Capítulo 80: A Chave Bate à Porta do Abismo
A luz azul na tela do leitor, números saltando.
Vinte e um por cento.
Lu Chenzhou estava encostado ao frio gabinete de arquivos metálico, o ombro direito pressionado contra o pino saliente da fechadura da porta do armário. A dor surda já se anestesiara num ruído de fundo. Na palma da mão esquerda, segurava o carregador que o velho Wu lhe atirara. As arestas do metal cravavam-se fundo na carne, trazendo uma picada aguda de lucidez. Do lado de fora da porta, o som abafado dos impactos continuava, *thump, thump, thump*, como uma fera presa a roer uma gaiola de ferro. Mas a frequência do som… parecia ter diminuído um pouco.
Ele ergueu os olhos.
Não era ilusão. O intervalo entre os impactos estava a alongar-se, e a força também a enfraquecer. Em seu lugar, havia outro som, mais subtil, mais regular — o som de metal a raspar contra metal, lento e preciso. Não era uma ferramenta de arrombamento. Era uma chave. Alguém estava a usar uma chave para abrir este portão teoricamente trancado.
Gu Zhixing?
Não. Se fosse Gu Zhixing, já deveria haver gritos, ameaças, aquela transmissão descontraída como de um gato a brincar com um rato. Esta maneira silenciosa, quase ritualística, de abrir a porta, pertencia a outro tipo de pessoa.
O canto do olho esquerdo de Lu Chenzhou começou a contrair-se.
Ligeiramente, como se uma corda de violino partida estivesse enterrada sob a pele. Soltou o carregador, deixando-o deslizar para o fundo da bolsa da perna. O tecido roçou, emitindo um leve ruído de farfalhar. Apoiou-se no chão com a mão direita, levantando-se enquanto suportava a dor aguda que emanava do local da costela partida. O movimento foi o mais leve e lento possível. A sola do sapato pisou sobre fragmentos de ferrugem espalhados no chão, produzindo um leve som de *crunch*. O seu olhar percorreu os arredores: a zona central de arquivos era mais pequena do que imaginara, mais parecida com uma estação de transferência de equipamentos esquecida. Além da fila de gabinetes de arquivos metálicos antigos atrás dele, havia apenas as paredes nuas de betão, húmidas, e as poucas luzes de emergência no teto, emitindo uma luz branca e doentia. No ar flutuava o cheiro a mofo de papel velho e húmido, misturado com um aroma mais ténue, semelhante a formol, que picava as narinas.
Não havia janelas. A única saída era o portão que estava a ser aberto.
Recuou para a borda da sombra projetada pelo gabinete de arquivos, virando o corpo de lado, o peso sobre o pé esquerdo. A mão direita pendeu naturalmente ao lado do corpo, os dedos ligeiramente curvados, as articulações brancas de força. A mão esquerda repousava levemente ao lado da cintura, onde, além do carregador, havia outra coisa — uma amostra espessa e pegajosa, recolhida da parede interior de um tubo, dentro de um saco selado grosso. A abertura do saco estava bem fechada, mas aquele fraco odor acre, semelhante a amoníaco, ainda se infiltrava em fios ténues, misturando-se com o cheiro a mofo do arquivo, criando uma mistura nauseabunda.
O som de raspagem parou.
Seguiu-se um leve *clique*, claro e estridente. O som da lingueta da fechadura a saltar.
O pesado portão metálico abriu-se para dentro, formando uma fenda. Não houve a entrada de luz esperada, apenas uma escuridão mais profunda. Depois, a ponta metálica de uma bengala entrou primeiro, tocando levemente no chão.
*Tap.*
O som ecoou no arquivo vazio, com ecos frios e sobrepostos, batendo nos tímpanos.
A respiração de Lu Chenzhou acalmou. Os pés ficaram cravados no chão, as solas capazes de sentir as vibrações extremamente subtis transmitidas pelo solo.
A fenda da porta alargou-se. Uma figura entrou a passo lento, sem pressa. Vestia uma camisa de gola alta chinesa de cor cinza-escuro, por cima da qual usava um cardigã de lã da mesma
Shen Moqing parou de bater na válvula. Ele se virou lentamente, seu olhar finalmente pousando em Lu Chenzhou. Aqueles olhos pareciam muito profundos sob a luz fraca, sem emoção, apenas uma pesada calma acumulada ao longo dos anos. Até os cantos de sua boca se ergueram levemente, formando uma curva extremamente tênue — não era um sorriso, mais parecia um reconhecimento — confirmando que o homem desgrenhado, manchado de sangue, com olhos brilhantes de forma assustadora diante dele era a pessoa que procurava.
Lu Chenzhou não esperou que ele falasse e continuou. Cada palavra parecia talhada de uma caverna de gelo, com arestas, batendo no ar silencioso.
"2012. 14 de julho. Jardim Jinxiu, prédio 7, unidade 2."
Ele fez uma pausa de um segundo, o pomo-de-adão se movendo, engolindo a dor seca e áspera na garganta e o sabor de ferrugem que subia.
"Você assinou."
Shen Moqing ouviu em silêncio. A bengala ainda tocava o chão, sustentando parte de seu peso. Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse relembrando uma data irrelevante. Alguns segundos depois, ele soltou um suave "Ah", um suspiro longo.
"A data está muito precisa." Sua voz era suave, rica, com o tom ligeiramente arrastado característico dos idosos, produzindo um leve eco entre os canos. "Jardim Jinxiu... é um condomínio antigo. Parece que já foi demolido agora?"
Ele estava desviando.
Lu Chenzhou deu um passo à frente. A sola do sapato raspou no chão de concreto, esmagando pequenas pedrinhas, emitindo um claro som de areia. Esse passo o tirou completamente das sombras, colocando-o também dentro do alcance teoricamente fácil da bengala. Ele conseguia sentir o aroma de cedro do outro homem se tornando mais intenso e opressivo. Ele encarou os olhos de Shen Moqing, tentando encontrar uma única onda de emoção naquele poço profundo.
"Você assinou." Ele repetiu, a velocidade da fala constante, mas pronunciando cada sílaba com uma clareza anormal, como se estivesse lendo uma sentença. "Aquele endosso que afirmava que o relatório de inspeção da cena era 'procedimentalmente conforme, conclusão correta'. Aquele endosso que prendeu a autorização de cirurgia da minha irmã e minha confissão no mesmo dossiê."
Shen Moqing finalmente abandonou aquela expressão vaga e sentimental. Ele encontrou o olhar de Lu Chenzhou; seus olhos não mostravam evasão nem raiva, apenas uma compreensão quase compassiva.
"Assinar," ele disse lentamente, suas palavras elegantes, como se estivesse explicando uma antiga proposição filosófica em uma sala de aula, seus dedos inconscientemente esfregando o anel de polegar novamente, "é um procedimento necessário para manter a máquina funcionando, oficial Lu. Naquela época, você era a engrenagem emperrada. Quando uma engrenagem emperra, toda a máquina para, superaquece, danifica mais... componentes precisos."
Ele ergueu levemente a bengala e a baixou suavemente. *Toc*. O som da ponta metálica batendo no chão era especialmente agudo no silêncio.
"Procedimento necessário." Lu Chenzhou repetiu a frase, o tremor no canto do olho esquerdo se tornando mais visível, ele conseguia sentir o músculo sob a pele pulando involuntariamente. "Máquina de quem?"
"A máquina não tem nome." Shen Moqing balançou a cabeça, como se lamentasse a teimosia de Lu Chenzhou, o aroma de cedro flutuando com seu leve movimento. "Chama-se ordem. Ou, chama-se preço. Algumas pessoas pagam o preço para que muitos outros não precisem pagar. É um princípio muito antigo, você não entende?"
"Ordem de quem?" Lu Chenzhou avançou com o segundo passo. A distância entre os dois agora era inferior a três metros. Ele conseguia cheirar as camadas mais específicas do aroma de cedro do outro homem — a frieza inicial, a pungência amadeirada do meio — e podia ver o brilho cada vez mais suave e oleoso do anel de jade no polegar esquerdo do outro, esfregado até quase parecer derramar óleo. "A ordem de Zhao Mingcheng? Ou... a ordem que Gu Zhixing está executando agora?"
Ao ouvir esses dois nomes, a expressão no rosto de Shen Moqing não mudou em nada. Ele apenas suspirou suavemente, um suspiro longo carregado de um cansaço de "era isso mesmo", condens
Ele fez uma pausa, o polegar parado na superfície lisa e arqueada do anel.
"...Eles são muito sujos. Sujos ao ponto de, ao tocar, grudar um odor fétido que não dá para lavar."
O punho de Lu Chenzhou se fechou ao lado do corpo. As unhas cravaram-se profundamente nas antigas cicatrizes da palma da mão, trazendo uma dor aguda e familiar. Ele ouvia Shen Moqing usar esse discurso cheio de senso de destino e metáforas de poder, resolvendo com facilidade suas acusações concretas e sangrentas, embelezando uma armação premeditada como um "lubrificante" inevitável na grande narrativa. A raiva como um arame frio torcia-se em seu peito, apertando-o quase até sufocar, mas ele se forçou a inspirar, o ar frio, carregado de óleo e perfume, inundando seus pulmões, uma vez, e outra.
Não podia seguir o ritmo dele.
"Sujos?" A voz de Lu Chenzhou ficou ainda mais rouca, mas estranhamente adquiriu um tom quase sarcástico, como uma lâmina raspando no vidro. "Mais sujos do que aquelas coisas nos dutos, esperando para dissolver as pessoas em água cadavérica?"
Os dedos de Shen Moqing que estavam acariciando o anel pararam subitamente.
O brilho suave e quente da superfície da jade pareceu congelar por um instante.
Então, ele tirou do bolso interno da jaqueta o saco plástico transparente e selado, o movimento rápido e abrupto, a borda do plástico raspando no forro do terno com um leve som de rasgo. Dentro do saco, a massa pegajosa verde-escura brilhava com cores iridescentes sob a luz branca e pálida da lâmpada de emergência. Ela não se movia, mas sua superfície subia e descia lentamente, como se uma criatura das profundezas do mar respirasse em seu sono. Lu Chenzhou conseguia sentir o cheiro de amônia que vazava sutilmente através das duas camadas de plástico, pungente, com um odor doce e fétido de decomposição. Ele ergueu o saco entre os dois, esticando o braço, deixando-o suspenso a meio braço de distância do peito de Shen Moqing. "E isso?" Sua voz estava muito baixa, quase engolida pelo som contínuo das gotas d'água no fundo dos dutos, mas cada sílaba saía como uma pedra arrancada à força da garganta. "Também faz parte da sua ordem? Esperando nos dutos de ventilação, para me dissolver em outra poça... de preço?"
Shen Moqing virou-se lentamente. Seu olhar caiu sobre o saco selado, primeiro na tira branca amarrada na boca do saco, depois deslizando para a massa dentro dele. Naquele instante, Lu Chenzhou captou a mudança — não na expressão, o rosto de Shen Moqing parecia uma máscara de cera. Foram as pupilas. Aquelas pupilas marrom-escuras contraíram-se ligeiramente, como se tivessem sido picadas por uma agulha. E o pomo de Adão, rolou uma vez, extremamente sutil, como se engolisse um amargor inexistente. Lu Chenzhou até ouviu aquele som sutil de deglutição, agudamente claro no silêncio do arquivo.
O olhar de Shen Moqing permaneceu na massa pegajosa por dois segundos. Três segundos.
Então ele recuou meio passo. O salto do sapato raspou no chão de cimento, emitindo um som curto de atrito. Não era um recuo de medo, era um recuo de repulsa, para manter distância. Ele tirou do bolso do terno um lenço — seda puramente branca, com bordados delicados nas bordas — e tapou levemente o nariz e a boca. O som da seda deslizando sobre a pele era suave, mas Lu Chenzhou ouviu.
"Um resíduo desagradável."
Shen Moqing disse, a voz um pouco mais grave do que antes, como se estivesse coberta por um pano úmido. "Onde você encontrou isso?"
"No duto por onde seu filho rastejou antes de morrer." Lu Chenzhou fitou seus olhos, o braço imóvel, o saco plástico tremendo levemente em seus dedos. "Estava lá, Shen Moqing. Esperando. Quem você acha que ele estava esperando?"
Shen Moqing baixou o lenço, a seda pendurada entre seus dedos. A velocidade com que ele acariciava o anel aumentou. A jade
"Só pode ser guiada. Como guiar uma inundação para lavar a sujeira. Você só precisa abrir a porta certa, no momento certo." Ele fez uma pausa, a bengala tocando levemente o chão, a ponta batendo no concreto com um som claro e rítmico. "Quanto ao agora..." Seu olhar percorreu o saco selado nas mãos de Lu Chenzhou, como se estivesse avaliando um item perigoso, "parece que alguns canais antigos ainda não foram selados. Algumas portas ainda estão abertas."
O cheiro de amônia no ar de repente ficou penetrante, misturando-se ao pó acumulado de anos e ao mofo de papel da sala de arquivos, entrando nas narinas de Lu Chenzhou. Ele sentiu os pelos da nuca se arrepiarem, a pele coberta por uma fina camada de arrepios. Não era medo — era algo mais primitivo. Como o tremor instintivo de um animal ao sentir o cheiro de um predador. Ele apertou o saco selado, o plástico enrugando-se em sua palma, emitindo um leve rangido.
"O Shen Yan viu, não foi?" Ele encarou Shen Moqing, sem piscar. "Ele viu o que havia nos canais, ou... viu como vocês 'guiaram' aquilo. Por isso ele teve que morrer?"
Shen Moqing não respondeu. Mas seus dedos que estavam acariciando o anel pararam. Pararam completamente. O anel de jade verde ficou imóvel na base de seu polegar, como um coágulo de sangue verde que de repente solidificou.
"Meu filho." Ele disse lentamente, cada palavra como um bloco de chumbo caindo no chão, pesada e abafada. "A causa de sua morte está clara no relatório do legista. Parada cardíaca. Súbita."
"Por ter visto o que não devia?" Lu Chenzhou não o deixou escapar, avançando mais meio passo. A distância entre os dois diminuiu para menos de um metro, ele podia sentir o cheiro residual da fragrância de cedro em Shen Moqing, aquela essência lenhosa e estável que agora cheirava a conservante.
"Porque ele estava no lugar errado." A voz de Shen Moqing de repente ficou cansada, um cansaço real, que parecia escapar das fissuras de seus ossos, fazendo suas omoplatas afundarem levemente. "No momento em que a inundação estava prestes a chegar, ele estava no meio do leito do rio."
Ele ergueu a bengala, a ponta traçando um arco no ar, apontando com precisão para o saco selado nas mãos de Lu Chenzhou.
"Você também está no meio do leito do rio agora, oficial Lu." Ele disse, a voz voltando a ficar estável, mas sob essa estabilidade havia o som frágil de gelo rachando. "Você pode continuar investigando de onde vem essa lama, como funciona, quem a está guiando. A família Shen pode até lhe fornecer... acesso limitado."
As pupilas de Lu Chenzhou se contraíram. Ele sentiu a veia em sua têmpora pulsando, rápido como se fosse explodir.
"E as condições?" Ele perguntou, a voz rouca.
Shen Moqing deu um passo à frente. O cheiro de cedro sobrepôs-se ao da amônia, fluindo como uma maré. A aura de poder e anos, como uma parede invisível, empurrava para frente. Lu Chenzhou sentiu o piso sob seus pés inclinar-se levemente — não era uma inclinação real, era uma ilusão causada pela pressão, seus joelhos instintivamente se tensionaram para manter o equilíbrio.
"As condições são simples." A voz de Shen Moqing era baixa, mas como uma lâmina raspando no tímpano, deixando uma sensação de picada fina. "Quando você encontrar a fonte, encontrar o método para guiá-la... você usará isso para me ajudar a limpar outro alvo."
O sangue de Lu Chenzhou esfriou. Começando pelas pontas dos dedos, um frio subiu, congelando seus pulsos, travando suas articulações dos cotovelos.
"Que alvo?"
"Eu lhe direi na hora certa." Shen Moqing disse, seu olhar como um prego cravando-se nos olhos de Lu Chenzhou, fazendo suas órbitas doerem. "Um obstáculo que precisa ser eliminado. Usando esse método... que não deixa resíduos." Ele fez uma pausa, a bengala tocando o chão novamente, o ritmo das batidas da ponta meio passo mais rápido que seu batimento cardíaco. "Se você recusar." Ele disse, cada palavra como se tivesse sido tirada de uma câmara frigorífica. "Então, todos os vestígios sobre o antigo caso — quem assinou, as mãos que giraram as engrenagens, até mesmo a verdade
Ao chegar à porta, ele parou, sem se virar. A sombra engoliu mais da metade de seu corpo, apenas a ponta de prata da bengala refletindo um leve brilho.
"A propósito." Sua voz flutuou da escuridão, misturada ao fraco sibilo do ar fluindo nos dutos. "Quando você coletou as amostras do duto... ela tentou tocar em você? Mesmo que fosse apenas... um toque leve?"
A coluna de Lu Chenzhou congelou.
Ele se lembrou do duto, na borda do círculo de luz da lanterna, a margem daquela massa gelatinosa se contorcendo como um ser vivo, estendendo-se um centímetro em direção à sua luva de borracha. Apenas um centímetro, um movimento tão suave que quase parecia uma sondagem, antes de recuar, deixando na superfície da luva uma camada quase imperceptível de umidade com cheiro de amônia.
Ele não respondeu. A sensação de cacos de vidro na garganta se tornou mais nítida.
Shen Moqing parecia não precisar de uma resposta. Da escuridão veio um som de expiração extremamente leve, quase como um suspiro.
"Cuidado." Ele disse, cada palavra como algodão encharcado em óleo de motor velho, pesadamente pressionada no ar. "Algumas ferramentas... reconhecem seu dono."
A porta de ferro se abriu, as dobradiças enferrujadas emitindo um gemido agudo. A luz branca e pálida dos LEDs do corredor cortou como uma lâmina, projetando um mancha de luz ofuscante no chão. Minúsculas partículas de poeira flutuavam na mancha de luz.
A porta se fechou novamente.
O som da tranca caindo foi suave, um clique, mas no súbito silêncio restaurado, foi tão nítido quanto o estalo de uma vértebra sendo torcida.
O aroma de cedro gradualmente se dissipou, completamente substituído pelo cheiro de óleo de motor velho, ferrugem e aquele odor penetrante de amônia. A luz de emergência zumbia, sua luz azulada lançando sombras profundas e irregulares no rosto de Lu Chenzhou, e com a flutuação da corrente na lâmina, aquelas sombras também tremiam levemente.
Ele olhou para baixo, para o saco selado em suas mãos.
A borda de plástico pressionava a palma de sua mão, deixando uma marca clara e esbranquiçada. A massa gelatinosa dentro do saco ainda pulsava, lenta e ritmicamente, como se estivesse respirando. A luz fraca atravessava o saco, formando uma camada oleosa e perturbadora de reflexo em sua superfície.
Ou talvez, como se estivesse esperando.
***
Shen Moqing ficou de pé na borda da sombra projetada pela porta de ferro, sua bengala cravada no chão como uma bandeira fincada em uma fronteira. Ele estava ereto, mas Lu Chenzhou notou que os tendões no dorso de sua mão direita, que segurava o cabo da bengala, estavam mais salientes do que antes.
Ele não apressou. Apenas esperou.
O aroma de cedro no ar agora se tornou espesso e opressivo, misturado com o cheiro de óleo de motor velho e ferrugem, como uma membrana invisível colada às narinas. Lu Chenzhou olhou para a palma de sua própria mão. A borda de plástico do saco selado pressionava a pele, deixando uma marca pálida, e a pele ao redor da marca já começava a ficar vermelha. A massa dentro do saco mudava lentamente de contorno sob a luz fraca, suas margens às vezes borradas, às vezes afiadas, como um coração incompleto pulsando na escuridão.
Oito anos.
Memórias como lâminas enferrujadas arranhando seus nervos: o som monótono do monitor da irmã na mesa de cirurgia, cada bipe alongado; as pálpebras do advogado piscando rapidamente enquanto evitava seu olhar; aquela assinatura estranha na confissão — "Lu Chenzhou, admite todas as acusações". O som da ponta da caneta rasgando o papel, cada traço como ferro incandescente, gravado nas profundezas de sua retina, com cheiro de queimado.
E agora, essa massa viscosa das profundezas da escuridão, com cheiro de amônia, e um papel de notas com um nome e endereço, tornaram-se novos pesos na balança. O saco plástico selado escorregava levemente em sua palma suada.
"O projeto." Lu Chenzhou
"Você é cauteloso," ele disse, o tom impossível de distinguir se era de aprovação ou sarcasmo, mais parecendo uma declaração objetiva. "Isso é bom. No caminho que vem pela frente, a cautela será sua única amiga."
Ele fez uma pausa, a bengala batendo suavemente no chão.
*Toc.* Um som breve, como o ritmo de algum tipo de ritual.
"Mas devo lembrá-lo, oficial Lu." O olhar de Shen Moqing ficou afiado, como duas agulhas de aço polidas. "O que você está prestes a ver não é um arquivo comum. Os planos originais do sistema de drenagem subterrâneo da antiga fábrica têxtil... alguns dos caminhos marcados nele não existem nos registros oficiais. Algumas salas nunca foram aprovadas para construção. E algumas... anotações."
Ele deu meio passo à frente. O aroma de cedro pressionou contra Lu Chenzhou, misturado a um cheiro muito tênue, semelhante a papel velho e ervas contra insetos.
"Essas anotações usam uma senha de engenharia antiga. Um sistema de símbolos transmitido por especialistas soviéticos na década de 1960 e posteriormente aprimorado." A voz de Shen Moqing baixou, quase sussurrando, mas cada palavra era como um cinzel de gelo, perfurando o ar. "O mestre Du lhe ensinará as regras básicas. Mas quanto você conseguirá entender dependerá da sua... perspicácia."
A respiração de Lu Chenzhou se tornou mais pesada. Ele conseguia sentir seu peito subindo e descendo lentamente, cada inalação trazendo a mistura acre de óleo e amônia, irritando sua traqueia.
Ele entendeu a mensagem subjacente: os próprios planos eram uma armadilha e também um teste. Se não conseguisse entendê-los, mereceria morrer lá dentro. Se os entendesse, teria o direito de continuar neste jogo. O preço era tornar-se parte dele.
"Por que eu?" ele perguntou.
Era uma pergunta idiota. Ele sabia. Mas precisava ouvir o motivo sair da boca do outro — aquele motivo que ia além do "parafuso adequado", aquele critério frio e preciso que o havia pescado dentre inúmeras possíveis escolhas.
Shen Moqing ficou em silêncio por alguns segundos.
Na sala de equipamentos, apenas o zumbido de baixa frequência da luz de emergência persistia, como uma abelha presa em uma casca de ferro. Nas profundezas distantes dos canos, o som de algo viscoso rastejando ficou um pouco mais alto, muito suave, mas constante, carregando uma qualidade úmida e arrepiante.
"Porque," Shen Moqing finalmente falou, cada palavra dita lentamente, como se pesasse seu significado, "você já o viu."
Ele ergueu a mão, o dedo indicador apontando para o saco selado nas mãos de Lu Chenzhou. Os dedos eram longos, as unhas aparadas de maneira limpa e ordenada.
"Você não apenas o viu, como sobreviveu ao seu lado. Você trouxe uma amostra dele, está aqui, respirando de forma estável, as pupilas não estão dilatadas." O tom de Shen Moqing revelava um fio de frieza quase científica, um observador despojado de toda emoção, restando apenas medição e registro. "A maioria das pessoas, ao ter o primeiro contato próximo com essa 'coisa', sofre danos mentais irreversíveis. Alucinações, delírios, tendências à automutilação. Mas você... você apenas teve alguns espasmos no canto esquerdo do olho."
Ele fez uma pausa, seu olhar dissecando o rosto de Lu Chenzhou como um bisturi, como se quisesse examinar diretamente os circuitos nervosos sob a pele e os ossos.
"Sua constituição neural, ou sua força de vontade — seja o que for — fez de você um 'receptor tolerante' raro. E nós precisamos de um receptor tolerante para nos aproximarmos da fonte, para descobrirmos... no que ela se transformou ao longo desses anos."
Lu Chenzhou sentiu um calafrio subir por sua coluna. Não era um tremor de medo, mas uma percepção fria mais próxima do absurdo, como se um balde de água gelada tivesse sido derramado sobre sua cabeça, escorrendo pelos sulcos de sua espinha. Ele havia se tornado uma cobaia. Um rato de laboratório escolhido por "não enlouquecer facilmente". O critério era simples, cruel e irrefutável.
"E se eu enlouquecer na fonte?" ele perguntou, a voz ainda estável, mas o pomo de adão se
"Ele pegou uma lista", disse ele, a voz tão baixa que quase não se ouvia, misturada ao zumbido da luz de emergência, como se viesse de muito longe. "Uma lista de todas as pessoas que participaram do 'Projeto de Processamento em Ambientes Especiais' dos anos 60 aos 80. Incluindo seus nomes reais, codinomes e... destino final."
O sangue de Lu Chenzhou pareceu congelar por um instante. Em seus tímpanos, o som ampliado das batidas de seu coração se sobrepunha novamente ao gotejar distante da água.
"Destino final?" Ele repetiu, cada palavra parecia ter sido arrancada do solo congelado.
Shen Moqing não respondeu. Ele apenas olhou para Lu Chenzhou, sua expressão complexa e indecifrável – havia um aviso, um fardo pesado e quase esmagador, talvez até um traço muito tênue de remorso, que nem ele mesmo havia percebido, como uma sombra que passa rapidamente no fundo de um lago profundo.
O cheiro de óleo no ar parecia mais forte agora, misturado ao odor penetrante de amônia, irritando os olhos.
O gotejar da água nos canos distantes, *ploc*, *ploc*, *ploc*, seu ritmo constante como o pêndulo de um relógio de contagem regressiva, batendo contra a estrutura silenciosa.
"Aquela lista", Shen Moqing finalmente continuou, seu pomo de adão se movendo, o ato de engolir parecendo difícil, "deveria ter virado cinzas no incinerador número três. Mas não virou. Alguém a trocou, colocou uma lista falsa em seu lugar. A lista verdadeira vazou, e acabou nas mãos dessa pessoa."
Ele fez uma pausa, seus dedos esfregando inconscientemente a cabeça prateada da bengala, a superfície do metal já impregnada pelo calor de sua pele.
"Ele não só pegou, como começou a entrar em contato com aqueles na lista que... ainda estavam vivos. Perguntando sobre o que aconteceu naquela época, sobre o que estava realmente enterrado sob a antiga fábrica têxtil, sobre o que exatamente era aquele 'processamento em ambiente especial'." A voz de Shen Moqing ficou cada vez mais fria, como um ar gélido que emanava do subsolo. "Ele pensou que estava fazendo a coisa certa. Revelando a história, buscando justiça para as vítimas."
A bengala bateu no chão.
*Toc. Toc.* Duas vezes, com intervalos precisos, como um tipo de código Morse.
"Mas ele não sabia", Shen Moqing disse, cada palavra como um cinzel de gelo, lenta e firmemente cravada no ar, "que algumas histórias são enterradas não porque sejam injustas, mas porque... são perigosas demais. Tão perigosas que, uma vez desenterradas, a poeira que levantam sufocará a todos – incluindo aquelas 'vítimas' que ele pensava estar ajudando."
Lu Chenzhou entendeu.
Não era uma conspiração. Era uma quarentena. Era a reação mais primitiva e mais radical diante de uma "contaminação" que não podia ser tratada por leis, moralidade ou qualquer estrutura existente – isolar, encobrir, destruir se necessário. A lógica era gelada, eficiente e inquestionável.
E agora, ele era solicitado a ser aquele que executaria a "destruição".
Usando essa massa viscosa em suas mãos. Usando esse monstro gerado pelo "ambiente especial", que devorava ondas emocionais específicas. A ferramenta já estava em suas mãos, com seu cheiro de amônia e riscos desconhecidos.
"E se eu me recusar a executar?" Lu Chenzhou perguntou, sua voz áspera como uma parede de concreto cru. "E se eu olhar o projeto, encontrar a fonte e então... torná-la pública?"
Shen Moqing o encarou. Seu olhar era como o de alguém examinando uma criança ingênua tentando acender um iceberg com um fósforo, com um toque de quase piedade.
"Você pode tentar", ele disse, seu tom plano como se estivesse discutindo a probabilidade de chuva amanhã. "Mas primeiro, você precisa conseguir sair vivo da fonte. Segundo, precisa encontrar alguma evidência que possa ser compreendida pelo 'público'. E por último..."
Ele se inclinou para frente. O aroma de cedro, papel velho e ervas contra insetos quase afogou Lu Chenzhou, como um sudário invisível.
"Por último, você precisa garantir que sua irmã, Lu Chenxing, não se torne uma vegetativa devido a um 'acidente de trânsito' antes que ela veja sua suposta 'verdade'." A voz de Shen Moqing era suave como um sussurro, seu sopro quase tocando a orelha de Lu Chenzhou, mas cada palavra era uma
“Prazo.” Ele falou, a voz seca como lixa raspando em ferro. “Quanto tempo você me dá?”
“A partir do momento em que você receber os planos.” Shen Moqing se endireitou, retomando aquela postura descontraída, quase rígida, apenas os nós dos dedos segurando o cabo da bengala ficando levemente pálidos. “Setenta e duas horas. Encontre a fonte, descubra sua condição atual e então… guie-a para onde deve ir.”
Setenta e duas horas.
Três dias. Para decifrar um conjunto de senhas de engenharia antigas, infiltrar-se em um labirinto que não existe nos registros oficiais, enfrentar uma massa de vida desconhecida que pode ter mutado por vinte anos e, por fim, usá-la para matar uma pessoa. Uma pessoa cujo nome estava escrito em um papel de rascunho, julgada pela “Máquina” como necessitando de “limpeza”.
Lu Chenzhou quase quis rir. Os músculos do canto da boca se contorceram, mas no final não formaram um sorriso, deixando apenas uma linha fria e distorcida.
Mas ele não conseguia rir. A