Capítulo 71: Uma Luz no Quarto Escuro
Depois que a Sra. Wu saiu com seus homens, a porta do quarto de hóspedes foi fechada novamente.
O som da fechadura foi nítido, gélido.
Lu Chenzhou ficou de pé diante da janela, observando a figura em azul-marinho desaparecer no crepúsculo no final do caminho, lá embaixo. Aquele aceno silencioso final de Shen Qinghuan foi como uma pedra lançada num lago profundo, as ondulações rapidamente engolidas pela densa escuridão da noite. Ele retirou o olhar, virou-se e percorreu o quarto com os olhos.
Os vestígios da busca estavam marcados em todos os lugares. A gaveta estava puxada, deixando uma fenda de um palmo de largura, o ângulo da porta do armário entreaberta diferia três graus da sua memória, a posição da dobra do lençol havia se deslocado dez centímetros para cima. Os homens da Sra. Wu foram profissionais, não deixando uma bagunça visivelmente revolvida, mas cada pequeno deslocamento era como um aviso gravado com a ponta de uma faca: você não tem privacidade aqui, nem segurança.
Ele caminhou até a escrivaninha, os dedos deslizando sobre a superfície da mesa. A poeira foi esfregada, deixando um rastro claro e pálido.
Esperar.
O tempo rastejava no silêncio, cada segundo carregando peso. A escuridão lá fora havia descido por completo, as luzes internas da Mansão Shen acendendo-se em sequência, projetando no jardim manchas de luz cruzadas e rígidas. Ao longe, chegava vagamente o som de passos da patrulha de guardas, regulares, pesados, o baque abafado das solas das botas esmagando cascalho, como o pêndulo de algum relógio mecânico, medindo as dimensões da prisão que era esta mansão.
Nove e quinze.
Do corredor, do lado de fora da porta, vieram passos extremamente leves – não o baque abafado das solas de botas dos guardas, mas o leve sussurro de solas de tecido deslizando no chão. Os passos pararam diante da porta, uma pausa de três segundos, o tempo de três batidas cardíacas, e então soaram duas batidas curtas e uma longa – o sinal combinado.
Lu Chenzhou foi até a porta, mas não a abriu imediatamente.
“Quem é?” Sua voz estava baixa, a maçã do pescoço quase imóvel.
“Lanche noturno.” A voz de Shen Qinghuan espremeu-se pela fresta da porta, tensa, com um tremor quase imperceptível, como uma corda esticada ao limite.
Ele puxou a tranca.
Shen Qinghuan entrou rapidamente de lado, segurando uma bandeja, e com as costas da mão empurrou a porta para fechá-la suavemente, seus movimentos rápidos como os de um pássaro assustado. Na bandeja havia uma tigela de mingau branco e dois pratinhos de acompanhamentos, a borda da tigela de porcelana ainda exalando um leve vapor quente. Mas os nós dos dedos dela que seguravam a bandeja estavam brancos, as pontas dos dedos geladas, quase translúcidas, e quando tocaram a mão de Lu Chenzhou que se estendeu para pegar a bandeja, aquele tremor sutil e contínuo foi transmitido sem obstáculos.
Lu Chenzhou pegou a bandeja e a colocou sobre a mesa. Ao se virar, Shen Qinghuan já havia recuado até a parede, suas costas pressionadas firmemente contra a superfície gelada, seu peito subindo e descendo violentamente, cada respiração curta e entrecortada.
“Tem alguém lá fora?” ele perguntou, seu olhar varrendo a sombra sob a fresta da porta.
“A Sra. Wu… A Sra. Wu estava falando com os guardas no topo da escada há pouco.” A voz de Shen Qinghuan era extremamente baixa, a velocidade quase formando um fluxo contínuo, como se temesse ser subitamente interrompida por uma mão invisível. “Usei a desculpa de trazer o lanche noturno. Ela disse… disse que o senhor ordenou que o Sr. Lu precisa de repouso, que eu entregasse e descesse, sem ficar. O guarda… o guarda olhou para mim, aquele olhar…”
"Eu... não sei." Shen Qinghuan balançou a cabeça, a voz trêmula. "Ele só disse 'todos os homens disponíveis'. Mas ouvi ele gritar no telefone depois, dizendo 'faça os homens de Zhao Tieshan se moverem também, nas três principais estradas da Zona Norte, bloqueiem cada cruzamento'. Senhor Lu, Zhao Tieshan... é aquele Zhao Tieshan que controla o transporte do cais?"
Os olhos de Lu Chenzhou escureceram. Gu Zhixing até mobilizara os homens de Zhao Tieshan. Isso significava que a escala da caçada ultrapassava em muito uma questão pessoal, já envolvendo os tentáculos de Shen Moqing na zona cinzenta local. A probabilidade de Zhou Zhengping estar encurralado estava subindo exponencialmente.
"E mais alguma coisa?" ele perguntou.
"Mais..." a voz de Shen Qinghuan de repente engasgou. Ela baixou bruscamente a cabeça, olhando para a barra do seu avental. Na borda do algodão azul-marinho, um rasgo limpo e abrupto cruzava ali, com cerca de cinco centímetros, como uma ferida feia, revelando o forro branco por dentro. "A garagem... na sala de ferramentas da garagem à tarde, quando me escondi, estava com muita pressa. A borda do avental ficou presa num gancho de ferro da estante. Talvez... talvez tenha caído um pedacinho do tecido, ou um fio, pendurado naquele gancho."
Ela ergueu a cabeça, os olhos instantaneamente vermelhos, lágrimas acumulando-se nas pálpebras, prestes a cair. "Senhor Lu, se eles revistarem a sala de ferramentas cuidadosamente e encontrarem aquele pedaço de tecido... mesmo que seja só um fio..."
"Vão identificar as empregadas mulheres dentro da mansão Shen." Lu Chenzhou completou a frase, sem qualquer emoção na voz, apenas uma afirmação gelada. "Avental de algodão azul-marinho, fornecido uniformemente pela mansão. A Sra. Wu será a primeira a ser interrogada, depois você, e todas as outras que possam ter tido acesso à garagem. Eles vão comparar as fibras, inspecionar o avental de cada uma."
A respiração de Shen Qinghuan subitamente acelerou, como se uma mão invisível lhe apertasse a garganta. Ela levou a mão à boca, os ombros começando a tremer incontrolavelmente, um soluço reprimido escapando por entre os dedos, frágil e desesperado.
Lu Chenzhou a observou, vendo-a esmagada pelo medo. No quarto, só havia o som de sua respiração ofegante reprimida, e o ruído ocasional e distante de motores de carros passando lá fora, turvo como um ruído de fundo insignificante vindo de outro mundo.
Alguns segundos de silêncio. Ele caminhou até a escrivaninha, abriu a gaveta vazia — os homens da Sra. Wu à tarde haviam levado até canetas e blocos de notas, não deixando nem um traço. Ele ficou em silêncio por um momento, curvou-se, os dedos explorando uma fenda estreita na parte interna da perna da mesa, a ponta dos dedos tocando um pequeno cilindro áspero. Puxou para fora: era um toco de lápis, pouco maior que uma unha, que ele havia deixado cair ali sem querer alguns dias antes. Arrancou então um canto em branco do papel que forrava a bandeja, as bordas irregulares.
De costas para Shen Qinghuan, usou aquele toco de lápis lamentavelmente curto para escrever rapidamente algumas palavras no pedaço de papel. O som da ponta raspando na superfície áspera do papel amplificou-se infinitamente na sala morta, claro e agudo.
Terminando, dobrou o papel ao meio, e depois novamente, formando um pequeno cubo duro, com bordas afiadas. Então virou-se e caminhou até Shen Qinghuan. Ela não ergueu a cabeça, os ombros ainda tremendo levemente de forma incontrolável, lágrimas pingando no avental azul-marinho, formando manchas circulares mais escuras.
"Ouça bem." Lu Chenzhou falou, a voz muito baixa, mas cada palavra como um prego temperado a fogo, cravando-se uma a uma no ar espesso entre eles. "Primeiro, depois de voltar, livre-se deste avental imediatamente. Queime-o completamente, esmague as cinzas, jogue no ralo, não deixe qualquer resíduo visível."
Shen Qinghuan ergueu bruscamente a cabeça
Shen Qinghuan não pegou o pedaço de papel. Ela olhou fixamente para Lu Chenzhou, lágrimas fluindo continuamente, abrindo dois caminhos brilhantes e molhados em seu rosto pálido. "Não... isso não pode! Você vai ser—eles vão fazer com você—"
"Isso é o que eu te devo." Lu Chenzhou a interrompeu, sua voz baixa, mas como uma pedra pesada e encharcada de água gelada, caindo no espaço estreito entre eles, desencadeando uma explosão silenciosa. "Eu me aproveitei de você, arrastei você para esta situação. O risco final deve ser assumido por mim."
Ele pegou a mão fria e trêmula de Shen Qinghuan, enfiou o pedaço de papel em sua palma, depois fechou seus dedos e apertou com força. Sua palma estava seca e quente, um contraste cruel com o frio de suas pontas dos dedos. "No papel está a localização da chave reserva da fechadura mecânica da porta dos fundos, e a outra coisa que você precisa fazer. Leia, memorize, queime. Não confie na sua memória, queimar é a única garantia."
Os dedos de Shen Qinghuan tremiam violentamente em sua palma, mas finalmente se fecharam com força, agarrando o pedaço de papel duro, como se agarrassem o último fio de esperança. Ela olhou para Lu Chenzhou, seus lábios se movendo intensamente, parecendo ter inúmeras palavras presas em sua garganta, mas nenhuma sílaba conseguia sair, apenas lágrimas quentes escorrendo silenciosamente.
"Agora, respire fundo." Lu Chenzhou soltou sua mão, deu um passo para trás, sua voz retomando aquele ritmo suave, preciso, quase frio. "Ajuste sua expressão, pegue a bandeja, e saia por esta porta como sempre faz. Não corra, não olhe para trás, não faça nenhum movimento que chame atenção. Você veio trazer o lanche da noite, só isso."
Shen Qinghuan fechou os olhos, respirou forte e profundamente algumas vezes, seu peito subindo e descendo violentamente, como alguém prestes a se afogar emergindo à superfície. Quando os abriu novamente, o pânico quase transbordante em seus olhos havia sido forçadamente reprimido por uma vontade poderosa, substituído por uma calma quase entorpecida e vazia. Ela ergueu a mão, esfregou o rosto com a manga, a pele ficando vermelha pelo atrito do tecido áspero. Então se virou, pegou a bandeja já morna sobre a mesa, seus dedos ainda frios, mas não mais tremendo.
Ao chegar à porta, ela parou, de costas para ele, sem se virar.
"Sr. Lu." Sua voz era muito baixa, leve como um suspiro, mas carregada de uma determinação que cortava a retirada. "Você... tem que sair vivo."
Dito isso, ela abriu a porta, saiu de lado, seus movimentos tão firmes que pareciam rígidos. A porta foi fechada suavemente, o som da fechadura soando novamente, nítido e decisivo.
Lu Chenzhou ficou parado, imóvel, ouvindo o som de arrastar das solas de tecido dos sapatos do lado de fora da porta se afastando gradualmente, o ritmo indo de lento a...
Após o leve ruído da porta se fechando, o silêncio desceu como uma entidade sólida, pesando sobre suas omoplatas.
Ele permaneceu onde estava, sem se mover.
O coração batia firme e pesado em seu peito, cada batida como uma contagem regressiva. Zhou Zhengping estava no norte da cidade, no antigo armazém da "Fábrica Têxtil Estrela Vermelha". Gu Zhixing havia mobilizado homens, bloqueando a área norte. Quanto tempo o velho Zhou poderia aguentar? Uma hora? Duas? Ou já estava cercado por pesados passos, preso pelo feixe de luz de uma lanterna atrás de uma máquina enferrujada, cada respiração carregada de cheiro de ferrugem e sangue?
Ele caminhou até a escrivaninha, abriu a gaveta.
Estava vazia. A busca da Sra. Wu à tarde havia levado tudo que poderia ser usado como ferramenta — caneta, clipes de papel, até mesmo aquele pesado caderno de capa dura. Ele ficou em silêncio por um momento, então estendeu a mão para debaixo da mesa. Seus dedos vasculharam cuidadosamente as junções das tábuas de madeira, a pele esfregando contra farpas ásperas, finalmente tocando uma pequena saliência.
Era um pequeno entalhe que ele fiz
**Segundo passo:** Após a queda de energia, ativar o modo mecânico de reserva da fechadura eletrônica da porta dos fundos. A transição leva trinta segundos e dispara um alarme. A sala de controle central receberá um alerta de "Falha Elétrica - Modo de Reserva Ativado". A equipe de manutenção será despachada para a abertura de inspeção, desviando parte da atenção dos guardas. Janela de oportunidade: do momento da queda de energia até a chegada da equipe de manutenção, estimada em dois a três minutos. Durante esse período, um dos guardas da porta dos fundos pode ser destacado para verificar a sala do quadro de força. O som de passos será apressado, ecoando pelo corredor vazio.
**Terceiro passo:** Aproveitar esses trinta segundos e a breve janela de confusão antes da chegada da manutenção. Descer da janela do quarto para o canteiro de flores, atravessar os arbustos e chegar à porta dos fundos. A fechadura mecânica requer uma chave, mas Shen Qinghuan mencionou que a chave reserva da fechadura mecânica da porta dos fundos fica pendurada na parede do depósito da ala oeste – foi algo que ela viu por acaso ao buscar ferramentas de limpeza. A chave ainda estará lá? Desconhecido. O depósito está trancado à noite? Desconhecido. O som do trinco se soltando, no silêncio, será como um tiro.
**Quarto passo:** Pegar a chave, abrir a porta dos fundos, desaparecer na noite do outro lado do muro. Haverá homens de Gu Zhixing esperando do lado de fora do muro? Desconhecido. O vento noturno imediatamente encherá a gola da camisa, trazendo o frio do início do outono e o leve odor ácido e pútrido vindo da área industrial distante.
Cada passo era construído sobre premissas frágeis, como pendurar uma rocha gigante com fios de teia de aranha.
**Premissa Um:** O curto-circuito conseguiria causar um desarme bem-sucedido, em vez de simplesmente queimar os fios ou iniciar um incêndio, atraindo uma busca completa. As chamas surgiriam primeiro pelas frestas da abertura de inspeção, trazendo o fedor acre de plástico queimado.
**Premissa Dois:** Após a queda de energia, os guardas da porta dos fundos seguiriam o protocolo indo verificar a sala do quadro de força ou a abertura de inspeção, em vez de permanecerem rigidamente em seus postos. Seus rádios crepitariam, transmitindo ordens, o tom carregado de irritação pela interrupção.
**Premissa Três:** Shen Qinghuan conseguiria, sem levantar suspeitas, pegar a chave reserva do depósito com antecedência, ou pelo menos confirmar que ela ainda estava no lugar. O chaveiro tilintaria, especialmente claro no silêncio do depósito.
**Premissa Quatro:** Zhou Zhengping conseguiria aguentar até ele chegar ao norte da cidade. A respiração do velho Zhou ficaria cada vez mais superficial, o sangue se infiltrando nas rachaduras do piso de concreto, coagulando em manchas marrom-escuras.
**Premissa Cinco:** Gu Zhixing não teria disposto um segundo círculo de cerco ao redor da Mansão Shen. Carros pretos ficariam parados silenciosamente na esquina, os vidros abaixados pela metade, a ponta vermelha de um cigarro brilhando e se apagando na escuridão.
A ponta dos dedos de Lu Chenzhou torcia inconscientemente aquele pedaço de fio de cobre. O fio se curvava e se enrolava entre seus dedos, deixando marcas pálidas e brancas, como se estivesse simulando o caminho da corrente elétrica. Sua respiração era estável, mas os vasos sanguíneos nas têmporas pulsavam levemente, como se algo estivesse batendo por dentro, uma vez, e outra vez, com um ritmo preciso e implacável.
O custo.
Se falhasse, Shen Qinghuan seria imediatamente exposta pelo sumiço da chave ou por ações anormais. A Sra. Wu e Gu Zhixing não lhe dariam chance de se explicar. O melhor resultado seria se tornar a próxima "Wu Shufen", "sob cuidados" em
Ele precisava da cooperação de Shen Qinghuan novamente. Não era apenas pegar a chave, mas também que ela fornecesse uma "distração" nos minutos após a queda de energia — um evento plausível que pudesse temporariamente atrair a atenção dos guardas ou da sala de monitoramento. Por exemplo, "acidentalmente" derramar uma panela de sopa quente na cozinha, acionando o alarme de fumaça, fazendo com que o som estridente rasgasse a calma da noite; ou "ter um ataque súbito" no corredor da ala oeste, gritando por socorro, fazendo com que passos e vozes de perguntas se fundissem em um breve redemoinho de caos. Isso exigia que ela arriscasse novamente, apostando sua segurança já precária na mesa de jogo, levando sua atuação, coragem e sorte ao limite. Sua voz precisava ser suficientemente alarmada, suficientemente real, para enganar aqueles veteranos acostumados a todos os tipos de truques.
E ele já havia prometido assumir toda a responsabilidade. Aquelas palavras "Isto eu devo a você" ainda pairaram no quarto, com a aspereza de um papel cortando a garganta, com aquele brilho de lágrimas incrédulas que surgiu instantaneamente em seus olhos. Uma promessa era uma âncora, prendendo firmemente os destinos dele e de Shen Qinghuan no mesmo barco. Não importava se a frente era tempestade ou recifes ocultos, se afundassem, seria o barco dos dois juntos, a água do mar inundando o porão, gelada e penetrante.
Ele se levantou e caminhou até o centro do quarto.
Fechou os olhos e começou a última simulação mental.
Da beira da cama até a janela, três passos. O assoalho rangeria levemente. Abrir a janela, a trava tinha ferrugem leve, girar faria um leve "rangido", amplificado no silêncio. Atravessar o parapeito, corpo suspenso, os pés a cerca de quatro metros do chão. O vento noturno envolveria o corpo imediatamente, levando o calor corporal. Ao aterrissar, dobrar os joelhos para amortecer, o som deveria ser suave, como um gato. O solo do canteiro era macio, mas os galhos de azevinho eram resistentes, atravessá-los faria um ruído de farfalhar, teria que ser feito durante o intervalo dos cães de patrulha — Shen Qinghuan disse que o tempo de passeio dos cães era dez minutos antes e depois da hora cheia, o próximo seria às dez. Latidos viriam à distância, baixos, cheios de ameaça. A trilha de pedras... contornar os pontos cegos da câmera... o ângulo e profundidade da inserção do fio de cobre na abertura de manutenção, tinha que garantir contato bom sem emperrar, as pontas dos dedos sentiriam o frio do metal e a oleosidade da graxa...
Imagens passavam quadro a quadro, claras como uma gravação cirúrgica, cada quadro anotado com tempo, distância, coeficiente de risco e as cenas que poderiam surgir em caso de falha: o rosto iluminado pelo feixe de uma lanterna, a sombra de um cão saltando, o grito agudo de um alarme.
Então a cena mudou: o rosto pálido de Shen Qinghuan, os dedos trêmulos. O calor escaldante quando as chamas consumiam o avental azul-marinho, iluminando o contorno de seu rosto, fazendo seus olhos vermelhos brilharem como carvão em brasa, o fogo saltando e contraindo em suas pupilas. Ao longe, na oficina enferrujada do armazém abandonado no norte da cidade, Zhou Zhengping encolhido nas sombras, ouvindo os passos se aproximando cada vez mais, os dedos pressionando o ferimento no abdômen, sangue vazando por entre os dedos, pingando no chão de concreto coberto de poeira, cada gota formando uma pequena cova escura...
A simulação mental parou.
Lu Chenzhou abriu os olhos, suas pupilas sem qualquer emoção, apenas um foco gelado, como um bisturi alinhado com a lesão, a lâmina já tocando a pele, capaz de sentir a pulsação dos vasos sanguíneos sob ela.
O plano tinha um esboço. Um golpe arriscado que explorava as falhas do próprio sistema antigo da Mansão Shen, uma aposta que transformava o caos em oportunidade. O preço era claro: o risco de exposição dele e de Shen Qinghuan aumentava exponencialmente, a aliança era soldada firmemente por essa culpa compartilhada e irrevogável, sem mais retorno.
Ela trancou a porta por dentro, deslizou até o chão com as costas apoiadas na madeira gelada, respirando ofegante. Os dedos ainda tremiam, completamente fora de controle, como se fossem criaturas vivas desprendidas do corpo. Ela enfiou a mão no bolso do avental, tocando...