Capítulo 50: Quatorze Segundos de Trovoada Ensanguentada
A sensação do cano da pistola pressionando o centro da testa era gelada. O dedo de Gu Zhixing repousava sobre o gatilho, a polpa levemente pálida — ele estava esperando. Esperando por Shen Yanqing dar a ordem final, ou por Lu Chenzhou revelar uma falha.
Lu Chenzhou não esperou.
Ele virou a cabeça para o lado, não com rapidez, mas justamente o suficiente para que o cano deslizasse sobre o osso temporal. A dor ardente do metal raspando o couro cabeludo foi como um relâmpago partindo seu crânio. No mesmo instante, sua mão direita agarrou o pulso de Gu Zhixing, torcendo-o para fora, enquanto a ponta do cotovelo esquerdo atingia a maçã-de-adão do oponente.
Um baque surdo de osso contra cartilagem.
Gu Zhixing recuou meio passo, o cano desviou, a bala rasgou o lado externo do braço esquerdo de Lu Chenzhou e saiu do outro lado, respingos de sangue manchando a parede cinza e branca. Mas Lu Chenzhou já havia irrompido para fora do abrigo seguro.
O corredor estava vazio. Os reforços trazidos por Gu Zhixing já haviam se retirado — eles nunca tiveram a intenção de matá-lo ali, apenas de detê-lo.
Detê-lo.
Essa compreensão desceu por seu corpo como água gelada. Lu Chenzhou entrou na escadaria, a mão esquerda apertando o braço sangrando, mas seus passos ficavam cada vez mais rápidos. A mensagem que Fang Mu enviara dez minutos antes ecoava repetidamente em sua mente: o carro dos atacantes já havia entrado num raio de três quilômetros da mansão de Shen Yan.
Ele discou. O telefone tocou quatro vezes. Quem atendeu foi Shen Yan.
"Tem uma bomba." A voz de Lu Chenzhou era extremamente baixa, cada palavra parecia espremida entre seus dentes. "Os atacantes já partiram, o alvo é o estudo de seu pai. Ordene que todos os guardas de segurança se retirem para o pátio interno—"
"Lu Chenzhou." A voz de Shen Yan o interrompeu, carregando uma elegância cansada. "Com que base você acha que eu ouviria um 'aviso' de um assassino que acabou de sair da prisão?"
"Não estou pedindo a você."
"Então é ainda menos interessante." A ligação caiu.
Lu Chenzhou cerrou os dentes molares. Quando saiu do prédio, o contorno da mansão de Shen Yan já era visível na escuridão noturna — uma casa de três andares em tijolos cinza, iluminada. Mas as linhas de defesa de segurança periférica eram mais rigorosas do que ele previra: quatro SUVs pretos bloqueavam o portão principal, e pelo menos seis guarda-costas armados vedavam as brechas no muro.
Troca de guarda.
Ele viu dois guarda-costas sob o muro leste fazendo a passagem, seus olhares se desviando brevemente. Três segundos.
Lu Chenzhou disparou.
Ele subiu num caixote de compostagem fora do muro e saltou para o topo da parede, lascas de telha abrindo cortes quentes em sua palma. Tiros soaram da esquerda — não eram de advertência, eram balas reais. Uma bala estilhaçou a telha perto de seu pé, fragmentos perfurando sua canela. Ele não parou, saltando inteiro da altura de dois metros do muro e caindo na galeria externa à sala de reuniões.
Porta de vidro à prova de balas.
Dois guarda-costas se aproximaram dos dois lados, canos apontados para seu peito. A voz de Lei Hu saiu do rádio comunicador: "Peguem vivo."
Lu Chenzhou não hesitou. Ele agarrou um suporte de ferro fundido para plantas na galeria e, com todo o peso do corpo, arremessou-se contra o vidro à prova de balas.
Primeira batida, o vidro rachou. Segunda batida, as rachaduras se espalharam como uma teia de aranha. Terceira batida—
O som estridente do vidro à prova de balas se estilhaçando rasgou o céu noturno, como mil cordas de instrumento arrebentando ao mesmo tempo. O cheiro de pólvora misturou-se ao odor de sangue invadindo suas narinas. Lu Chenzhou caiu dentro da sala de reuniões, vidro estilhaçado cobrindo seus ombros e braços, sangue encharcando metade de sua roupa.
"Tem uma bomba—!"
Seu rugido ecoou na sala de reuniões
"Você está mexendo em coisas que não deveria." Shen Yan agarrou seu pulso. "Deixe minha equipe cuidar disso."
"Sua equipe?" A voz estava baixa e tensa. "Sua equipe acabou de deixar entrar um homem-bomba."
Shen Yan apertou os dedos, as unhas cravando-se na pele do pulso, exatamente sobre a pulsação.
"Você—"
"Catorze segundos." Lu Chenzhou baixou o olhar. 14:32. 14:31. "Solte."
Shen Yan não soltou.
Lu Chenzhou usou a outra mão para tirar um canivete suíço do bolso — aquele que Fang Mu lhe dera, com lâmina de apenas três centímetros. Segurou o cabo com os dentes, abriu a lâmina principal e, com um movimento brusco do pulso, libertou-se da pinça.
Shen Yan foi puxado para frente, o ombro batendo na borda da mesa. Aproveitou o impulso para se inclinar, os dedos varrendo o interior da maleta —
Lu Chenzhou viu o que ele tocou. Um fino livro-caixa preto, enfiado entre o C4 e a placa de circuito.
"Pare—!"
Tarde demais. No instante em que Shen Yan puxou o livro-caixa, o sensor anti-manuseio saltou. Suor frio escorreu da têmpora de Lu Chenzhou, caindo sobre a placa de circuito quente, emitindo um leve chiado. Com a mão esquerda, ele pressionou o sensor com força; com a direita, enfiou a ponta da faca na fresta entre o fio detonador e a fonte de energia reserva.
No momento em que a lâmina tocou o fio de cobre, seus dedos espasmaram — sinal de perda de sangue excessiva.
"Cortar qual?" A voz de Shen Yan mudara, não mais arrogante.
"O vermelho."
"Você não tem certeza."
"O vermelho." Ele repetiu. "Corte o vermelho."
A lâmina cortou o fio vermelho. Os números pararam em 07:03, imóveis.
Lu Chenzhou soltou o sensor, recostando-se na perna da mesa para recuperar o fôlego. Olhou para dentro da caixa — havia apenas dois blocos de C4, não os seis necessários para explodir o prédio inteiro. O dispositivo detonador não estava ligado à carga principal, mas a um compartimento metálico no fundo da caixa.
Ele levantou o compartimento.
Cinzas. Fragmentos de documentos parcialmente queimados, as bordas ainda fumegantes. O calor já consumira a maior parte do conteúdo, mas a página mais inferior ainda era legível —
O número do processo de dez anos atrás. Seu próprio caso.
Suas pupilas se contraíram violentamente.
A bomba não era para matar. Era para destruir provas.
Ele virou a cabeça bruscamente. Shen Yan estava a três passos de distância, segurando o livro-caixa preto, os nós dos dedos brancos.
"Isso é meu."
Shen Yan recuou um passo. A boca se contorceu num sorriso cansado, algo entre amargura e escárnio.
"Sr. Lu," ele disse, "quando você disse 'o vermelho', sua mão estava tremendo."
"Aquele livro-caixa—"
"Eu sei o que é." Shen Yan enfiou o livro-caixa no bolso interno do paletó. "Sabia antes de você."
Ele se virou e caminhou em direção a Shen Moqing, os passos firmes, como se nada tivesse acontecido.
Lu Chenzhou quis persegui-lo, mas as pernas fraquejaram. Baixou o olhar para as mãos cobertas de sangue e sujeira — estilhaços de vidro cravados nas palmas, como minúsculos dentes.
As datas no livro-caixa — ele as vislumbrara. Coincidiam perfeitamente com o momento em que o processo desaparecera da sala de provas, anos atrás.
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O tubo fluorescente da clínica abandonada emitia um zumbido de corrente elétrica, sua luz branca e pálida projetando sombras trêmulas no teto manchado de mofo. Lu Chenzhou encostou-se à mesa de cirurgia enferrujada, o ferimento penetrante na parte externa do braço esquerdo ainda sangrando. Líquido escuro serpenteava pelo antebraço e pingava no chão de cimento rachado.
Qin Wangshu vasculhou a caixa de primeiros socorros, tirou o álcool medicinal e abriu a tampa. O cheiro pungente se espalhou instantaneamente, misturando-se ao odor envelhecido de desinfetante e ao mofo úmido dos cantos da clínica.
"Aguente."
O álcool foi derramado diretamente sobre o ferimento.
As costas de Lu Chenzhou arquearam-se violentamente.
O canto esquerdo do olho de Lu Chenzhou contraiu-se levemente. Ele baixou o olhar, a voz plana como se estivesse descrevendo um arquivo antigo: "No inverno de dez anos atrás, tive febre alta na detenção, quarenta e um graus. Ninguém se importou. O médico da prisão aceitou suborno e se recusou a vir."
Ele fez uma pausa.
"Shen Yan mandou alguém trazer duas caixas de remédio para baixar a febre. Apenas duas. Escondidas entre as páginas de livros de direito."
Do lado de fora da clínica, o som de um gato selvagem pisando na cobertura de zinco da marquise chegou fino e agudo.
Qin Wangshu ficou em silêncio por um longo tempo. Ela passou a agulha e a linha pela chama do álcool, curvou-se e aproximou-se do braço dele. A palma da mão cobriu a pele intacta na parte interna de seu antebraço, o calor transmitindo-se através da fina camada de suor.
"Então você não consegue fazer isso."
Não era uma pergunta.
No instante em que a ponta da agulha perfurou a carne, os ombros de Lu Chenzhou tensionaram e depois relaxaram, como uma corda dedilhada encontrando finalmente a nota onde deveria parar.
"Não conseguir fazer," ele repetiu, a voz rouca, "e não dever fazer, são duas coisas diferentes."
Qin Wangshu mordeu o fio, enfaixou o ferimento com gaze, deu duas voltas e fez um nó. Ao terminar, seus dedos permaneceram por um segundo a mais em seu osso do pulso — ali, o pulso batia, firme e teimoso, como algo que se recusava a se apagar.
"O livro-caixa está com ele," ela disse.
"Eu sei."
"É a chave para reabrir seu caso."
"Eu sei."
Qin Wangshu levantou-se, colocando o restante da gaze de volta na caixa de primeiros socorros. De costas para ele, sua voz chegou por cima do ombro, carregada de uma suavidade contida: "Então vá buscá-lo. Independentemente do que ele enviou — o que você deve não é a vida dele."
Lu Chenzhou abriu os olhos, observando o sangue que lentamente infiltrava através da gaze. Ele remontou as peças da caneta esferográfica, apertou a tampa e a guardou no bolso.
Do lado de fora da janela, o horizonte começava a ganhar um brilho cinza e pálido.
"Vamos," ele disse.
A porta do escritório de Shen Yanqing estava entreaberta. O aroma suave do sândalo escorria pela fresta, misturado ao amargor de algo queimado, como um circuito elétrico.
Quando Lu Chenzhou empurrou a porta e entrou, Shen Yanqing estava sentado atrás da escrivaninha de madeira de jacarandá, o polegar esquerdo esfregando lentamente um anel de jade. Shen Yan estava de pé perto da janela, os braços cruzados, um sorriso irônico nos lábios.
"Senhor Lu," a voz de Shen Yanqing era suave, como se estivesse comentando sobre o tempo, "entrar em meu escritório coberto de sangue, é isso que você entende por cooperação?"
"O chip da bomba." Lu Chenzhou bateu o minúsculo chip de memória carbonizado na superfície da mesa de sândalo, o metal contra a madeira produzindo um som abafado. "Os atacantes não vieram para matar — vieram para queimar os arquivos antigos guardados aqui no seu escritório."
Shen Yanqing não tocou no chip. Seu olhar pousou sobre ele, as pupilas contraindo-se quase imperceptivelmente.
Shen Yan soltou uma risada de desdém: "Arquivos antigos? Senhor Lu, você invadiu a Shen Yan, feriu meus homens, tudo para contar uma história de fantasma?"
"Você sabe melhor do que ninguém que não é história de fantasma." A voz de Lu Chenzhou aplainou-se, como uma lâmina deslizando para a bainha. "Shen Yan, a ordem para isolar a sala de reuniões foi dada por você. A janela de tempo para a troca de guardas — quarenta e sete minutos. Os atacantes entraram exatamente nessa janela."
"Foi para proteger meu pai—"
"Quarenta e sete minutos," Lu Chenzhou repetiu, o canto esquerdo do olho contraindo-se levemente, "e a hora em que os arquivos do meu caso desapareceram da sala de evidências há dez anos — o mesmo dia, o mesmo horário. Coincidência?"
O ar do escritório pareceu ser sugado para fora.
A
Shen Yanqing recostou-se lentamente na cadeira, girando o anel de polegar uma vez. "Você sabe o que está pedindo?"
"Eu sei."
"Um forasteiro, um — ex-prisioneiro, querendo controlar as defesas de Shen Yan." O tom de Shen Yanqing era como se estivesse avaliando um bule de chá frio de ontem. "Senhor Lu, você me coloca em uma posição difícil."
"Difícil?"
"Se eu recusar, para quem você entregaria o chip? Para a polícia? Para a mídia?" Shen Yanqing sorriu levemente. "A carta que você tem na mão não é tão forte quanto pensa."
Lu Chenzhou não recuou.
"Você não vai recusar," sua voz ficou muito baixa, "porque a bomba não explodiu, o que significa que o atacante voltará. Da próxima vez, não será apenas uma pessoa — e o desempenho do seu filho agora mesmo já provou que ele não consegue defender esta linha."
Shen Yan virou-se bruscamente: "Você—"
"Chega." Shen Yanqing ergueu a mão, e Shen Yan calou-se como se tivesse sido estrangulado.
O velho levantou-se, tirou uma caixa de ébano de uma gaveta. Ao abrir a tampa, dentro havia um cetro esculpido em jade de sebo de carneiro, do tamanho de uma palma, com padrões ocultos de Shen Yan gravados ao longo do corpo.
"O Comando de Segurança de Shen Yan." Shen Yanqing empurrou a caixa para a borda da mesa. "Quem porta este comando tem autoridade para mobilizar todas as forças de segurança de Shen Yan. Desde nossos ancestrais, nunca caiu nas mãos de alguém de fora do clã."
Lu Chenzhou estendeu a mão para pegá-lo.
Assim que a ponta dos dedos tocou o cetro de jade, ele sentiu — na base do cetro havia uma pequena saliência, que não parecia parte do padrão entalhado, mas mais como...
Ele não hesitou, recolhendo o cetro junto com a caixa no peito.
"Agradeço a confiança do Sr. Shen."
"Confiança?" Shen Yanqing sentou-se novamente, o leve sorriso nos lábios tão tênue quanto fumaça. "Senhor Lu, o que você levou não é apenas o Comando de Segurança — você levou uma responsabilidade. Se não conseguir defendê-lo, você estará em uma situação pior do que voltar para a prisão."
Lu Chenzhou virou-se e caminhou em direção à porta.
Atrás dele, a voz calma de Shen Yanqing soou, como se falasse para o ar: "Zhixing, a situação mudou. Ative o terceiro conjunto de planos."
Não houve resposta. Mas os passos de Lu Chenzhou hesitaram por um instante — no escritório estavam apenas ele e os dois Shen, pai e filho. Para quem Shen Yanqing estava falando?
Ele olhou para baixo, para a caixa de ébano em seu peito. A pequena saliência na base do cetro estava levemente quente sob a polpa do seu dedo.
Não era um entalhe.
Era um rastreador.