Capítulo 47: A Pista na Lama
O vento na boca do beco carregava o cheiro de ferrugem. Lu Chenzhou deslizava rente à parede, o ombro direito roçando na superfície áspera de cimento, cacos entrando pelo colarinho. Trinta metros adiante, o homem de preto dobrou em uma viela estreita – a passagem de carga da antiga fábrica têxtil, com menos de um metro e vinte de largura entre as paredes.
Ele acelerou o passo. Espaços estreitos eram inibidores naturais de fogo. A arma curta exigia pelo menos oito décimos de segundo para ser virada, tempo suficiente para entrar no corpo a corpo.
O som dos passos parou abruptamente. Um cilindro metálico rolou de trás do canto da parede.
"Isca", ele diagnosticou em voz baixa, o corpo já se lançando em uma rolagem para a esquerda.
A granada de luz explodiu, um clarão branco perfurando suas pálpebras fechadas. Ele manteve os olhos fechados, localizando pelo som – passos para a direita, o alvo estava recuando. Mas a rota estava errada. Aquele beco era um beco sem saída, terminando no muro dos fundos da fábrica. A menos que houvesse uma passagem subterrânea.
Um cheiro acre e amargo de nitrato de amônio invadiu suas narinas. Não era uma granada de luz. Era o pavio de uma detonação secundária.
Ele se levantou de repente e se atirou para a direita. O homem de preto estava ativando um dispositivo de corte infravermelho no pulso, a luz azul cintilando na viela escura como a língua de uma serpente. Lu Chenzhou agarrou o pulso do homem com a mão esquerda e torceu para fora – o movimento era familiar demais, o ponto de pressão dois dedos abaixo do pomo de Adão, a força precisa para manter o sujeito consciente na beira da asfixia. O baque surdo de uma articulação deslocada foi engolido pelo som da explosão, o emissor infravermelho escapuliu da mão, quicou duas vezes e se apagou.
"Quem te deu a rota de fuga?" Sua voz era baixa, o joelho cravado na fossa do joelho direito do homem.
O homem de preto gemeu e caiu. A mão direita foi até a cintura – ainda havia um dispositivo. Lu Chenzhou agarrou primeiro a articulação do cotovelo, torcendo todo o braço para as costas do homem. Seus dedos sentiram uma textura estranha: partículas ásperas aderidas ao interior da manga. Borra de carvão. E também...
Ele esmagou os fragmentos com o polegar. Secos, levemente ásperos, a ponta dos dedos tinha uma sensação ligeiramente gordurosa. Caulim. Caulim misturado com borra de carvão.
Zona norte da cidade. Só a camada de aterro ao redor da estação de abastecimento de água abandonada do norte tinha essa composição – na época daquele distrito industrial, usaram resíduos baratos de cerâmica para o aterro das fundações.
"Você—" O homem de preto lutou para soltar uma palavra.
Lu Chenzhou apertou a posição de estrangulamento. A pressão na artéria carótida cortou o som na garganta do homem. Seu próprio pomo de Adão já teve uma contusão igual, dez anos atrás, aquela cicatriz ainda coçava em dias nublados.
"Não precisa falar", sua voz era calma. "A terra na sola da bota já falou."
O corpo do homem ficou rígido. Não de dor, mas de medo. A área do esconderijo estava exposta.
No instante seguinte, seu peito subiu e desceu violentamente. Procedimento de autodestruição – um microemissor subcutâneo no pescoço, que enviava a localização e detonava os dispositivos remanescentes se o batimento cardíaco caísse abaixo do limiar.
A pupila de Lu Chenzhou se contraiu. Ele soltou e recuou, ao mesmo tempo agarrando a perna direita do homem e arrastando-a para fora, virando-o. A sola da bota raspou um arco no chão de cimento, fragmentos voando. Ele viu claramente – os pedaços de lama acinzentada embutidos nas ranhuras da sola da bota eram da mesma origem dos grãos que ele havia esmagado entre os dedos.
Um baque surdo. A fumaça encheu o beco, o amargor do
O cano terminava em uma abertura de inspeção do porão. Olhando através da grade – uma luz de emergência amarelada iluminava o piso de concreto e algumas fileiras de prateleiras metálicas. Os suprimentos estavam arrumados com ordem: coletes à prova de facadas, equipamentos de comunicação, materiais de impressão para documentos falsificados.
O esconderijo de limpador de Gu Zhixing. Confirmado.
Ele desparafusou os parafusos da abertura de inspeção e desceu sem fazer ruído.
"Alguma anormalidade?" A voz de Qin Wangshu veio do fone de ouvido.
"Nada por enquanto."
Ele caminhou até a prateleira mais interna, os dedos deslizando sobre as etiquetas das caixas de papelão. Centro de transferência logística ao norte da cidade, mercado de artigos usados ao sul, armazém ao leste – cada endereço estava em nome de Gu Zhixing ou associado a propriedades dele.
Então ele viu aquela cadeira.
Não estava completa. Apenas o encosto e o apoio de braço direito, encostados verticalmente no canto. A superfície de couro estava rachada e enegrecida, e no esqueleto metálico estavam soldados quatro argolas de fixação. Argolas para pulsos. Argolas para tornozelos. Argola para o pescoço.
Argola para o pescoço.
Sua respiração parou por um instante. O canto esquerdo do olho dele contraiu-se levemente.
Dez anos atrás. Naquela sala de interrogatório sem janelas, a mesma argola para o pescoço apertou sua garganta. Apertando, soltando, apertando novamente. A cada intervalo de soltura, aquela voz dizia – assine e a dor para.
"Lu Chenzhou?" A voz de Qin Wangshu no fone de ouvido ficou urgente, "Aí ainda?"
Ele abriu a boca. O som travou em sua garganta. Os dedos tremiam incontrolavelmente, ele cerrou os punhos, as unhas cravando-se nas palmas.
"... Aqui."
Uma palavra. Bastou.
Ele forçou-se a caminhar em direção à cadeira. O lado interno da argola para o pescoço tinha marcas de desgaste – não eram antigas. Nas rachaduras da borda do couro estavam incrustados fragmentos minúsculos de pele, de cor clara, pertencentes a um usuário recente.
Esta cadeira, alguém a usou recentemente.
Ele agachou-se para inspecionar os pés da cadeira. O chão tinha marcas de arrasto, estendendo-se da área das prateleiras até o canto da parede. Seguindo as marcas até a base da parede – um ladrilho solto. Levantando-o, embaixo havia um saco selado à prova d'água.
Dentro do saco havia um livro-caixa. A capa tinha um número escrito à mão: 97-Jian-4.
Seu coração acelerou violentamente. Era exatamente o número de etiqueta que havia desaparecido do depósito de provas.
A lâmpada fluorescente acima piscou. Zum – o relé engatou. O suprimento de energia de reserva reiniciou.
Uma rede de varredura infravermelha disparou do teto, grades vermelhas cobrindo todo o porão. Uma comporta de aço caiu com estrondo da entrada do túnel, selando a saída.
"Lu Chenzhou!" A voz de Qin Wangshu veio de fora da comporta, "Você está preso!"
Ele não respondeu. Com a mão esquerda enfiou o livro-caixa na camada interna da roupa, com a mão direita apoiou-se no encosto da cadeira e levantou-se. A argola para o pescoço estava ao lado de seu rosto, o odor ácido do couro apodrecendo penetrando suas narinas, sobrepondo-se ao cheiro daquela sala de interrogatório de dez anos atrás.
Ele fechou os olhos. Três segundos.
Quando os abriu novamente, seu olhar já havia recuperado a frieza e dureza.
"Estou bem." A voz era tão calma que não parecia a de alguém preso, "Encontre a caixa de distribuição de energia reserva. A comporta tem liberação manual."
Ele virou-se de costas para aquela cadeira, não permitindo que Qin Wangshu – que ninguém – visse as marcas de sangue em suas palmas cerradas.
Os tubos fluorescentes da clínica abandonada piscaram duas vezes, zumbindo. Lu Chenzhou encostou-se à mesa de instrumentos enferrujada, a mão esquerda segurando uma agulha curva, a manga direita rasgada até a linha do ombro – aquela ferida que se estendia da dobra do cotovelo até o antebraço estava sangrando, as bordas reviradas como o leito seco
Qin Wangshu não soltou a mão. Sua palma estava colada no dorso da mão dele, a temperatura corporal penetrando através da pele, trazendo um leve tremor quase imperceptível.
"Você nunca disse."
"Dizer para que serve." Ele levantou os olhos, o olhar afiado por um instante antes de rapidamente escurecer novamente, "O laudo do exame corporal da época — 'não foram encontradas lesões externas evidentes'. Estrangulamento não deixa marcas, essa é a razão pela qual foi escolhido."
O silêncio se espalhou. O tubo de luz piscou mais uma vez, alongando e encolhendo as sombras dos dois.
Qin Wangshu lentamente soltou a mão, pegou a agulha curva da mesa de instrumentos, passou um algodão com álcool e a devolveu a ele.
"Continue costurando." Ela disse, "Vou segurar para você."
Seus dedos pressionaram a pele em ambos os lados da ferida em seu braço direito, firmemente. Sem palavras desnecessárias, sem olhares de compaixão, apenas uma gentileza profissional, quase brutal.
Lu Chenzhou pegou a agulha, penetrando novamente na pele. Desta vez não errou.
Quando chegou ao terceiro ponto, seu ritmo respiratório mudou — de superficial e acelerado para longo e suave, como uma corda esticada ao limite finalmente relaxando meio centímetro.
"Aquele livro-caixa." Qin Wangshu começou, os dedos ainda segurando firmemente seu braço, "Como você planeja lidar com ele?"
Lu Chenzhou mordeu o fio de sutura, o sabor de sangue se espalhando na ponta da língua. Ele não respondeu imediatamente, mas colocou a agulha curva na mesa de instrumentos, observando suas mãos enfaixando — uma volta, outra volta, a ponta dos dedos passando pelaquela antiga cicatriz quase invisível no interior de seu pulso.
"Dez anos atrás, eu não falei por você." Ela enfiou a ponta da gaze na camada interna, o movimento ágil como engatilhar uma arma. Ela se levantou, a luz fluorescente cortando seu perfil em metades claras e escuras.
"Desta vez—"
Ela não terminou. Mas Lu Chenzhou entendeu.
Ele recostou-se na parede, fechando os olhos. A dor aguda no braço direito ainda estava lá, mas aquela coisa que entupia seu peito há dez anos parecia ter rachado uma fenda, deixando um pouco de ar escasso penetrar.
O livro-caixa ainda estava na camada interna junto ao seu corpo, o canto áspero do papel pressionando suas costelas. Ambos sabiam que aquela coisa não podia seguir o procedimento formal — mas o que significava não seguir o procedimento formal, ambos também sabiam.
O tubo de luz piscou novamente. A mão esquerda de Lu Chenzhou finalmente parou de tremer.
As páginas ásperas do livro-caixa pressionavam suas costelas, cada respiração levando um pouco de calor corporal. Lu Chenzhou fechou o zíper da camada interna até o topo, o canto duro sob o tecido cutucando sua carne, como um espinho cravado na fenda do osso.
O celular de Qin Wangshu vibrou.
O zumbido ricocheteou duas vezes na superfície de metal do armário da clínica abandonada, agudo como unhas arranhando um quadro-negro. A tela acendeu — "Zhao Tieshan".
Os dois pararam ao mesmo tempo.
"Atenda." Disse Lu Chenzhou.
Qin Wangshu mordeu o interior do lábio inferior, o polegar pressionando o botão de atender. "Capitão Zhao."
A voz do receptor vazou, vigorosa mas contendo fogo: "Lista de evidências da cena, relate agora. Meu sistema mostra três itens com números registrados no porão da estação de abastecimento de água, verifique."
Seu olhar varreu o peito de Lu Chenzhou. O livro-caixa. O número do acessório da cadeira de interrogatório. E o alicate de corte que ela mesma arrastou de debaixo da comporta. Três itens.
"Recebido." Sua voz estava estável, "Estou organizando agora, respondo em cinco minutos."
"Relate agora." O tom de Zhao Tieshan não admitia discussão, "Item por item. Primeiro item, número Z-0471, o que é?"
A mão esquerda de Lu Chenzhou bateu no ar inconscientemente duas vezes — era um hábito de Fang Mu, ele nunca fazia esse movimento. Agora fez. Dois dedos suspensos acima do joelho, como se estivessem batendo silenciosamente em algum teclado invisível.
Z-0471 era o alicate de corte.
"Z
"E mais," o tom de Zhao Tieshan de repente baixou, "Wangshu, o último segmento de imagens do monitor da estação de abastecimento de água antes da queda de energia, o timestamp é 21:14. A que horas você chegou ao local?"
A respiração de Qin Wangshu congelou.
Vinte e uma horas e quatorze minutos. Ela havia chegado às 21:37. Vinte e três minutos de vazio no meio — tempo suficiente para alguém entrar por baixo da comporta, pegar o objeto e sair pela porta lateral.
"Vinte e uma e trinta e sete," ela respondeu, a voz sem a menor oscilação.
"Hmm." Zhao Tieshan ficou em silêncio novamente. Aquele "hmm" se arrastou por muito tempo, o final da palavra raspando o receptor, como uma lixa passando na nuca. "Encerre o trabalho mais cedo."
A ligação terminou.
O consultório voltou a ficar em silêncio. Lá fora, a chuva ainda caía, o ritmo das gotas batendo no telhado de chapa era denso como batimentos cardíacos.
Qin Wangshu soltou o ar lentamente. Sua mão ainda estava sobre o telefone, a luz fraca da tela refletindo nas pontas dos dedos pálidas.
"Ele sabe," disse Lu Chenzhou.
"O quê?"
"A diferença de tempo." Ele estava encostado na parede, o braço direito pendendo ao lado do corpo, a voz tão suave quanto se estivesse falando do tempo. "Vinte e três minutos. Ele vai solicitar os registros de comunicação, vai verificar seu horário de chegada com os dados da estação base. Zhao Tieshan não é o tipo de pessoa que deixa brechas passar."
"Então por que você ainda me fez—"
"Porque três itens se tornarem dois é apenas um erro de registro." O olhar de Lu Chenzhou pousou sobre sua mão que segurava a carteira. "Dois itens se tornarem peças soltas é perder evidências."
Qin Wangshu mordeu a parte interna do lábio inferior, o sabor de sangue se espalhando na ponta da língua. Ela soltou a mão, a palma estava toda suada.
"Este livro-caixa," sua voz estava muito baixa, "o que ele pode lhe dar?"
"Os registros de uso do esconderijo de Gu Zhixing," ele disse. "Conta pagadora, horários de entrada e saída, e também — quem esteve lá entre os dias 4 e 7 de março."
Três dias de vazio. Tempo suficiente para destruir o original, para forjar um substituto. E também tempo suficiente para que o verdadeiro culpado deixasse uma marca indelével em algum elo da cadeia.
Ela fitou seus olhos. Aqueles olhos frios como a superfície de um rio no auge do inverno, sob a camada de gelo corriam correntezas ocultas.
"Você apostou que eu o ajudaria."
"Apostei que você precisa da verdade."
O som da chuva preencheu todos os vazios. Qin Wangshu se levantou e guardou o telefone no bolso do casaco.
"Eu escrevo o relatório corrigido," ela disse. "Mas o livro-caixa — você só tem quarenta e oito horas."
Lu Chenzhou não acenou com a cabeça. Sua mão esquerda começou a se mover novamente — os cinco dedos se abriram, se fecharam, como se estivessem medindo alguma distância invisível.
Do lado de fora da janela, um carro preto parou na entrada do beco em frente ao consultório. O motor não estava desligado. Os vidros tinham película escura, era impossível ver quem estava dentro.
Mas a tela do comunicador no painel estava acesa.
Nela se lia: Endereço IP acessado — servidor de segurança da estação de abastecimento de água abandonada no norte da cidade.
Timestamp: 21:15.