Capítulo 11: Um Fio de Luz na Poeira
O portão metálico da garagem estava levantado pela metade, como uma boca de metal aberta, exalando um cheiro misto de desinfetante e ferrugem.
Lu Chenzhou dobrou-se e entrou.
Lá fora, o céu estava cinza e pálido; dentro da garagem era ainda mais escuro. A fita de isolamento amarela colocada pela polícia ainda estava enrolada nos pilares, mas as luzes de perícia e os equipamentos já haviam sido removidos, restando apenas alguns contornos humanos desenhados a giz no chão – eram as posições onde Shen Yan finalmente tombara. Havia um silêncio espesso no ar, a poeira rodopiava lentamente nos feixes de luz que entravam pelas frestas da porta.
Ele parou e respirou fundo.
O cheiro de sangue já estava fraco, em grande parte mascarado por uma grande quantidade de alvejante e produtos de limpeza, mas aquele odor doce e metálico, como de ferrugem, ainda estava incrustado nas rachaduras do piso de concreto, como uma mancha teimosa. O canto esquerdo de seu olho começou a contrair-se levemente, seus dedos moveram-se inconscientemente em direção ao bolso da calça – dentro havia uma lanterna portátil de alta potência, uma pinça de aço inoxidável e alguns sacos estéreis para evidências.
"Sr. Lu", uma voz veio de trás, "O Sr. Shen pediu que olhasse com atenção. Se precisar de algo, chame-me."
O motorista estava do lado de fora do portão, metade de seu corpo na luz. Ele se chamava Li, tinha cerca de quarenta anos, cabelo curto militar, vestia uma jaqueta escura. Lu Chenzhou o vira três dias antes, no corredor fora do escritório de Shen Moqing, parado como um poste, o olhar nunca vagueando.
Um vigia.
"Está bem", disse Lu Chenzhou, a voz firme, "Posso precisar de vinte minutos."
"Vá com calma", disse o motorista, recuando meio passo, mas não se afastando. Ele tirou um maço de cigarros, baixou a cabeça e acendeu um.
Lu Chenzhou virou-se, de costas para a luz da entrada.
Primeiro, caminhou em direção ao centro da garagem. Seus passos eram leves, as solas dos sapatos raspando no piso de concreto, emitindo um leve som de areia. As bordas dos contornos humanos a giz já estavam desbotadas, lavadas pela água da limpeza, restando apenas marcas branco-pálidas. Ele agachou-se, iluminando o chão lateralmente com a lanterna.
A luz cortou as sombras.
Na área periciada pela polícia, o chão havia sido repetidamente raspado, até mesmo as marcas de pneus estavam quase apagadas. Ele moveu-se lentamente ao longo das linhas do contorno, o olhar varrendo cada centímetro – a base da parede, o fundo do armário de ferramentas, atrás dos tambores de óleo abandonados. Eram lugares óbvios, a polícia não os teria negligenciado.
O que ele procurava eram os lugares "negligenciados".
Não por descuido, mas por pontos cegos inevitáveis. A perícia da cena tem um protocolo, como uma colheitadeira, que só colhe a safra madura, sempre deixando algumas sementes enterradas na terra.
Lu Chenzhou levantou-se e dirigiu-se ao armário de ferramentas encostado na parede oeste.
O armário tinha três prateleiras, cheias de chaves de boca enferrujadas, fios elétricos velhos envoltos em teias de aranha, algumas latas de tinta seca. Ele agachou-se novamente, a luz da lanterna varrendo horizontalmente sob o fundo do armário.
A poeira era espessa, como um tapete cinza. Sob a luz, podiam-se ver arrastões claros – marcas de joelhos e sapatos dos peritos. Mas no canto mais interno do armário, perto da junção da parede, na área triangular, a poeira quase não havia sido tocada.
Ele deitou-se no chão.
O frio do concreto penetrou através da camisa, os grãos ásperos pressionando seu peito. Ele prendeu a respiração, a luz da lanterna focando naquela área triangular.
Havia uma rachadura no canto da parede, com cerca de dois dedos de largura, entupida com cascalho, porcas e algumas folhas secas. A luz moveu-se centímetro a centímetro.
E então parou.
Na borda da rachadura, preso, havia um pedaço de algo.
Muito pequeno, do
Só então ele permitiu-se exalar aquele sopro de ar.
Os pulmões contraíram-se, trazendo uma leve vertigem. Permaneceu agachado, as mãos apoiadas nos joelhos, levantando-se lentamente. As articulações dos joelhos emitiram um leve estalido.
Lá fora, o céu sobre a garagem parecia ainda mais escuro.
Ele virou-se e caminhou em direção à porta. O motorista ainda estava ali, o cigarro já terminado, olhando para baixo para o telemóvel. Ao ouvir os passos, o motorista ergueu a cabeça.
"Terminou de ver?" perguntou o motorista.
"Hum." disse Lu Chenzhou, a voz ainda calma. "Nada de novo. A cena foi limpa muito bem."
O motorista acenou com a cabeça e guardou o telemóvel no bolso. "Então vamos. O Sr. Shen ainda precisa vê-lo esta tarde."
Lu Chenzhou saiu da garagem. A porta de enrolar de metal desceu lentamente atrás dele, o som de metal raspando era agudo. Ele caminhou até ao carro, abriu a porta e sentou-se no banco traseiro.
No instante em que a porta se fechou, ele viu o motorista tirar o telemóvel novamente e colocá-lo junto ao ouvido.
"Sim, ele viu." o motorista baixou a voz. "Não encontrou nada... hum, certo."
A chamada foi curta, menos de dez segundos.
O motorista desligou, deu uma olhada a Lu Chenzhou pelo retrovisor. Os olhares dos dois cruzaram-se brevemente no espelho, e o motorista rapidamente desviou o olhar, ligando o motor.
O motor rugiu baixo, e o carro afastou-se da zona das moradias.
Lu Chenzhou recostou-se no banco traseiro, a mão esquerda ao lado da perna, os dedos tocando o saco de evidências duro dentro do bolso da calça. Os fragmentos de vidro, através do filme plástico, transmitiam uma sensação subtil e gelada.
Ele fechou os olhos.
Na sua mente, começou a reconstruir a cena — a posição onde Shen Yan caíra, a distância do suporte de ferramentas, os possíveis ângulos de salpico de sangue. De onde veio aquele pedaço de vidro? A mão do assassino foi cortada, o sangue respingou, depois o fragmento caiu, rolou para a fenda. Porque é que o assassino não o notou? Porque o ambiente estava demasiado escuro na altura? Porque a atenção do assassino estava toda no corpo?
Ou porque, simplesmente, o assassino nunca imaginou que sangraria?
O carro virou, os pneus passaram sobre uma lombada, sacudindo ligeiramente.
Lu Chenzhou abriu os olhos, olhando pela janela. A paisagem urbana desfilava, placas de lojas, transeuntes, bicicletas, como um rolo de filme desfocado. Lembrou-se da fotografia no estudo de Shen Moqing — Lin Wei segurando a trela do cão, a sorrir sob o pôr do sol. Lembrou-se de Shen Moqing apontando para ela com o dedo, dizendo "Isto é um aviso".
E depois lembrou-se da caixa de material escolar de folha de flandres na maçaneta da porta.
O diagrama do arquivo queimado. A área em forma de "L" formada intencionalmente pela marca de queimadura. O "871103" pressionado no fundo da caixa.
O anónimo estava a empurrá-lo.
E Shen Moqing estava a segurar as rédeas.
Agora, ele tinha nas mãos mais um pedaço de vidro manchado de sangue. Podia ser uma chave, ou podia ser dinamite.
O carro entrou no centro histórico, as ruas estreitaram, ladeadas por prédios residenciais baixos. O motorista parou à porta de uma antiga casa de chá.
"Chegámos." disse o motorista, sem se virar. "O velho Sr. Zhou está à sua espera lá dentro."
Lu Chenzhou empurrou a porta do carro.
A fachada da casa de chá era antiga, a placa de madeira com os quatro caracteres "Chá da Serenidade" tinha a pintura descascada. Ele entrou, um velho atrás do balcão ergueu a cabeça, olhando para ele com os olhos semi-cerrados.
"À procura do Mestre Zhou?" perguntou o velho, a voz rouca.
"Sim."
"Lá em cima, Sala do Bambu."
A escada era de madeira, rangendo ao ser pisada. O corredor no segundo andar era escuro, uma porta ao fundo estava entreaberta, um aroma envelhecido característico de pu'er mad
"Encontrado na cena do caso de Shen Yan", disse Lu Chenzhou. "Fragmentos de vidro, com vestígios de sangue. Não é de Shen Yan – seu tipo sanguíneo é O, esses vestígios foram preliminarmente identificados como tipo A ou AB, precisa de confirmação adicional."
"Você escondeu isso?"
"A polícia deixou passar na perícia."
Zhou Zhengping colocou o saco de volta na mesa, os dedos começaram a bater novamente, desta vez mais rápido. "O que você quer fazer?"
Lu Chenzhou ergueu a xícara de chá, a temperatura morna transmitindo-se através da porcelana para a palma da mão. "Preciso de uma comparação de DNA", disse ele, voz muito baixa. "Não pelos canais oficiais. Precisa ser rápido, e absolutamente confidencial."
O compartimento ficou em silêncio.
Apenas o aroma do chá se espalhava, e o leve ritmo dos dedos de Zhou Zhengping batendo na mesa. Uma vez, duas vezes, como o ponteiro dos segundos andando.
"Chenzhou", Zhou Zhengping finalmente falou, voz ainda mais rouca, "aquela coisa de dez anos atrás, você ainda não sofreu o suficiente?"
"É justamente porque não sofri o suficiente", disse Lu Chenzhou, tom calmo, "que preciso continuar sofrendo."
Zhou Zhengping o encarou, olhar complexo. Havia preocupação ali, desaprovação, e uma raiva profundamente escondida, quase desgastada pelo tempo.
"Isso aqui", Zhou Zhengping apontou para o saco de evidências, "com quem você pretende comparar?"
Lu Chenzhou ficou em silêncio por dois segundos. "Shen Moqing."
O som das batidas cessou abruptamente.
A mão de Zhou Zhengping parou no ar, então desceu lentamente, fechando-se em punho. Ele respirou fundo, o aroma do chá entrou em suas narinas, mas o que ele parecia sentir era apenas poeira e o cheiro de papéis velhos.
"Você está louco", disse ele, voz muito baixa. "Você sabe o que isso significa?"
"Sei."
"Você não sabe!" Zhou Zhengping subitamente elevou o volume, mas logo o reprimiu, como se temesse que as paredes tivessem ouvidos. "Quem é Shen Moqing? Naquela época ele conseguiu te colocar atrás das grades, agora pode fazer você desaparecer completamente! Você vai comparar o DNA dele? Com que base? Mesmo que dê positivo, o que você pode fazer? Processá-lo? De onde veio a evidência? Obtenção ilegal! No tribunal, o primeiro a ser expulso seria você!"
Lu Chenzhou ouviu, não rebateu.
Quando Zhou Zhengping terminou, ele então falou, voz ainda calma: "Professor, não é para processá-lo."
"Então o que você quer fazer?"
"Quero saber a verdade", disse Lu Chenzhou. "Shen Yan é filho dele. Se essa mancha de sangue realmente for de Shen Moqing, por que ele deixaria vestígios de sangue na cena onde seu filho foi assassinado? Ele é o assassino, ou uma testemunha? Ou algo mais?"
Zhou Zhengping o encarou, como se examinando um estranho.
Depois de muito tempo, ele suspirou, os ombros afundando. Aquele suspiro trazia cheiro de álcool, e também cansaço. "Chenzhou, você não era assim antes."
"O eu de antes já morreu", disse Lu Chenzhou. "Morreu na prisão."
O compartimento caiu em silêncio novamente.
Lá fora, o céu estava mais escuro, as nuvens pesadas e baixas, como se fosse chover. Zhou Zhengping pegou novamente o bule de chá, enchendo as xícaras de ambos. O som da água corrente era especialmente claro naquele silêncio.
"Vou te ajudar só desta vez", Zhou Zhengping finalmente disse, voz muito baixa, quase inaudível. "Depois disso, não ande mais nessa ponte estreita."
Lu Chenzhou ergueu os olhos.
Zhou Zhengping evitou seu olhar, baixou a cabeça e tirou do bolso interno do casaco um pedaço de papel amassado, empurrando-o para frente. Havia um nome e um número de telefone escritos nele.
"Lao He", disse Zhou Zhengping. "He Wanqing, legista aposentada, confiável. Vá até ela, não diga que eu indiquei. Diga... diga que é meu sobrinho distante, por necessidade de trabalho."
Lu Chenzhou pegou o papel, a ponta dos dedos tocando a textura áspera da superfície.
"Obrigado, professor", disse ele.
Zhou Zhengping acenou com a mão, como se quisesse afastar algo. "Vá logo. Depois não venha mais me procurar."
Lu Chenzhou levantou-se, guardou bem o saco de evidências, virou-se e camin
Ainda era aquele anônimo que deixara a caixa de lápis de lata?
Ou... ambos?
Ele abriu os olhos, tirou o celular do bolso, a luz fria da tela iluminando o interior do carro. Ele abriu o aplicativo de comunicação criptografada e enviou uma mensagem curta para um número: "Amostra coletada, precisa de canal."
Alguns segundos depois, a resposta chegou: "Amanhã às oito, no lugar de sempre."
O lugar de sempre — a área de jornais antigos da biblioteca municipal, o computador no fundo da terceira fileira.
Lu Chenzhou guardou o celular e olhou pela janela do carro. Os postes de luz finalmente acenderam, a penumbra amarelada se espalhando pela noite. Do outro lado da rua, um homem de casaco escuro estava parado ao lado de uma banca de jornais, olhando para o celular.
O homem ergueu a cabeça e deu uma olhada na direção do carro.
Os olhares dos dois se cruzaram brevemente, separados por uma camada de vidro e uma distância de mais de dez metros.
O homem logo desviou o olhar, virou-se e foi embora.
Os dedos de Lu Chenzhou se fecharam involuntariamente, as unhas afundando na palma da mão. O canto esquerdo do olho começou a tremer novamente, um leve, incontrolável tremor.
Ele respirou fundo e ligou o carro.
O motor roncou, os faróis cortaram a noite, e o carro entrou na rua. No retrovisor, a banca de jornais ficava cada vez menor, finalmente desaparecendo na esquina.
Mas ele sabia que algumas coisas não desaparecem.
Está ali, nas sombras, em cada canto, como um fragmento de vidro manchado de sangue, esperando em silêncio, refletindo uma luz fria.
***
A penumbra dos postes de luz se alongava e encurtava na calçada molhada. Lu Chenzhou pisava nessas poças ondulantes, como se pisasse em uma terra de luas quebradas. Sua sombra chegou ao prédio velho de apartamentos antes dele, partida ao meio pelos degraus.
Nas narinas ainda restava o amargor envelhecido do chá Pu'er da velha casa de chá, entre os dedos ainda parecia segurar aquele saco de evidências leve como nada. Dentro do saco, aquele fragmento de vidro do tamanho de uma unha, as manchas marrom-escuras nas bordas, como um olho adormecido. Ele mobilizou todos os sentidos, escaneando os arredores — o som eletrônico da porta automática da loja de conveniência ao longe abrindo e fechando, a discussão vaga de um casal no andar de cima, o ruído de um gato de rua correndo pela área verde. Tudo soava como o ruído de fundo de uma noite normal. Mas normal, às vezes, é o disfarce mais preciso.
Ele subiu até o terceiro andar. A luz do corredor acionada por som acendeu, lançando uma luz branca e pálida. Ele parou em frente ao apartamento 305.
Debaixo da porta, aparecia um canto de papel branco.
Não era o papel barato de panfletos publicitários. Era mais grosso, as bordas irregulares, como se tivesse sido rasgado com força. Lu Chenzhou agachou-se, não tocando imediatamente. Ele primeiro verificou a fechadura da porta — nenhum sinal de arrombamento, o som da chave girando suave como sempre. Ele inclinou a cabeça e escutou o silêncio dentro do apartamento, e só então usou a pinça que carregava consigo para pegar cuidadosamente aquele pedaço de papel.
O papel estava dobrado ao meio. Ao desdobrá-lo, um cheiro acre de queimado invadiu violentamente suas narinas.
Não era o cheiro de algo recém-queimado. Era o cheiro único deixado quando o papel é carbonizado instantaneamente por alta temperatura e depois apagado à força por água ou produtos químicos — uma mistura de queimado e um certo amargor ácido. O impacto visual veio logo em seguida — meia folha de papel A4 para cópia, as bordas
3 de novembro de 1987, incêndio no Arquivo Municipal. Naquela noite, um dos funcionários auxiliares de plantão morreu e outro ficou ferido; a causa do incêndio foi finalmente classificada como "envelhecimento da fiação elétrica". Mas no processo havia um registro do seu interrogatório — na época, ele ainda era estagiário da escola de polícia e havia entrado no arquivo no dia anterior ao incêndio para ajudar a organizar documentos. O registro era comum, apenas um procedimento de rotina. A verdadeira chave era um esboço da área interna do arquivo que ele desenhou na época, anexado ao registro — no esboço, ele marcou de memória a localização de várias áreas de armazenamento em forma de "L" normalmente não abertas ao público.
Aquele esboço, junto com todo o processo original do caso de incêndio, pouco depois de ele ser preso, foi incluído na lista de arquivos selados com a classificação "conteúdo parcialmente confidencial, temporariamente não divulgado". As permissões para consulta eram extremamente altas, o processo era complexo e deixava rastros eletrônicos.
A parte anônima não apenas tinha acesso ao processo selado, mas também conseguia "consultá-lo" sem acionar os alarmes de rotina. Isso não era intimidação de marginais de rua, nem a vigilância brutal de Shen Moqing que dependia de riqueza e poder. Era um oponente de dentro do sistema, ou pelo menos alguém que podia manipular habilmente suas brechas.
O outro lado estava demonstrando força. Precisão, contenção, e com um tipo de provocação quase cruel — usar uma cópia carbonizada do processo para adverti-lo a não brincar com fogo.
Lu Chenzhou manteve a posição agachada, colocando cuidadosamente o pedaço de papel em um novo saco de evidências. Ele se levantou, mas não entrou imediatamente. Em vez disso, foi até a janela no final do corredor, ergueu um canto da pesada cortina de veludo.
Fora da janela estava a parede do prédio em frente, muito próxima, formando um pátio estreito. Algumas janelas estavam iluminadas, com cortinas bem fechadas. Na rua abaixo, veículos passavam esparsamente, os faróis cortando a escuridão úmida. Tudo normal. Mas ele sabia que, bem dentro dessa noite aparentemente tranquila, pelo menos um par de olhos acabara de confirmar sua reação ao receber o "presente".
Ele voltou à porta, abriu, entrou e trancou por dentro. Não acendeu a luz principal, apenas apertou o botão da velha lâmpada de mesa. Um círculo de luz amarelada envolveu a superfície da mesa, como um único foco de holofote num palco.
Ele se sentou, colocando os dois sacos de evidências lado a lado.
À esquerda, estavam os fragmentos de vidro com possível mancha de sangue. Minúsculos, frágeis, mas potencialmente conectando a morte de Shen Yan ao núcleo da armadilha de dez anos atrás.
À direita, estava a meia folha da cópia carbonizada. Fria, cheia de pressão, declarando que seu ponto fraco e intenções já estavam expostos ao olhar de alguma sombra.
Fichas e custo. Esperança e ameaça. Como os dois lados de uma balança, balançando levemente diante de seus olhos.
Ele fechou os olhos, forçando-se a reprimir as emoções turbulentas. Medo era inútil, raiva ainda mais. Ele precisava de lógica, do próximo passo. Os resultados da perícia levariam tempo; do lado de Zhou Zhengping, o mais rápido seriam dois ou três dias. E nesses dois ou três dias, a parte anônima poderia ter mais ações, e a vigilância de Shen Moqing também não relaxaria. Ele não podia esperar passivamente.
Ele pegou um telefone pré-pago barato e não rastreável da gaveta. Ligou-o, a tela acendeu com uma luz azulada. Ele abriu um aplicativo de comunicação criptografada e enviou uma mensagem breve para Fang Mu:
«Verifique duas direções: Um, por volta de 1998, locais possíveis de armazenamento ou bancos de dados de backup para amostras biológicas (amostras de sangue, arquivos de exames físicos) deixadas por Shen Moqing ou membros centrais do clã Shen em instituições médicas regulares, especialmente por canais não públicos. Dois, registros anômalos de acesso eletrônico ou consulta física nos últimos um mês em órgãos de gestão de arquivos municipais ou superiores (especialmente aqueles envolvendo selamento de processos históricos), prestando atenção a sinais de desvio dos processos de aprovação de rotina. Prioridade: máxima. Risco: possibilidade conhecida de
Os três dias de espera foram como caminhar sobre o fio de uma lâmina.
Lu Chenzhou comparecia pontualmente ao escritório de Shen Moqing para "reportar o progresso", usando jargões profissionais para construir uma análise do caso que parecia profunda, mas que cuidadosamente contornava o cerne da questão. Ele observava atentamente as expressões, notando que o olhar de Gu Zhixing sobre ele continha mais inquisição do que o costumeiro desdém programático. A frequência com que Shen Moqing girava o anel de jade entre os dedos aumentou imperceptivelmente quando Lu Chenzhou mencionou que "o local pode conter evidências biológicas em quantidades ínfimas, mas a extração e identificação enfrentam gargalos técnicos".
A pressão de Shen Moqing era tangível, como uma corda apertada no pescoço, cuja textura e força de constrição podiam ser sentidas.
Já a pressão da parte anônima era intangível, como um gás tóxico crônico pairando no ar — você nunca sabia se a próxima respiração seria fatal. Um novo estande de conserto de sapatos apareceu ao pé do prédio de seu apartamento. O dono era um velho de olhar turvo, que ficava sentado ali o dia todo, com pouquíssimos clientes. Lu Chenzhou reconheceu no velho as calosidades no dorso da mão, típicas de quem segura uma arma por muito tempo. Dentro de seu quarto, ele também notou deslocamentos extremamente sutis nos objetos — alguém havia entrado em sua ausência, com técnica profissional, deixando quase nenhum vestígio. O intruso não levou nada, apenas "inspecionou". Era uma declaração ainda mais arrogante: "Seu território, eu entro e saio à vontade".
Na tarde do terceiro dia, o celular pré-pago vibrou.
Não havia identificador de chamada, apenas uma mensagem criptografada de um número desconhecido, contendo uma sequência de caracteres que parecia aleatória. Lu Chenzhou fixou os olhos naquela sequência por dez segundos, suas pupilas se contraindo levemente. Era um código simples que ele e seu mestre haviam combinado em particular nos primeiros anos, baseado em um antigo manual de códigos postais e em deslocamentos de data. Após decifrar, havia uma coordenada e uma frase:
"Lugar de sempre. Resultados prontos, veja você mesmo. Não responda."
A coordenada apontava para o prédio antigo da Biblioteca Municipal, aquele ponto de transferência que costumavam usar para trocar materiais sensíveis.
Lu Chenzhou partiu imediatamente. Ele não escolheu ir diretamente, primeiro pegou um ônibus e deu uma volta pela cidade por meia hora, trocando de veículo três vezes no caminho, e finalmente atravessou a pé dois mercados de rua movimentados, usando a multidão e o ambiente complexo para confirmar repetidamente que não havia "cauda". Quando finalmente entrou pela porta lateral da biblioteca, a luz do sol da tarde, já inclinada para o oeste, atravessava os altos vitrais, projetando manchas coloridas, porém desbotadas, no chão de mármore empoeirado.
O ar estava impregnado do cheiro peculiar de livros e jornais velhos — o leve azedume do papel envelhecido, a aspereza da tinta e o pó assentando lentamente no ar imóvel. Havia poucos leitores, a maioria idosos com óculos de leitura folheando jornais, ou estudantes imersos em preparação para exames. O silêncio era acentuado pelo som de páginas sendo viradas, por uma tosse ocasional e pelo leve rangido de metal de um carrinho de livros empurrado por um bibliotecário ao longe, tornando a atmosfera ainda mais profunda.
Ele seguiu com familiaridade para a área de leitura de periódicos antigos, no fundo. Fileiras de volumes encadernados pesados, como gigantes silenciosos, erguiam-se nas estantes de metal, exalando um aroma ainda mais intenso de eras passadas. Num canto, havia um computador antigo com monitor CRT, obsoleto, conectado a um terminal que só permitia consultar o banco de dados local espelhado, raramente usado.
Lu Chenzhou sentou-se diante do computador. A tela acendeu, emitindo um zumbido baixo e um brilho cintilante. Ele moveu o mouse, clicou em "Disco Local (D:)" e, entre uma pilha de pastas nomeadas por datas, encontrou uma pasta chamada "1998_Backup_Aprovação_Projeto_Drenagem_Municipal". Clicou duas vezes para abrir. Dentro havia dezenas de documentos PDF. Ele desceu a lista e clicou no último, cujo nome de arquivo era "Anexo
"Após análise de tipagem STR e comparação preliminar, as amostras enviadas e as amostras para comparação apresentam alta probabilidade de homologia nos 16 loci gênicos testados.**
**Recomendação: Este resultado é apenas uma triagem preliminar; é necessário realizar testes de Y-STR ou análises mais precisas para confirmar o parentesco e a singularidade individual. A avaliação de probabilidade não deve ser usada como prova direta em tribunal."
Alta probabilidade de homologia.
Não era uma "correspondência" definitiva, mas era o suficiente.
Suficiente para ligar diretamente Shen Moqing à cena do caso de Shen Yan. Suficiente para provar que este patriarca da família Shen, aquele pai que tinha um álibi perfeito para o período da morte do filho, deixou seu sangue naquela garagem em algum momento.
Os dedos de Lu Chenzhou pararam sobre o mouse, as pontas geladas.
Ele fitou aquela linha por um longo tempo. Tanto tempo que o protetor de tela se ativou automaticamente, a escuridão engolindo a imagem. Ele não se moveu, apenas sentou ali, sob a luz amarelada da seção de jornais antigos, como uma estátua silenciosa.
O sangue no fragmento de vidro realmente apontava para Shen Moqing.
Então, a próxima questão era -
Por que ele estava lá?