Capítulo 81: O Azulejo Profético
A ponta dos dedos de Lu Chenzhou pressionou o leitor, deixando uma marca branca na borda.
A luz azul da tela estabilizou-se, iluminando a poeira acumulada no canto da área de arquivos. O título era como um cinzel de gelo, cravando-se em sua retina: "Projeto 'Andorinha' - Simulação de Viabilidade e Riscos (Rascunho Inicial) — Lu Chenzhou". A data era de três meses antes de sua prisão.
Seus dedos deslizaram, o documento rolando rapidamente. Diagramas de simulação da cena, linhas do tempo, perfis psicológicos... Cada detalhe do assassinato de Shen Yan encontrava correspondência neste relatório de sete anos atrás. Não era coincidência. Era um plano. O modelo de "crime perfeito" que ele concebera na época, transposto palavra por palavra para a realidade.
Um impacto abafado veio de fora da comporta. *Bang*. Os homens de Gu Zhixing usavam um aríete. A vibração percorreu a moldura de liga metálica, fazendo a poeira cair em fios finos, manchando o sangue ainda fresco em sua têmpora. O ar cheirava a ozônio e ao mofo de papel velho.
Ele fechou os olhos, respirou fundo. A ferida sob as costelas latejava.
"Você sempre foi meu aluno mais brilhante."
A voz veio do fundo da área de arquivos, suave, clara, com uma descontração própria de uma conversa em uma biblioteca. Acima do console principal, um projetor holográfico ligou-se silenciosamente. Partículas de luz azuladas e brancas coalesceram, tecendo-se no ar, delineando a figura de alguém vestindo roupas caseiras escuras. Shen Yanqing estava de costas, diante de uma estante virtual, como se tivesse apenas passado por acaso. As bordas da imagem cintilavam levemente, emitindo um zumbido agudo, quase inaudível.
Sua imagem holográfica virou o rosto, o olhar pousando no leitor nas mãos de Lu Chenzhou, um sorriso quase satisfeito nos lábios. "Seu pensamento me forneceu o plano perfeito."
Lu Chenzhou não se moveu. Apertou o leitor, a carcaça de metal pressionando a ferida em sua palma.
"Esta simulação..." ele começou, a voz áspera como lixa. "Eu a submeti ao seminário interno na época, como um estudo de caso extremo de prevenção ao crime. Deveria ter sido arquivada, lacrada, ou simplesmente destruída."
"E daí?" Shen Yanqing inclinou levemente a cabeça, o anel de jade em seu polegar brilhando com um verde suave na luz virtual. "A ferramenta em si não tem bem nem mal. Uma faca pode cortar legumes ou matar. Sua simulação... era precisa demais, tão precisa que era um desperdício não usá-la."
"Não." Shen Yanqing balançou a cabeça, a imagem ondulando levemente com o movimento. "Eu apenas a 'consultei'. Os verdadeiros executores, aqueles que lidaram com os detalhes... eles, como você, eram apenas engrenagens movidas por seus próprios desejos."
Ele deu um passo à frente. A imagem holográfica atravessou as estantes de arquivo, "parando" sem obstáculos a três passos de Lu Chenzhou. Olhos virtuais fitaram olhos reais.
"Durante estes sete dias, você rastreou vestígios da cena, traçou o perfil psicológico do assassino, reconstruiu o processo do crime." O tom de Shen Yanqing era plano, como se estivesse declarando um teorema já verificado. "Cada passo de seu raciocínio, cada avanço, inconscientemente validava a precisão deste plano. Lu Chenzhou, diga-me—"
Ele fez uma pausa, as pupilas virtuais refletindo a luz fria da tela.
"Você está caçando um assassino, ou está completando a 'obra' que deixou inacabada naquela época?"
A ferida sob as costelas ardeu subitamente. Ele se lembrou da estranha sensação de familiaridade ao entrar na cena da morte de Shen Yan. Lembrou do melhor caminho que surgiu automaticamente em sua mente ao analisar a estrutura do local. Lembrou daquela "ressonância" quase intuitiva ao traçar o perfil do assassino. Todos aqueles momentos que atribuíra à sua perícia profissional agora se tingiam de outra cor.
O impacto do aríete ficou mais forte. A comporta emitiu um gemido metálico de agonia. A poeira caía como neve sobre seus ombros, penetrando nas fendas da tela do leitor.
Ele baixou os olhos, lendo a conclusão do perfil que
A carcaça de metal caiu com um "clique" no chão empoeirado, sua luz azul iluminando uma mancha úmida de mofo ao pé da prateleira. Ele se encostou no arquivo e deslizou lentamente até o chão, a parte de trás da cabeça apoiada na fria divisória metálica.
A ferida colidiu com a borda, a dor aguda lhe arrancou um gemido abafado.
O primeiro ataque de Shen Yanqing havia atingido com precisão o alicerce cognitivo sobre o qual ele se apoiava. Ele não estava lutando contra um assassino externo, mas contra um fantasma que já havia sido plantado em sua própria mente. O processo de perseguir o culpado tornara-se um ritual de reaparição desse fantasma.
A imagem holográfica o observava em silêncio, aguardando uma resposta.
"A lei, a moralidade, a justiça... todas essas são máscaras frágeis."
A voz de Shen Yanqing ecoou pela área de arquivos, cada palavra como um prego preciso. A imagem holográfica inclinou-se levemente para frente, como se quisesse atravessar a fronteira virtual e examinar diretamente a alma de Lu Chenzhou.
"Eu coloquei a máscara e estabeleci a ordem que permitiu que inúmeras pessoas vivessem em paz e trabalhem." Ele fez uma pausa, o anel de jade no polegar esquerdo girando lentamente sob a luz azul. "Escolas, hospitais, estradas, água, eletricidade... cada sopro de ar que você respira, cada rua que você percorre, tudo funciona dentro dessa ordem."
A ferida sob as costelas latejava, cada inspiração era como uma faca cega raspando. Ele fechou os olhos, os cílios projetando sombras fragmentadas sobre o rosto coberto de poeira e crostas de sangue. Em sua mente, as palavras do relatório de dedução ainda ardiam — "Projeto 'Andorinha': Viabilidade e Análise de Riscos". Sua própria caligrafia. Sua própria lógica. Seu próprio... projeto.
"E você," a voz de Shen Yanqing baixou, carregada de uma gentileza quase lamentosa. "Você quer rasgar a máscara. Mesmo que a ordem desmorone, mesmo que esta cidade volte a ser uma selva, mesmo que aqueles 'pessoas comuns' que você tanto fala em proteger sejam os primeiros a serem pisoteados até a morte — é essa a justiça que você quer?"
No breve silêncio, Lu Chenzhou ouviu o som do próprio batimento cardíaco. *Tum. Tum. Tum.* Como uma fera presa em uma gaiola de ferro, batendo inutilmente contra as próprias costelas.
Os batimentos ficaram mais fortes. O guincho agudo de metal se deformando se misturava aos baques surdos, poeira caindo das juntas do teto. Gu Zhixing estava acelerando. O tempo estava se esgotando.
"Você e eu," disse Shen Yanqing, sua voz trazendo pela primeira vez uma pergunta explícita. "Quem é mais hipócrita? Quem é mais cruel? Quem está realmente protegendo algo?"
As unhas cravaram-se na ferida antiga, a dor subiu pelos nervos como um fio gelado, puxando com dificuldade sua consciência que quase se dissipava. Ele tentou pensar. Seu cérebro era como uma engrenagem mergulhada em água gelada, cada rotação lenta e pesada. A lógica de Shen Yanqing era perfeita demais. Perfeita... como um relatório de dedução que ele mesmo escreveria.
Se despojasse as emoções, calculando apenas ganhos e perdas. Se convertesse vidas humanas em números, a dor em custos. Se "a maior felicidade para o maior número" pudesse realmente se tornar uma régua para medir quem deve viver e quem deve morrer —
Então, seus sete anos de prisão injusta, isso também seria um "custo" razoável?
As despesas da cirurgia de sua irmã, isso também seria um "sacrifício necessário"?
"A ordem precisa ser mantida," Shen Yanqing continuou, seu tom retomando aquela calma e estabilidade professoral. "Assim como um jardim precisa de poda. É preciso arrancar as ervas daninhas, eliminar as pragas. Algumas árvores crescem muito tortas, bloqueando a luz do sol, e também precisam ser cortadas. Você choraria por uma árvore? Ficaria com raiva de um punhado de ervas daninhas?"
Ele viu o rosto de Zhou Zhengping. O velho policial girava a velha caneca de esmalte no armazém escuro, a borda da caneca lascada em pequenos defeitos. Ele dissera "Jingyuan, algumas coisas, uma vez que você sabe, tem que carregá-las por toda a vida". Quando disse isso, seus olhos fit
A expressão de Shen Yanqing não mudou.
Mas Lu Chenzhou viu que a frequência com que ele friccionava o anel de polegar aumentou um pouco.
"Construído sobre meus sete anos de prisão injusta." Lu Chenzhou continuou, cada palavra saindo com dificuldade de sua garganta, carregada de um sabor metálico. "Construído sobre o silêncio e sacrifício de inúmeros 'Zhou Zhengping', 'Lao Wu', 'Qin Wangshu'. Desde seu nascimento, ele já supurava pus; você apenas usou mais cadáveres para cobrir o cheiro."
Shen Yanqing sorriu, um sorriso perfeito e arrepiante.
"O sacrifício é o preço da ordem. Shen Yan compreendeu isso, por isso escolheu o sacrifício." Ele fez uma pausa, os dedos virtuais batendo levemente em uma mesa inexistente. "Você não compreende, por isso sofre. Mas o sofrimento em si também é parte do processo de seleção da ordem — ele elimina aquelas... peças que não são suficientemente resistentes."
Lu Chenzhou fixou o olhar na curva nos cantos da boca da imagem holográfica. Era padrão demais. Padrão como se tivesse sido medida com uma régua. Mas, ao dizer "Shen Yan compreendeu", aquela curva teve um minúsculo, quase imperceptível — enrijecimento.
Seu coração deu um salto violento, como um homem se afogando agarrando-se de repente a um pedaço de madeira flutuante. A dor, o cansaço, a autodúvida ainda o dilaceravam, mas aquele pedaço de madeira havia aparecido. Uma fissura. A primeira fissura na lógica perfeita de Shen Yanqing.
"Ele não compreendeu." Lu Chenzhou disse, a voz ainda rouca, mas não mais trêmula.
A área do arquivo mergulhou em um breve silêncio. Apenas o zumbido da imagem holográfica e o som de batidas cada vez mais urgentes do lado de fora da comporta. Poeira assentava lentamente na luz azul.
"O pen drive," Shen Yanqing finalmente falou, o tom ainda calmo, mas a velocidade de friccionar o anel de polegar aumentou mais um pouco. "foi seu último... capricho."
Lu Chenzhou apoiou-se na estante de arquivos e levantou-se lentamente. A perna ferida tremia, mas ele se forçou a ficar em pé. A coluna pressionada contra o metal frio, o frio penetrando através do tecido, em vez disso, o deixou lúcido.
"É evidência." Ele disse. "Prova de que sua ordem nem mesmo seu herdeiro mais íntimo pode genuinamente aceitar. Ele preferiu esconder a verdade em um pen drive, entregá-la a um 'estranho', a deixá-la apodrecer no jardim que você tão cuidadosamente mantém."
"Shen Yan não 'compreendeu' sua teoria do sacrifício. Ele a temia. A detestava. Por isso deixou isto—" Lu Chenzhou chutou o leitor ao seu lado, a luz azul da tela oscilou. "—como vestígio de que ele resistiu. Mesmo que essa resistência tenha sido fraca como um suspiro, ela existiu."
A imagem holográfica de Shen Yanqing, pela primeira vez, apresentou uma pausa não projetada.
Foi uma pausa. Como se o programa de repente encontrasse um comando impossível de analisar, exigindo um ciclo de cálculo extra. Embora tenha sido apenas meio segundo, embora sua expressão ainda fosse perfeita, Lu Chenzhou viu — naquela casca perfeita de gelo, uma fissura se abriu.
Através daquela fissura, ele vislumbrou algo mais.
Não era raiva. Não era escárnio. Nem mesmo intenção de matar.
Um tipo de cansaço profundo e insondável, quase devorador. Como uma pessoa que carrega sozinha uma montanha por muito tempo, tanto tempo que já esqueceu como é largá-la, tanto tempo que até ela mesma começou a acreditar que a montanha era parte de seu corpo.
A filosofia de Shen Yanqing. A ordem de Shen Yanqing. O "jardim" que Shen Yanqing ergueu com inúmeros cadáveres e mentiras — sua falha mais fatal não era uma lacuna lógica, nem a falência moral.
Ela eliminava todas as conexões emocionais humanas, incluindo as dele. Ela simplificava o mundo em peças e engrenagens, e assim o próprio guardião também se tornava uma peça. Sem calor. Sem eco. Sem... a aparência que um ser humano deveria ter.
Era aquela máquina gelada finalmente começando a devorar seu próprio operador.
"Sua ordem," Lu Chenzhou disse, a voz baixa, mas como uma lâmina fina. "é
“Ele deixou isso.” Lu Chenzhou ergueu o pendrive prateado em sua mão, a luz fria da tela deslizando sobre a superfície metálica. “Ele deixou a chave para chegar aqui, deixou tudo que você tentou apagar. Sua ordem, nem mesmo seu herdeiro mais próximo consegue verdadeiramente aceitá-la. Ela é a verdadeira torre no ar.”
Apenas o som externo do aríete batendo contra o portão, “Boom! Boom!”, como o batimento cardíaco de alguma criatura gigante, ficando cada vez mais rápido, mais forte. Poeira caía das juntas do teto, caindo sobre os ombros de Lu Chenzhou, sobre aquelas pilhas de caixas de arquivo, tão altas quanto montanhas, registrando inúmeras vidas devoradas pela “ordem”.
O cheiro de mofo ficou mais forte. O odor de papel antigo em decomposição, misturado com o cheiro metálico de ferro resfriado, e um traço sutil, quase imperceptível, de poeira do mundo exterior infiltrando-se pela ventilação.
O anel de jade no polegar esquerdo de Shen Yanqing parou de ser esfregado, ficando imóvel na base do dedo. Aqueles olhos, observando Lu Chenzhou através da projeção, permaneciam calmos, mas algo em seu interior estava reavaliando. Recalculando.
“Interessante.” Shen Yanqing finalmente falou, seu tom recuperando aquela descontração gentil, quase casual, mas o ritmo da fala estava meio passo mais lento. “Você capturou aquele momento. Muito bem. Isso mostra que você realmente está ‘compreendendo’, e não apenas ‘resistindo’.”
Ele deu um passo à frente — uma ação simulada da imagem holográfica, fazendo sua figura parecer atravessar um canto da estante de arquivos, a luz azul projetando uma sombra vacilante na superfície metálica.
“Mas você ainda está errado.” Shen Yanqing continuou. “Shen Yan deixou o pendrive, não porque se opunha à ordem. Pelo contrário, era porque ele desejava muito se tornar um herdeiro qualificado da ordem. Ele viu as ‘imperfeições’ dentro da ordem, viu aqueles galhos que precisavam ser ‘podados’. Ele acreditava ter a habilidade, após a sucessão, de fazer essa máquina funcionar de forma mais… elegante, com menos daquilo que você chama de ‘feridas purulentas’.”
Ele fez uma pausa, seu olhar pousando sobre o pendrive na mão de Lu Chenzhou.
“Ele apenas superestimou sua própria capacidade, e subestimou a repercussão do próprio processo de ‘poda’. O que ele deixou não foi um manifesto de resistência, Lu Chenzhou, mas um… relatório de transição inacabado. Uma carta de apresentação, tentando me provar que ele tinha capacidade para lidar com os ‘problemas históricos remanescentes’.”
A respiração de Lu Chenzhou parou por um instante.
Não por causa das palavras de Shen Yanqing, mas pela cadeia lógica implícita nelas — se Shen Yan realmente estava investigando na posição de “herdeiro”, então quem era o alvo de sua investigação? O que eram os “problemas históricos remanescentes” que ele tentava “podar”?
A data do relatório de dedução no pendrive era três meses antes de sua prisão.
Um pensamento terrível subiu por sua coluna como água gelada.
“Você o usou.” Lu Chenzhou disse, a voz seca. “Você usou o desejo dele por uma ‘ordem perfeita’, guiou-o para investigar aqueles… ‘problemas’ que nem você podia tocar pessoalmente. Você deu a ele meu relatório de dedução, como um ‘modelo de referência’. Você o fez acreditar que estava limpando a casa para a família, pavimentando o caminho para a futura transição de poder.”
Ele fez uma pausa, respirou fundo, a poeira e o mofo no ar arranhando sua garganta.
“Mas na verdade, você estava usando as mãos dele para completar o que você não terminou naquele ano. Para testar a viabilidade daquele ‘plano’. Para… criar uma ‘amostra’ perfeita, que poderia ser usada para incriminar.”
Shen Yanqing sorriu.
Não aquele sorriso frio e programático, mas um verdadeiro sorriso carregado de um leve apreço, quase prazeroso.
“Veja,” ele disse, sua voz até mesmo contendo um calor quase imperceptível. “É por isso que digo que você foi meu aluno mais brilhante. Seu pensamento sempre consegue penetrar a superfície e tocar o cerne diretamente.”
Ele ergueu a mão, seus dedos virtuais tocando levemente o ar, como se folheasse um livro invisível.
“Mas você
“E você,” os olhos de Shen Yanqing se fixaram em Lu Chenzhou. “Você se recusa a admitir que é uma peça. Você sente raiva, você luta, você quer virar o tabuleiro. Acha que isso é buscar justiça?”
Ele balançou a cabeça, a imagem holográfica ondulando levemente com o movimento.
“Não. Você está apenas provando a existência deste tabuleiro, provando o poder das regras, de outra forma. Cada ‘resistência’ sua, cada ‘investigação’ sua, está replicando invisivelmente o caminho predeterminado pelo jogo. Quanto mais raiva você sente, quanto mais força você aplica, mais fundo você afunda no... padrão de comportamento que preparei para pessoas como você.”
As sombras no fundo das prateleiras de arquivos pareciam se mover lentamente conforme suas palavras.
Lu Chenzhou sentiu uma vertigem. Não por perda de sangue, nem por falta de oxigênio. Mas pela sensação de pressão lógica nas palavras de Shen Yanqing, tão precisa, quase verdadeira.
Se até a própria resistência é uma reação calculada...
Então o que é o “eu”? E o que é a “escolha”?
Instintivamente, ele procurou a caneta no bolso, mas encontrou apenas vazio. Seus dedos se agarraram ao ar inutilmente, depois se fecharam em punho. O canto esquerdo de seu olho começou a contrair-se incontrolavelmente, uma vez, depois outra.
“Então,” Lu Chenzhou forçou-se a falar, cada palavra parecia ser espremida entre seus dentes. “De acordo com sua lógica, minha melhor escolha agora é aceitar sua transação. Tornar-me o operador da sua ferramenta de ‘limpeza’. Porque esta também é uma das ‘opções’ que você predeterminou, o movimento que maximiza o ‘valor’ desta peça, que sou eu, neste jogo?”
Shen Yanqing não respondeu imediatamente.
Ele se virou — a imagem holográfica simulou o movimento com fluidez, de frente para a área mais profunda da seção de arquivos, aquela engolida pelas sombras, onde os arquivos mais confidenciais eram guardados. Suas costas pareciam um tanto solitárias, até com um traço de... cansaço?
“A transação é um caminho para você, Jingyuan,” a voz de Shen Yanqing veio de frente, parecendo um tanto etérea. “Um caminho que permite que você continue a existir como ‘pessoa’, e não como ‘problema’. Mas o caminho da vida nunca é apenas um.”
Ele virou levemente a cabeça, a luz azul delineando o contorno de metade de seu rosto.
“Você também pode escolher morrer aqui. Usar seu cadáver para se tornar mais um enigma insolúvel nesta pilha de arquivos. Ou...” Ele fez uma pausa, como se ponderando as palavras. “Você pode tentar compreender, ‘compreender’ verdadeiramente como esta máquina opera. Não como uma vítima esmagada por ela, nem como um destruidor brandindo uma chave inglesa tentando quebrá-la.”
“Mas como... um potencial mantenedor. Alguém que consegue ver todos os seus defeitos, mas ainda assim acredita que sua existência é necessária, e tem a capacidade de fazê-la funcionar... de uma forma um pouco menos dolorosa.”
Shen Yanqing se virou de volta, seu olhar recaindo sobre o rosto de Lu Chenzhou.
Os sons de impacto do lado de fora do portão pararam.
Em seguida, um novo som, mais agudo, de metal raspando — uma ferramenta de corte, um feixe de plasma de alta temperatura ou laser, tentando fundir o portão de liga metálica. Um odor fraco, de ozônio queimado, de metal aquecido a temperaturas extremamente altas, começou a pairar no ar.
Lu Chenzhou olhou para Shen Yanqing. Para este velho que, com o tom mais suave, proferia as palavras mais cruéis. Para esta “encarnação” que construiu uma ordem colossal, mas nem mesmo conseguiu obter a sinceridade do próprio filho.
De repente, ele entendeu de onde vinha aquele instante de rigidez de Shen Yanqing.
Era... dor. Uma dor que pertencia a um “pai”, encoberta pela lógica da ordem perfeita, mas ainda existente. Embora esta dor fosse tão fraca, tão breve, quase imediatamente devorada pela identidade de “patriarca” e pela filosofia da “encarnação da ordem”.
Assim como o pen drive deixado por Shen Yan era real. Assim como o filtro que Lao Wu enfiou em suas mãos era real. Assim como aquele chá excessivamente forte, amargo a ponto de fazê-lo franzir a testa, que Qin Wangshu lhe dera, era real.
Essas realidades sutis, imper
“Mas,” Lu Chenzhou mudou o rumo da conversa, seu olhar afiado como uma lâmina. “Sua ordem tem uma falha fatal.”
“Ela é construída sobre mentiras.” Lu Chenzhou disse, palavra por palavra. “Sobre a mentira de que a morte de Shen Yan foi um sacrifício ‘compreendido’. Sobre a mentira de que minha confissão naquela época foi ‘voluntária’. Sobre os cadáveres de incontáveis pessoas e coisas que foram apagadas, adulteradas, ‘limpas’.”
Ele deu um passo à frente, o pé pisando na poeira, emitindo um leve som de areia.
“Uma mentira precisa de mais mentiras para ser coberta. Cada ‘peça’ sacrificada deixa uma fissura invisível na engrenagem da máquina. O pendrive de Shen Yan foi a primeira. Meus sete anos foram a segunda. Zhou Zhengping, o Velho Wu, Qin Wangshu… cada um deles é uma fissura.”
O som do maçarico cortando o portão ficava cada vez mais agudo, o cheiro de queimado no ar mais intenso. Uma luz vermelha ofuscante penetrou pela fenda do portão, era o brilho do cortador de alta temperatura.
“Sua máquina,” disse Lu Chenzhou, sua voz ainda clara entre o sibilo do cortador. “Está começando a desintegrar-se por dentro. Não por causa de ataques externos, Shen Yanqing. É porque ela própria engoliu verdades demais que não consegue digerir.”
A imagem holográfica de Shen Yanqing permanecia parada. Partículas de luz azul-branca fluíam lentamente ao seu redor, como uma camada de gelo solidificado. A expressão em seu rosto desapareceu, restando apenas uma calma absoluta, desumana.
Então, ele sorriu.
Aquele sorriso não tinha nenhum calor, nenhuma emoção, nem mesmo qualquer traço de humanidade. Era como um indicador de ‘tudo normal’ que se acende após a autoverificação de um instrumento de precisão.
“Muito bem.” Shen Yanqing disse, a voz lisa como metal polido. “Então, vamos ver se sua ‘verdade’ é mais resistente, ou se minha ‘ordem’ é mais duradoura.”
A imagem holográfica começou a piscar, a desvanecer.
“O portão será cortado em quarenta e sete segundos. Gu Zhixing trouxe três esquadrões táticos, equipados com redes de captura não letais e armas de eletrochoque de alta voltagem. Suas ordens são capturá-lo vivo, mas se a resistência for muito intensa… o uso de força letal é autorizado.”
A imagem já estava quase transparente, apenas um contorno difuso e aqueles olhos ainda nítidos.
“A escolha ainda está em suas mãos, Jingyuan. Ser a próxima fissura a ser ‘limpa’, ou…”
A voz desapareceu completamente.
O projetor holográfico desligou, e a área de arquivos mergulhou na penumbra, apenas a tela do leitor e a luz vermelha do cortador penetrando pela fenda do portão forneciam a única fonte de iluminação. A poeira dançava loucamente na luz vermelha.
Lu Chenzhou permaneceu no lugar, ouvindo o som de metal derretendo cada vez mais próximo do lado de fora, sentindo o cheiro de queimado no ar ficando cada vez mais forte.
Ele baixou o olhar para o pendrive prateado em sua mão.
Então, ele o apertou com força na palma da mão, a borda de metal pressionando a ferida ainda não cicatrizada, a dor fresca o despertando completamente.
Ele se virou e caminhou em direção à área mais profunda da seção de arquivos, aquela que Shen Yanqing havia observado momentos antes, engolfada pelas sombras.
Seus passos eram firmes.
Atrás dele, o portão de liga metálica emitiu um último gemido de sobrecarga e se abriu com um estrondo.