Capítulo 53: O Trovão e a Cicatriz Antiga
A caligrafia naquele papel entrou em seus olhos como um ferro em brasa. Lu Chenzhou enfiou a folha A4 no bolso interno, a ponta do papel arranhou a polpa do dedo, deixando uma dor fina e aguda. De repente, a voz de Lei Hu ecoou no fone de ouvido—
"Senhor Lu, o jovem mestre Shen voltou à mansão. Salão principal, agora."
Ele não tinha tempo para digerir o significado da "segunda página". Agarrou o casaco, empurrou a porta de ferro do esconderijo, o vento frio do corredor invadiu o colarinho, fazendo os pelos da nuca se arrepiarem.
Salão principal de Shen Yan. Três minutos depois.
Ele ficou de pé na galeria do segundo andar, olhando para baixo. Shen Yan atravessava o piso de mármore, o som seco de seus sapatos de couro batendo na pedra ecoava pelo salão vazio. Seus passos eram apressados, seu rosto estava lívido, como se tivesse acabado de falar ao telefone com alguém.
A voz de Lei Hu soou novamente: "Corredor leste, sinal da câmera três interrompido."
O olhar de Lu Chenzhou se voltou bruscamente para o leste. Câmera três — o caminho obrigatório para a porta lateral do salão.
"Bloqueiem a porta lateral." Ele pressionou o botão do comunicador, "Todos—"
A frase não foi concluída.
Uma luz vermelha brilhou nas profundezas do corredor leste. Fraca, mas suficiente para congelar seu sangue instantaneamente. Luz indicadora de ativação de um dispositivo de demolição direcional.
"Deitem-se!"
Ele saltou por cima do corrimão, caindo direto do segundo andar. O fluxo de ar rasgou a barra de sua roupa, seus sapatos de couro esmagaram um candeeiro de pé ao pousar, estilhaços de vidro penetraram na canela, a dor engolida pela adrenalina. Ele se lançou em direção a Shen Yan, os dedos mal tocando a gola da roupa do outro—
Explosão.
As chamas engoliram seu campo de visão. A onda de choque era como uma parede sólida, arremessando-o para longe. Suas costas colidiram com uma coluna de mármore, os ossos emitiram um som abafado, o ar de seus pulmões foi espremido até o fim. Um zumbido enxameou seus ouvidos, o mundo se tornou uma câmera lenta distorcida. Um sabor metálico subiu à sua boca.
Estilhaços voaram por todos os lados. Shen Yan foi arremessado pela onda de choque por dois metros, caindo pesadamente no chão.
Lu Chenzhou lutou para se erguer. O ombro esquerdo estava deslocado, todo o braço pendia ao seu lado como ferro inútil. Ele rastejou com uma mão até Shen Yan, a palma pressionada contra o piso de mármore — úmida, quente.
Sangue. O sangue de Shen Yan, serpenteando sobre a pedra fria, o odor doce e metálico atingindo suas narinas, como uma lâmina enferrujada pressionada contra a raiz da língua.
Uma figura sombria emergiu da fumaça. O assassino. Indo direto para Shen Yan.
Lu Chenzhou agarrou o pedestal de cobre quebrado de um candeeiro ao seu lado e o arremessou contra a figura.
"Detenham-no!"
O cobre atingiu o ombro e as costas do assassino, emitindo um som abafado de impacto, o homem cambaleou por meio passo. Mas a faca já estava desembainhada, um lampejo de luz fria, cortando o peito de Shen Yan. Gotas de sangue salpicaram sobre o mármore, desabrochando sobre a superfície branca e fria, o odor metálico ficando mais intenso.
Tiros. Lei Hu finalmente chegou, as balas atingindo a canela do assassino. O homem gemeu, rolou para dentro da fumaça densa, desaparecendo pela porta lateral.
O salão estava em ruínas. Lu Chenzhou ajoelhou-se ao lado de Shen Yan, a mão direita pressionando firmemente o ferimento no peito de onde o sangue jorrava, o calor do sangue transbordando por entre seus dedos, formigando na palma da mão. O rosto de Shen Yan estava pálido como papel, os lábios se moviam, incapazes de emitir som. Os olhos reviravam, a consciência escapando.
O canto esquerdo de seu olho tremia levemente. Uma reação fisiológica sob extrema tensão, ele não conseguia controlar.
"Não f
O polegar parou por um instante. Voltou a girar, mais rápido. A pele atritando violentamente contra o jade gerava calor.
Lu Chenzhou bateu o fragmento de projétil sobre a escrivaninha. O metal colidiu com a superfície de madeira, emitindo um som abafado, a vibração se propagando pela mesa. Aquele fragmento serrilhado brilhava friamente sob a luz, a cor da liga cobre-níquel era completamente diferente da de uma bala comum, traços de sangue morno manchando a superfície polida da mesa.
"O que é isso, o Sr. Shen sabe melhor do que eu."
Shen Moqing finalmente se virou. Seu olhar pousou sobre o fragmento, suas pupilas contraíram por um instante — muito breve, breve a ponto de quase não existir. Mas sua mão que acariciava o anel de jade parou, e de seu peito veio uma pausa respiratória extremamente suave.
"Há dez anos," a voz de Lu Chenzhou era muito baixa, suas cordas vocais pareciam arame esticado, "o mesmo design serrilhado, a mesma liga cobre-níquel. Aquela bala perfurou o peito do meu parceiro."
Ele fez uma pausa. O canto esquerdo do olho tremia levemente, a mandíbula cerrada a ponto de doer.
"O assassino ainda está lá. Ele não vai parar."
Gu Zhixing deu meio passo à frente, a sola de seu sapato de couro esmagando a pelagem do tapete, seu tom de voz calmo: "Legalmente falando, Sr. Lu, um fragmento de projétil não é suficiente para provar—"
"Cale a boca."
Duas palavras, sem entonação. Lu Chenzhou nem sequer olhou para ele, mas as veias em seu pescoço estavam ligeiramente salientes.
Os dedos de Gu Zhixing pararam sobre os punhos da manga, a borda metálica cravando-se na carne dos dedos, o olhar atrás das lentes cintilou, e ele não falou mais.
"Shen Yan está agora deitado na mesa de cirurgia," Lu Chenzhou avançou mais um passo, o cheiro de sangue em seu corpo pressionando diretamente o idoso, "quem será o próximo? Você? Shen Qinghuan? Ou—"
Ele parou. Deixou aquela ameaça não pronunciada pairar no ar, como uma faca suspensa.
O olhar de Shen Moqing mudou. Não era raiva, era algo mais profundo — como uma corrente oculta sob o gelo, invisível, mas capaz de esmagar tudo. Uma respiração áspera e pesada escapou da garganta do idoso.
"O que você quer."
"Controle total."
O anel de jade emitiu um leve som de batida. O polegar de Shen Moqing finalmente parou.
"Segurança da família, movimentação de pessoal, acesso às filmagens de vigilância — todos sob meu comando." Lu Chenzhou falou palavra por palavra, cada uma como um prego cravado na madeira, "Se não der, o próximo a morrer, será você."
O escritório caiu em silêncio mortal. Um tronco na lareira estalou, faíscas saltaram e se apagaram, o cheiro acre de resina de pinho queimada penetrou as narinas.
Gu Zhixing ajustou os óculos, os lábios se moveram levemente, mas Shen Moqing ergueu a mão para detê-lo.
O idoso caminhou até a escrivaninha. Abriu uma gaveta, os trilhos emitiram um som áspero de atrito. Retirou uma caixa de madeira de sândalo. A tampa foi aberta, dentro havia veludo vermelho escuro, e no centro repousava um selo de latão — o símbolo de autoridade da família Shen, uma relíquia transmitida por um século.
Shen Moqing empurrou o selo junto com a caixa sobre a mesa.
O pesado latão bateu na madeira de mogno, o som abafado como o de um tambor, fazendo o fragmento de projétil sobre a mesa pular levemente.
"Leve."
Lu Chenzhou estendeu a mão. A ponta dos dedos tocou a superfície fria do selo, um frio penetrante se espalhou pela ponta dos dedos, o latão era áspero, as inscrições profundas e severas, arranhando a polpa dos dedos.
"Mas Jingyuan—" a voz de Shen Moqing de repente baixou, como se fosse espremida entre os dentes, com uma aspereza de folhas secas se partindo, "se meu filho morrer, você pagará com sua vida."
Nenhuma resposta. Lu Chenzhou guardou o selo, virou-se e caminhou em direção à
Ele desviou o olhar, evitando aquela mancha escura e viscosa em seu joelho. Era sangue de Shen Yan, penetrando lentamente nas fibras do tecido.
O zumbido profundo em seus tímpanos ainda não havia se dissipado, o forte odor metálico e fétido de sangue invadia suas narinas. Ao fechar os olhos, a imagem residual de Shen Yan caindo permanecia fixa na escuridão — os lábios se movendo, apenas expelindo um borrifo quente de sangue.
O selo parou abruptamente. O canto esquerdo do olho dele estremeceu violentamente.
A dobradiça da porta emitiu um rangido áspero. Qin Wangshu entrou segurando uma xícara de cerâmica rústica, a sola de sua bota militar batendo contra o chão de cimento, seus passos deliberadamente mais lentos. Ela não disse nada, apenas colocou a xícara na mesa dobrável ao lado de sua mão.
Nuvens brancas de vapor subiam da borda da xícara, carregando o aroma amargo e adstringente de um chá barato.
"Beba." Ela soltou uma única palavra.
Lu Chenzhou estendeu a mão. Assim que a ponta dos dedos tocou a lateral da xícara, o calor escaldante da cerâmica áspera penetrou instantaneamente sua pele — seus nós dos dedos estremeceram, o chá respingou, queimando o dorso de sua mão. Ele não a retirou. Em vez disso, seus cinco dedos se fecharam com força sobre a lateral da xícara, as polpas dos dedos pressionando firmemente contra a superfície de barro, como se quisessem espremer aquela dor ardente diretamente para dentro de suas fendas ósseas.
Os grãos da cerâmica rústica arranhavam sua palma. Queimava. Mas apenas essa sensação de queimadura podia arrancá-lo daquele torpor.
Qin Wangshu se apoiou na moldura da porta, os dedos indo instintivamente para a pistola em seu quadril, passando pelo ferrolho de segurança antes de retirá-los. Ela mordeu o interior do lábio inferior, sentindo o gosto metálico do sangue, e então falou: "He Wanqing acabou de ligar. Shen Yan está temporariamente estável."
"Temporariamente." Ele repetiu, a voz como uma lixa raspando contra lata.
"Sim, temporariamente." A voz de Qin Wangshu era dura. "O que você espera que eu diga? Que garanto que ele estará de pé amanhã?"
O tubo fluorescente acima cintilou com um chiado. Lu Chenzhou encarou a superfície agitada da água na xícara, seu próprio reflexo fragmentado afundado no fundo turvo do chá. Ele bateu o selo na mesa, a superfície de cobre produzindo um baque surdo e pesado.
Qin Wangshu observou a linha tensa de seu maxilar. "Você não precisa se forçar a virar uma máquina."
Seu pomo-de-adão moveu-se com dificuldade, como se uma barra de ferro bruta estivesse presa lá. As polpas dos dedos ainda latejavam com um calor sutil. Ele suprimiu o leve tremor que escapava de suas cordas vocais e forçou apenas três palavras:
"Estou bem."
Qin Wangshu não respondeu. Ela olhou para a mão de Lu Chenzhou agarrando a xícara de chá com força desesperada, um brilho passageiro, como o reflexo frio da lua agitando-se no fundo de um poço, surgiu em seus olhos.
"Há dez anos, quando você assinou a confissão por sua irmã," ela fez uma pausa, suavizando a voz, "também não foi por causa de um contrato."
O canto esquerdo do olho dele estremeceu novamente. Ele não rebateu.
O chá gradualmente esfriou até a temperatura ambiente. Ele ergueu a cabeça e engoliu de um só gole, o líquido amargo e frio raspando sua garganta, mas desencadeando uma onda de calor residual, quase como uma queimadura, em seu estômago.
"Esse estilhaço," ele de repente falou, a voz muito baixa, "e a bala especializada do antigo caso daqueles anos — são do mesmo lote."
A respiração de Qin Wangshu parou por meio segundo. "Tem certeza?"
"Número gravado na base, características do processo, proporção da liga metálica." Ele bateu a xícara vazia na mesa, a cerâmica produzindo um som agudo e estridente. "He Wanqing está verificando agora, mas eu não me engano."
Ele se levantou abruptamente, seu joelho batendo com força no canto da mesa, o selo de bronze amarelo rolando meio círculo
O negativo foi erguido contra a luminária. O calor branco e intenso do tubo queimou as pontas dos dedos, a luz atravessou o filme, revelando uma imagem de monitoramento em tons de cinza e branco — a entrada de uma saída de emergência, uma figura de lado passando um cartão, abrindo a porta para uma pessoa atrás dela, vestida de preto.
Uniforme azul-marinho. Insígnias de ombro. Número de identificação. Coldre padrão de pistola na cintura.
Uniforme policial.
Os dedos de Lu Chenzhou se contraíram abruptamente, a borda afiada do negativo penetrando na polpa do dedo. Ele se aproximou da cúpula da lâmpada, a luz branca e escaldante ferindo seus olhos, fixando-se desesperadamente no número abaixo da insígnia do ombro.
Aquele número —
O número de identificação de Qin Wangshu.
Um gosto de sangue, enferrujado, subiu pela garganta, o sangue que escorria de sua palma tingindo um canto do negativo de vermelho. Aquela pessoa que, vinte minutos atrás, ainda estava no esconderijo, enfiando chá forte e escaldante em suas mãos trêmulas.
De trás, veio o som claro de sola de sapato esmagando o carpete e depois pisando no piso de madeira dura, passos que se aproximavam da porta.
"A propósito, um lembrete," a voz de Gu Zhixing chegou por trás, estável como se estivesse lendo cláusulas de contrato, "quinze minutos atrás, eu já havia informado ao chefe da brigada Zhao Tieshan — que alguém está suspeito de fornecer acesso policial para o assassino."
A fechadura girou. A porta se abriu, uma corrente de ar frio do corredor invadiu o ambiente. E então se fechou.
Lu Chenzhou ficou sozinho sob a luz, apertando aquele pedaço de negativo manchado de sangue.
Zhao Tieshan já sabia. O número de identificação de Qin Wangshu já estava sobre a mesa de Zhao Tieshan.
Ele pegou o telefone celular, a luz fria da tela era ofuscante. Disquei o número de Qin Wangshu, sinal de ocupado. Disquei novamente, sinal de ocupado.
Na terceira vez, a ligação foi completada.
Ninguém atendeu.