Capítulo 10: Vestígios Soterrados
O baque abafado da porta do carro cortou a luz cinzenta do exterior. Lu Chenzhou recostou-se no assento, o cheiro do couro subindo, misturado com produto de limpeza e um traço quase imperceptível de acidez. O carro arrancou, fundindo-se suavemente no tráfego esparso da manhã.
O olhar de Lu Chenzhou pousou na janela. O filme escuro filtrava o mundo num verde-escuro turvo; as ruas, os transeuntes, o vapor quente das barracas de café da manhã, tudo se tornava manchas indistintas deslizando em silêncio. Sua mão esquerda ergueu-se inconscientemente, os dedos traçando algumas linhas no ar — '87.11.3'. Essa data, junto com aquela insígnia de cobre gelada, pesava agora, densa, no bolso interno de seu casaco, junto às costelas.
Os detalhes da cena do museu de arte passavam automaticamente em sua mente. A *Noite Estrelada* distorcida, a mão da vítima cerrada, o desgaste sutil na borda da insígnia... e o olhar de Gu Zhixing grudado em suas costas. Aquele olhar tinha peso, como uma gaze encharcada, envolvendo-o camada após camada.
Ele precisava saber de onde exatamente vinha aquela insígnia.
O carro dobrou numa rua velha, ladeada por prédios residenciais construídos nos anos 90, roupas penduradas nas varandas balançando levemente na brisa matinal. Lu Chenzhou falou de repente: "Pare naquela banca de jornais à frente."
O motorista olhou para ele pelo retrovisor, não perguntou, e acionou a seta.
O carro parou no acostamento. Lu Chenzhou abriu a porta e desceu. O dono da banca estava arrumando pilhas dos jornais recém-chegados nas prateleiras. Ele comprou um mapa da cidade e pediu uma garrafa de água. Ao pagar, seu olhar varreu algumas velhas anuários empoeirados no balcão — *Anuários Administrativos da Cidade de Jiang*, de 1995 a 2000, as capas de plástico já amareladas.
O dono ergueu os olhos, examinando-o. "Vendo por quilo, cinco *kuai* o quilo."
Lu Chenzhou puxou o volume de 1997. Era grosso, as bordas das páginas já quebradiças. Folheou rapidamente até o apêndice de "Unidades Culturais Municipais", o dedo deslizando pela lista. Museu de Arte Municipal, Museu Municipal, Arquivo Municipal... Seu dedo parou.
Arquivo Municipal, antigo endereço: 217, Zhongshan North Road. Nota: Transferido para nova sede em 1998, antigo edifício abandonado em 2003.
Ele fechou o anuário e pegou o de 1996. Na mesma posição, o apêndice tinha mais uma linha em letras miúdas: "... no mesmo ano, uma série de insígnias comemorativas foi encomendada e distribuída, numeradas de 001 a 500, para homenagear arquivistas e unidades colaboradoras excepcionais do ano."
"Levo todos." Ele empilhou os anuários e os colocou na balança.
De volta ao carro, as capas ásperas dos anuários roçavam suas pontas dos dedos. Lu Chenzhou abriu a página do apêndice do volume de 1996, fitando aquela linha miúda. Insígnia, numeração, arquivo. Transferido em 1998, abandonado em 2003. Abandonado.
Ele fechou os olhos. O mapa da cidade se desdobrava em sua mente, as ruas se cruzando como vasos sanguíneos. O museu de arte ficava no leste da cidade; o antigo endereço do arquivo, na borda do antigo distrito industrial a oeste, quase uma diagonal. Mas o tempo batia — o ano de distribuição das insígnias, o antigo prédio ainda estava em uso. Se a insígnia vinha de lá, se algo ainda permanecia ali...
Lu Chenzhou parou na entrada de um beco estreito, erguendo o olhar para as profundezas das sombras. A luz da lua não penetrava ali, apenas uma lâmpada de rua quase toda quebrada na esquina distante, piscando intermitentemente, projetando um brilho amarelo breve e doentio. Diante dele havia um edifício de concreto de quatro andares, quadrado, a maioria das janelas sem vidros
A corrente de ferro soltou-se, caiu e bateu na porta metálica com um baque surdo. Lu Chenzhou estendeu a mão rapidamente, segurou-a e a colocou suavemente no chão. Ele empurrou a porta. As dobradiças emitiram um rangido seco, especialmente agudo no silêncio. Ele abriu apenas uma fenda suficiente para entrar de lado, deslizou para dentro e imediatamente deixou a porta entreaberta atrás de si.
O ar era mais denso que lá fora, mais pesado, com uma opressão quase palpável. Ele parou por alguns segundos, deixando os olhos se adaptarem. Em seguida, tirou do bolso uma pequena lanterna em forma de caneta e apertou o botão.
No feixe de luz, inúmeras partículas de poeira dançavam, lentas, densas, como uma tempestade de neve silenciosa. O cheiro de mofo no ar tornou-se instantaneamente nítido, atingindo as narinas, com aquele odor ligeiramente adocicado e decadente, típico de papéis antigos. Sob seus pés, uma espessa camada de poeira se misturava a fragmentos de gesso e detritos desconhecidos. Ele ergueu o pé, o colocou de volta, e a poeira levantou-se levemente, revolvendo-se na luz.
A escuridão engoliu tudo novamente. Mas aqueles poucos segundos haviam sido suficientes para que sua mente delineasse a estrutura geral do espaço — um hall de entrada, de frente para um corredor, com salas de ambos os lados. O interior do edifício estava mais arruinado do que ele imaginara. O teto desabara em vários pontos, expondo vergalhões retorcidos e lajes vazias. Grandes manchas de umidade cobriam as paredes; em alguns lugares, a tinta descolara em placas inteiras, revelando tijolos escurecidos por dentro.
Ele se lembrava do antigo projeto arquitetônico. O Departamento de Gestão de Arquivos deveria estar no lado leste do segundo andar.
Inspirou profundamente. O gosto da poeira arranhou sua garganta, causando uma leve coceira. Ele reprimiu o impulso de tossir, acendeu a lanterna novamente, desta vez abafando a luz com a mão esquerda, deixando escapar apenas um fraco círculo de iluminação. O feixe de luz raspava o chão, iluminando uma pequena área à sua frente. Ele deu um passo, desviando de pedras salientes e armários tombados no chão.
O corredor era longo. A luz da lanterna varreu as portas de ambos os lados — algumas fechadas, outras entreabertas, escuras por dentro. Uma sala estava cheia de estantes de ferro enferrujadas, como o esqueleto de uma besta gigante. O piso de outra sala tinha um grande buraco, com bordas irregulares, revelando uma escuridão ainda mais profunda abaixo. Ele contornou o local; sob seus pés, um leve estalo — ele havia pisado e quebrado uma placa de gesso solta.
O som ecoou pelo edifício vazio, rapidamente absorvido pelo silêncio.
A escada ficava no final do corredor. Degraus de concreto, com bordas danificadas, o corrimão há muito desaparecido. Ele pisou neles, colocando cada pé com firmeza, controlando a força. A poeira deixava pegadas claras nos degraus. A situação no segundo andar era pior. Uma seção inteira do teto do corredor havia desabado, tijolos e gesso formando uma pequena montanha, bloqueando metade do caminho. Ele virou de lado e se espremeu pela estreita fenda entre os entulhos e a parede. O casaco esfregou na superfície áspera da parede, produzindo um som de fricção.
A placa da porta ainda estava lá, um pedaço de plástico desbotado pendurado torto. Das quatro palavras "Gestão de Arquivos", apenas "Arquivos" e "Gestão" ainda eram legíveis. A porta era de madeira, a metade inferior inchada e escurecida pela água, presa na moldura. Ele empurrou, mas ela não se moveu. Ergueu o pé, apoiou-o na parte inferior da porta e aplicou força.
A madeira gemeu sob o peso, abrindo-se lentamente para dentro, formando uma fenda.
A sala era grande, alta. A maioria dos arquivos de metal, originalmente alinhados ordenadamente, estava tombada, caída em todas as direções, como blocos de montar derrubados às cegas por um gigante. Papéis espalhados pelo chão, apodrecendo na
O armário era fundo, dividido em dois níveis. No nível superior, havia várias caixas de papelão rígido tombadas, com as tampas danificadas, revelando envelopes de arquivo amarelados dentro. O nível inferior estava vazio, apenas com alguns pedaços de papel picado e objetos diversos empilhados em um canto. O feixe de luz varreu cuidadosamente as paredes internas. As paredes de metal do armário estavam cobertas de manchas de ferrugem irregulares, de um vermelho profundo e marrom-amarelado, sobrepostas em camadas.
No canto inferior direito da parede interna, perto da junção com o fundo, havia alguns arranhões na madeira. Não eram rachaduras naturais da ferrugem, mas marcas feitas intencionalmente, profundas; mesmo cobertas por ferrugem solta, ainda era possível ver seus contornos claros. Ele se agachou, aproximou-se e usou a manga para varrer a poeira solta e o pó de ferrugem da superfície.
Ele limpou pouco a pouco. O primeiro número: 8. Depois 7. Um ponto. 1. 1. Outro ponto. 3.
Seu coração parou por um instante, para então bater com mais força contra sua caixa torácica. O sangue subiu até seus tímpanos, zumbindo. Era isso. Algo físico, existente no mundo, gravado no ferro. Não era uma memória, não era um relato oral, não era algo que pudesse ser adulterado ou apagado. Estava ali, frio, silencioso, carregando o cheiro metálico da ferrugem.
Imediatamente, ele tirou o telefone do bolso, abriu a câmera e desativou o flash. Mirou para as marcas, ajustou o ângulo e tirou várias fotos em close-up. Deu um passo para trás e fotografou toda a porta do armário e as marcas de arrombamento. A lente aproximou, e os detalhes das marcas de arrombamento ficaram claramente visíveis na tela — os pequenos arranhões deixados pela ferramenta, as rebarbas do metal quebrado.
Depois de fotografar, ele se agachou novamente e examinou cuidadosamente a área ao redor das marcas. Não havia outras indicações. Ele também verificou o chão dentro do armário, vasculhando minuciosamente sob a luz da lanterna. A poeira era espessa, mas perto do interior da porta, no chão, havia algumas impressões borradas.
Não eram suas. As marcas de seus sapatos estavam atrás dele, claras e completas. Essas marcas eram mais superficiais, suas bordas um pouco desfocadas, mas era possível discernir seu contorno geral — o padrão ondulado comum em solas de tênis, de um tamanho ligeiramente maior que seu pé. As impressões eram recentes, sobrepostas à camada uniforme original de poeira; a poeira solta ao redor ainda não havia se assentado completamente para preencher as depressões.
Então, ele estendeu a mão para o nível inferior do armário e mexeu suavemente entre os pedaços de papel picado e os objetos diversos. A ponta dos dedos tocou em algo duro. Pegou: era um pequeno fragmento de plástico azul-escuro, com bordas irregulares, como se tivesse se quebrado de algo. Estava limpo, com pouca poeira. Ele o examinou sob a luz; na parte interna do fragmento de plástico, havia marcas extremamente sutis de um número de molde.
Colocou o fragmento de plástico cuidadosamente em um saco de evidências que carregava consigo, selou-o e guardou no bolso interno. Guardou o telefone e a lanterna nos bolsos. Deu uma última olhada nas marcas gravadas, respirou fundo — o cheiro de queimado no ar parecia mais forte agora, misturado com ferrugem e poeira, pesando em seus pulmões.
Ele se levantou, seus movimentos rápidos e ágeis. Recuou pelo mesmo caminho, passando pelo armário tombado e pela pilha de objetos diversos, atravessou os obstáculos do corredor do segundo andar e desceu as escadas. Cada passo era mais urgente. O tempo estava se esgotando. As marcas de arrombamento eram recentes, as marcas dos sapatos eram recentes; alguém tinha acabado de vir e talvez voltasse. Ou talvez houvesse outra pessoa observando.
Ao voltar ao saguão do primeiro andar, uma fenda na porta dos fundos deixava entrar um fio de luz muito fraca, vindo do poste de luz quebrado à
A mão de Lu Chenzhou baixou, apertando-se lentamente ao lado do corpo. As unhas pressionavam a palma da mão, afundando-se levemente. Ele estava parado no centro do feixe de luz, impossível de se esconder, preso no lugar como um espécime. Atrás dele estava o beco escuro e profundo e o arquivo em ruínas adormecido; à frente, a luz branca ofuscante e o homem que representava a vontade de Shen Yan.
O ar solidificou-se. A lâmpada quebrada ao longe, justo naquele momento, com um chiado, apagou-se completamente.
Restaram apenas os faróis do carro, brancos pálidos, silenciosos, prendendo-o firmemente no centro do círculo de luz.
Lu Chenzhou acabara de sair da sombra densa projetada pelas ruínas do arquivo quando os faróis do carro acenderam subitamente. Os dois feixes de luz eram como barras de aço incandescentes, enfiando-se diretamente em seus olhos. Ele parou, erguendo instintivamente a mão esquerda até a testa para bloquear aquele branco ofuscante. No halo de luz, a poeira flutuava desordenadamente, como um bando de mariposas cinzentas assustadas.
Gu Zhixing empurrou a porta do carro e ficou parado na fronteira entre luz e escuridão. Terno cinza-escuro, óculos de armação dourada, impecável. Atrás dele estava a noite densa e impenetrável; à frente, a única saída daquelas ruínas.
“Senhor Lu.” A voz de Gu Zhixing era estável, sem emoção perceptível. “Por favor, entre no carro.”
O carro entrou numa avenida arborizada. De ambos os lados havia altos plátanos, cujos galhos e folhas, iluminados pelos faróis, projetavam sombras oscilantes, como inúmeras mãos acenando. No final da rua, o contorno da mansão da família Shen emergia na escuridão da noite. Luzes brilhantes, como uma ilha solitária flutuando na superfície de um mar escuro.
Lu Chenzhou recostou-se no assento e fechou os olhos. Por trás das pálpebras, persistia o brilho ofuscante dos faróis e o sorriso de Lin Wei naquela foto. As duas imagens se sobrepunham, dilacerando.
O carro parou diante do portão de ferro fundido. Gu Zhixing desceu primeiro e abriu a porta para ele. O vento noturno entrou, trazendo o cheiro úmido e frio de grama e folhas. Lu Chenzhou saiu do carro, seus sapatos de couro batendo no chão liso de pedra azul polida, emitindo um som claro e seco. A porta principal da mansão estava aberta, e uma luz amarela quente fluía para fora, estendendo um tapete luminoso sobre os degraus.
Shen Moqing o aguardava no estudo.
O estudo era grande, com três paredes de livros do chão ao teto, em nogueira escura. O ar carregava um aroma misto de livros antigos, charutos e cera de madeira cara. Shen Moqing estava de pé diante da janela de vidro, de costas para a porta, olhando para o jardim escuro lá fora. Ele vestia uma camisa chinesa de gola alta cinza-escuro, suas costas eretas como uma espada antiga guardada na bainha.
“Sente-se.” Shen Moqing não se virou.
Lu Chenzhou sentou-se na poltrona de braços em frente à mesa. A cadeira era dura, o assento muito firme. Gu Zhixing recuou silenciosamente até a porta, ficando de pé com as mãos atrás das costas, como uma estátua.
Shen Moqing virou-se. A luz vinha de cima e do lado, projetando sombras profundas sob suas órbitas oculares. Ele caminhou até atrás da mesa e sentou-se lentamente, cruzando as mãos sobre a superfície lisa da mesa de mogno. Seu olhar pousou no rosto de Lu Chenzhou, calmo, analítico, como se estivesse avaliando se uma peça de porcelana recém-entregada tinha rachaduras ocultas.
“O arquivo.” Shen Moqing falou, sua voz não era alta, cada palavra pronunciada com clareza. “Divertido?”
Lu Chenzhou enfrentou seu olhar: “Precisava confirmar pistas.”
“Que pistas?” Shen Moqing inclinou-se levemente para frente. “Uma velha insígnia de mais de trinta anos atrás? Uma data gravada num armário de ferro enferrujado?” Ele fez uma pausa. “Senhor Lu, eu pago para que você encontre o assassino do meu fil
Lu Chenzhou lentamente soltou os dedos. A dor latejante ainda estava na palma da mão. Ele olhou para Shen Moqing, observando aquele tipo de calma nos olhos do outro que parecia compreender tudo e controlar tudo. Não era uma ameaça, era uma afirmação. Eram fichas e pesos colocados sobre a mesa.
"Entendo," disse Lu Chenzhou. A voz estava seca, mas estável. "Vou focar no caso atual."
Shen Moqing olhou para ele por alguns segundos, parecendo avaliar a sinceridade por trás dessas palavras. Então, ele inclinou levemente a cabeça: "Muito bem." Recostou-se na cadeira, sua postura relaxando um pouco. "O advogado Gu o levará de volta. Descanse bem, amanhã quero ver novos progressos no perfil do assassino."
"Sim." Lu Chenzhou levantou-se. As pernas da cadeira rasparam no chão, emitindo um som curto e áspero.
Gu Zhixing abriu a porta do escritório. Lu Chenzhou saiu, sem olhar para trás. O corredor era longo, com retratos a óleo dos antigos mestres da família Shen pendurados em ambos os lados. Aqueles olhos o observavam na penumbra, silenciosos, majestosos, como grades invisíveis.
O carro entrou novamente na noite. O caminho de volta parecia mais escuro, mais silencioso. Gu Zhixing não disse uma palavra durante toda a viagem. Lu Chenzhou olhou para a paisagem urbana borrada que passava rapidamente pela janela, mas sua mente estava excepcionalmente clara — o arquivo enferrujado, as marcas frescas de arrombamento, o "87.11.3" gravado no metal. Cada detalhe estava como se tivesse sido esculpido com uma faca em sua retina.
O carro parou na entrada do antigo bairro onde ele morava de aluguel. Não entrou no beco.
"Até aqui," disse Gu Zhixing.
Lu Chenzhou abriu a porta e desceu. O vento noturno soprou em seu rosto, trazendo o frio do fim do outono. Ele caminhou em direção ao prédio de seis andares cinzento e empoeirado na entrada do beco, seus passos ecoando no vazio do beco. A luz de presença do corredor estava quebrada, a escuridão como tinta espessa transbordando da escadaria.
Ele chegou ao terceiro andar e pegou a chave. Antes de inseri-la na fechadura, sua mão parou.
No puxador da porta, havia algo pendurado.
Uma velha caixa de lápis de metal, com a pintura descascada e as bordas enferrujadas. Presa ao puxador da porta com um fio de arame fino e grosseiramente torcido. A caixa de lápis estava aberta, dentro não havia lápis, apenas um pedaço de papel dobrado em um quadrado.
Lu Chenzhou prendeu a respiração e lentamente removeu o arame. A caixa de lápis era leve em suas mãos, o metal gelado. Ele abriu o papel.
Era uma planta baixa. Uma cópia, com linhas borradas, mas era possível reconhecer a estrutura de andares de um edifício. A planta baixa do antigo prédio do Arquivo Municipal. No canto inferior direito do desenho, alguém havia desenhado um círculo com caneta vermelha, circundando a localização do arquivo subterrâneo. Depois, havia sido queimada com um isqueiro. A borda carbonizada estava encurvada, e aquele círculo vermelho no centro da marca de queimadura parecia um olho injetado de sangue.
No verso do desenho, com a mesma caneta vermelha, estava escrita uma pequena linha:
**"Eles também estão procurando."**
A caligrafia era inclinada, feita com muita força, quase rasgando o verso do papel.
Lu Chenzhou ficou parado no corredor escuro, imóvel. A caixa de metal em suas mãos era gelada e cortante. Ao longe, chegou o som abafado de um ônibus noturno passando, logo se dissipando em um silêncio mortal.
Ele lentamente apertou o desenho em sua mão. O cheiro de queimado entrou em suas narinas.
A ameaça havia escalado. E vinha de outra parte.
Ele se lembrou da sensação, há pouco no arquivo, quando seus dedos tocaram os sulcos gravados na parede interna do arquivo enferrujado. Áspera, fria, real. '87.11.3'. Aquela data era como um prego enferrujado, cravado na tábua do tempo.
E agora, outro prego estava caindo
Lu Chenzhou não respondeu. Seus dedos batiam inconscientemente no joelho, o ritmo lento, como se estivesse contando algo. O mofo do Arquivo ainda grudava no fundo de suas narinas, misturado com o odor metálico de ferrugem. Aquela marca — "87.11.3" — os traços ásperos, queimavam um buraco em sua memória.
O carro entrou em uma alameda arborizada. Os plátanos de ambos os lados tinham folhagem densa, cortando a luz dos postes em fragmentos. O contorno da mansão de Shen Yan emergiu atrás das sombras das árvores, não iluminada por completo, apenas algumas janelas acesas, como olhos semiabertos de uma fera em repouso.
O carro parou na porta lateral. Gu Zhixing desceu primeiro, contornou o veículo e abriu a porta do lado de Lu Chenzhou. O vento noturno invadiu, trazendo o cheiro frio e úmido de grama e folhagem.
Lu Chenzhou desceu. Seus pés pisaram no caminho de cascalho, emitindo um som sutil. A mansão estava muito silenciosa, silenciosa o suficiente para ouvir o coaxar dos sapos do lago distante, e o leve chiado em seu próprio peito ao respirar.
Gu Zhixing o conduziu através de um corredor. Algumas lanternas antigas penduradas sob o corredor, com papel pintado de bambu preto, deixavam a luz transpassar, projetando sombras oscilantes de bambu no chão. Os passos de Lu Chenzhou ecoavam ocos no piso de madeira. Ele notou a velocidade dos passos de Gu Zhixing — sempre meio passo à frente, bloqueando perfeitamente qualquer ângulo para onde ele pudesse se virar.
Gu Zhixing parou diante de uma porta, ergueu a mão e bateu três vezes suavemente. De dentro veio uma voz baixa: "Entre". Gu Zhixing abriu a porta e se afastou para o lado.
O estudo era grande, mas a luz se concentrava apenas no centro. Uma velha luminária de mesa com abajur verde estava sobre a ampla mesa de madeira de jacarandá, alguns documentos espalhados sob sua luz. Shen Yanqing estava sentado atrás da mesa, sua silhueta cortada em claro e escuro pela luz — a parte superior do corpo na luz, o rosto nítido; a parte inferior mergulhada na sombra, como se dissolvida na escuridão.
Sua mão esquerda repousava na borda da mesa, o anel de jadeita no polegar emitindo um brilho verde suave sob a luz. O dedo indicador esfregava o interior do anel, uma vez, outra vez.
"Sente-se," disse Shen Yanqing, o tom calmo, até mesmo com uma suavidade paternal.
Lu Chenzhou não se sentou. Ele ficou parado a dois passos da mesa, seu olhar varrendo a superfície. Além dos documentos, havia uma pasta de arquivo de papel pardo no canto da mesa, a abertura amarrada com linha de algodão, não aberta.
"Shen Xiansheng," Lu Chenzhou começou, sua voz mais firme do que ele esperava, "o advogado Gu disse que o senhor me procurava."
Shen Yanqing ergueu os olhos. Seus olhos pareciam muito brilhantes sob a luz, as profundezas das pupilas tinham uma nitidez examinadora, mas envolta por uma camada de esmalte suave.
"Jingyuan," ele usou o nome cortês de Lu Chenzhou, como se chamasse um jovem da família, "fazê-lo vir tão tarde, obrigado pelo esforço."
Lu Chenzhou não respondeu. Seu olhar caiu no documento ao lado da mão de Shen Yanqing — era uma cópia do "Contrato de Cooperação", as bordas do papel levemente enroladas, obviamente folheadas repetidamente. Uma página estava dobrada no canto, revelando algumas linhas circuladas com caneta vermelha.
Shen Yanqing seguiu seu olhar e sorriu. Ele pegou aquele contrato e o empurrou para a borda da mesa com dois dedos.
Lu Chenzhou deu um passo à frente, inclinou-se. O que a caneta vermelha circulava era o Artigo 4, Cláusula 3: "Durante o período de cooperação, toda ação investigativa da Parte B (Lu Chenzhou) deve limitar-se ao âmbito dos casos designados pela Parte A (Grupo Shen), não podendo investigar por iniciativa própria eventos históricos, pessoas ou pistas associadas não relacionados ao presente caso. Em caso de violação, a Parte A tem o direito de rescindir unilateralmente a cooperação e buscar responsabilização por violação contratual da Parte B."
Abaixo da cláusula havia uma linha de anotação em letras menores: "A responsabilidade por violação inclui, mas não se lim
O coração de Lu Chenzhou deu um salto violento. O sangue subiu aos tímpanos, zumbindo. Ele fitou Shen Yanqing, tentando ler mais naquele rosto – era um teste? Ou ele realmente sabia?
"Aquele incêndio," Shen Yanqing continuou, seu tom tornando-se novamente plano, como se estivesse contando uma história que não lhe dizia respeito, "matou três pessoas. Dois arquivistas e um segurança do turno da noite. A investigação posterior concluiu que foi um curto-circuito devido a fiação antiga, um incêndio acidental. O processo foi arquivado há muito tempo."
Ele recostou-se na cadeira, e as sombras novamente engoliram sua parte inferior do corpo.
"Jingyuan, foi um acidente," ele disse. "Uma tragédia, mas apenas um acidente. Não tem nenhuma relação com o caso que você está investigando agora, nem com a morte do meu filho."
As unhas de Lu Chenzhou cravaram-se nas palmas das mãos. A picada aguda trouxe-lhe um pouco de lucidez. Ele soltou as mãos, deixando várias marcas avermelhadas em forma de meia-lua nas palmas.
"Shen Yansheng," ele começou, a voz um pouco rouca, "se foi apenas um acidente, por que alguém teria gravado aquela data no arquivo? Por que alguém arrombou o armário antes de mim?"
O olhar de Shen Yanqing escureceu. Ele parou de esfregar o anel de polegares, e em vez disso, começou a pressionar suavemente a superfície da jadeita com a polpa do polegar, uma vez, e outra vez.
"Não sei," ele disse, com um tom de indiferença deliberada. "Talvez seja a obsessão de algum sobrevivente. Talvez seja uma brincadeira de mau gosto de alguém posterior. Mas Jingyuan—"
Ele inclinou-se para frente novamente, cruzando as mãos sobre a mesa, ponta dos dedos contra ponta dos dedos.
"— esse não é o seu trabalho." Shen Yanqing disse, baixando a voz, cada palavra parecendo espremer-se por entre os dentes. "O seu trabalho é encontrar o assassino do meu filho. Nada mais."
Um silêncio mortal pairou sobre o estudo. A auréola da luz da lâmpada de mesa formava um círculo perfeito sobre a superfície da mesa de mogno. Além da borda daquele círculo, a escuridão era espessa e impenetrável. Lu Chenzhou conseguia ouvir o próprio coração, pesado e lento, como se alguém batesse em um sino abafado dentro de seu peito.
"Eu entendo," ele finalmente disse, a voz seca.
"Não, você não entende." Shen Yanqing balançou a cabeça. Ele estendeu a mão e pegou a pasta de arquivo de papel pardo no canto da mesa, desamarrou o cordão de algodão, tirou uma foto de dentro e, com a face voltada para baixo, pressionou-a sobre a mesa, deslizando-a até a frente de Lu Chenzhou.
"Olhe para isto," ele disse. "E então me diga se você entende ou não."
Lu Chenzhou fitou a foto. O verso do papel era brilhante, refletindo um leve brilho branco sob a luz. Ele estendeu a mão, as pontas dos dedos tocando a superfície do papel – fria.
A foto era colorida, de alta resolução. A cena mostrava o jardim de um condomínio residencial, no crepúsculo, com as sombras dos prédios alongadas pelo sol poente. Uma mulher vestindo um casaco de malha cinza-claro passeava com um cachorro marrom. Ela estava de perfil para a câmera, o cabelo preso solto atrás da cabeça, revelando um pescoço alvo. Ela estava com a cabeça baixa, olhando para a tela do celular, um leve sorriso nos lábios.
Sua ex-esposa. A mulher que ele não via há dez anos, mas para cuja conta ele transferia dinheiro anonimamente todo mês.
No canto inferior direito da foto havia um carimbo com data e hora: ontem, 17:47. O local da captura indicava "Binjiang Yayuan" – o condomínio onde Lin Wei morava agora, a duzentos quilômetros dali.
A mão de Lu Chenzhou começou a tremer. Levemente, mas ele não conseguia controlar. A foto tremulava entre seus dedos, o papel fazendo um leve ruído de atrito. Ele ergueu o olhar para Shen Yanqing.
Shen Yanqing também o observava.
Lu Chenzhou fechou os olhos. Na escuridão, aquela foto ainda queimava em sua retina — o sorriso de Lin Wei, a luz do pôr do sol e aquele cachorrinho marrom. Ele se lembrou do dia, dez anos atrás, em que assinou os papéis do divórcio, quando Lin Wei, com os olhos vermelhos, disse “Lu Chenzhou, eu te odeio” e foi embora sem olhar para trás. Ele se lembrou de todas as noites de insônia ao longo desses dez anos, nas quais sobrevivia imaginando se ela estava bem.
"Eu entendo." Lu Chenzhou abriu os olhos, sua voz tão calma que até a ele soou estranha. "Vou me concentrar no caso de Shen Yan. O caso antigo... não vou mais mexer nele."