Capítulo 57: Sombra e Profundezas
A escuridão no beco era como tinta espessa, envolvendo as pessoas e puxando-as para baixo. Lu Chenzhou caminhava rente à parede, seus passos engolidos pelo rugido distante de um caminhão de limpeza. Um músculo no canto de seu olho esquerdo pulsou levemente, como se tivesse sido picado por uma agulha fina. A mensagem de Qin Wangshu ainda estava gravada em sua retina – «O lugar de sempre». Três palavras, sem calor.
A antiga fábrica têxtil abandonada no norte da cidade.
Ele deu quatro voltas. A primeira para observar o perímetro, a segunda para verificar os pontos altos, a terceira para ouvir os sons, e só na quarta ele entrou pelo buraco na parede traseira da sala da caldeira. O cheiro de ferrugem misturado com o odor de mofo de algodão antigo invadiu-o de repente. A luz do sol entrava obliquamente pelo telhado que havia desabado pela metade, iluminando bilhões de partículas de poeira dançando no ar. Elas giravam, subiam, desciam, como uma avalanche silenciosa e interminável em miniatura.
Qin Wangshu estava parada sob uma viga de concreto quebrada.
Ela não estava usando seu uniforme policial, apenas um casaco cinza-escuro, jeans, e o cabelo preso em um rabo de cavalo apertado. As mãos estavam nos bolsos, mas Lu Chenzhou viu suas omoplatas levemente tensionadas – uma postura de quem está sempre pronto para sacar uma arma ou se virar. Seu olhar varreu-o como um holofote, pousando primeiro em seu rosto, depois deslizando para o buraco atrás dele, e finalmente retornando para suas mãos.
“A coisa.” Ela disse. A voz era baixa, mas cada palavra era dura.
Lu Chenzhou não se moveu. Ele tirou de dentro do casaco um envelope de papel pardo, a abertura selada com três voltas de fita adesiva transparente. Ele não o entregou, apenas o segurou no ar entre os dois. “Relatório de correspondência de DNA de Shen Yan, cópia. Comparação de fibras da cena, linha do tempo deduzida para o motivo. A cadeia lógica é sólida.”
Qin Wangshu encarou o envelope como se estivesse olhando para uma cobra enrolada. “O original?”
“Está em um lugar seguro.” Lu Chenzhou disse. “Capitã Qin, o que eu quero não é que você o aceite. O que eu quero é que você o use – para forçar a abertura de uma revisão do caso da ‘falsa confissão’ daquele ano.”
As partículas de poeira no ar pareceram parar por um instante.
Qin Wangshu apertou os lábios. Finalmente, ela estendeu a mão, mas seus dedos pararam a um centímetro do envelope. “Jingyuan.” Ela usou seu nome de cortesia, e a casca profissional em sua voz rachou um pouco. “O vento mudou agora.”
O polegar de Lu Chenzhou esfregou inconscientemente a borda do envelope. A textura áspera do papel era sentida através do papel pardo. “O vento nunca esteve certo.”
“O departamento formou um grupo de trabalho para revisar o caso.” Qin Wangshu falou mais rápido, como se estivesse recitando um comunicado obrigatório. “Focado no processo de extração da sua ‘confissão’ daquele ano. O material da denúncia… é muito ‘profissional’. Tem registros de temperatura e umidade da sala de interrogatório da época, análise da pressão da caneta nas assinaturas, até mesmo ‘questionamentos razoáveis’ sobre os carimbos de tempo das câmeras quando você foi levado da detenção.”
Seu olhar caiu em seu rosto, como se procurasse por algum vestígio. “Eles encontraram uma nova ‘testemunha’. Um policial auxiliar que cuidava da segurança periférica na época, agora se manifestou dizendo que ouviu você ‘ter um colapso emocional e pedir para confessar’ na sala de interrogatório.”
A respiração de Lu Chenzhou era muito leve. Tão leve que era quase inaudível. Mas a contração no canto do olho esquerdo começou de novo, uma vez, duas, como um ponteiro de segundos quebrado. “Policial auxiliar.” Ele repetiu a palavra, a voz plana como medida por uma régua. “Nome?”
“Não posso dizer.” Qin Wangshu balançou a cabeça.
“Não quero que você acredite.” Lu Chenzhou falou palavra por palavra, cada uma como um prego sendo cravado. “Quero que você aja. Use sua autoridade, puxe os arquivos de todos que lidaram com o caso naquela época. Especialmente aquele ‘policial auxiliar’ que surgiu do nada. Verifique seus registros bancários nos últimos dez anos, suas relações sociais, se de repente apareceu alguma ‘gorjeta’ extra recentemente.” Ele fixou os olhos nos dela. “Você consegue fazer isso. Desde que ainda queira saber quem foi que apertou o botão de gravação na sala de interrogatório naquele dia.”
As pupilas de Qin Wangshu se contraíram.
Botão de gravação. Aquele fantasmagórico, nunca encontrado “substituto do morto”. Era como um espinho, cravado no coração de todos que sabiam.
Sua mão finalmente se estendeu por completo e agarrou o envelope de documentos. Mas com muita força, os nós dos dedos ficaram brancos. “Vou ficar com isso. Vou dar uma olhada.” Ela disse, a fala rápida e urgente, como se estivesse com pressa. “Mas não posso te dar nenhuma promessa. O grupo de reavaliação já foi ativado, sua identidade agora é ‘suspeito relacionado’, não consultor. O vice-chefe Zhao pode a qualquer momento…”
Antes que terminasse a frase.
De fora do galpão, veio o rangido de pneus sobre cascalho. Mais de um veículo.
A expressão de Qin Wangshu mudou instantaneamente. Ela virou a cabeça bruscamente para olhar pela abertura na madeira, a mão já pressionando a parte inferior das costas – onde havia uma protuberância, o formato de um coldre. Lu Chenzhou foi mais rápido que ela, ele se escondeu atrás de uma viga de concreto, o olhar varrendo o buraco no telhado, as janelas laterais e a porta de ferro semi-destruída ao longe.
O som do motor parou.
Som de portas abrindo e fechando. Passos de sapatos de couro no chão de concreto, desordenados, mas ordenados. Pelo menos cinco ou seis pessoas.
“Você trouxe cauda.” Disse Lu Chenzhou, a voz fria como gelo.
“Impossível.” Qin Wangshu cerrou os dentes. “Eu dei uma volta…”
“Ou,” Lu Chenzhou a interrompeu, “você sempre foi a cauda.”
Essas palavras foram muito pesadas. Tão pesadas que Qin Wangshu congelou por um instante. Ela virou-se para olhar para ele, algo em seus olhos se quebrou – talvez confiança, talvez algum equilíbrio que ela vinha mantendo à força. “Lu Chenzhou.” Ela o chamou pelo nome completo pela primeira vez. “Se eu quisesse te prender, não escolheria este lugar, não viria sozinha.”
Os passos se aproximavam.
Já era possível ouvir vozes baixas conversando, uma voz grossa dando ordens: “Grupo Um, vigie o lado leste. Grupo Dois, dê a volta por trás. Grupo Três, venha comigo. Atenção, o alvo pode estar armado, mas evitem ao máximo usar armas de fogo, queremos vivo.”
Era a voz de Zhao Tieshan.
A espinha dorsal de Lu Chenzhou se endireitou, como uma barra de aço comprimida ao limite e que de repente se solta. Ele rapidamente examinou o entorno – o buraco estava muito longe, as janelas tinham grades de ferro, fora da porta de ferro era área aberta. A única cobertura eram essas vigas de concreto e máquinas abandonadas jogadas de qualquer jeito.
Ele olhou para Qin Wangshu.
Ela também olhava para ele. Entre eles havia um feixe de luz inclinado, a poeira revolvia dentro, como uma miniatura de tempestade de areia. Seus lábios se moveram, sem som, mas o formato da boca era claro:
**Vá embora.**
Então ela se virou e, em direção aos passos que se aproximavam, foi ao encontro deles ativamente. Suas costas estavam eretas, mas Lu Chenzhou viu que sua mão, ao lado do corpo, fez discretamente um gesto – três dedos curvados, o indicador apontando para o monte de destroços de máquinas de fiar enferrujadas no fundo do galpão.
Era um código que eles usavam muitos anos atrás, quando ainda estavam na mesma equipe: **Há uma rota de fuga, mas é perigosa.**
Os passos já estavam batendo na porta de ferro.
A voz pot
Ele não estava usando o uniforme policial, apenas um casaco cinza-escuro com o zíper aberto até o peito. Seu rosto parecia mais escuro sob a luz fraca da fábrica, mas seus olhos eram brilhantes, como dois botões de latão velho polidos. Atrás dele, seguiam quatro policiais jovens, todos à paisana, mas sua postura e olhares não conseguiam se esconder.
"Capitã Qin." Zhao Tieshan falou primeiro, sua voz baixa, carregada de um tom formal e educado. "Que coincidência."
O pomo de Adão de Qin Wangshu moveu-se levemente. "Comandante Zhao." Sua voz soou um pouco seca. "Eu..."
"Recebemos uma denúncia de que havia pessoas suspeitas agindo por aqui." Zhao Tieshan a interrompeu, seu olhar se voltando para Lu Chenzhou. "Não esperava encontrar o consultor Lu. Muito menos a Capitã Qin também."
Enquanto falava, sua mão direita tirou um documento dobrado do bolso interno do casaco. O papel se abriu com um som agudo e seco, especialmente penetrante no vazio da fábrica. O cheiro de ferrugem e poeira no ar parecia se tornar mais denso com aquele som.
Lu Chenzhou olhou para o documento. Letras pretas sobre papel branco, com o cabeçalho vermelho do Departamento Municipal no topo. A distância era um pouco grande para ver o conteúdo específico, mas o carimbo vermelho brilhante no canto inferior direito parecia uma gota de sangue.
"Lu Chenzhou." Zhao Tieshan leu seu nome, pronunciando cada sílaba com clareza. "De acordo com o Artigo 117 do Código de Processo Penal, você está sendo notificado legalmente para cooperar com nossa investigação sobre pistas relacionadas à série de casos de imitação do 'Assassino do Espelho'. Por favor, entregue todos os materiais de investigação privados, dados eletrônicos, cópias de evidências físicas e qualquer informação sobre o caso obtida por meios não oficiais relacionados a este caso."
Ele fez uma pausa, acrescentando: "Esta é uma notificação, não uma discussão."
Lá fora, vindo da fábrica, o som baixo de motores em marcha lenta chegava vagamente. Mais de um carro. Os ouvidos de Lu Chenzhou captaram o som suave de portas sendo fechadas, leve, mas ocorrendo quatro vezes seguidas. O cerco já estava fechado.
Qin Wangshu moveu-se meio passo à frente, colocando-se entre Lu Chenzhou e Zhao Tieshan. "Comandante Zhao, Lu Chenzhou atualmente é consultor de casos do Grupo Shen Yan. Os materiais em seu poder são resultados de trabalho, de acordo com o contrato..."
"Qin Wangshu." A voz de Zhao Tieshan tornou-se mais grave. "Sua identidade atual é vice-comandante do Departamento Municipal de Investigação Criminal. Sua responsabilidade é cooperar com a execução de deveres oficiais, não explicar em nome de suspeitos."
As três palavras — "suspeito" — entraram no ar como três pregos.
Lu Chenzhou finalmente se moveu. Ele colocou a porca de volta no bolso, o movimento lento. "Comandante Zhao." Disse ele, sua voz tão calma que nenhuma emoção era perceptível. "A parte principal dos materiais, como resultados de trabalho em fase, foi submetida ao cliente, o Grupo Shen Yan, de acordo com o contrato, na tarde de ontem. Se você precisar, pode solicitar legalmente ao Grupo Shen Yan. A parte que retive pessoalmente," ele fez uma pausa, "não envolve o núcleo do caso e pertence ao âmbito de anotações pessoais, protegidas por lei."
"Protegidas por lei?" Zhao Tieshan riu, os cantos de sua boca se puxando em uma curva sem calor. "Lu Chenzhou, você está falando de lei comigo?"
Ele deu um passo à frente. Seus sapatos de couro esmagaram um pedaço solto de reboco, levantando poeira. "Sua identidade atual é de ex-presidiário, parte envolvida no caso da 'Falsa Confissão' — ah, sim, o departamento acabou de formar um grupo de reavaliação especial para investigar novamente o processo de extração de sua confissão naquela época. Os materiais da denúncia são muito detalhados, tempo, local, pessoas responsáveis... até mesmo o ar-condicionado da sala de interrogatório quebrado, o suor que caiu no papel quando você assinou, tudo descrito com clareza cristalina."
A respiração de Lu Chenzhou parou por um instante.
Apenas meio segundo. Mas Zhao Tieshan percebeu. O sorriso em seu rosto se aprofundou, e ficou mais frio. "Portanto, não venha
Zhao Tieshan se aproximou um pouco mais, estreitou os olhos e leu em voz alta: "'Detetive gênio libertado do sistema penal envolve-se novamente em caso de morte?'... 'Suspeita-se de ligação com caso antigo de nove anos atrás'..." Ele ergueu a cabeça, olhando para Lu Chenzhou, seu olhar uma mistura de formalidade profissional e um tom de zombadia mal disfarçada. "Você foi rápido. Acabei de receber a notificação, e a notícia sobre você já está por toda parte."
Ele esticou a mão e tirou o celular diretamente das mãos de Lu Chenzhou. "Celular apreendido temporariamente. Como dispositivo eletrônico que pode envolver pistas do caso, será inspecionado de acordo com a lei."
Os dedos de Lu Chenzhou cerraram-se no vazio por um instante. Sua palma ainda retinha um leve formigamento da vibração e a sensação fria da capa do celular. Ele observou Zhao Tieshan entregar o celular a um policial atrás dele, que habilmente pegou uma bolsa antiestática, colocou o aparelho dentro e a lacrou.
"Agora," Zhao Tieshan voltou a olhar para ele, "o material. Não faça meus homens revistarem."
A fábrica ficou silenciosa. Apenas o som distante e indistinto de motores, e o ruído sutil de couro esfregando quando alguns policiais mais jovens colocaram as mãos nas cassetetes. A respiração de Qin Wangshu era suave, mas Lu Chenzhou conseguia perceber que ela estava contendo-a.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Então, lentamente, puxou o zíper do casaco e tirou de um bolso interno um envelope de papel pardo achatado. Muito fino.
"Só isso," ele disse, entregando o envelope. "Cópias. As amostras biológicas originais e os materiais de imagem já foram transferidos para Shen Yan, conforme o contrato. Vocês podem requisitá-los."
Zhao Tieshan pegou o envelope, mas não o abriu imediatamente. Pesou-o na mão, apertou-o para sentir a espessura, e então o entregou a outro policial atrás dele. "Inspecione."
O policial pegou-o, foi para um lado onde havia luz, abriu cuidadosamente a lacração e tirou as poucas folhas de papel de dentro. Leu rapidamente. Então, ergueu a cabeça e balançou-a negativamente para Zhao Tieshan.
"São todas cópias. Análise textual, fotografias recapturadas da cena. Nenhuma evidência material original."
A expressão de Zhao Tieshan escureceu. Ele encarou Lu Chenzhou, seu olhar como uma faca. "Está me enganando?"
"Eu disse," Lu Chenzhou enfrentou seu olhar, "as evidências originais já foram transferidas para o cliente. Se o Esquadrão Zhao duvida, pode entrar em contato agora mesmo com o Sr. Shen Moqing, ou com seu consultor jurídico, Gu Zhixing. Eles devem estar muito dispostos a cooperar com o trabalho da polícia."
Ele pronunciou as palavras "cooperar" com uma leveza particular, mas carregada de um frio sarcasmo.
Os músculos da mandíbula de Zhao Tieshan se contraíram. Ele claramente entendeu a insinuação — ir pedir a Shen Yan? Shen Yan entregaria, ou entregaria uma versão "processada"? O atraso processual e a burocracia envolvidos seriam suficientes para reduzir drasticamente a eficácia de qualquer busca imediata.
"Capitã Qin," Zhao Tieshan subitamente se virou para Qin Wangshu. "O que você acha?"
O corpo de Qin Wangshu estremeceu levemente. Ela respirou fundo, e sua voz recuperou uma estabilidade profissional: "Do ponto de vista processual, Lu Chenzhou atualmente ainda é consultor de Shen Yan. Os materiais que ele entregou ao cliente exigem que a polícia siga os procedimentos formais de requisição. Quanto às cópias que ele reteve pessoalmente... se, após avaliação, não envolverem segredos cruciais do caso e forem de natureza analítica ou inferencial, realmente pode haver controvérsia."
Ela estava caminhando sobre uma corda bamba. Cada palavra testava os limites da lei e do procedimento, sem contrariar completamente Zhao Tieshan, mas também sem empurrar Lu Chenzhou completamente para o abismo.
Zhao Tieshan a encarou por vários segundos. Aquele olhar era pesado, quase fazendo Qin Wangshu baixar os olhos. Mas ela resistiu, apenas a parte interna de seu lábio inferior ficando branca sob a pressão de seus dentes.
Finalmente, Zhao Tieshan bufou. "Certo. Procedimento, formalidades." Ele acenou com a mão. "Lu Chenzhou, ouça bem: celular apreendido temporariamente, será
Lu Chenzhou não se moveu. "Aqueles alertas de notícias", ele disse, "você sabia deles de antemão?"
Os dedos de Qin Wangshu congelaram na testa. Ela ficou em silêncio por dois segundos, então baixou a mão. "Um aviso interno do departamento de propaganda do escritório, enviado há meia hora. Ordenando que todas as esquadras prestem atenção à opinião pública, especialmente focando em... suas relações sociais e movimentos." Ela evitou seus olhos. "Os alertas foram enviados simultaneamente por várias mídias online, a origem ainda está sendo investigada, mas a orientação das manchetes é bem clara."
"Pintando-me como 'liberto condicional', 'explorando a reabertura do caso', 'ligado a um caso de homicídio'." Lu Chenzhou completou suas palavras, seu tom calmo como se estivesse falando sobre outra pessoa. "Coordenando com a investigação de Zhao Tieshan, formando um cerco duplo de opinião pública e procedimentos. Muito eficiente."
Qin Wangshu não negou. Ela apenas repetiu novamente, sua voz ainda mais baixa, mais urgente: "Vá rápido. Lá fora... pode não haver apenas policiais."
Lu Chenzhou finalmente olhou para ela. Seu olhar era profundo, como dois poços antigos, incapaz de refletir qualquer emoção. Então, ele se virou e caminhou em direção a outro buraco na parede de madeira do galpão.
Chegando à abertura, ele parou por um momento, sem se virar.
"Capitã Qin", ele disse. "Obrigado."
Qin Wangshu ficou parada no lugar, observando sua silhueta desaparecer na luz além do buraco. Ela mordeu o lábio inferior até sentir um gosto metálico de sangue. Então, ela se virou bruscamente e também caminhou rapidamente em direção à parede de madeira por onde Zhao Tieshan havia saído.
Fora do galpão, a luz do sol era um pouco ofuscante.
Lu Chenzhou apertou os olhos, ajustando-se à claridade. No chão de concreto vazio da área da fábrica abandonada, estavam estacionados três carros pretos sem identificação; Zhao Tieshan estava entrando em um deles. À distância, no portão principal da área da fábrica, ainda era possível discernir vagamente os contornos de dois carros da polícia.
Mas mais perto, fora da cerca de ferro enferrujada da área da fábrica, estavam de pé três ou quatro pessoas. Não usavam uniformes, seguravam telefones celulares, alguns com pequenas câmeras, suas lentes apontando sutilmente para aquela direção. Ao ver Lu Chenzhou sair, uma delas imediatamente ergueu o telefone, parecendo tirar uma foto.
Mídia independente. Ou pessoas se passando por mídia independente.
Lu Chenzhou puxou para baixo o capuz de seu casaco, virou-se de lado e caminhou rapidamente ao longo da sombra do galpão, indo em direção a um denso matagal de arbustos na parte de trás da área da fábrica. Ele conseguia sentir aqueles olhos grudados em suas costas, como teias de aranha úmidas.
No momento em que se enfiou no matagal, ele ouviu atrás de si a voz de um homem jovem aumentando de volume: "Senhor Lu Chenzhou? Sobre os rumores online, o que o senhor tem a dizer?"
Ele não respondeu. Galhos e folhas arranharam seu casaco, fazendo um som de farfalhar. Ele acelerou o passo, sua figura logo engolida pela vegetação densa e grama alta.
Seu coração batia firmemente em seu peito, uma batida, depois outra. Mas as pontas dos dedos estavam frias.
O som nítido do papel quando Zhao Tieshan desdobrou os documentos ainda parecia ecoar em seus ouvidos. E aqueles títulos dos alertas de notícias, em fonte em negrito, como ferros em brasa, marcados em sua retina.
O fogo da opinião pública realmente começara.
E o primeiro fogo atingira com precisão sua identidade mais vulnerável — um ex-presidiário, um "criador de problemas" tentando reabrir um caso.
Ele atravessou o matagal, escalou um muro baixo e caiu em um beco traseiro cheio de entulho de construção. O beco era estreito, impregnado com o cheiro de folhas de vegetais apodrecidas e urina. Ele se encostou na parede de tijolos fria, recuperou o fôlego, e tirou de dentro do casaco outro objeto menor, embrulhado firmemente em uma lona impermeável.
A borda dura pressionou sua palma. Dentro
O eco das últimas palavras de Qin Wangshu, "Vai rápido!", ainda ressoava em seus ouvidos quando Lu Chenzhou já havia escalado o muro traseiro da fábrica abandonada e mergulhado em um mar de ervas daninhas e entulho amontoado. Atrás dele, o rugido baixo dos motores das viaturas policiais e a voz retumbante de Zhao Tieshan dando ordens atravessavam a parede de tijolos, como golpes surdos batendo no ar. Ele não olhou para trás, a coluna ereta, mas seus passos eram rápidos e precisos, cada um caindo em solo macio ou cacos de telha que abafavam ao máximo o som.
O vento trazia vozes humanas, não da polícia, mas de uma discussão mais barulhenta e confusa, além do clique de câmeras de celular. Na frente principal da fábrica, várias silhuetas agitavam seus telefones, as lentes capturando avidamente as luzes vermelhas e azuis das sirenes. Mídia independente. Chegaram rápido. Ele puxou a aba do boné para baixo e, usando a sombra dos muros e escombros, deslizou como uma fumaça silenciosa, afastando-se rapidamente daquele lugar problemático.
A antiga zona industrial ao norte da cidade estava morrendo. Grandes galpões haviam sido demolidos, restando apenas alguns prédios residenciais isolados, marcados para demolição, como ilhas em um mar de entulho. Lu Chenzhou escolheu um deles. A fachada do prédio estava descascada, expondo tijolos vermelho-escuros. A maioria das janelas eram buracos vazios, vidros quebrados, as aberturas escuras parecendo inúmeros olhos cegos. O ar estava impregnado com um mofo úmido, misturado com pó de cal e um certo cheiro ácido de lixo antigo em decomposição. Ele parou em frente ao prédio, ergueu os olhos e varreu a fachada por três segundos, confirmando que não havia sinais recentes de atividade humana — nenhuma impressão fresca nas molduras das janelas, nenhum deslocamento recente nos cacos de vidro espalhados na entrada. O canto esquerdo de seu olho tremeu levemente.
Ele entrou rapidamente no hall de entrada. A luz escureceu instantaneamente, apenas alguns raios de luz do dia vazando pelo telhado danificado, iluminando a poeira que dançava no ar. O corrimão da escada estava coberto por uma espessa camada de poeira. Ao pisar, seus pés produziram um som arenoso de cimento sendo triturado. Ele subiu até o quarto andar, escolheu uma unidade cuja fechadura já havia enferrujado e caído, e entrou de lado.
O cômodo estava vazio, exceto por alguns pedaços de reboco caídos no chão e um monte de lixo irreconhecível em um canto. A porta da cozinha estava torta. Ele se aproximou. O fogão e a pia já haviam sido removidos, restando apenas as conexões dos canos e buracos na parede. Ele se agachou, seu olhar pousando na abertura de ventilação do exaustor antigo acima do fogão. A grade de metal estava coberta de ferrugem, os parafusos das bordas já soltos há muito tempo. Ele estendeu a mão, as pontas dos dedos tocando a superfície fria e áspera da ferrugem.
Não agiu imediatamente. Apoiou-se contra a parede fria de azulejos, sentou-se lentamente e deixou sua respiração se acalmar. Os objetos em seu peito, através da roupa, transmitiam uma sensação dura e levemente fria — o cotonete original selado em um saco à prova d'água para evidências, e a fita-mãe da micro fita de vídeo. As coisas retiradas do esconderijo no estudo de Shen Yan. A prova irrefutável com 99,7% de correspondência de DNA, e as imagens de sua própria "confissão" forçada anos atrás. Era a única faísca que ele tinha agora, capaz de perfurar Shen Yan e, ao mesmo tempo, abalar o antigo caso da "falsa confissão". Também era a única razão que, neste momento, atraía o cerco da polícia e a perseguição da opinião pública.
O celular no bolso da
Ele fechou os olhos. Não para pensar, mas para deixar as imagens surgirem. Na fábrica, quando Qin Wangshu pegou a cópia das evidências, as juntas de seus dedos ficaram levemente brancas de tanto pressionar. Seu olhar ao redor, vigilante como uma corça encurralada. Sua voz baixa, rápida, carregava uma cautela profissional, mas também uma luta interior. Aquelas últimas palavras "Vá rápido", aquele olhar que ele captou ao se virar – havia preocupação, como água fraca fluindo sob uma camada de gelo, mas mais do que isso, havia resignação, uma distância profissional quase cruel. Aquele olhar dizia: Só posso fazer até aqui. A pressão do sistema era como um muro invisível entre eles; a antiga relação de mestre e discípula não era suficiente para atravessá-lo, muito menos para oferecer abrigo.
Ele entendeu. A frágil esperança de cooperação para reverter o caso se apagou no momento em que Zhao Tieshan e sua equipe entraram na fábrica. Qin Wangshu não o traiu; ela estava amarrada pelas regras, e talvez já tivesse sido arrastada para os procedimentos de investigação voltados contra ele. As evidências que ele entregou podiam se tornar pistas para sua investigação pessoal, mas nunca seriam uma brecha oficial para a polícia reabrir seu caso. O preço da confiança era este isolamento que agora lhe corroía os ossos. Ele não tinha mais aliados na polícia, não tinha mais um lugar no lar dos Shen, nem mesmo sua identidade para andar abertamente estava sendo rapidamente manchada pela lama da opinião pública, transformada em um símbolo perigoso.
A verdadeira batalha solitária começava agora.
Ele abriu os olhos. Nenhuma emoção dentro deles, apenas uma calma gelada como um lago congelado. Ele não se encostou mais na parede, levantou-se e agachou-se novamente em frente à entrada de ventilação. Seus dedos seguraram a borda da grade de metal enferrujada, e ele aplicou força lentamente, no menor ângulo e com a força mais uniforme possível, soltando-a dos encaixes. Não houve som estridente de metal torcido. A grade removida revelou a abertura quadrada e escura do duto atrás, de onde saiu um cheiro sufocante de poeira acumulada e graxa antiga misturados.
Ele tirou do peito o saco de evidências e a fita de vídeo. Sem hesitar, embrulhou-os juntos firmemente com um pano limpo preparado e colocou-os dentro de um saco selado à prova d'água. Em seguida, enfiou cuidadosamente e profundamente este pequeno pacote em um recesso em um canto superior no interior do duto de ventilação. Era um local seco e escondido, impossível de ser visto diretamente de qualquer ângulo abaixo. Ele ajustou a posição, garantindo que o pacote ficasse preso e não escorregasse com vibrações.
Feito isso, pegou da bolsa de ferramentas uma escovinha e uma garrafa de água limpa, limpou cuidadosamente quaisquer impressões digitais que pudesse ter deixado nas bordas da grade e recolocou-a no lugar. Depois, recuou alguns passos e examinou o caminho que percorrera ao entrar na sala – as pegadas na poeira da porta, ele intencionalmente pisara sobre as pegadas originais, mais desordenadas, tornando-as agora quase indistinguíveis. Foi até a janela e usou o mesmo pano para limpar o peitoril e quaisquer outros lugares onde pudesse ter tocado. Por fim, verificou o chão, recolheu alguns fragmentos, possivelmente trazidos por sua sola, de material diferente do lixo original do local, e os colocou no bolso.
Durante todo o processo, seus movimentos foram estáveis, precisos, sem excessos. Como um instrumento de precisão executando um programa de limpeza predeterminado. Mas só ele sabia que o coração em seu peito batia contra as costelas com um ritmo pesado e lento, cada batida parecendo gravar mais profundamente as palavras "presa" em seus ossos e sangue.
A identidade de investigador havia sido descartada. A partir deste momento, ele era a presa. Perseguido pela polícia, cercado pela opinião pública, caçado por Shen Yan. Ele teria que mergulhar em um estado completamente clandestino, viver como uma sombra, até... até que a pequena chama em suas mãos encontrasse o momento certo para incendiar a planície.
Ele foi para o outro lado da sala, onde havia um monte de tralhas abandonadas por trabalhadores da construção. Revirou um pouco e puxou um velho casaco de trabalho encharcado de tinta branco-acinzentada. O tecido era áspero e rígido, exalando um cheiro
Ele está aqui. Há quanto tempo espera? Como ele me encontrou? Ou melhor, ele nem precisou "procurar", apenas previu a área mais provável que Lu Chenzhou escolheria para se esconder após escapar do cerco policial, e então ficou aqui, esperando tranquilamente.
Lu Chenzhou permaneceu encostado na parede gelada, sem se mover. O tecido áspero do macacão esfregava contra a pele. No fundo do duto de ventilação, aquela pequena faísca permanecia silenciosa na escuridão. Lá embaixo, o "limpador" de Shen Moqing aguardava com paciência. O carro preto delineava uma silhueta de prisão, nova e silenciosa, tornando-se gradualmente mais nítida no crepúsculo.
Será uma nova negociação, ou uma colheita mais direta?
A resposta estaria no momento em que descesse.