tabuleiro."
"E agora?"
Ela não respondeu imediatamente. Na escuridão, veio o som de ela ajustando sua posição — ela se aproximou, as costas apoiadas na mesma parede. Entre seus ombros havia apenas duas polegadas de tijolo úmido, mas parecia um pacto silencioso.
"Agora, quero saber a verdade."
Lu Chenzhou pegou o chip remanescente do bolso e o colocou no chão entre eles. Na caixa de fósforos restava apenas um — ele não o riscou, apenas deixou sua presença na escuridão.
"Então vamos procurar juntos."
Não era um pedido, nem uma esmola. Era uma aliança forjada no ar ácido e fétido do porão, por duas pessoas esmagadas pela mesma mansão, comprada com feridas.
Os dedos de Shen Qinghuan tocaram a borda do chip. Suas pontas dos dedos estavam frias, mas firmes.
"Está bem."
No fim do túnel secreto havia uma porta de ferro enferrujada. Assim que os dedos de Lu Chenzhou tocaram a fechadura, o comunicador explodiu com um som — um chiado elétrico agudo e penetrante, como metal arranhando o tímpano.
"Sr. Lu."
O chiado do comunicador crepitou, e a voz de Gu Zhixing emergiu do ruído, estável, precisa, até mesmo com um toque de pesar programático: "Legalmente falando, você está invadindo ilegalmente a propriedade privada da família Shen. Sugiro que
“Ilhas Cayman, número de registro C-7741. Bermudas, B-2203.” Ele recitou uma sequência de números, cada sílaba como um prego. “Essas duas linhas de fundos, uma ligada ao fundo fiduciário em nome do advogado Gu, outra ligada aos ativos offshore privados de Shen Moqing. Se eu enviar agora os códigos da conta e os registros de transferência para Chen Jianguo na Comissão de Disciplina Provincial—”
“Você está blefando.” Gu Zhixing o interrompeu, mas pela primeira vez, uma rachadura apareceu em seu tom.
“Estou blefando.” Lu Chenzhou repetiu, os cantos da boca se puxando em uma curva sem calor. “Você tem coragem de apostar? Apostar que não tenho esses dados em mãos. Apostar que Shen Moqing, por sua causa, deixará toda a rede de lavagem de dinheiro da família Shen ser varrida de uma vez. Rede de lavagem de dinheiro.”
O chiado da linha aumentou novamente, crepitando. Gu Zhixing estava ajustando seus óculos de armação dourada — Lu Chenzhou quase conseguia ver o movimento.
“A vida de Qin Wangshu, em troca do seu silêncio.”
“Liberte-a, abra a porta.” A voz de Lu Chenzhou não teve a menor oscilação. “Caso contrário, Chen Jianguo receberá um mapa completo do fluxo de fundos ainda esta noite. A queda dos Shen, e você também não escapará — você sabe melhor do que ninguém, o que Shen Moqing mais odeia é ser envolvido por outros.”
Um longo silêncio. Apenas o chiado da linha.
Passos vieram de fora do portão de ferro, aproximando-se e depois se afastando.
“A porta será aberta,” Gu Zhixing finalmente disse, a voz já recuperando aquela precisão calma. “Mas, Sr. Lu, você esqueceu que os gravadores foram adquiridos pelo departamento jurídico dos Shen — o comando de apagamento remoto, eu o emiti há três segundos.”
Shen Qinghuan rapidamente tirou o gravador. A tela escureceu.
Lu Chenzhou fechou os olhos. Um segundo. Dois segundos.
Ele os abriu, olhando para baixo, para o fragmento de chip que havia arrancado do interior do gravador — o apagamento remoto destruiu o armazenamento principal, este núcleo reserva já estava queimado, deixando apenas uma marca de queimadura na palma de sua mão.
“Gu Zhixing.”
O outro lado não desligou.
“A gravação se foi,” Lu Chenzhou disse, a voz de repente ficando muito suave, como se falasse consigo mesmo. “Mas eu ouvi. Ouvi muito claramente.”
Ele ergueu a cabeça, fixando o olhar na lâmpada de emergência piscando acima do portão de ferro.
“A pessoa que apertou o botão de gravação na sala de interrogatório naquele ano — não foi Shen Moqing.”
O chiado da linha cessou abruptamente. O comunicador caiu.
O portão de ferro estalou e se abriu.
A tempestade jorrou para dentro, carregando o cheiro de terra e ozônio. Lu Chenzhou puxou Shen Qinghuan para a cortina de chuva, o ferimento em seu braço direito atingido pela água fria, todo o braço entrou em espasmo como se levado um choque. Ele apertou os dentes, não soltou.
Atrás deles, o comunicador no bolso acendeu novamente — o sinal interceptado por Fang Mu, apenas uma linha de texto:
**[Gu Zhixing enviou comunicação criptografada para Shen Moqing: Lu Chenzhou já sabe que a pessoa que o substituiu na morte naquele ano é outra.]**
A chuva batia em seu rosto, mais fria que sangue. Ele apertou o fragmento queimado, as unhas cravando-se em sua carne.
A pessoa que o substituiu na morte. A pessoa que o substituiu na morte é outra.
Quem foi, afinal, a pessoa que sentou do outro lado da mesa de interrogatório naquele ano, forçando-o a assinar a confissão? A morte de Zhao Mingcheng, qual sua ligação com essa pessoa substituta? Cada passo de sua investigação na ponta da